terça-feira, setembro 01, 2009

O chique na berlinda - uma entrevista com Peter Singer

O chique na berlinda

Em entrevista à Folha, o filósofo australiano Peter Singer diz que o consumo de luxo aumenta a pobreza

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON


Peter Singer acha que as pessoas que gastam [dinheiro] com vinhos caros e viagens luxuosas em vez de ajudar crianças pobres são, de certa maneira, responsáveis pela morte destas.
É o que ele defende em seu livro mais recente, "The Life You Can Save" [A Vida Que Você Pode Salvar, Random House, 206 págs., US$ 22, R$ 47], um manifesto humanitário embasado nos preceitos da bioética.
É a mais nova faceta do polêmico filósofo australiano de 62 anos, que ensina esse ramo da ética na Universidade Princeton, em Nova Jersey (EUA).
As outras são a do militante pelos direitos dos animais, posição defendida em outro livro, "Animal Liberation" [Libertação Animal, Random House, 1975], considerada a obra que iniciou a faceta radical desse movimento, e "Should the Baby Live? - The Problem of Handicapped Infants" (Deve o Bebê Viver? - O Problema das Crianças com Deficiências, Oxford Univesrity Press, 1985), em que defende a eutanásia.
Leia abaixo trechos da entrevista que concedeu à Folha por e-mail.

FOLHA - Segundo a Unicef, 27 mil crianças morrerão hoje. O que devemos fazer a respeito e não fazemos?
PETER SINGER
- Essas mortes são evitáveis. Elas são decorrência de situações que podem ser mudadas -ausência de água limpa, falta de postos médicos locais, ausência de redes contra a malária e assim por diante. Acima de tudo, acontecem por conta da extrema pobreza, e isso também pode ser mudado.
Nós deveríamos usar uma parte de nossa riqueza para ajudar a tirar as pessoas da armadilha da extrema pobreza. É errado gastarmos tanto com coisas supérfluas, enquanto outros não têm o suficiente para comer ou não têm condições de mandar suas crianças para a escola.

FOLHA - Ao mesmo tempo, 20 mil americanos perderão seus empregos hoje. O quão difícil é ser coerente em uma época de derretimento econômico?
SINGER
- O problema não é coerência, mas fazer com que as pessoas pensem outras enquanto estão preocupadas com os próprios interesses. Somos egoístas por natureza, e não espero que as pessoas se tornem altruístas se estão preocupadas em pagar o aluguel.

FOLHA - O sr. dá um terço de seus rendimentos à rede de assistência global Oxfam. É suficiente? Recomenda que outros façam o mesmo?
SINGER
- Eu não diria que é o suficiente; se eu fosse uma pessoa melhor, daria mais.
Ao mesmo tempo, porém, não seria preciso que ninguém desse tanto quanto eu dou se apenas as pessoas mais ricas doassem algo de suas rendas.
Então, em meu livro, recomendo uma porcentagem muito menor, começando por 1% da renda das pessoas. É possível ver a tabela completa no livro ou no site www.thelifeyoucansave.com, [onde você pode fazer sua doação também.

FOLHA - O sr. escreveu: "Quando nós gastamos nossa sobra de dinheiro em shows, sapatos da moda, jantares sofisticados, vinhos caros ou em viagens de férias para lugares distantes, estamos fazendo algo errado". Mas pode-se argumentar que, ao fazer isso, ajudamos a criar ou manter empregos, algo que hoje em dia é mais do que necessário. Como equilibrar esforço humanitário e capitalismo?
SINGER
- A maior parte do que gastamos no que você menciona vai para pessoas que já são ricas. Se o que você compra ajuda realmente os mais pobres -talvez por meio de um esquema de comércio justo-, tudo bem, não me oponho.
Mas é importante ajudar os pobres diretamente também, pois de outra maneira eles não podem se integrar à economia global. Os países mais pobres não têm a infraestrutura necessária para essa integração.

FOLHA - O sr. acha que uma das consequências da atual crise pode ser que as pessoas passem a ter uma vida mais frugal?
SINGER
- Seria bom em certo sentido, especialmente do ponto de vista do ambiente, do aquecimento global.
Mas duvido que aconteça. A crise vai passar, e em alguns anos voltaremos aos nossos hábitos antigos.

FOLHA - Do ponto de vista da bioética, qual é a diferença entre George W. Bush e Obama na Casa Branca?
SINGER
- Uma diferença enorme. Bush e seus capangas adotaram uma atitude arrogante em relação ao resto do mundo -os EUA são o chefe, disseram, não apenas mais um membro da comunidade internacional.
Obama tem uma atitude diferente, e isso é importante.
Igualmente importante, é claro, é sua recusa em torturar, seu plano de fechar [a prisão da base militar de] Guantánamo, sua disposição em apoiar organizações de planejamento familiar que também incluem aborto entre os meios de ajudar as mulheres a controlar sua fertilidade, sua aceitação de pesquisa usando células-tronco de embriões humanos e, acima de tudo, uma atitude positiva em relação à ciência.

FOLHA - Não há contradição entre o que defende em "Deve o Bebê Viver?" e "A Vida Que Você Pode Salvar"?
SINGER
- Nenhuma. Minha preocupação primária é a redução do sofrimento desnecessário.
Há uma enorme diferença entre tentar salvar a vida de crianças cujos pais querem que elas vivam e cujas vidas podem ser salvas com quantias modestas de dinheiro e manter vivas crianças extremamente incapacitadas, usando tecnologia médica moderna e caríssima, quando os pais acham que seria melhor para a criança e a família se o bebê não sobrevivesse.

FOLHA - A propósito de um de seus primeiros livros, "Libertação Animal", e a gripe suína, o sr. acha que há uma lição moral nessa quase pandemia?
SINGER
- Não creio. A razão moral para não colocar porcos nas "fábricas rurais" em que estão é que é uma vida horrível para os porcos, e não há necessidade de que os tratemos assim.
Talvez uma consequência secundária de colocar milhões de animais juntos em condições precárias é que eles cultivam novas doenças, que podem gerar pandemias globais.
Mas seja isso verdade ou não, o fato é que, para começar, não deveríamos estar tratando os animais dessa maneira.

Texto do caderno Mais! da Folha de São Paulo, de 10 de maio de 2009.

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segunda-feira, abril 27, 2009

Sociedade unha-de-fome

Sociedade unha-de-fome

Em "A Vida Que Você Pode Salvar", o filósofo Peter Singer diz que indivíduos deveriam fazer mais doações para tirar o mundo da pobreza

DWIGHT GARNER

Você é uma boa pessoa? Seria possível responder que tudo depende de como se define a palavra "boa". Em um mundo de demônios facilmente identificáveis -Osama bin Laden, Bernard Madoff etc.-, a maioria de nós sente que está basicamente do lado dos anjos.
Trabalhamos com afinco, pagamos nossas contas, tentamos criar bem os nossos filhos, fazemos trabalhos voluntários aqui e acolá e, em caso de dúvida, sempre seguimos as normas do bem. Por que então não nos darmos o benefício da dúvida?
O novo livro de Peter Singer sobre a pobreza no mundo, "The Life You Can Save" [A Vida Que Você Pode Salvar, Random House, 206 págs., US$ 22, R$ 49], está aqui para revelar que não somos as pessoas que pensamos ser, quase todos nós.
Em um planeta repleto de sofrimento tão evidente e tão generalizado, escreve, "há algo de profundamente distorcido em nossas visões amplamente aceitas quanto ao que significa viver uma vida de bondade".
Singer, professor de bioética na Universidade Princeton, fez sua carreira a partir do ato de causar desconforto nos outros.
Seu livro mais conhecido, "Libertação Animal", de 1975, está entre os textos fundadores do movimento contemporâneo de defesa dos direitos dos animais. Vem trabalhando com as ideias de seu mais recente livro pelo menos desde 1972, quando publicou o influente artigo "Famine, Affluence, and Morality" [Fome, Afluência e Moralidade].
Singer de forma nenhuma é o único pensador sério sobre a pobreza, mas com "A Vida Que Você Pode Salvar" se tornou instantaneamente o mais legível e o mais enfático entre eles.
O livro é em parte argumentação racional, em parte manifesto, em parte manual de instruções. É um volume que sugere que, diante do fato de que 18 milhões de pessoas morrem desnecessariamente a cada ano nos países em desenvolvimento, "há uma mácula moral em um mundo rico como o nosso".
Não estamos fazendo o suficiente para ajudar nossos irmãos humanos.

Além das intuições
Os seres humanos acreditam intuitivamente que devemos ajudar os outros em seus momentos de necessidade, escreve Singer, "no mínimo quando podemos vê-los e quando somos as únicas pessoas capazes de salvá-los". Mas precisamos ir além dessas intuições, declarou Singer.
E por isso, no começo de "A Vida Que Você Pode Salvar", propõe o seguinte argumento lógico, que citarei na íntegra: "Primeira premissa: sofrimento e morte causados por falta de comida, abrigo e cuidados médicos são males".
"Segunda premissa: se estiver em seu poder impedir que algo de mau aconteça, sem que seja necessário sacrificar nada de importância semelhante, é errado não fazê-lo."
"Terceira premissa: ao doar dinheiro a agências assistenciais, é possível prevenir sofrimento e morte por falta de comida, abrigo e cuidados médicos, sem sacrificar nada de igualmente importante."
"Conclusão: portanto, se você não doa dinheiro a organizações assistenciais, está agindo errado."
Há muitos contra-argumentos que se apresentam de imediato: a economia está em crise. Caridade começa em casa. Trabalho com afinco pelo meu dinheiro. Caridade cria dependência. Algumas organizações de caridade desperdiçam dinheiro demais com suas despesas administrativas.
Mas Singer rebate esses contra-argumentos de maneira convincente, e sua conclusão lógica é praticamente irrefutável. Ajudar os pobres do mundo trará "significado e propósito" às nossas vidas, ele sugere, por meio de ajustes financeiros que, em geral, "pouca diferença farão para o seu bem-estar".

Difícil de engolir
Em seu livro, Singer elogia muita gente que doa até 50% de sua renda anual. Quanto aos restantes de nós, ele propõe uma abordagem mais realista: "Cerca de 5% da renda anual para as pessoas em situação financeira confortável, e bastante mais para os muito ricos".
Alguns dos argumentos de Singer são difíceis de engolir.
"Filantropia para as artes e atividades culturais, em um mundo como este, é moralmente dúbio", ele declara.
O Metropolitan Museum of Art [em Nova York] adquiriu um quadro de Duccio [di Buoninsegna] por US$ 45 milhões em 2004, quantia que, diz Singer, pagaria por operações de catarata para 900 mil pessoas cegas ou quase cegas nos países em desenvolvimento.
Ele prossegue: "Se o museu estiver em chamas, alguém consideraria mais certo salvar o quadro do incêndio do que uma criança?"
O livro tem seus heróis e vilões. Entre os primeiros, temos Bill Gates e James Hong, que enriqueceu ao criar o site "Hot or Not", no qual os visitantes votam sobre a aparência dos demais usuários.
Hong doa 10% do dinheiro que ganha acima dos primeiros US$ 100 mil anuais e opera um segundo site no qual encoraja outras pessoas a assumir compromisso semelhante. Entre os vilões estão os bilionários do software Paul Allen e Larry Ellison. Singer reconhece que Ellison doou US$ 39 milhões em 2007, mas acrescenta que "ainda que Ellison não lucre mais um centavo, poderia doar US$ 39 milhões ao ano pelos próximos 600 anos e ainda reter US$ 1 bilhão para cuidar de sua velhice".
Mas ainda há tempo para Ellison. Como aponta Singer, se Warren Buffett tivesse doado o primeiro milhão que ganhou, não estaria em posição, agora, de doar US$ 31 bilhões.
Em um dos sites de Singer, thelifeyoucansave.com, ele solicita que as pessoas assumam o compromisso de doar dinheiro para combater a pobreza mundial segundo uma escala móvel que propõe (ele mesmo doa 25% de sua renda anual, escreve). Já obteve mais de 1.800 adesões.
"Tendemos a considerar que as pessoas merecem ser mais culpadas por seus atos do que por suas omissões", escreve Singer. Não é preciso concordar com tudo o que ele afirma para sentir que não há o que discutir: no que tange a viver uma vida dita "de bondade", as omissões morais hoje contam mais que nunca.


A íntegra deste texto saiu no "New York Times".

Tradução de Paulo Migliacci.

ONDE ENCOMENDAR
- Livros em inglês podem ser encomendados pelo site www.amazon.com

Este texto foi publicado no caderno Mais! da Folha de São Paulo, de 22 de março de 2009.

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