quarta-feira, agosto 05, 2009

Peste Pneumônica faz vítimas no interior da China

Pelo menos dois homens já morreram em decorrência de peste pneumônica, na província de Xinghai, na China.
A notícia é da BBC, abaixo. Não deu tempo de traduzir.

Second plague death in west China

A second man has died of pneumonic plague in a remote part of north-west China where a town of more than 10,000 people has been sealed off.

The 37-year-old victim was a neighbour of the first person to die from the plague, a herdsman aged 32 in Ziketan in Xinghai in Qinghai Province.

The sparsely populated area is mostly inhabited by Tibetans.

Pneumonic plague, which attacks the lungs, can spread from person to person or from animals to people.

PLAGUE
  • Bubonic plague is spread by flea bites or contact with infected animals
  • Pneumonic plague, caused by the same bacterium, can spread between humans
  • Pneumonic plague, affecting the lungs, can kill within 24 hours
  • Almost all cases curable if diagnosed in time
  • A spokeswoman for the World Health Organization, Vivian Tan, said an outbreak such as this was always a concern, but praised the Chinese for reacting quickly and for getting the situation under control.

    A BBC correspondent in Beijing, Michael Bristow, says that unlike in the past the authorities are being very open about this outbreak.

    Local officials in north-western China have told the BBC that the situation is under control, and that schools and offices are open as usual.

    But to prevent the plague spreading, the authorities have sealed off Ziketan, which has some 10,000 residents.

    About 10 other people inside the town have so far contracted the disease, according to state media.

    No-one is being allowed leave the area, and the authorities are trying to track down people who had contact with the men who died.

    Initial symptoms of pneumonic plague include fever, headache and shortness of breath.

    The local health bureau has warned anyone with a cough or fever who has visited the town since mid-July to seek medical treatment.

    Outbreak anticipated

    Health officials in Qinghai have been concerned about pneumonic plague for some time.

    In February, they said they had sent out 55 teams across the province to help monitor and control the disease.

    One Chinese media report said this was the third outbreak of the disease in Qinghai within the last 10 years.

    “ It looks like the authorities have got the situation under control ”
    Vivian Tan WHO spokeswoman in China

    According to the WHO, pneumonic plague is the most virulent and least common form of plague.

    It is caused by the same bacteria that occur in bubonic plague - the Black Death that killed an estimated 25 million people in Europe during the Middle Ages.

    But while bubonic plague is usually transmitted by flea bites and can be treated with antibiotics, pneumonic plague is easier to contract and if untreated, has a very high case-fatality ratio.

    The WHO was informed on Saturday of the outbreak but has not been asked for help.

    "When it comes to outbreaks of the plague it's always quite worrying, but it looks like the authorities have got the situation under control," said WHO spokeswoman Vivian Tan.

    "This area is quite remote and the population is very small so this should make it easier to contain."

    Fonte: BBC .

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    sábado, agosto 30, 2008

    Olimpíada marca nova geopolítica e fim de hegemonias

    Olimpíada marca nova geopolítica e fim de hegemonias

    Pequim registra maior número de países com ouros e pódios e término do domínio dos EUA e da Rússia

    Nações ricas têm queda no número de medalhas e de títulos olímpicos, enquanto restante do mundo avança com resultados inesperados

    PAULO COBOS
    ENVIADO ESPECIAL A PEQUIM

    O Brasil perdeu sua hegemonia no vôlei masculino. A Mongólia ganhou ouro no boxe, e Cuba, não. A Islândia obteve sua primeira medalha da história em um esporte coletivo, no torneio masculino de handebol, na última final dos Jogos.
    O último dia da Olimpíada de Pequim não poderia ter sido um retrato melhor sobre qual é o saldo esportivo do evento.
    O triunfo da China no quadro geral de medalhas, o primeiro de um país que não seja Estados Unidos ou União Soviética em mais de 70 anos, é o fato principal de uma das mais dramáticas mudanças do mapa dos pódios olímpicos.
    Mas não é o único.
    Muitas das 958 medalhas distribuídas em Pequim tiveram o gosto do novo, redesenharam a relação de forças e colocaram um número recorde de países em cima do pódio.
    Foram 87 nações medalhadas, 55 no lugar mais alto. Os recordes anteriores eram, respectivamente, 80 e 54.
    E os países ricos perderam espaço. Na edição anterior dos Jogos, na Grécia, o grupo formado por EUA, Canadá, nações européias, Austrália e Japão ficou com 684 medalhas, 213 delas de ouro. O restante dos países do mundo, teve, respectivamente, 245 e 88.
    Agora, na China, com apenas mais uma prova na disputa, os ricos foram 651 vezes ao pódio, 191 no lugar mais alto dele. Os "pobres" ganharam 307 medalhas, nada menos do que 111 delas do metal mais valioso.
    Os EUA perderam para a China, mas a Rússia, outra grande potência do esporte na história, sofreu um tombo feio após baque por contusões e uma enxurrada de afastamento por causa de doping pouco antes da Olimpíada começar.
    Foram 92 medalhas russas, ou 20 a menos do que nos Jogos de Atenas-2004, quando, como agora, terminou na terceira posição no quadro de medalhas.
    Pela primeira vez desde que a União Soviética se desintegrou, a maior e mais importante das repúblicas que formavam o país somou um número de pódios menor do que as outras partes da antiga URSS.
    As outras ex-repúblicas soviéticas somaram 99 pódios.
    Os antigos satélites soviéticos na Europa também perderam espaço. Juntos, os países do Leste Europeu que eram alinhados com os comunistas conquistaram 18 medalhas de ouro na China, contra 25 na Grécia, há quatro anos.
    No Caribe, quem ficou na frente no quadro de medalhas deste vez foi a Jamaica, que ganhou seis ouros, enquanto Cuba passou em branco no lugar mais alto do pódio no boxe e ainda perdeu a decisão do beisebol, o esporte nacional, para a Coréia do Sul. Os cubanos, que já rivalizaram com os EUA no Pan, ficaram atrás até do Brasil.
    Os sul-coreanos, aliás, foram uma das grandes surpresas dos Jogos. Ganharam um ouro na natação pela primeira vez. No total, foram quatro ouros a mais do que na Grécia, fazendo o país subir duas posições -terminou na sétima posição.
    Outros asiáticos também saborearam resultados positivos. Mongólia, Tailândia e Coréia do Norte conquistaram, cada um, duas medalhas de ouro.
    Para o lugar mais alto do pódio foram, entre outros países do maior continente do mundo, Indonésia, Índia, Bahrein, Irã e Uzbequistão.

    32 POSTOS

    ascendeu a Grã-Bretanha no quadro de medalhas da Olimpíada nos últimos 12 anos. No grupo que disputa as primeiras posições, ninguém lucrou tanto como ela. O país ficou em quarto lugar, com 47 pódios, sendo que 19 no lugar mais alto. Um feito para quem, em Atlanta-1996, teve atuação de país médio, ficando atrás até do Brasil. Nesses Jogos, os britânicos ficaram em 36º lugar, com 15 medalhas, só uma de ouro. O investimento do país no esporte cresceu nos últimos anos, desde que Londres ganhou o direito de sediar a Olimpíada-2012. A expectativa é que os britânicos tenham base forte para os Jogos em casa.

    Texto da Folha de São Paulo, de 25 de agosto de 2008.


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    quinta-feira, agosto 28, 2008

    A religião, uma revolução silenciosa na China

    A religião, uma revolução silenciosa na China

    Frédéric Bobin
    Enviado especial a Pequim


    O crucifixo preto destaca-se sobre o branco da parede. Predomina na sala uma claridade intensa, como que irradiada pela luz que penetra através dos vidros deste apartamento empoleirado no topo de uma torre situada num conjunto habitacional de Pequim, não longe da vila olímpica. Atrás do seu púlpito improvisado, o pastor Li, segurando um livro de salmos, canta às bandeiras despregadas. Ao lado dele, uma adepta o acompanha no piano. Na sua frente, cerca de vinte crentes entoam, por sua vez, as louvações evangélicas. Eles estão sentados em cadeiras metálicas de encosto acolchoado. Em sua maioria, são trintões e quadragenários. Eles correspondem a perfis variados, entre os quais se misturam donas de casa, intelectuais de óculos, jovens mulheres antenadas trajando blusas regatas ou rapazes com cabelos cortados no estilo "ouriço".

    Yu Jie está em pé, ligeiramente afastado da platéia. Ele está mergulhado no recolhimento. Este rapaz de tez pálida e rosto arredondado segura uma Bíblia entreaberta nas palmas das suas mãos. Ele a folheia quando o pastor prega "o amor de Deus". A sua discrição é enganadora: de fato, Yu Jie é uma personalidade de peso nesta igreja não-oficial que celebra o culto nesta tarde de domingo de julho. A igreja da Arca, que nasceu por obra de um grupo de orações organizado pela sua mulher, deve muito à sua abnegação, e também ao seu prestígio pessoal.

    Yu Jie é o que costumam chamar de "dissidente". Um ensaísta liberal, admirador da democracia americana - e, a esse título, um inimigo declarado dos nacionalistas chineses mais extremistas -, ele é vigiado de muito perto pela Segurança de Estado, que, contudo, o deixa livre de restrições, controles ou limitações. Em decorrência de uma extensa reflexão política e espiritual, ele abraçou a fé cristã em 2003. Um expoente da vertente pequinesa das "igrejas em domicílio" - as quais são estruturas não-oficiais toleradas, mas que evoluem em meio a um contexto precário -, ele é atualmente um dos intelectuais protestantes mais destacados da capital. Junto com dois dos seus correligionários, ele foi até mesmo recebido em 2006 em Washington por George W. Bush, o que provocou o furor do regime chinês.

    Fé e política intimamente ligadas
    Yu Jie é apenas um exemplo entre tantos outros. Ele encarna uma pequena revolução silenciosa: no decorrer dos últimos anos, um número crescente de intelectuais liberais na China urbana vem aderindo ao protestantismo. Além de Yu Jie, os mais conhecidos são Wang Yi, Li Baiguang, Gao Zhisheng, Jiao Guobiao, Li Heping, Li Jinsong, Ai Xiaoming. Quase todos eles são professores e juristas envolvidos na defesa dos direitos cívicos. Eles representam a parte visível de um fenômeno mais amplo.

    Após ter tomado conta das regiões rurais durante os anos 1980, o fervor religioso - entre outros, o da confissão cristã - vem conquistando espaços nas grandes cidades, em particular no âmbito de uma classe média à procura de valores espirituais como forma de reação ao materialismo dominante. As estatísticas oficiais menosprezam a real importância deste ressurgimento da fé. Segundo as estimativas mais confiáveis de alguns especialistas, a China contaria atualmente entre 40 e 50 milhões de protestantes, além de 10 a 12 milhões de católicos, ou seja, comunidades cristãs que representam cerca de 5% da população. Trata-se de uma parcela ainda muito minoritária, mas que está em processo de expansão.

    No caso de Yu Jie, a fé e a política estão intimamente ligadas. Com 35 anos, ele é jovem demais para ter participado da primavera estudantil de 1989 na Praça Tiananmen. Mas o esmagamento, sob as lagartas dos tanques, do sonho democrático nunca parou de assombrá-lo. No decorrer da sua reflexão, a religião foi se impondo como um substituto para um ideal político inacessível. E no contexto desta busca, o cristianismo despontou com a mais sedutora das tentações. "Os valores liberais encontram a sua fonte no cristianismo", analisa. "A tradição chinesa não me satisfaz deste ponto de vista: não é possível encontrar referências à liberdade e aos direitos humanos no confucionismo"*.

    Yu Jie leu muito, mergulhou na história da evangelização em terra chinesa, refletiu a respeito dos vínculos entre o cristianismo e a modernidade. Ele conseguiu dimensionar o papel do protestantismo na formação das elites reformistas na China, no início do século 20, a partir dos conhecimentos que ele encontrou, em particular, na obra de Sun Yat-sen (1866-1925), o fundador da República. "Quanto mais eu fui lendo, quanto mais fui descobrindo que a religião cristã havia contribuído para a modernização da sociedade chinesa antes da revolução de 1949", prossegue. "Ora, esta contribuição é totalmente ocultada pelos nossos manuais de história oficiais, que apresentam o cristianismo como o instrumento do imperialismo ocidental".

    "Eu acabei alimentando um ódio pela sociedade"
    Wang Guangze é um outro representante desses intelectuais neoprotestantes. Um jornalista dissidente, antigo funcionário do "Diário da Lei" e de "Reportagem Econômica do Século 21" - publicações das quais ele foi excluído por conta das suas opiniões democratas -, ele tem a mesma idade que Yu Jie. Da mesma forma que para este último, o trauma de Tiananmen exerceu um papel considerável em sua evolução espiritual. Em maio de 1989, ou seja, antes da repressão do movimento, ele era apenas um colegial na província do Henan, mas havia participado das manifestações de apoio que então haviam tomado conta como uma febre da juventude pelo país afora. A intervenção sangrenta dos tanques na Praça Tiananmen o deixou totalmente "desesperado".

    "Eu estava tão desiludido", recorda-se, "que acabei alimentando um ódio pela sociedade, esta sociedade que se tornara a escrava do poder". Após ter concluído seus estudos de direito, ele procura curar-se dessa raiva. As tradições chinesas, como para Yu Jie, não lhe proporcionam o auxílio de que precisa. "O confucionismo se caracteriza por ser um pensamento da elite", critica Wang Guangze, "enquanto o budismo não aponta outra meta senão a de tornar-se um santo". Mas ele segue procurando, lendo, discutindo a respeito dos caminhos da salvação com os seus amigos. O que transforma o cristianismo numa revelação repentina para ele, explica, é a "noção de pecado". Nisso ele descobre - finalmente! - a chave que lhe permite livrar-se da sua execração para com o mundo. "Nós todos somos pecadores", diz. "Não existem pessoas mais nobres do que outras". "Foi assim que apazigüei a minha cólera contra o Partido Comunista", prossegue. "Os comunistas são pecadores assim como eu, mesmo se eles estão a serviço de um sistema que oprime".

    Com isso, Wang Guangze torna-se então "tolerante", "moderado", e ele avalia ainda que "é preciso ajudar uns aos outros entre pecadores". Ele fundou uma associação que preconiza a "reconciliação" na China, inspirada no modelo sul-africano.

    Fan Yafeng é outro que reencontrou a paz da alma graças a Deus. Um jurista na Academia das Ciências Sociais, ele tinha 20 anos em 1989. Ele havia viajado da sua província do Anhui para Pequim com o objetivo de acompanhar de muito perto a rebelião estudantil. "Depois da repressão, eu acabei ficando totalmente deprimido", recorda-se. "Ao longo de muitos anos, senti-me fraco, frágil, vazio". Ele tenta então aproximar-se do budismo, mas este não oferece respostas para as suas "interrogações a respeito do sentido da vida". No inverno de 1996, surge finalmente a revelação. Um amigo pastor que, por sua vez, havia passado do hinduismo para o protestantismo o convida para assistir ao culto de uma "igreja em domicílio". "Na ocasião, vi pessoas irradiando felicidade, pessoas muito simples, uma cabeleireira, uma empregada de uma companhia de seguros", recorda-se. "O rosto de todas elas estava iluminado". Alguns meses mais tarde, Fan Yafeng é batizado. Enquanto os eventos de 1989 haviam precipitado seus tormentos passados, hoje ele se nega, contudo, a politizar excessivamente sua descoberta da fé: "As nossas igrejas permitem salvar as almas, não a sociedade".

    Nem todos os neoprotestantes de Pequim estão imbuídos de uma tão grande beatitude. Um homem de cabelos compridos com madeixas ruivas, Wang Wangwang, é um artista pintor e um célebre criador de cartazes muito requisitado pela vanguarda da capital. Ele converteu-se em 2004 porque, apesar dos seus sucessos e da sua boa situação financeira, ele sentia "um vazio espiritual". Quatro anos mais tarde, ele optou por tomar certa distância em relação ao culto. "Eu senti em mim", diz, "uma contradição, um conflito entre certos valores ocidentais vinculados ao cristianismo e os valores chineses dos quais sou portador". Desde então, ele vem se esforçando para "harmonizá-los" entre si. Wang Wangwang sublinha que ele acabou conseguindo alcançar uma "síntese satisfatória". Mas, o preço que ele teve de pagar para tanto foi um processo de desengajamento em relação à "igreja em domicílio" à qual ele havia aderido. Ele prefere "praticar" sozinho, em sua casa, no meio da mais completa bagunça dos seus quadros, nos quais o Cristo é visto disputando espaços com Mao Tse-Tung.

    *Nota do tradutor - Confúcio (551 a.C. - 479 a.C.) é considerado como o primeiro "educador" da China; os seus ensinamentos deram origem a uma doutrina política e social.

    Tradução: Jean-Yves de Neufville

    Texto do Le Monde, no UOL.

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    quarta-feira, agosto 20, 2008

    Ordem submete corpos e vontades

    Ordem submete corpos e vontades



    LEANDRO KARNAL
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    Abertura impressionante: corpos em uníssono, marchando, cantando, voando e produzindo algumas das imagens mais belas que já vi.
    Eu estava acompanhado por um simpático grupo de estudiosas em Tamboré. Manifestei, para surpresa de algumas, minha angústia.
    Eu tive a mesma sensação quando vi um espetáculo de crianças acrobatas em Pequim, há dois anos. Eram crianças que, pela excelência da apresentação, certamente passavam por algo como dez horas diárias de treinamentos.
    Imaginei se aquelas crianças sofreriam dos males das brasileiras. Por certo não tinham traumas, não ficavam doentes, não tinham as constantes dores de barriga e gripes que assolam menores ocidentais.
    Não deveria existir, igualmente, a pororoca de mães zelosas para que seus filhos não fossem tão exigidos. Pelo contrário. Imaginei, como exercício de sonho, que após horas sob o olhar espartano do treinador, haveria mais pressão nos lares chineses pela excelência do desempenho delas.
    O leitor já deve ter adivinhado um espírito suíno guinchando neste texto. Por que eu não consigo ver simplesmente a beleza de uma nação orgulhosa, preparada, com esforço colossal, ocupando seu local de destaque no mundo? Após dois séculos de opressão, ressurgiria o Império do Meio no pódio do planeta? Sim. É possível ser o rasteiro desdém da raposa diante dos cachos inalcançáveis. Faríamos igual no Maracanã? Provavelmente não.
    Vejo na ordem contemplada no Ninho do Pássaro a mesma e a perfeita sincronia dos desfiles da Guarda Vermelha de 1968.
    Atletas e coreógrafos têm semelhança terrível com soldados em passo de ganso. Ordem total implica submissão absoluta de corpos e vontades. Sincronia irretocável pode ser linda de ser assistida, mas é acompanhada de uma conta alta.
    Passar por cima de todos os obstáculos implica uma energia que pode serpentear por milhares de quilômetros em muralhas ou construir algo como a represa das Três Gargantas. Não há meio ambiente ou montanha que não possa ser domado pela razão de Estado.
    Não há indivíduo que não possa ceder a este imperativo categórico. Carros parados, fábricas fechadas, pessoas impedidas de sair de suas casa e quase um ano de ensaios exaustivos: tudo foi perfeito. Nada errado ocorreu. Uma pequena chinesa coçou o nariz sentada a um piano.
    Teria sido ensaiado para provocar simpatia?
    A aula de história e de política foi dada. A genialidade da civilização chinesa transbordou nos tipos móveis de imprensa, no papel e na pólvora. A bússola e os barcos de Zeng He voltaram ao seu berço criativo. Fadas dançaram contrariando Newton, afinal, o pai da física era um mero ocidental.
    Tudo foi incrivelmente belo.
    A beleza no sentido que Rainer Maria Rilke definiu no início das elegias de Duíno esteve todo o tempo na minha mente: "Pois o que é o Belo senão o grau do terrível que ainda suportamos porque, impassível, desdenha destruir-nos?" O século 21 será chinês? Suspeito que sim. Pior? Temo que acharemos lindo na tela... em mandarim.


    LEANDRO KARNAL é professor de história na Unicamp

    Texto publicado no Folha de São Paulo, em 14 de agosto de 2008.

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