segunda-feira, outubro 18, 2010

A heroína corrói a Rússia

A heroína corrói a Rússia


Marie Jégo


Mais mortífera que o terrorismo, mais destrutiva que o álcool, a heroína é o flagelo número um na Rússia, país de população instável, único Estado industrial onde a expectativa de vida caiu consideravelmente nesses últimos 30 anos (60 anos para os homens). Segundo o general Viktor Ivanov, chefe do serviço de combate às drogas, todo ano 30 mil pessoas morrem vítimas do consumo de heroína, ou seja, bem mais que o saldo de mortos (13.500) da guerra afegã-soviética (1979-1989).


Embora a produção mundial de ópio tenha caído (8.890 toneladas em 2007, 7.754 toneladas em 2009), a Rússia absorve 21% da heroína produzida no Afeganistão, ou seja, 70 toneladas por ano. Vladimir Putin nomeou um de seus mais fiéis aliados – Viktor Ivanov, ex-oficial da KGB, como ele – para chefiar o combate ao narcotráfico, em vão. Os serviços competentes apreendem somente 4% das cargas transportadas para a Rússia. Impotentes, os serviços de Ivanov se limitam a constatar que 2 milhões de jovens, com idade entre 18 e 39 anos, são consumidores regulares.


Essa “geração perdida”, principal vítima da contaminação pelo vírus da Aids, pode ser vista nas grandes cidades industriais dos Montes Urais, no coração do tráfego rodoviário, ferroviário e aéreo com a Ásia Central. A droga passa pela Rússia através da fronteira com o Cazaquistão, com 7.000 quilômetros de extensão, e difícil de ser controlada.


Na Ásia Central, a antiga rota da seda funciona sem parar. Os países pobres e minados pela instabilidade e pela corrupção, tais como o Tadjiquistão e o Quirguistão, são pontos de passagem obrigatórios. Osh, a grande cidade do sul do país, palco de violentos massacres anti-uzbeques em junho, está no centro do tráfico.


Um uzbeque originário de Batken (ao sul de Osh), preferindo manter-se anônimo, conta: “Desde o fim dos anos 1990, toda minha família vive do tráfico, uma verdadeira dinastia. Meus tios, meus irmãos, meus primos ganharam uma fortuna com o dinheiro da droga”. Em um país onde o salário médio não passa de 70 euros (R$ 163), o dinheiro da droga é uma tentação fácil. Comprado a US$ 1.500 no Afeganistão, o quilo da heroína atinge US$ 6 mil quando chega à fronteira do Cazaquistão, e US$ 50 mil em Moscou.


O Quirguistão, que em vinte anos foi palco de dois massacres étnicos (Uzgen em 1990, Osh e Jalal-Abad em 2010) e de duas revoluções (deposição do presidente Askar Akayev em 2005 e de Kurmanbek Bakiyev em abril de 2010), minado pela economia pálida e dependente de ajuda internacional, é um elo importante na rota da heroína. As cargas viajam da fronteira tadjique, ao sul, até Osh. De lá, duas vias são possíveis: para o Uzbequistão a oeste ou para o Cazaquistão ao norte. Para terminar na Rússia.


A divisão das tarefas se faz de acordo com as realidades étnicas do sul quirguiz: “Os uzbeques transportam, os quirguizes dirigem”, explica nosso interlocutor. Como em todo o espaço pós-soviético, as estruturas de segurança e os governadores de região estão envolvidos: “É impossível passar qualquer coisa sem o aval das autoridades locais, que recebem até 70% das transações”. Não é de se surpreender que o sul do país tenha visto a ascensão, nesses últimos anos, de barões locais prontos a desafiar o governo central.


Durante o mandato do presidente Bakiyev (2005-2010), originário do sul, o dinheiro da droga correu abundante. Em 2008, o presidente mandou fechar, sem maiores explicações, o serviço de combate ao narcotráfico do ministério do Interior. Em 2009, aboliu a Agência de Controle de Narcóticos. Ao mesmo tempo, criou um fundo de investimentos e de inovações, pouco preocupado em relação à natureza dos fundos investidos, colocando em sua direção seu filho Maxime. O presidente Bakiyev hoje vive exilado em Minsk, mas seus partidários ainda são muito poderosos. Dizem que seu irmão Janych, que dirigia os serviços de segurança, hoje passa a maior parte de seu tempo entre o sul quirguiz e o Tadjiquistão. Prova de que os pró-Bakiyev são fortes, seu partido Ata-Jourt venceu as legislativas do dia 10 de outubro. Esses “sulistas” agora são a principal força do novo Parlamento, ponta de lança do projeto de república parlamentar lançado pela nova presidente Roza Otunbayeva.


Talvez o parlamentarismo acalme a situação no cenário político quirguiz, mas não terá efeitos sobre o tráfico. “O maior problema é a corrupção”, acredita o analista russo Alexandre Zelitchenko, citado pelo jornal “Komsomolskaia Pravda” do dia 8 de outubro. Mesmo se o Tadjiquistão, o Quirguistão e o Cazaquistão começassem a controlar melhor suas fronteiras, a corrupção dos altos funcionários e dos policiais parece invencível na Ásia Central e na Rússia.


No dia 1º de julho de 2009, dois oficiais do “Narkokontrol” russo foram encontrados mortos por overdose nos recintos do centro de combate às drogas da região oeste de Moscou. A investigação se apressou em concluir uma “intoxicação alimentar”. Seria porque uma das vítimas, Konstantin Khrustalyov, era genro do general Korzhakov, veterano da KGB e ex-guarda costas de Boris Yeltsin? Não se contam mais os casos de cumplicidade entre traficantes e os serviços de segurança. O estranho nome dado ao serviço de combate ao narcotráfico talvez tenha algo a ver com isso: “Serviço Federal para Controle do Fluxo de Drogas”. Como se o problema não fosse impedir o tráfico, e sim controlá-lo!”


Tradução: Lana Lim



Notícia do Le Monde, republicada no UOL.


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terça-feira, julho 14, 2009

Bênção Divina

BÊNÇÃO DIVINA

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Padre da Igreja Ortodoxa Russa abençoa a Soyuz; espaçonave decola hoje de base no Cazaquistão para levar trio de astronautas à estação espacial internacional.

Publicado na Folha de São Paulo, de 27 de maio de 2009. Foto de Shamil Zhumatov, para a Reuters

É impressionante e curioso, um titã da tecnologia (tecnologia talvez meio obsoleta mas ainda muito funcional) recebe a bênção de um padre.


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sexta-feira, setembro 14, 2007

A Ignorância Nossa de Cada Dia

O jornal Correio do Povo noticia que um "serial killer" russo, possível assassino de mais de 60 pessoas, será submetido à júri popular em Moscou, e poderá pegar uma pena máxima de prisão perpétua, caso condenado.
Este blogueiro não sabia que a pena de morte havia sido abolida na Rússia.

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terça-feira, abril 24, 2007

Boris Yeltsin - 1931-2007

O UOL, e provavelmente muitos outros saites de notícias, informa a morte do ex-presidente da Rússia, Boris Yeltsin.
Que posso dizer sobre Yeltsin? Nas minhas lembranças, dos noticiários da televisão, ele foi o homem que enfrentou os tanques que a linha dura do então Partido Comunista da União Soviética tinham enviado para o centro de Moscou para tentar parar, e mesmo retroceder, as reformas que o então líder máximo da União Soviética, Mikhail Gorbachev vinha tentando implantar no país. As chamadas "Glasnost", ou reformas para implantar maior liberdade política, e "Perestroika", para tornar a economia mais eficiente.
Por conta da Glasnost, a Cortina de Ferro (aquele grupo de países a oeste da União Soviética, Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, que, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, começaram a ter regimes políticos semelhantes ao da União Soviética) começou a apresentar fissuras. A Hungria foi o primeiro país a abrir suas fronteiras para o ocidente, liberando a sua fronteira com a Áustria. Esta abertura de fronteiras da Hungria causou uma avalanche de migrantes da antiga Alemanha Oriental, que começaram a migrar para a então Alemanha Ocidental, via Hungria, o que, por fim, acabou causando a derrubada do "Muro da Vergonha", como era chamado um muro que separava as Alemanhas, bem como a cidade de Berlim, encravada em pleno território alemão oriental (hoje os novos muros da vergonha estão separando os Estados Unidos, do México, bem como Israel e Palestina).
Foi esta fuga em massa, bem como a aparente desagregação do poder do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) que disparou a tentativa de golpe da linha dura do partido. Com o líder Mikhail Gorbachev detido e isolado em algum lugar próximo ao Mar Negro, Yeltsin tomou a iniciativa da resistência, que acabou levando ao fracasso do golpe. Como era presidente eleito da Federação Russa, a maior nação das que formavam a União Soviética, Yeltsin logo destituiu Gorbachev de qualquer poder formal, e acabou produzindo a desintegração da União Soviética, que a princípio gerou a Comunidade de Estados Independentes, que acabou, por fim, levando à independência de diversos países: Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia (que se tornaria Belarus), Lituânia, Letônia, Estônia, os países do Cáucaso: Azerbaijão, Armênia, Geórgia, e os da Ásia Central, como Cazaquistão, Quirguistão, e outros. São muitos países para este blogueiro lembrar. Mas, de repente, todos os atlas geográficos ficaram obsoletos.
Assim como parou uma tentativa de golpe. Tempos depois, ele resistiria a outra tentativa de golpe de seu então vice-presidente.
E em 1994, ele teria que se ver com a primeira Guerra da Chechênia, em que o pequeno território no norte do Cáucaso, e sul da Rússia tentaria sua independência. A reação russa foi avassaladora, mas não muito efetiva, com destruição de cidades chechenas, e violação de direitos humanos, mas sem conseguir acabar com as tentativas de secessão.
Yeltsin também levou a Rússia de volta ao mais selvagem e caótico capitalismo, de maneira que a destruição do que havia de bem estar social na antiga União soviética levou milhões a ficar abaixo linha de pobreza. E a destruição dos mecanismos do capitalismo de estado soviético fez a economia russa diminuir em 50%.
Com o tempo, pareceu que Yeltsin começou mais e mais a se desinteressar pelos assuntos de estado, e se interessar mais e mais pela vodka, de forma que acabou renunciando à presidência da Rússia, e indicando Vladimir Putin para o seu lugar. Isso lá pela segunda metade dos anos 1990. Putin permanece como líder máximo da Rússia até hoje.
A notícia do UOL diz que Yeltsin sofria de insuficiência cardíaca crônica e progressiva.

A notícia no UOL:
http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2007/04/23/ult1859u132.jhtm






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