domingo, março 01, 2009

Haverá lugar para os gatos no Reino dos Céus?



Haverá lugar para os gatos no Reino dos Céus?

Aparentemente sim, se você crer na Bíblia.

Esta pergunta vem a propósito de meu filho ter perdido recentemente uma pequena gata, que ele havia resgatado da "caixinha das doações" de uma "pet shop" meses atrás, a pequena Iracema. A morte de um animal de estimação é uma perda importante para quem o perde. E este não é o primeiro bicho que meu filho perde, embora eu não esteja certo das lembranças que ele tem de uma cachorrinha chamada "Lady", ou mesmo de meu cachorro, o Toquinho, que acabou por ser sacrificado após entrar em senilidade e declínio físico após uma longa vida (para um cachorro) de mais de 20 anos.

O livro do profeta Isaías, e na verdade só ele, fala de uma natureza redimida e integrada, em um futuro, onde Deus redimirá e restaurará a Terra. No capítulo 11, a partir do verso 6, está escrito "E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho do leão e a nedia ovelha viverão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas e seus filhos juntos se deitarão; e o leão comerá palha como o boi. E brincara a criança de peito sobre a toca do áspide, e o já desmamado meterá a sua mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o monte de minha santidade, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar." Esta profecia é parcialmente repetida no capítulo 65, verso 25 do mesmo livro.

Não fala aí em gatos, ou em cães, mas como aí estão, todos integrados, bois, ovelhas, leões, lobos, serpentes, não há porque pensar que não haveria lugar para cães e gatos.

E foi dito acima que esta profecia está apenas em Isaías. Desta maneira, de fato, só temos em Isaías. Mas no Novo Testamento, na Carta de Paulo aos Romanos, no capítulo 8, iniciando no verso 18 esta escrito "Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus, porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora, e não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo." Ora aqui está escrito que toda a criação ficou sujeita "à servidão da corrupção", o que vale dizer ficou sujeita à morte, e espera a redenção quando Deus se manifestar.

Ou seja, creio que haverá lugar para nossos bichinhos de estimação, quando vier o tempo.

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quinta-feira, janeiro 10, 2008

Ratzinger fala sobre o Inferno

Não tenho especial apreço pelo papa e pela instituição medieval mais longeva do mundo, a mais duradoura monarquia por direito divino. Mais do que isto: dirigida ao empíreo pelo próprio Deus. O preâmbulo é necessário ao dizer que li ontem no Corriere della Sera, o melhor diário em circulação (embora mirrada) no País, um texto assinado por Joseph Ratzinger em março de 1968. Faz parte de um livro recém-lançado na Itália pela Editora Rizzoli, intitulado Porque estamos ainda na Igreja. Reúne discursos e aulas do papa atual, pronunciados e ministradas ao longo de quarenta anos na Academia católica da Baviera. E agora confesso: trata-se de um texto magistral, na forma e no conteúdo. Tese central: o Inferno é a solidão. O homem teme a morte porque ela é o momento extremo da vida, aventura irremediavelmente solitária. Até na cruz, o próprio Jesus desce ao Hades, aos Ínferos, com seu grito de morte: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”. “Deus – escreve Ratzinger, – não é somente a palavra compreensível, ele é também a causa silenciada e inacessível, incompreendida e incompreensível”. E mais adiante: “Ao conhecermos Deus como silêncio, poderemos esperar ouvir a fala que emana do seu silêncio”.O teólogo não desdenha citar Sartre e Ernst Kasermann, na referência à “aparente ausência de Deus", revelada pela realidade terrena. E vem a pergunta: “Que é realmente a mortre e que acontece depois, quando alguém morre e entra portanto no destino da morte?”. E volta ao apelo desesperado de Cristo crucificado. “O núcleo mais profundo da sua paixão não é a dor física, e sim a radical solidão, o abandono completo”. O autor recomenda então dilatar o alcance da pergunta, para concluir: Inferno significa “uma solidão na qual não mais se ouve a palavra do amor, significa a verdadeira suspensão de existência”. De fato, algo é certo: “Há uma noite em cujo abandono não chega voz alguma”. Por isso um único vocábulo quer dizer ao mesmo tempo inferno e morte no Antigo Testamento: scheol. Enfim a palavra da esperança, que ao teólogo não poderia faltar: ao viver a morte como qualquer mortal, Cristo está “onde voz alguma pode alcançar”. No “coração da morte fica a vida, fica o amor”. Acho que crentes e não crentes haverão de concordar: o texto desvenda uma alma poética e um pensamento filosófico atilado.

Do blog do Mino Carta.

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