quarta-feira, novembro 03, 2010

Al-Qaeda anuncia fim de ultimato e considera cristãos "alvos legítimos"

A Al-Qaeda no Iraque anunciou nesta quarta-feira que os cristãos são "alvos legítimos", depois do fim do ultimato à igreja copta do Egito para libertar duas mulheres, informou o Centro Americano de Vigilância de Sites Islamitas (SITE).

Ao reivindicar o ataque contra uma igreja de Bagdá no domingo, o Estado Islâmico do Iraque (ISI) deu prazo de 48 horas à Igreja copta do Egito para libertar duas cristãs convertidas ao islã que segundo a organização estão "encarceradas em mosteiros" deste país.

"O ultimato expirou (...) Portanto, todos os centros, organizações, instituições, dirigentes e fiéis cristãos são alvos legítimos para os mujahedines, onde puderem ser alcançados", afirma um comunicado.

No ataque de domingo contra a catedral siríaca católica de Bagdá, 46 fiéis morreram e 60 foram feridos. Sete integrantes das forças de segurança também faleceram na invasão para acabar com a tomada de reféns.


Notícia da AFP, republicada no UOL.

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Sobe para 52 número de mortos em ataque à igreja em Bagdá; 67 ficaram feridos

Cinquenta e duas pessoas, entre civis e policiais, foram mortas no domingo (31) quando forças de segurança invadiram uma igreja de Bagdá para libertar mais de cem católicos iraquianos mantidos reféns por homens armados ligados à rede Al Qaeda, disse um vice-ministro do Interior, general Hussein Kamal, acrescentando ainda que 67 pessoas ficaram feridas na ação.

"Esta cifra de mortos inclui civis e membros das forças de segurança. Não diferenciamos entre civis e membros das forças de segurança", disse Kamal, acrescentando que o número não inclui os agressores mortos.

Os extremistas invadiram a igreja Nossa Senhora da Salvação, uma das maiores de Bagdá, durante a missa de domingo e exigiram a libertação de todos os prisioneiros da Al Qaeda no Iraque e no Egito.

Tiroteios esporádicos ocorreram por várias horas no bairro de Karrada, próximo da região de segurança reforçada conhecida como Zona Verde, onde se concentram as embaixadas e edifícios governamentais.

Helicópteros militares dos EUA e do Iraque sobrevoavam a área, isolada pelas forças de segurança.

Testemunhas disseram à televisão local que homens armados, possivelmente usando cinturões com explosivos, forçaram a entrada na igreja no domingo e mataram pelo menos um padre.

Autoridades disseram que eles ameaçavam matar os 120 reféns mantidos no local se não fossem libertados todos os prisioneiros da al Qaeda no Iraque e no Egito.

O grupo Estado Islâmico do Iraque, vinculado à Al Qaeda, assumiu a responsabilidade contra a igreja, que chamaram de "toca suja da idolatria, e deu o prazo de 48 horas para a Igreja do Egito libertar os muçulmanos "presos nos mosteiros" do país, afirmou o centro americano de monitoramento de sites islâmicos (SITE).

BOLSA

O episódio começou quando o grupo armado tentou entrar na Bolsa de Valores de Bagdá, localizada em frente à igreja católica. A polícia informou que seis pessoas foram mortas ali, incluindo dois policiais, e os agressores rumaram à igreja, onde uma missa era celebrada.

Moradores da região disseram ter ouvido explosões e trocas de tiros.

Os militantes diziam ser do Estado Islâmico do Iraque, grupo sunita supostamente ligado à Al Qaeda.

Há relatos de que os agressores não eram iraquianos, mas árabes de países vizinhos.

Há cerca de 1,5 milhão de cristãos no Iraque. Muitas igrejas foram bombardeadas nos últimos anos, mas acredita-se que esta tenha sido a primeira vez que cristãos foram feitos reféns.

IMPASSE POLÍTICO

A segurança iraquiana é prejudicada pelo impasse político que domina o país desde as eleições gerais de março, que não tiveram um vencedor claro.

Neste domingo, a imprensa iraquiana noticiou que o bloco político Dawa, que representa parte da comunidade xiita do país, planeja recusar um convite do rei saudita Abdullah para conversas cujo objetivo seria ajudar na formação de um novo governo.

O partido, do atual premiê iraquiano Nuri al Maliki agradeceu a oferta de Abdullah, mas disse que o Iraque é capaz de resolver sozinho suas diferenças.

Comentário semelhante foi feito por Mahmoud Osman, representante dos curdos. Mas o bloco de maioria sunita, liderado pelo político secular Ayad Allawi, agradeceu a oferta saudita.

O presidente iraquiano, Jalal Talabani, a quem a oferta de Abdullah foi oficialmente dirigida, ainda não deu uma resposta formal.


Notícia da Reuters, na Folha.com .

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terça-feira, abril 06, 2010

Água no solo ameaça ruínas da Babilônia

Água no solo ameaça ruínas da Babilônia


Fundações da antiga metrópole mesopotâmica estão ruindo devido à construção de sistemas de irrigação na vizinhança

Projeto iniciado no ano passado está mapeando danos para propor um plano diretor para a cidade, que sofreu com Saddam e Bush


JOHN NOBLE WILFORD
DO "NEW YORK TIMES"

A ameaça mais imediata à preservação das ruínas da antiga e poderosa cidade mesopotâmica da Babilônia, no atual Iraque, é a água que está ensopando o solo e afetando as fundações do que restou da metrópole onde reinou Nabucodonosor 2º (634 a.C.-562 a.C.)
Ironicamente, também é uma das ameaças mais antigas. O próprio Nabucodonosor teve de lidar com problemas desse tipo há 2.600 anos. O descaso, reconstruções impensadas e os saques dos tempos de guerra também tiveram culpa na destruição em épocas recentes, mas arqueólogos e especialistas na preservação de relíquias culturais dizem que a prioridade é mesmo o lençol freático.
O projeto de pesquisa Futuro da Babilônia está monitorando os danos, associados principalmente com o rio Eufrates e sistemas de irrigação próximos deles. O chão está saturado de água pouco abaixo da superfície, em locais como o Portão de Ishtar (deusa mesopotâmica do amor e da guerra) e os célebres e já destruídos Jardins Suspensos. Os tijolos estão esfarelando, os templos despencam. A Torre de Babel, reduzida a escombros há muito, está cercada de grandes poças d'água.
O estudo, cujo objetivo é criar uma espécie de plano diretor para a antiga cidade, começou no ano passado, tocado pelo Fundo Mundial de Monumentos em colaboração com o Comitê Estatal de Antiguidades e Patrimônio do Iraque.
A Babilônia sofreu muito durante a história recente. Arqueólogos alemães, responsáveis pelo primeiro estudo cuidadoso do sítio antes da Primeira Guerra Mundial, notaram a ação destruidora de canais de irrigação alimentados por um afluente do Eufrates, 70 km ao sul da atual Bagdá.
McGuire Gibson, especialista em arqueologia da Mesopotâmia na Universidade de Chicago que não está envolvido no projeto, concorda que a água é o "grande problema" das ruínas. A coisa ficou pior nos últimos anos, quando um lago e um canal foram escavados como parte de uma campanha para atrair turistas. Segundo Gibson, Nabucodonosor enfrentou o problema construindo seus novos palácios em lugares cada vez mais altos, em cima de montículos formados por ruínas mais antigas.
Os alemães, liderados por Robert Koldewey, relataram danos profundos causados pela água nas estruturas feitas de adobe, bem como a invasão de campos agrícolas e vilarejos no perímetro da cidade original. Tijolos e pedras já tinham sido saqueados, deixando para trás quase nada da Torre de Babel. Já os próprios alemães levaram grande parte do Portão de Ishtar para um museu em Berlim.
Nos anos 1970 e 1980, Saddam Hussein, querendo se mostrar como herdeiro de Nabucodonosor, construiu seu próprio palácio na Babilônia. Ele chegou até a adotar a prática mesopotâmica de carimbar seu próprio nome nos tijolos das reconstruções. Os arqueólogos ficaram horrorizados. O novo palácio e algumas outras restaurações, dizem eles, não têm nada de autênticas, mas são o que mais aparece no sítio.
O que fazer com o palácio agora, no entanto, é outra história, diz Jeff Allen, codiretor do projeto. "O problema é equilibrar a integridade do sítio com seu uso como atração turística." Segundo ele, a demolição ou a conversão do palácio em centro de turismo custaria milhões de dólares.
"Eu deixaria o palácio como está", diz Gibson, lembrando que ele se baseia em rascunhos deixados pelos arqueólogos alemães. "Desse jeito, vai ser possível ver algo parecido com a arquitetura antiga. Do contrário, tudo o que as pessoas verão é um monte de entulho."

Cicatrizes de guerra
A ocupação americana a partir de 2003 trouxe mais estragos. Os saques viraram rotina. O Exército dos EUA ocupou o sítio, mas sua presença levou à movimentação de 1 km2 de solo, incluindo alguns artefatos.
As ruínas voltaram a ser controladas pelo governo iraquiano há mais de um ano. Embora o país tenha um bom contingente de arqueólogos, a prioridade atual é treinar pessoas especializadas em conservação de ruínas e trazer para o local engenheiros e hidrólogos para lidar com o problema da água.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 24 de março de 2010.

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sábado, julho 26, 2008

Papa diz a premiê iraquiano que cristãos precisam de proteção

Papa diz a premiê iraquiano que cristãos precisam de proteção


Por Philip Pullella


CASTEL GANDOLFO, Itália (Reuters) - O papa Bento 16 disse ao primeiro-ministro Nuri al-Maliki na sexta-feira que a minoria cristã no Iraque precisa de mais proteção, mas o líder iraquiano garantiu a ele que os cristãos não estão sendo perseguidos.


Maliki se reuniu com o papa por 20 minutos na residência de verão do pontífice, no sul de Roma. Ele convidou o papa para visitar o Iraque, dizendo que a viagem ajudaria no processo de paz e reconciliação.


"Nós renovamos nosso convite à Sua Santidade para visitar o Iraque. Ele ficou feliz com o convite. Esperamos que ele nos visite assim que puder", disse Maliki a repórteres depois da visita.


"Sua visita representaria apoio aos esforços de amor e paz no Iraque", acrescentou o premiê.


O papa João Paulo 2o queria visitar o Iraque no ano 2000, mas não recebeu permissão do governo de Saddam Hussein.


Maliki disse que ele e o papa também falaram sobre a situação da minoria cristã no Iraque, e o premiê pediu aos cristãos que deixaram o país devido à invasão norte-americana de 2003 que retornassem e ajudassem a reconstruir o Iraque.


"Também pedi à sua Santidade que encorajasse os cristãos que deixaram o país a retornar e voltar a ser parte da estrutura social do Iraque", disse.


Em um comunicado, o Vaticano disse que o diálogo inter-religioso é importante para o futuro do Iraque.


A minoria cristã iraquiana tenta se manter à distância da violência entre xiitas e sunitas, que matou dezenas de milhares de iraquianos desde 2003. Mesmo assim, igrejas e clérigos critãos são alvo de grupos militantes como a Al Qaeda.

Notícia do G1.


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domingo, junho 29, 2008

Cristãos iraquianos eram alvo de extorsão para financiar a resistência

Cristãos iraquianos eram alvo de extorsão para financiar a resistência

Andrew E. Kramer
Em Mosul, no Iraque


Conforme os sacerdotes fazem em toda parte, o arcebispo Paulos Faraj Rahho, líder dos católicos caldeus nesta antiga cidade, coletou doações na missa de domingo. Mas durante anos o dinheiro, uma pilha compacta de dinares iraquianos multicoloridos, foi parar nas mãos de um homem que ameaçava matar Rahho e toda a sua congregação.

"O que mais ele poderia fazer?", pergunta Ghazi Rahho, primo do arcebispo. "Ele tentou proteger os cristãos".

Mas, agora, oficiais militares norte-americanos dizem que à medida que a situação da segurança começou a melhorar no Iraque no ano passado, Rahho, 65, deixou de pagar o dinheiro para a proteção, uma pequena amostra da sombra assustadora de violência e perseguição que obrigou centenas de milhares de cristãos a fugir do Iraque. Segundo os militares, essa decisão pode ter sido o motivo pelo qual ele foi seqüestrado em fevereiro último.

Duas semanas depois, o corpo do sacerdote foi encontrado em uma cova rasa nas imediações de Mosul, a cidade bíblica de Níneve.

Rahho foi um dos cristãos iraquianos conhecidos que morreram na guerra.
A sua morte foi lamentada pelo presidente Bush e pelo papa Bento 16 antes que o seu papel como fornecedor de dinheiro para proteção pago pelos cristãos caldeus aos insurgentes fosse conhecido fora do Iraque.

Segundos os militares norte-americanos e os cristãos iraquianos, esses pagamentos chegaram ao ápice de 2005 a 2007, e tornaram-se uma fonte de financiamento para a resistência. Assim, esse dinheiro tornou-se uma complicação secreta, vergonhosa e extraordinária na vida dos cristãos iraquianos e os seus líderes - uma complicação sobre a qual só agora os cristãos falam mais abertamente, já que a violência está bem menor do que nos primeiros anos da guerra.

"As pessoas negam isso, dizem que é algo muito complexo, e ninguém na comunidade internacional faz algo a respeito", afirma Canon Andrew White, o vigário anglicano em Bagdá. "Para complicar ainda mais a questão, parte do dinheiro para proteção foi oriundo de doações de cristãos no exterior, enviadas com a intenção de ajudar os cristãos iraquianos".

Durante mais de 1.000 anos o norte do Iraque foi compartilhado por pessoas de crenças e rituais diferentes: turcomenos, curdos, iazidis, árabes sunitas e xiitas e cristãos assírios - dos quais os caldeus são a maior denominação (a Igreja Caldéia, que pratica os rituais orientais, faz parte da Igreja Católica Apostólica Romana, mas mantém os seus próprios costumes e liturgia).

Desde a época do profeta Maomé, o fundador do islamismo, os muçulmanos no Oriente Médio permitiram essa diversidade, em parte mediante o pagamento de uma taxa especial por parte de judeus e cristãos. A taxa chamava-se jizya - e foi este o nome escolhido pelos insurgentes para camuflar a extorsão, em estilo mafioso, praticada contra os cristãos.

As autoridades dizem que a exigência podia chegar a centenas de dólares mensais por indivíduo do sexo masculino. Em muitos casos, as famílias cristãs perderam a poupança de uma vida inteira e endividaram-se para pagar a quantia exigida. Os insurgentes também arrecadaram dinheiro por meio do seqüestro de padres. Os resgates, muitas vezes pagos pelas congregações, chegavam a até US$ 150 mil, segundo sacerdotes e leigos.

De forma paradoxal, esta cidade, há muito tempo o reduto da cristandade iraquiana, também ficou conhecida como o último reduto urbano dos insurgentes sunitas. Um outro paradoxo, mais doloroso, é o fato de que muitos dos 700 mil cristãos iraquianos que restaram pagaram para salvar as suas vidas, sabendo muito bem que o dinheiro seria usado para a obtenção de bombas e outras armas para matar outras pessoas.

Rahho era um homem de Deus que pregava a paz nos seus sermões.
Determinar como ele acabou desempenhando o papel de fornecedor de pagamentos aos insurgentes é algo complexo. Parte da resposta encontra-se na deterioração da política local do norte do Iraque sob a ocupação norte-americana.

O norte, com toda a sua diversidade étnica e religiosa, no início esteve calmo. Mas um ataque dos fuzileiros norte-americanos em 2004 contra Fallujah, no oeste de Bagdá, obrigou os líderes do grupo insurgente sunita Al Qaeda na Mesopotâmia a mudarem-se para o norte. A seguir a região mergulhou em uma carnificina aterrorizante. Os cristãos, vistos como aliados dos invasores norte-americanos, tornaram-se alvos de ataques retaliatórios. Notas com a inscrição "Mude-se ou morra" passaram a aparecer nas portas das casas. "Todas as vezes em que os países ocidentais fazem uma guerra no Oriente Médio, o conflito transforma-se em uma guerra religiosa", afirma Rosie Malek-Yonam, autora do livro "The Crimson Field" ("O Campo Rubro"), um romance histórico descrevendo o massacre, de 1914 a 1918, dos assírios durante a Primeira Guerra Mundial sob circunstâncias similares.

Malek-Yonan, que depôs sobre a questão da segurança dos cristãos no Iraque em uma audiência no Congresso dos Estados Unidos em 2006, acusou o exército norte-americano de não proteger os cristãos, por temer que uma atenção especial dispensada a essa minoria fosse capitalizada por propagandistas da resistência.

Em vez disso, a tarefa de proteger os bairros cristãos em Mosul e nas vilas da Planície de Níneve ficou a cargo da milícia curda Pesh Merga, e, mais tarde, de unidades do exército iraquiano dominadas por curdos.

Os curdos, porém, tinham a sua própria agenda: a expansão das fronteiras da sua região. Os curdos afirmam serem os donos de cinco distritos disputados na província de Níneve, incluindo dois que são historicamente cristãos.

Malek-Yonan e outros cristãos assírios e especialistas acusam os comandantes curdos de privar os cristãos de segurança, na tentativa de fazer com que a composição demográfica favorecesse os curdos. Segundo ela, o resultado esperado foi um êxodo de centenas de milhares de cristãos do país. Pelo menos centenas deles foram mortos. Um padre foi esquartejado e decapitado.

As autoridades curdas negam ter deixado de proteger os cristãos. "As forças iraquianas curdas em Mosul fazem o seu trabalho sem distinção entre seitas, religiões ou nacionalidades", afirma Mohammad Ihsan, ministro de Questões Extra-Regionais no Governo Regional do Curdistão.

No entanto, a população cristã do Iraque diminuiu de 1,3 milhão de habitantes no período anterior a guerra para os atuais 700 mil.

Aqueles que não emigraram enfrentaram um dilema moral terrível.

Aquilo que era chamado de jizya era coletado e pago por líderes judeus e cristãos aos insurgentes que atuavam na margem oeste do Rio Tigre.
Segundo Kanna, o parlamentar cristão, Rahho pagou o dinheiro em nome dos cristãos que moravam nos bairros orientais de Mosul. Ele foi uma escolha óbvia dos insurgentes por ter passado quase a vida inteira em Mosul e ser bem conhecido.

"Ele era o elo de ligação", resume Kanna.

O primo do arcebispo, Ghazi Rahho, caracterizou o papel do religioso como sendo menos importante, e enfatizou a questão de vida ou morte que fez com que ele escolhesse pagar para salvar a sua congregação. E certamente o arcebispo não era o único que pagava.

"Todos nós pagamos", confessa um padre cristão ortodoxo assírio, que pediu que o seu nome não fosse divulgado por temer uma retaliação dos insurgentes. "Tínhamos medo".

Segundo vários cristãos que pagavam, o dinheiro mudava de mãos discretamente, de acordo com um mecanismo simples.

Um homem se apresentou como Abu Huraitha, e que às vezes dizia representar a Al Qaeda na Mesopotâmia, fazia as ameaças por telefone, conta o padre assírio. "Ele dizia: 'Preciso do dinheiro, preciso do dinheiro. Se vocês não nos derem o dinheiro, nós os mataremos'", conta o padre. Quem levava o dinheiro, porém, era um cristão, um velho de olhos azuis, que passava nas igrejas para coletar os pacotes com as quantias exigidas. "O sujeito do telefone dizia: 'Se vocês não derem o dinheiro ao velho, morrerão'".

Ele conta que pagou dez milhões de dinares iraquianos, ou cerca de US$ 8.000, em um período de três anos, até o inverno passado, quando o exército dos Estados Unidos reforçou a sua guarnição em Mosul com o Terceiro Regimento de Cavalaria Blindada. As operações militares intensificaram-se na cidade. As unidades norte-americanas construíram fortalezas nos bairros e instalações de controle de tráfego que atrapalharam a movimentação dos insurgentes. O esquema de extorsão começou a desmoronar.

O padre assírio diz que durante os combates do inverno passado circulou o boato de que os norte-americanos mataram Abu Huaraitha. Muitos líderes de igrejas basearam-se na suposta morte desse contato para deixarem de pagar. Entre eles estava Rahho. Ele discursou na televisão em janeiro, denunciando os pagamentos e afirmando que esse dinheiro não deveria mais ser entregue aos insurgentes.

Um mês depois, em 29 de fevereiro, Rahho foi seqüestrado por homens armados após rezar na Catedral do Espírito Santo. Eles mataram o seu motorista e dois guarda-costas e colocaram o religioso no porta-malas de um carro. Na escuridão, ele conseguiu pegar o telefone celular e ligar para a sua igreja. Rahho implorou aos fiéis que não pagassem um resgate que financiaria a violência.

O tenente-coronel Eric R. Price, assessor das unidades do exército iraquiano no leste de Mosul, diz que Rahho, que era diabético, provavelmente morreu por falta de medicamento antes que a sua libertação pudesse ser negociada.

Ahmed Ali Ahmed, um árabe que as autoridades iraquianas identificaram como membro da Al Qaeda na Mesopotâmia, o grupo doméstico que segundo os serviços de inteligência norte-americanos é liderado por estrangeiros, foi capturado, julgado e condenado a morte pelo seqüestro, embora Kanna, o legislador cristão, afirme que ele foi apenas o executor do seqüestro, e que os mentores intelectuais estão impunes.

Na verdade, a igreja foi abordada para a discussão do resgate. A quantia exigida, e jamais paga, foi de US$ 1 milhão, e, depois, de US$ 2 milhões.

Tradução: UOL

Texto do The New York Times, publicado no UOL.

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sábado, março 22, 2008

Arcebispo de Mosul sequestrado e assassinado

Vi no saite da BBC, que o arcebispo da Igreja Católica Caldéia de Mosul foi sequestrado e foi encontrado morto(não ficou claro se o arcebispo morreu de causas naturais ou foi assassinado) no Iraque. O arcebisbo havia sido sequestrado no dia 29 de fevereiro, após dirigir um momento do oração na Igreja do Espírito Santo, em Mosul.

A notícia da BBC, de 13 de fevereiro passado, informa que o corpo foi encontrado em uma cova rasa próximo à cidade.

O Papa Bento XVI lamentou a morte do arcebispo, e o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, disse que os sequestradores não ficariam impunes. Os sequestradores que levaram o arcebispo assassinaram três pessoas que estavam com ele, seu motorista, e dois seguranças.

A Igreja Caldéia é uma igreja de rito oriental, cujo líder espiritual é o Patriarca Emmanuel III, que fica em Bagdá. Contudo a Igreja se submete à autoridade do Bispo de Roma, atualmente o Papa Bento XVI. O rito é em linguagem siríaca, derivada do aramaico. Havia 800.000 pessoas ligadas à igreja no tempo de Saddam. Atualmente, entre assassinados e expatriados, este número caiu para cerca de 550.000 .

Os sequestradores do Arcebispo não foram identificados, nem informaram pertencer a qualquer facção entre as existentes no Iraque.

Lamentável a morte do arcebispo.

Uma tragédia humana a redução do número de cristãos caldeus no Iraque ocupado.

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