quinta-feira, abril 23, 2009

Wikipédia

Ensaio - Noam Cohen

A Wikipédia e a urbanidade

Em seus sete anos de existência, a Wikipédia tornou-se um dos dez principais sites globais. Ela tem muito menos visitantes que o Google, mas está próxima da Amazon e do eBay. Centenas de milhares de pessoas —algumas anônimas, algumas usando pseudônimos, outras que são quem dizem ser— se uniram até agora para colaborar.
Mas ultimamente os contribuintes da Wikipédia têm-se perguntado em voz alta se estão ficando sem assunto. Artigos óbvios, como "China" e "Moisés", foram reescritos centenas de vezes. Há mais de 2,8 milhões de artigos somente na versão em inglês da Wikipédia. Em março, a enciclopédia ganhou sua primeira memória séria, "The Wikipedia Revolution", por Andrew Lih, um dos primeiros wikipedianos, que escreve sobre como "um bando de desconhecidos criou a maior enciclopédia do mundo".
Mas essas preocupações parecem deslocadas —a Wikipédia não pode ser concluída, assim como a cidade de Nova York. Na verdade, com seus milhões de visitantes e centenas de milhares de voluntários, um número de artigos e línguas faladas sempre em expansão, a Wikipédia talvez seja a coisa mais próxima de uma metrópole on-line.
Como uma cidade, a Wikipédia é maior que a soma de suas partes; por exemplo, os encontros aleatórios lá são muitas vezes mais interessantes que os próprios artigos. A busca por informação parece um passeio por um quarteirão densamente construído de uma antiga capital. Os artigos da Wikipédia podem mandá-lo por caminhos improváveis. Há links que o dirigem para o mesmo artigo em outra língua, o que dá esclarecimentos sobre uma cultura. Passe algum tempo na Wikipédia alemã e você encontrará músicos de jazz com artigos mais longos do que os originais em inglês; há também áreas estranhas de profundo interesse, como "pecherei", a extração de resinas de árvores e as 15 ferramentas diferentes necessárias para esse trabalho.
Em segundo, no final da maioria dos artigos há categorias —bairros improvisados ou organizações cívicas, que dão unidade à enciclopédia virtual.
Até recentemente, a Wikipédia operava com um orçamento de menos de US$ 3 milhões por ano. Hoje ainda são apenas US$ 7 milhões, tudo em doações.
Em "The City in History" (A cidade na história), Lewis Mumford explica como as cidades passaram a existir: "Nos primeiros aglomerados ao redor de um túmulo ou de um símbolo pintado, uma grande pedra ou uma caverna sagrada, temos o início de uma série de instituições cívicas que vão do templo ao observatório astronômico, do teatro à universidade".
Na Wikipédia, um único artigo, por exemplo, sobre os atentados em Mumbai no ano passado, pode ter mais de mil colaboradores. Suas discussões sobre a melhor maneira de escrever o artigo podem ocupar páginas, todas conduzidas por um dos princípios fundamentais da Wikipédia: "Suponha a boa-fé".
A Wikipédia incentiva os colaboradores a imitar a civilidade básica, a confiança, a aceitação cultural e a auto-organização conhecidas de qualquer morador de uma cidade. Por que as pessoas não atacam umas às outras no caminho para casa? Por que elas fazem fila no banco? A polícia pode ser uma resposta óbvia. Mas isso não leva em conta o pacto entre moradores. Desde sua criação, as cidades tiveram de aceitar estranhos, e os habitantes aprendem a ser sutilmente acomodados.
A maravilha da Wikipédia —e das cidades— é que todo o intercâmbio e o estímulo espiritual não tornam a vida lá impossível. Ao contrário, são exatamente o que torna a vida possível.
Como as cidades, a Wikipédia também provoca profunda inquietação. Assim como o mundo teve muitos criacionistas, sociedades de abstinência e ruralistas, há uma classe profissional de céticos da Wikipédia. Eles também têm um comportamento seriamente depravado a denunciar: a Wikipédia constitui um mundo sem especialistas! Um mundo sem canais de notícias comerciais! Um mundo sem uma distinção entre o trivial e o profundo! Um mundo repleto de fatos, mas carente de julgamento!
Tudo isso é vestígio das acusações feitas contra as cidades: elas não produzem nada! Tudo o que fazem é fofoca! Elas não sabem o que é trabalho de verdade!
A discussão representa um verdadeiro choque de ideias. Fica claro pelo relato de Lih que, quase sempre que a Wikipédia encontrou obstáculos, e o projeto poderia ter decidido impor mais restrições sobre quem poderia editar o quê, ela preferiu não o fazer. Isso fez toda a diferença. O acerto dessas opções —pela Wikipédia e pelas cidades— é comprovado a cada vez que um estranho supera seus temores e decide fazer uma visita e passar algum tempo por lá.

Texto do The New York Times, na edição de 06/04/2009, da Folha de São Paulo.


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quinta-feira, agosto 21, 2008

Cérebros e a "terceira onda"

Os cérebros e a "terceira onda"

SANTANDER - Vem aí o que os especialistas chamam de "terceira onda" de migrações internacionais, na forma de competição por talentos de alto nível.
O aviso foi dado ontem por Ronald Skeldon, da Escola de Estudos Sociais e Culturais da Universidade britânica de Sussex, no seminário "Globalização, Migração Internacional e Desenvolvimento". É uma promoção do Clube de Madri, centro de estudos que reúne 69 ex-chefes de governo, hoje presidido pelo chileno Ricardo Lagos.
Se a previsão estiver correta, será mais uma onda de fuga de cérebros, tema que esteve em moda não faz tanto tempo assim. O Brasil muito provavelmente será vítima, na medida em que já está havendo uma diáspora formidável de brasileiros mesmo antes de aberta a temporada de caça.
Mas Skeldon discute a idéia de fuga de cérebros: segundo ele, dos latino-americanos (brasileiros incluídos, como é óbvio) que emigraram para os Estados Unidos, 55% receberam treinamento no país de destino. Ou seja, a maioria não fugiu propriamente, mas desenvolveu-se lá mesmo. É uma tese discutível, na medida em que não leva em conta o custo da educação de base feita no país de origem.
Reforça a idéia de uma onda de caça a talentos o fato de que a União Européia aprovou, embora ainda não tenha implementado, um Pacto Migratório, que prevê buscar médicos nos países emergentes ou pobres para devolvê-los depois de devidamente treinados e aperfeiçoados. Guillermo de la Dehesa (Centro para Pesquisa de Política Econômica, de Londres), autor de um livro lançado ontem sobre migrações, avisa que, quando voltam, os médicos não vão para as áreas em que são mais necessários.
O Brasil, que permitiu uma diáspora descontrolada, pode preparar-se para a nova onda. Agora, cérebros são mais importantes na tal economia do conhecimento.

Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo, de 19 de agosto de 2008.

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