terça-feira, julho 15, 2008

Palavras ao vento

Palavras ao vento

Ofício de traduzir influencia não só o sucesso da obra mas também a imagem de um país diante de ideologias locais

PETER BURKE
COLUNISTA DA FOLHA

Os problemas e perigos da tradução já foram discutidos muitas vezes, e não foi preciso esperar pelo encantador filme de Sofia Coppola de 2003 para nos darmos conta do que é "perdido na tradução" [Lost in Translation, lançado no Brasil como "Encontros e Desencontros"].
O filósofo espanhol José Ortega y Gasset [1883-1955] certa vez descreveu o projeto da tradução como sendo "utópico", e, na Alemanha, Johann Gottfried Herder já tratava do assunto no final do século 18.
Herder imaginou alguém tentando traduzir a obra do poeta francês setecentista Prosper de Crébillon para a língua dos lapões, e esse experimento mental o levou a indagar se algumas idéias ou mesmo textos não seriam "unübersetzbar" -"intraduzíveis".
Neste artigo -traduzido de minha versão inglesa original- eu gostaria de examinar esses problemas a partir de um ângulo particular: o das palavras intraduzíveis.
Muitas pessoas gostam de dizer que certas palavras de suas línguas maternas são intraduzíveis. Os franceses às vezes afirmam que "esprit" [espírito], "galanterie" [galanteria] e até mesmo "politesse" [polidez] não têm equivalente reais em outros idiomas.
Os ingleses não sabem ao certo se estrangeiros compreendem o que eles querem dizer quando falam num "sportsman" [esportista, pessoa com espírito esportivo] ou "gentleman" [gentil-homem, cavalheiro]. No caso do alemão, vêm à mente termos como "geist", suspenso no espaço lingüístico em algum lugar entre "espírito", "mente" e "cultura".
Em português, palavras como "saudade", "jeitinho", "malandro", "sacanagem" e "safadeza" criam problemas especiais para aqueles que gostariam de traduzi-las.

Saudade
Afirmações desse tipo não devem ser aceitas incondicionalmente. Em russo e em turco, assim como no português, um dos termos dos quais mais comumente se alega que é intraduzível -"saudade", "toska" ou "hüzun" (uma das palavras favoritas do escritor turco Orhan Pamuk)- significa algo como "nostalgia", "anseio" ou "melancolia".
Talvez seja mais exato dizer que determinadas palavras são especialmente difíceis traduzir para outras línguas.

Mestiço
A palavra "mestiço", por exemplo, não é fácil de traduzir ao inglês, pois aparentes equivalentes como "half-breed" ou "half-caste" soam pejorativos -resíduos lingüísticos de preconceitos antigos. Mesmo assim, essas afirmações sobre intraduzibilidade têm, sim, algo de importante a nos revelar sobre os valores das diferentes culturas em que são feitas.
Foi por essa razão que a escritora russa expatriada Svetlana Boym pediu recentemente um "Dicionário de Intraduzíveis", enquanto o narrador de "Shame" [Vergonha, 1983], romance do anglo-indiano Salman Rushdie, que passou sua vida na fronteira entre culturas e línguas, observa que, "para decifrar uma sociedade, observe suas palavras intraduzíveis".
Entre essas palavras, aprende o leitor, está "sharam", um termo em urdu que, segundo nos é dito, não é adequadamente traduzido por "vergonha".
Para serem compreendidas por estrangeiros, palavras desse tipo requerem uma tradução não apenas lingüística, mas também aquilo que hoje é conhecido como "tradução cultural".
O sociólogo húngaro Karl Mannheim [1893-1947], que, como Rushdie, viveu na fronteira entre culturas e línguas -depois de refugiar-se na Grã-Bretanha na década de 1930 e tornar-se professor na London School of Economics-, queixou-se certa vez da "urgente necessidade e grande dificuldade de traduzir uma cultura em termos de outra".

Domesticação
Essa metáfora foi adotada por antropólogos e outros acadêmicos interessados no estudo dos encontros culturais. Hoje, "tradução" exprime o que os escritores oitocentistas queriam dizer quando escreviam sobre "ocidentalizar" ou "anglicizar" ou Gilberto Freyre, quando falava em "abrasileirar" ou "tropicalizar".
Poderíamos falar igualmente bem em "domesticar", mas a metáfora da tradução possui a vantagem de nos lembrar da importância da língua nos encontros e nos intercâmbios culturais. Tome-se o caso, bastante comum nos últimos dois séculos da história mundial, de uma cultura em que alguns indivíduos que exercem liderança desejam seguir modelos estrangeiros.
Foi o caso, por exemplo, no Japão após 1868, quando a restauração do poder do imperador, que durante muito tempo fora mera figura representativa, estava vinculada ao desejo da elite política de modernizar o país, adotando modelos estrangeiros.
Uma parte da elite esperava por uma monarquia constitucional ao estilo britânico, enquanto outras desejavam um sistema mais autoritário.
Foi nessa época, em 1871, que o ensaio do filósofo inglês John Stuart Mill "Sobre a Liberdade" (1859) foi traduzido ao japonês.
A tradução foi feita por Nakamura Keiu, um estudioso confuciano empregado pelo governo que se convertera ao cristianismo e era um intelectual japonês destacado da época.
Nakamura visitara a Inglaterra em 1866 e ficara impressionado pelo fato de que, em suas palavras, uma nação pequena governada por uma mulher tinha sido capaz de derrotar o antes poderoso império chinês. Ele endereçou um memorial ao imperador, "Sobre a Imitação dos Ocidentais", e traduziu "Self-Help" (Auto-Ajuda), um manual para o sucesso escrito por outro inglês vitoriano, Samuel Smiles.
As conseqüências que se seguiram à publicação da tradução de Nakamura ilustram com clareza especial o problema do que Roberto Schwarz, famosamente, já descreveu como "idéias fora do lugar". Um dos problemas mais sérios para o tradutor do ensaio de Mills era a ausência, no japonês, de um termo equivalente ao inglês "liberty" (liberdade).
Algumas pessoas usavam a palavra inglesa, pronunciando-a "riberuchi", ou optavam por "freedom", que pronunciavam "furidomi".
Mas o tradutor optou pelo termo japonês tradicional "jiyu". A decisão de Nakamura teve a vantagem de fazer o conceito inglês parecer menos exótico, mais fácil de assimilar. Seu livro popularizou-se rapidamente, vendendo milhares de cópias.

Formação de elite
O preço da decisão tomada por Nakamura Keiu foi que os leitores de sua tradução provavelmente entenderam "jiyu" em termos de suas associações tradicionais negativas, por exemplo com voluntariosidade e também com egoísmo.
O resultado lingüístico do debate em torno da tradução da palavra "liberty" pode ter afetado o resultado político do debate sobre a nova Constituição japonesa, algo que encorajou a elite em sua opção coletiva por uma forma de monarquia menos autoritária.
Uma moral dessa história é que os tradutores carregam uma responsabilidade pesada, pois suas escolhas em termos de palavras podem ter conseqüências sérias.
Mesmo assim, o ônus não cabe unicamente a eles. O estudo dos intercâmbios culturais e da tradução cultural sugere que, quanto maior a distância entre duas culturas e, especialmente, entre seus valores fundamentais, mais difícil se torna a tarefa do tradutor.
Além de certo ponto, traduzir se converte em "Missão Impossível".


PETER BURKE é historiador inglês, autor de "O Que É História Cultural?" (ed. Zahar). Escreve na seção "Autores", do Mais!.
Tradução de Clara Allain.

Publicado no caderno Mais! da Folha de São Paulo, de 13 de julho de 2008.

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terça-feira, maio 06, 2008

Vantagens de um monoglota

Vantagens de um monoglota

ROBERTO MUYLAERT

Por ser monoglota, o presidente Lula está sempre à vontade, em qualquer entrevista que enfrente, nos diversos países que visita

EXISTEM PALAVRAS corriqueiras em francês que ajudam a definir o status internacional de um brasileiro, mesmo que ele não domine o idioma gaulês. Em certas camadas sociais são bem conhecidas, e quase obrigatórias, expressões como "noblesse oblige", "à propos", "faute de mieux". E não é que noutro dia o presidente Lula soltou um garboso "en passant"? Seguido por um comentário dele mesmo: "Nada mal para quem há algum tempo dizia "menas gente'".
Enquanto nos regozijamos com o seu vocabulário internacional enriquecido, devemos lembrá-lo, sem ironia, de que uma das vantagens que ele leva como presidente do Brasil é o fato de ser um monoglota convicto, que ganhou o mundo sem se preocupar em falar outro idioma. E sem complexo de inferioridade por não ser poliglota, característica que comunga com os norte-americanos.
Nesse quesito, eles são insuperáveis. Conheci um dirigente de filial de uma multinacional americana situada no Brasil que, depois de cinco anos vivendo por aqui, continuava fazendo seus discursos em inglês. O divertido é que ele fazia questão de terminar a fala com um sonoro "obrigado", pronunciado com certa dificuldade, após o que abria o sorriso da vitória, como a dizer: "Não passei incólume pelo idioma do país que me acolheu tão bem nos últimos cinco anos".
É sábio o protocolo que manda cada presidente se expressar em sua própria língua, condição de igualdade garantida pelos intérpretes, para a comunicação entre líderes de países soberanos.
Das cordas vocais de Lula saem, mundo afora, vocábulos pronunciados na nossa língua portuguesa, para que as altas patentes de governos estrangeiros comecem a se acostumar, desde já, com o som do idioma de um país que, segundo "The Economist", poderá ser uma superpotência de petróleo, assim como é gigante agrícola.
Por falar em poliglota, não há nada mais extenuante para quem tem bom domínio de um idioma estrangeiro do que entrar numa longa reunião de alto nível, no exterior, com grandes interesses em jogo, tendo de desenvolver um raciocínio complexo em outra língua, com o esforço adicional e simultâneo de encontrar as palavras exatas, no momento certo, para expor suas idéias. Em tal situação, a inteligência aparente do indivíduo baixa de 20% a 30% em relação a quem debate em seu próprio idioma.
Nesse quesito, os brasileiros são campeões do servilismo idiomático, estando sempre prontos a tentar falar a língua alheia, mesmo sem conhecê-la direito. Já vi um brasileiro na Disney (EUA) mostrando erudição à moça que recolhia seus ingressos: "Parla espanhol?".
Eu mesmo me flagrei, quando estive na China, tentando dialogar com um habitante local, amável monoglota lá da língua deles. Ele sorria e me oferecia chá o tempo todo. Colonizado, tentei me entender com ele em inglês, que se mostrou tão ineficaz, como instrumento de comunicação, como se eu tivesse usado a minha própria língua em primeiro lugar.
Tenho um tio que implica com quem conhece muitos idiomas, segundo ele, cultura de "porteiro de hotel". O que ele prestigia é o português bem falado, indignando-se com a desnecessária e deselegante sucessão de gerúndios com que somos contemplados diariamente. Em especial nos serviços de telemarketing e no atendimento das companhias telefônicas e de TV por assinatura.
Situa-se ali o ninho da serpente dos gerúndios inúteis, pronunciados pelas "gerundivas", funcionárias que atendem ao telefone dessas empresas. Durante a infindável espera para ser atendido, uma gravação assegura que "sua ligação é muito importante para nós", "malgré tout".
Brasileiro achava que falava castelhano, até acontecer aquele discurso pronunciado na língua de Cervantes, num país hispânico, em insólita prosódia com sotaque maranhense, pelo então presidente Sarney, para estupefação de hispânicos e lusófonos. Por ser monoglota, o presidente Lula está sempre à vontade, em qualquer entrevista que enfrente, nos diversos países que visita. Fernando Henrique Cardoso, embora nascido "la bas", como eles dizem, brilhou na Assembléia Nacional Francesa falando no idioma pátrio deles. Mas, durante o solene discurso, deve ter ficado com as mãos frias.
E não se diga que há compatriotas que falam tão bem a língua dos outros que podem debater no idioma deles de igual para igual. Não é verdade: quem fala como eles pensa como eles.


ROBERTO MUYLAERT, 73, é jornalista, editor e escritor. Foi presidente da TV Cultura de São Paulo de 1986 a 1995 e ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (governo FHC).

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