quinta-feira, agosto 28, 2008

Liturgia da Morte

A liturgia da morte



SEUS OLHOS PROCURAVAM no rosto do médico uma resposta para a pergunta que ele fazia sem palavras. Mas o médico esquivava-se do seu olhar e virou o seu rosto para as radiografias presas no visor iluminado.
Na verdade, ele representava, fingia estar examinando as radiografias. Ele não precisava examiná-las porque sabia o que elas diziam. Ele olhava para as radiografias para fugir da pergunta que morava no olhar do homem assentado à sua frente.
Eram radiografias de um cérebro. Quando ele parasse de fingir e olhasse direto nos olhos do homem, ele teria de dar a notícia.
"Há um tumor maligno no seu cérebro", ele disse. É um tumor inoperável..." Depois de um longo silêncio, o homem lhe perguntou com voz tranqüila: "Quanto tempo me resta, doutor?".
"Não é possível dizer ao certo", respondeu o médico. "Mas penso que uns seis meses..."
O homem voltou-se para sua esposa assentada ao seu lado e lhe disse: "Chegou a hora de viver a liturgia da morte...".

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/ep.gif

Eu o conhecia. O seu nome era Alexander Schmemann, teólogo da Igreja Ortodoxa Russa. Essa igreja tem uma maneira peculiar de ver o mundo. As igrejas cristãs do Ocidente vêem o mundo como um vale de lágrimas colorido pela culpa e pelo medo. A Igreja Ortodoxa Russa vê o mundo como um espetáculo estético. Tudo é belo. Tudo é harmonioso. Deus é um esteta, um artista que vive para produzir a beleza. É a beleza que nos salva.
Essa harmonia cósmica, a Igreja a oferece aos homens por meio da liturgia. A liturgia é a beleza do universo oferecida aos sentidos: os carrilhões, o incenso, os cânticos, os vitrais e os gestos coreográficos. Participar da liturgia é unir-se ao universo e gozar da sua beleza, da mesma forma como um músico se une à sinfonia e goza da sua beleza ao tocar seu instrumento.
"Chegou a hora de viver a liturgia da morte..." Em outras palavras: chegou a hora de salvar a morte do seu horror para torná-la parte da beleza cósmica.
Há um parágrafo em "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera, que talvez nos ajude a entender esse mundo: "O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor com os temas da sua sonata. O homem, inconscientemente, compõe a sua vida segundo as leis da beleza, mesmo nos instantes do mais profundo desespero".
Deus é um esteta que ama a beleza. O homem é um esteta que ama a beleza: foi criado à imagem e semelhança de Deus. O homem, qualquer homem, sem o saber, compõe a sua vida como uma peça musical. O fim tem que ser belo, ainda que trágico.
No seu livro "O mito de Sísifo", Camus sugeriu que os suicidas preparam sua morte como uma obra de arte a ser contemplada. Como os samurais que, antes de praticar o seppuku, escreviam um hai-kai. Por que escrever um hai-kai? Para retirar o terror da morte pela magia da poesia.
Acho que esse é o desejo oculto de todas as pessoas: que a morte não seja o terror, mas uma nova namorada, como sugeriu o Vinícius...
Schmemann nunca explicou o sentido da liturgia da morte. Mas eu imagino que a liturgia da morte seria marcada pela purificação do tempo restante para que a beleza cresça à medida em que o acorde final se anuncia...

Texto de Rubem Alves, na Folha de São Paulo, de 19 de agosto de 2008.


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quinta-feira, julho 19, 2007

Desastre Aéreo

O jornal Correio do Povo (acesso ao sítio restrito a assinantes) de hoje fez um belo trabalho na cobertura do acidente aéreo do vôo JJ3054 da TAM, que vitimou algo próximo de 200 pessoas. Ele exibiu uma série de perfis sobre quem eram estes viajantes, e funcionários da empresa, que foram vítimas do acidente. Faz todo sentido, pois o avião partiu aqui de Porto Alegre. Entre as vítimas mais célebres, o ex-presidente do Internacional Paulo Rogério Amoretty, e o deputado federal Júlio Redecker, do PSDB, líder da minoria no Congresso. Mas havia muito mais gente. Estudantes, médicos, professores. No caso mais exasperante uma família inteira vitimada pelo desastre, pai, mãe e uma filhinha de 2 anos. É uma maneira de pessoalizar a tragédia, e nos tornar menos refratários a eventos dramáticos e que não fazem sentido.
Quando do desastre de setembro passado, quando o jato da Excel Air derrubou o boeing da Gol, o acidente me pareceu abstrato e longínquo. Foi um desastre no norte do país, num vôo que ligava uma cidade da Amazônia e São Paulo. Eu só caí da abstração quando um amigo me falou que havia um membro de uma grande comunidade cristã aqui de Porto Alegre entre os que morreram naquele acidente.
E um acidente assim nos toca mais do que vítimas da violência pois, de repente, uma centena de pessoas perdem a vida de uma hora para a outra. Em um momento 150 destinos são interrompidos. O sítio RioBodyCount contabiliza mais de 1000 vítimas da violência na Cidade Maravilhosa e região metropolitana, mas os homicídios vão ocorrendo aos poucos. Sempre dá para se refugiar no desejo que algo assim (a violência) nunca aconteça conosco. Uma tragédia que ceifa duas centenas de vidas nos expõe à nossa fragilidade de forma mais forte.
Vários chefes de estado enviaram condolências ao governo brasileiro por causa da tragédia.
Eu lamento muito que tenha ocorrido.

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Luto



Via Bodega Cultural...

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