quarta-feira, outubro 27, 2010

A Questão do Aborto Revisitada

A questão do aborto, revisitada

O ABORTO regressou. Tudo por causa das eleições presidenciais, que trouxeram o tema para cima da mesa com seus cortejos de oportunismo e ignorância.
Concordo com Contardo Calligaris: não se discutem esses temas no calor demagógico de uma eleição.
Por outro lado, se não fosse a eleição, não seria possível ler o importante texto que o meu amigo Antonio Cícero escreveu nesta Folha sábado passado ("A questão do aborto", Ilustrada, 16/10).
Ponto prévio: sou contra a descriminalização do aborto, excetuando casos de perigo para a saúde física ou psíquica da mãe. Não por motivos religiosos, contrariamente ao que Cícero imagina, mas por motivos éticos e políticos, que apresentarei no final.
Dito isso, o texto de Cícero aborda o problema com inteligência e seriedade e merece ser discutido. Diz o poeta brasileiro que, no aborto, é preciso fazer uma distinção importante entre "estar vivo" e "ser um ser vivo", distinção inicialmente operada por Francis Kaplan no livro "O Embrião É um Ser Vivo?".
Para Cícero, um embrião (ou um feto) "está vivo", mas apenas porque depende de um "ser vivo" (a mãe, naturalmente). O embrião (ou o feto), sem o suporte vital, não pode ser considerado um "ser vivo" da mesma forma que o olho humano não o é: o olho humano "está vivo" porque vivo está o ser onde esse olho está alojado. Sem um corpo humano em que pulsa ainda a vida humana, o olho não passa de um órgão inútil e dispensável.
As consequências dessa argumentação de Cícero são óbvias: na questão do aborto, o "ser vivo" (a mãe, a portadora) tem o direito de suspender o que "está vivo" (o embrião, o feto).
Acontece que a argumentação de Cícero propositadamente exclui um pormenor fundamental: o que existe de "potencialidade" no embrião humano. Um olho é apenas um olho, não a promessa do que está para vir; um olho não transporta um tempo futuro e jamais será um organismo dotado de autonomia, desejos, racionalidade e tudo aquilo que reconhecemos como intrinsecamente humano. Um olho cumpre uma função no corpo onde está alojado.
Mas um embrião não tem a dimensão orgânica, estática e funcional de um olho. Cícero até pode ter razão quando nega ao embrião o estatuto pleno de "ser vivo", mas ele vai demasiado longe quando reduz um "ser vivo em potência" a um mero apêndice que "está vivo".
Para retomarmos o quadro dicotômico de Francis Kaplan, a divisão entre "ser vivo" e "estar vivo" não esgota a complexidade moral que um embrião representa. Direi mais: um embrião, pela sua potencialidade manifesta, situa-se a meio desses dois polos radicais.
E a autonomia da mãe? Não deve ser respeitada?
Pessoalmente e excetuando os casos de perigo para a saúde da mãe já citados, eu só poderia admitir a prevalência da autonomia se ela, suspendendo o suporte vital ao embrião, permitisse que ele continuasse por outros meios: naturais (no corpo de uma outra "mãe") ou até artificiais (sustentado por uma qualquer "máquina").
Trata-se, como é evidente, de uma hipótese fantasiosa e de uma impossibilidade prática. O que significa que a suspensão do suporte vital do embrião não representa apenas o fim de algo que "está vivo". Como explica Stephen Schwarz em livro que recomendo aos interessados na matéria ("The Moral Question of Abortion"; a questão moral do aborto), essa suspensão significa a morte de um "ser vivo" em potência; significa, em linguagem prosaica, o roubo de um futuro pela autonomia do presente.
É por isso que a minha posição sobre o aborto nada tem de religiosa. Primeiro, porque não atribuo ao embrião um estatuto pleno de "ser humano" e muito menos de "pessoa humana".
Mas, sobretudo, porque é a dimensão política (e ética) do aborto que me interessa: saber, em suma, qual deve ser a posição de uma sociedade politicamente organizada perante situações em que a cessação de vida pode ocorrer.
Creio que uma sociedade será tão mais civilizada quanto maior for a proteção jurídica concedida a esse "ser vivo em potência". Porque, como diria Henry Miller (1891-1980), escritor americano que está longe de ser um beato, "não conheço maior crime do que matar o que luta para nascer".

Texto de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo, de 19 de outubro de 2010.

Marcadores: , ,

quarta-feira, outubro 13, 2010

Questões de estado, questões privadas

Lobby cristão e casamento gay

EM MAIO PASSADO, durante uma visita ao santuário de Fátima, o papa Bento 16 declarou que o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão entre os mais "insidiosos e perigosos desafios ao bem comum".
Atualmente, quase todas as igrejas cristãs (curiosamente alinhadas com as posições do papa) negociam seu apoio aos candidatos à presidência cobrando posições contra a descriminalização do aborto e contra o casamento gay.
Em 2000, segundo o censo, havia, no Brasil, 125 milhões de católicos, 26 milhões de evangélicos e 12 milhões de sem religião. É lógico que os principais candidatos inventem jeitos de ficar, quanto mais possível, em cima do muro -tentando satisfazer o lobby cristão, mas sem alienar totalmente as simpatias de laicos, agnósticos e livres pensadores (minoritários, mas bastante presentes entre os formadores de opinião).
Adoraria que as campanhas eleitorais fossem mais corajosas, menos preocupadas em não contrariar quem pensa diferente do candidato. Adoraria também que soubéssemos votar sem exigir que nosso candidato pense exatamente como nós. Mas não é esse meu tema de hoje.
Voltemos à declaração do papa, que junta aborto e casamento gay numa mesma condenação e, claro, tenta pressionar os poderes públicos, mundo afora. Para ele, o que é pecado para a igreja deve ser também crime para o Estado.
No fundo, com poucas exceções, as igrejas almejam um Estado confessional, ou seja, querem que o Estado seja regido por leis conformes às normas da religião que elas professam. De novo, as igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado: o sonho escondido de qualquer Roma é Teerã ou a Cabul do Talibã.
Há práticas sexuais que você julga escandalosas? Está difícil reprimir sua própria conduta? Nenhum problema, a polícia dos costumes vigiará para que ninguém se dedique ao sexo oral, ao sexo anal ou a transar com camisinha.
Para se defender contra esse pesadelo (que, ele sim, é um "insidioso e perigoso desafio ao bem comum"), em princípio, o Estado laico evita conceber e promulgar leis só porque elas satisfariam os preceitos de uma confissão qualquer. As leis do Estado laico tentam valer por sua racionalidade própria, sem a ajuda de deus algum e de igreja alguma.
Por exemplo, é proibido roubar e matar, mas essa proibição não é justificada pelo fato de que essas condutas são estigmatizadas nas tábuas dos dez mandamentos bíblicos. Para proibir furtos e assassinatos, não é preciso recorrer a Deus, basta notar que esses atos limitam brutalmente a liberdade do outro (o assaltado ou o assassinado).
Agora, imaginemos que você se oponha ao casamento gay invocando a santidade do matrimônio. Se você acha que o casamento é um sacramento divino que só pode ser selado entre um homem e uma mulher, você tem sorte, pois vive numa democracia laica e sua liberdade é total: você poderá não se casar nunca com uma pessoa do mesmo sexo. Ou seja, você poderá manter quanto quiser a santidade e a sacramentalidade de SEU casamento.
Acha pouca coisa? Pense bem: você poderia ser cidadão de uma teocracia gay, na qual o Estado lhe imporia de casar com alguém do mesmo sexo.
Argumento bizarro? Nem tanto: quem ambiciona impor sua moral privada como legislação pública deveria sempre pensar seriamente na hipótese de a legislação pública ser moldada por uma outra moral privada, diferente da dele.
Parêntese: Se você acha que essa história de casamento gay é sem relevância, visto que a união estável já é permitida etc., leia "Histórias de Amor num País sem Lei. A Homoafetividade Vista pelos Tribunais - Casos Reais", de Sylvia Amaral (editora Scortecci).
PS. Sobre a dobradinha sugerida pela declaração do papa: talvez, para o pontífice, aborto e casamento gay sejam unidos na mesma condenação por serem ambos consequências da fraqueza da carne (que, obstinadamente, quer gozar sem se reproduzir).
Mas, numa perspectiva laica, a questão do aborto e de sua descriminalização não tem como ser resolvida pelas mesmas considerações que acabo de fazer para o casamento gay. Ou seja, não há como dizer: se você for contra, não faça, mas deixe abortar quem for a favor. Vou voltar ao assunto, apresentando alguns dilemas que talvez nos ajudem a pensar.

Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo, de 30/09/2010 . Destaque do blogueiro.

Curiosamente esta postura de moral privada a não ser respaldada pelo estado poderia validar arranjos de casamentos poligâmicos ou poliândricos. Que tal?


Marcadores: , , ,

quinta-feira, setembro 16, 2010

Aborto...

AS DISCUSSÕES sobre o aborto despertam o poeta que há em nós. Uma amiga disse-me hoje que era favorável ao aborto livre porque só existe vida, ser humano, "pessoa", quando existe um nome.
Entendo a metáfora: o feto converte-se em vida quando somos capazes de projetar uma identidade nele. Quando o feto deixa de ser feto e passa a ser, sei lá, Maria ou Manuel. Quando é, no fundo, desejado.
Em silêncio, ainda contemplei as vantagens de uma legislação que consagrasse essa espécie de "validade onomástica": os pais evitavam dar nome ao filho até os 12 ou 13 (anos, não meses) e esperavam para ver.
Se ele fosse um adolescente típico, com maus modos e péssima higiene, seria sempre possível despachar a "coisa", a inominada "coisa", para o outro mundo. E por que não?
Se o feto só é vida quando somos capazes de imaginar uma vida para ele e com ele, a própria noção de "vida humana" deixa de repousar nas mãos do mistério (evitemos referências ao patrão lá de cima) e passa a ser opção de cada um.
Como, na verdade, já é: podemos mascarar a discussão sobre o aborto com quilos de retórica social, feminista, criminal ou sanitária.
Mas a "liberalização do aborto" parte de uma atitude filosófica que consiste em "privatizar" a noção de vida humana.
Para uns, é Maria. Para outros, é um amontoado de células (benignas) que se remove como se removem as malignas. Caso encerrado.

Trecho da coluna de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo, de 31 de agosto de 2010.

A coluna se chama “Abortos, Canibais e Peregrinos”, e como tal está dividida em três pedaços, o que está acima é sobre o aborto. Sobre canibais há um comentário sobre uma notícia (falsa) de um restaurante brasileiro em Berlim, que serviria carne humana aos clientes que se dispusessem a fazer uma refeição lá. Era “pegadinha”.

Sobre peregrinos ele relembra a comparação feita pelo historiador britânico Paul Johnson de que os fãs de ídolos pop de hoje são semelhantes aos crentes de outrora atrás de uma relíquia de santos e beatos. Ele comenta que um vaso sanitário de John Lennon recebeu oferta de 9.500 dólares em um leilão, e o vaso do escritor J. D. Salinger recebeu oferta de um milhão de dólares. Para Coutinho, isso ainda demonstraria a superioridade da literatura sobre a música pop no imaginário de seus fãs. Talvez, mas não penso que deva ser uma absoluta verdade...


Marcadores: , , ,

sexta-feira, setembro 25, 2009

Filme: Uma Prova de Amor

Crítica/ "Uma Prova de Amor"

Com boas atuações infantis, drama questiona a ciência

RONI FILGUEIRAS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Em "Uma Prova de Amor", o diretor-roteirista Nick Cassavetes faz incursão a temas psicanalíticos, com desdobramentos que vão da bioética à teoria do sentido, passando pela eutanásia.
E nos apresenta um mosaico humano a partir do drama dos Fitzgerald: Sara (Cameron Diaz) e o marido Brian (Jason Patric) recebem o diagnóstico de que Kate (Sofia Vassilieva), filha de dois anos, tem câncer.
Por meio de manipulação genética, o casal concebe Anna (Abigail Breslin), com o fim de prolongar a vida da irmã, por meio de cirurgias e transfusões.
Até que aos 11 anos Anna contrata um advogado (Alec Baldwin) para impedir os pais de disporem de seu corpo. Como num jogo de xadrez, o diretor investiga, então, as jogadas humanas, cujo nível estratégico é limitado pelo acontecimento maior da morte iminente. Um movimento que conduz a configuração do tabuleiro de drama familiar ao xeque-mate do filme de tribunal.
Mesmo com concessões, excesso de tramas paralelas e longe do brilhantismo de "Alpha Dog", Cassavetes tem o mérito de cutucar com vara curta um vespeiro ético atualíssimo. E mostra como situações-limite são catalisadores de paixões.
Se a família para Cassavetes representa a origem das tragédias, as mães encarnam a natureza selvagem. No entanto, Diaz não foi a melhor escolha para fazer a leoa que briga com Deus para salvar a cria.
O show aqui fica com as jovens Abigail ("Pequena Miss Sunshine") e Sofia (da série "Medium"). Num mundo em que os limites da ética estão cada dia mais fluidos e esgarçados, Cassavetes afirma que a morte pode restituir o sentido das coisas, de forma trágica.


UMA PROVA DE AMOR

Direção: Nick Cassavetes
Produção: EUA, 2009
Com: Cameron Diaz, Abigail Breslin
Onde: Espaço Unibanco de Cinema, Cine TAM e circuito
Classificação: 12 anos
Avaliação: bom

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 11 de setembro de 2009.

Eu não estou certo que eu venha a assistir o filme, mas gostei da resenha.


Marcadores: , , , , , ,

terça-feira, setembro 01, 2009

O chique na berlinda - uma entrevista com Peter Singer

O chique na berlinda

Em entrevista à Folha, o filósofo australiano Peter Singer diz que o consumo de luxo aumenta a pobreza

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON


Peter Singer acha que as pessoas que gastam [dinheiro] com vinhos caros e viagens luxuosas em vez de ajudar crianças pobres são, de certa maneira, responsáveis pela morte destas.
É o que ele defende em seu livro mais recente, "The Life You Can Save" [A Vida Que Você Pode Salvar, Random House, 206 págs., US$ 22, R$ 47], um manifesto humanitário embasado nos preceitos da bioética.
É a mais nova faceta do polêmico filósofo australiano de 62 anos, que ensina esse ramo da ética na Universidade Princeton, em Nova Jersey (EUA).
As outras são a do militante pelos direitos dos animais, posição defendida em outro livro, "Animal Liberation" [Libertação Animal, Random House, 1975], considerada a obra que iniciou a faceta radical desse movimento, e "Should the Baby Live? - The Problem of Handicapped Infants" (Deve o Bebê Viver? - O Problema das Crianças com Deficiências, Oxford Univesrity Press, 1985), em que defende a eutanásia.
Leia abaixo trechos da entrevista que concedeu à Folha por e-mail.

FOLHA - Segundo a Unicef, 27 mil crianças morrerão hoje. O que devemos fazer a respeito e não fazemos?
PETER SINGER
- Essas mortes são evitáveis. Elas são decorrência de situações que podem ser mudadas -ausência de água limpa, falta de postos médicos locais, ausência de redes contra a malária e assim por diante. Acima de tudo, acontecem por conta da extrema pobreza, e isso também pode ser mudado.
Nós deveríamos usar uma parte de nossa riqueza para ajudar a tirar as pessoas da armadilha da extrema pobreza. É errado gastarmos tanto com coisas supérfluas, enquanto outros não têm o suficiente para comer ou não têm condições de mandar suas crianças para a escola.

FOLHA - Ao mesmo tempo, 20 mil americanos perderão seus empregos hoje. O quão difícil é ser coerente em uma época de derretimento econômico?
SINGER
- O problema não é coerência, mas fazer com que as pessoas pensem outras enquanto estão preocupadas com os próprios interesses. Somos egoístas por natureza, e não espero que as pessoas se tornem altruístas se estão preocupadas em pagar o aluguel.

FOLHA - O sr. dá um terço de seus rendimentos à rede de assistência global Oxfam. É suficiente? Recomenda que outros façam o mesmo?
SINGER
- Eu não diria que é o suficiente; se eu fosse uma pessoa melhor, daria mais.
Ao mesmo tempo, porém, não seria preciso que ninguém desse tanto quanto eu dou se apenas as pessoas mais ricas doassem algo de suas rendas.
Então, em meu livro, recomendo uma porcentagem muito menor, começando por 1% da renda das pessoas. É possível ver a tabela completa no livro ou no site www.thelifeyoucansave.com, [onde você pode fazer sua doação também.

FOLHA - O sr. escreveu: "Quando nós gastamos nossa sobra de dinheiro em shows, sapatos da moda, jantares sofisticados, vinhos caros ou em viagens de férias para lugares distantes, estamos fazendo algo errado". Mas pode-se argumentar que, ao fazer isso, ajudamos a criar ou manter empregos, algo que hoje em dia é mais do que necessário. Como equilibrar esforço humanitário e capitalismo?
SINGER
- A maior parte do que gastamos no que você menciona vai para pessoas que já são ricas. Se o que você compra ajuda realmente os mais pobres -talvez por meio de um esquema de comércio justo-, tudo bem, não me oponho.
Mas é importante ajudar os pobres diretamente também, pois de outra maneira eles não podem se integrar à economia global. Os países mais pobres não têm a infraestrutura necessária para essa integração.

FOLHA - O sr. acha que uma das consequências da atual crise pode ser que as pessoas passem a ter uma vida mais frugal?
SINGER
- Seria bom em certo sentido, especialmente do ponto de vista do ambiente, do aquecimento global.
Mas duvido que aconteça. A crise vai passar, e em alguns anos voltaremos aos nossos hábitos antigos.

FOLHA - Do ponto de vista da bioética, qual é a diferença entre George W. Bush e Obama na Casa Branca?
SINGER
- Uma diferença enorme. Bush e seus capangas adotaram uma atitude arrogante em relação ao resto do mundo -os EUA são o chefe, disseram, não apenas mais um membro da comunidade internacional.
Obama tem uma atitude diferente, e isso é importante.
Igualmente importante, é claro, é sua recusa em torturar, seu plano de fechar [a prisão da base militar de] Guantánamo, sua disposição em apoiar organizações de planejamento familiar que também incluem aborto entre os meios de ajudar as mulheres a controlar sua fertilidade, sua aceitação de pesquisa usando células-tronco de embriões humanos e, acima de tudo, uma atitude positiva em relação à ciência.

FOLHA - Não há contradição entre o que defende em "Deve o Bebê Viver?" e "A Vida Que Você Pode Salvar"?
SINGER
- Nenhuma. Minha preocupação primária é a redução do sofrimento desnecessário.
Há uma enorme diferença entre tentar salvar a vida de crianças cujos pais querem que elas vivam e cujas vidas podem ser salvas com quantias modestas de dinheiro e manter vivas crianças extremamente incapacitadas, usando tecnologia médica moderna e caríssima, quando os pais acham que seria melhor para a criança e a família se o bebê não sobrevivesse.

FOLHA - A propósito de um de seus primeiros livros, "Libertação Animal", e a gripe suína, o sr. acha que há uma lição moral nessa quase pandemia?
SINGER
- Não creio. A razão moral para não colocar porcos nas "fábricas rurais" em que estão é que é uma vida horrível para os porcos, e não há necessidade de que os tratemos assim.
Talvez uma consequência secundária de colocar milhões de animais juntos em condições precárias é que eles cultivam novas doenças, que podem gerar pandemias globais.
Mas seja isso verdade ou não, o fato é que, para começar, não deveríamos estar tratando os animais dessa maneira.

Texto do caderno Mais! da Folha de São Paulo, de 10 de maio de 2009.

Marcadores: , , ,

quarta-feira, maio 06, 2009

Tentações do Bem

As tentações do bem

UMA LEITORA muito especial (minha mulher!) me chamou atenção para o risco de que entendessem, a partir de minha coluna de 13 de abril, que eu desprezo o meio ambiente e me falou que seria bom eu esclarecer minha crítica. Como não sou bobo nem louco, obedeci a ela (quem quer problema com a mulher?!), e, portanto, hoje volto a alguns dos temas da semana passada.
Repito: são os vícios que nos humanizam, e não as virtudes. Por exemplo, uma leitora me dizia como "é bom acordar acabada depois de uma noite de vícios e sentir como ela é um nada". Essa me entendeu. Uma ressaca de álcool ou uma ressaca moral cura qualquer vaidade besta. Achar-se virtuoso é a marca essencial de todo bom canalha. Adoro almas pecadoras cheias de culpa. Os puros me acusam: você tem medo do homem evoluído! Respondo: sim, morro de medo.
Quem se acha agente de pureza tem minha natural antipatia. Muita gente cospe na cara da Igreja Católica e de religiosos em geral, acusando-os de hipócritas cheios de falsas virtudes. Hoje, a falsa virtude se espalha por rostos que exalam o mesmo mau cheiro da mentira moral de muitos dos bispos no passado.
Uma das coisas que mais chocou alguns leitores que provavelmente se acham puros foi a analogia entre proteger animais e os nazistas. Leiam "Liberal Fascism", de Jonah Goldberg, editora Doubleday, 2007 (uma referência possível entre outras). Voltarei a isso logo, tenham paciência.
É evidente que o fato de escovar os dentes de manhã (coisa que os nazistas deveriam fazer) não torna os praticantes de higiene bucal membros do partido. Tampouco ter pena dos pandinhas faz de alguém um nazista latente. A analogia se dá pelo "que" de superioridade moral que muitas dessas pessoas associam à preocupação com os ursos pandas, a natureza e o antitabagismo. Quem disser o contrário, mente. O mesmo tipo de mentira moral acompanha grande parte dos comedores de rúcula (dizem por aí que Hitler era vegetariano...). Não comer carne significaria um dado de pureza diante da baixaria sangrenta típica dos comedores de picanha. Bobagem. Muitos canalhas se sentem mal em churrascarias, detestam tabaco e conversam com plantas.
A correspondente de guerra Martha Guellhorn conta em seu livro "A Face da Guerra" (editora Objetiva, 2009), numa conversa com um refugiado polonês, que os nazistas, depois de mandar judeus para o inferno e poloneses para a escravidão, enviavam veterinários para cuidar da população de cães e gatos da região. Que sensibilidade ambiental, não?
A relação que o jornalista Goldberg descreve em seu interessante livro é conhecida de muitos: a preocupação com a natureza é fruto do romantismo (coisa em que os alemães dos séculos 18, 19 e 20 foram muito bons), raiz do nacional-socialismo (prestem atenção: "socialismo"!). O romantismo foi muito marcado pela ideia de que os humanos poluem a divindade da natureza. Adorar a natureza é coisa de neopagão bobo: câncer é tão natural quanto foquinhas. Isso não significa que matar focas a pauladas seja bonito, mas significa que esse papo de "deusa-natureza" é coisa de fanático. Para muitas viúvas do Che, "ser verde" é o "produto utopia" que resta.
Mas minha dúvida é a seguinte: qual o motor principal desse ódio aos "poluidores" da natureza? Não acredito que sejam as coitadas das foquinhas, mas sim a capacidade natural do ser humano de gostar de odiar outros seres humanos, principalmente se este ódio for justificado por alguma falsa virtude (amor aos animais, ódio aos fumantes, paixão pelas cenouras).
E, por fim, chegamos ao fantasma da eugenia (a busca de uma vida perfeita cheia de humanos saudáveis). A tese central de Goldberg é que o fascismo permanece em nosso horizonte cultural como um mercado invisível de eugenia silenciosa. Essa eugenia é nossa "tentação do bem". O paradigma de uma sociedade da "grande saúde" é típico dos totalitarismos. Belos corpos, comida balanceada (outra coisa cara aos nossos ancestrais nazistas: preocupação com a alimentação), ar sempre puro, pessoas que agregam saúde aos comportamentos cotidianos. Suspeito que muitos desses fascistas da saúde que andam por aí se sentiriam em casa em algumas das organizações nazistas preocupadas com o meio ambiente e com a saúde na Polônia em 1943.
E, para terminar, olhem que pérola: "Adoro ver essa demonstração de saúde ao meu redor", Adolph Hitler.

Texto de de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 20 de abril de 2009.


Marcadores: , , ,

segunda-feira, abril 27, 2009

Sociedade unha-de-fome

Sociedade unha-de-fome

Em "A Vida Que Você Pode Salvar", o filósofo Peter Singer diz que indivíduos deveriam fazer mais doações para tirar o mundo da pobreza

DWIGHT GARNER

Você é uma boa pessoa? Seria possível responder que tudo depende de como se define a palavra "boa". Em um mundo de demônios facilmente identificáveis -Osama bin Laden, Bernard Madoff etc.-, a maioria de nós sente que está basicamente do lado dos anjos.
Trabalhamos com afinco, pagamos nossas contas, tentamos criar bem os nossos filhos, fazemos trabalhos voluntários aqui e acolá e, em caso de dúvida, sempre seguimos as normas do bem. Por que então não nos darmos o benefício da dúvida?
O novo livro de Peter Singer sobre a pobreza no mundo, "The Life You Can Save" [A Vida Que Você Pode Salvar, Random House, 206 págs., US$ 22, R$ 49], está aqui para revelar que não somos as pessoas que pensamos ser, quase todos nós.
Em um planeta repleto de sofrimento tão evidente e tão generalizado, escreve, "há algo de profundamente distorcido em nossas visões amplamente aceitas quanto ao que significa viver uma vida de bondade".
Singer, professor de bioética na Universidade Princeton, fez sua carreira a partir do ato de causar desconforto nos outros.
Seu livro mais conhecido, "Libertação Animal", de 1975, está entre os textos fundadores do movimento contemporâneo de defesa dos direitos dos animais. Vem trabalhando com as ideias de seu mais recente livro pelo menos desde 1972, quando publicou o influente artigo "Famine, Affluence, and Morality" [Fome, Afluência e Moralidade].
Singer de forma nenhuma é o único pensador sério sobre a pobreza, mas com "A Vida Que Você Pode Salvar" se tornou instantaneamente o mais legível e o mais enfático entre eles.
O livro é em parte argumentação racional, em parte manifesto, em parte manual de instruções. É um volume que sugere que, diante do fato de que 18 milhões de pessoas morrem desnecessariamente a cada ano nos países em desenvolvimento, "há uma mácula moral em um mundo rico como o nosso".
Não estamos fazendo o suficiente para ajudar nossos irmãos humanos.

Além das intuições
Os seres humanos acreditam intuitivamente que devemos ajudar os outros em seus momentos de necessidade, escreve Singer, "no mínimo quando podemos vê-los e quando somos as únicas pessoas capazes de salvá-los". Mas precisamos ir além dessas intuições, declarou Singer.
E por isso, no começo de "A Vida Que Você Pode Salvar", propõe o seguinte argumento lógico, que citarei na íntegra: "Primeira premissa: sofrimento e morte causados por falta de comida, abrigo e cuidados médicos são males".
"Segunda premissa: se estiver em seu poder impedir que algo de mau aconteça, sem que seja necessário sacrificar nada de importância semelhante, é errado não fazê-lo."
"Terceira premissa: ao doar dinheiro a agências assistenciais, é possível prevenir sofrimento e morte por falta de comida, abrigo e cuidados médicos, sem sacrificar nada de igualmente importante."
"Conclusão: portanto, se você não doa dinheiro a organizações assistenciais, está agindo errado."
Há muitos contra-argumentos que se apresentam de imediato: a economia está em crise. Caridade começa em casa. Trabalho com afinco pelo meu dinheiro. Caridade cria dependência. Algumas organizações de caridade desperdiçam dinheiro demais com suas despesas administrativas.
Mas Singer rebate esses contra-argumentos de maneira convincente, e sua conclusão lógica é praticamente irrefutável. Ajudar os pobres do mundo trará "significado e propósito" às nossas vidas, ele sugere, por meio de ajustes financeiros que, em geral, "pouca diferença farão para o seu bem-estar".

Difícil de engolir
Em seu livro, Singer elogia muita gente que doa até 50% de sua renda anual. Quanto aos restantes de nós, ele propõe uma abordagem mais realista: "Cerca de 5% da renda anual para as pessoas em situação financeira confortável, e bastante mais para os muito ricos".
Alguns dos argumentos de Singer são difíceis de engolir.
"Filantropia para as artes e atividades culturais, em um mundo como este, é moralmente dúbio", ele declara.
O Metropolitan Museum of Art [em Nova York] adquiriu um quadro de Duccio [di Buoninsegna] por US$ 45 milhões em 2004, quantia que, diz Singer, pagaria por operações de catarata para 900 mil pessoas cegas ou quase cegas nos países em desenvolvimento.
Ele prossegue: "Se o museu estiver em chamas, alguém consideraria mais certo salvar o quadro do incêndio do que uma criança?"
O livro tem seus heróis e vilões. Entre os primeiros, temos Bill Gates e James Hong, que enriqueceu ao criar o site "Hot or Not", no qual os visitantes votam sobre a aparência dos demais usuários.
Hong doa 10% do dinheiro que ganha acima dos primeiros US$ 100 mil anuais e opera um segundo site no qual encoraja outras pessoas a assumir compromisso semelhante. Entre os vilões estão os bilionários do software Paul Allen e Larry Ellison. Singer reconhece que Ellison doou US$ 39 milhões em 2007, mas acrescenta que "ainda que Ellison não lucre mais um centavo, poderia doar US$ 39 milhões ao ano pelos próximos 600 anos e ainda reter US$ 1 bilhão para cuidar de sua velhice".
Mas ainda há tempo para Ellison. Como aponta Singer, se Warren Buffett tivesse doado o primeiro milhão que ganhou, não estaria em posição, agora, de doar US$ 31 bilhões.
Em um dos sites de Singer, thelifeyoucansave.com, ele solicita que as pessoas assumam o compromisso de doar dinheiro para combater a pobreza mundial segundo uma escala móvel que propõe (ele mesmo doa 25% de sua renda anual, escreve). Já obteve mais de 1.800 adesões.
"Tendemos a considerar que as pessoas merecem ser mais culpadas por seus atos do que por suas omissões", escreve Singer. Não é preciso concordar com tudo o que ele afirma para sentir que não há o que discutir: no que tange a viver uma vida dita "de bondade", as omissões morais hoje contam mais que nunca.


A íntegra deste texto saiu no "New York Times".

Tradução de Paulo Migliacci.

ONDE ENCOMENDAR
- Livros em inglês podem ser encomendados pelo site www.amazon.com

Este texto foi publicado no caderno Mais! da Folha de São Paulo, de 22 de março de 2009.

Marcadores: , ,