quarta-feira, dezembro 22, 2010

José

JOSÉ


Carlos Drummond de Andrade




E agora, José,
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou,
E agora, José?
E agora, você?
Você que é sem nome,
Que zomba dos outros,
Você que faz versos,
Que ama, protesta?
E agora, José?






Está sem mulher,
Está sem discurso,
Está sem carinho,
Já não pode beber,
Já não pode fumar,
Cuspir já não pode,
A noite esfriou,
O dia não veio,
O bonde não veio,
Não veio a utopia
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou,
E agora, José?



E agora, José?
Sua doce palavra,
Seu instante de febre,
Sua gula e jejum,
Sua biblioteca,
Sua lavra de ouro,
Seu terno de vidro,
sua incoerência,
Seu ódio – e agora?



Com a chave na mão
Quer abrir a porta,
Não existe porta;
Quer morrer no mar,
Mas o mar secou;
Quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?



Se você gritasse,
Se você gemesse,
Se você tocasse
A valsa vienense,
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse...
Mas você não morre,
Você é duro, José!



Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato,
Sem teogonia,
Sem parede nua
Para se encostar,
Sem cavalo preto
Que fuja a galope,
Você marcha, José!
José, para onde?





ANDRADE, Carlos Drummond de. José, Novos Poemas Fazendeiro do Ar. Rio de Janeiro: Record, 2003. p.123-125.


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terça-feira, julho 13, 2010

O Menino que Carregava Água na Peneira

Eu tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que o do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira,

com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviço, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos

Poema atribuído a Manoel de Barros, visto no blog do Luís Nassif.


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terça-feira, janeiro 26, 2010

Ela é linda!

Ela é Linda!



Como é linda essa moça!


Como é linda essa mulher!


E já penso isso há alguns anos.


Quando bati o olho, pensei: Como é linda essa menina!... mesmo com todas as espinhas adolescentes de então.


E ela é grande! Imensa. Um monumento!


E uma simpatia.


De maneira que quando ela passa, não caminha simplesmente. Desfila.


Às vezes me pergunto se outras mulheres não têm ímpetos de cortar os pulsos ao vê-la. De inveja...


Quando vejo este monumento passar, isto é, ela desfilar, meu dia fica melhor.


21/01/2010.

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quarta-feira, setembro 16, 2009

Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite

Marina Colasanti

Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.


O poema de Marina Colansanti, veio do blog do Luís Nassif.

Creio que para muitas destas mulheres que tinham entre 15 e 30 anos (ou mais) no final dos anos 1980 e início dos 1990 este príncipe encantado tinha a cara do ator Patrick Swayze, astro de Ritmo Quente ("Dirty Dancing" - 1987) e Ghost, do Outro Lado da Vida (1990).

Pessoalmente eu gostei bastante de Caçadores de Emoção ("Point Break" - 1991), que ele atua junto com Keanu Reeves.

O passamento do ator se deu nesta segunda-feira, dia 14. Há tempos ele lutava contra um câncer no pâncreas.

Ou como o recado que enviei para minha ex-esposa, "Ele morreu, mas eu (ainda) estou aqui.".


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segunda-feira, junho 16, 2008

Versinho Punk

Como diriam alguns, sobre a quadrinha do "post" anterior, dizer que acordei e fui ao banheiro ficou meio punk, mas, enfim, foi o que senti...

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sábado, maio 05, 2007

Das Definições (I)

O Beijo

Um segredo dito

À Boca

No lugar do ouvido


Germana Konrath
Dos Poemas nos Ônibus da Prefeitura de Porto Alegre

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terça-feira, março 20, 2007

Silêncio

Os seguintes versos vieram dos "poemas nos ônibus", de um coletivo da Companhia Carris.

"O silêncio não é a ausência
É a presença inconciliável de todas as palavras"
Marli Tasca

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