segunda-feira, agosto 30, 2010

Abel

“(...)

Sou um pobre de espírito. Passo horas temendo o abandono, o desprezo e a indiferença. Comparando meus pequenos sucessos com os mais infelizes do que eu. Ainda bem que eles existem. Rezo para que o mundo me ame. Em meus pesadelos sempre sou o último dos amados do mundo. Quando encontro alguém melhor do que eu, perco o sono, quero destruí-lo. Sua respiração me sufoca. Sua generosidade me humilha. Seu sorriso é uma prova de que fracassei em amar o mundo.

(...)

Entendo Caim em seu ódio por Abel. Ao contrário das bobagens que afirma Saramago em seu livro "Caim" -críticas típicas de quem nada entende acerca da tradição bíblica porque permaneceu infantil espiritualmente-, Caim não suportou o fato de que Abel era melhor do que ele e por isso o matou. Existe algum Abel aí ao seu lado?”

Trechos da coluna de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 16 de agosto de 2010.


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sexta-feira, outubro 09, 2009

No Sinai

No Sinai

QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna no dia 28 de setembro, caro leitor, eu estarei de jejum, na sinagoga. Hoje é o Dia do Perdão, data máxima do calendário judaico. O que significa o Dia do Perdão? Um bom ponto de partida para pensar em seu significado é a passagem da Bíblia hebraica quando os hebreus, ao pé do monte Sinai, aguardam o retorno de seu líder Moisés com as tábuas da Lei.
Mas nem tudo saiu como se esperava: Moisés atrasa seu retorno (fica 40 dias na montanha) e o povo perde a paciência. Quando volta, encontra os recém libertos da escravidão no Egito adorando um bezerro de ouro. Deus, irritado, mata a metade ali mesmo. A outra metade será condenada a vagar perdida pelo deserto do Sinai até que morram todos e seus filhos possam, enfim, entrar na terra prometida. E aí está o perdão.
Dirá o leitor irritado: "Mas onde?". Antes de tudo, caro leitor, tenha em mente que perdão e justiça não são a mesma coisa. O perdão é maior do que a justiça, ele cabe ali onde a justiça não seria suficiente. Você pode ser justo com alguma pessoa, sem perdoá-la.
Claro que muitos de nós, pessoas educadas, não acreditam que esta seja uma narrativa histórica, mas sim mítica. O que é um mito? Muita gente boa estudou isso: os psicólogos S. Freud e C.G. Jung, os historiadores das religiões M. Eliade, J. Campbell e K. Armstrong, e o filósofo E. Cassirer. Um modo minimamente correto de entender é pensar que o mito não descreve necessariamente um fato histórico, mas sim vivências humanas ancestrais que falam do significado da vida.
Pessoalmente prefiro ler textos bíblicos como narrativas literárias, além, é claro, de lê-los como livros sagrados, caso a leitura seja confessional, que não é meu caso aqui. Minha restrição a leitura psicologizante ou marxista de textos bíblicos é porque estas leituras pecam por ferir a própria "trama", a fim de reafirmar a teoria que usamos para lê-lo. Explico-me.
O crítico Anatol Rosenfeld escreveu um ensaio em sua coletânea "Texto e Contexto" (ed. Perspectiva) chamado "Psicologia Profunda e Crítica", no qual ele dá boas dicas do por que não abordar um texto literário reduzindo-o a excessos psicologizantes. Sua crítica cai sobre a tentativa de ler, por exemplo, Hamlet como mais um rapazinho que queria transar com a mãe e matar o próprio pai. Ou ler Santa Tereza d'Ávila em chave junguiana e ver em seus escritos místicos mais um processo de individuação.
Acho que no caso freudiano a redução é ainda pior porque o conceito de inconsciente coletivo em Jung preserva um drama maior nos personagens do que uma mera "historinha de uma menina esquisita e sua mania neurótica por Deus". E, por isso, ele sustenta a dramaticidade para além da "mera" sexualidade neurótica da menina.
Para Rosenfeld, não devemos psicologizar personagens porque, ao fazer isso, vamos a "Hamlet" apenas para reencontramos a teoria de Freud e assim perdemos "Hamlet" e ficamos apenas com seu "mesquinho" complexo de Édipo. O mesmo, digo eu, acontece quando lemos a Bíblia à cata de interpretações marxistas ou políticas: lemos a Bíblia para rever a luta de classes e a disputa política, e o drama específico narrado se perde, junto com a força de seus personagens.
Neste sentido, se não entendermos a relação entre o "personagem" Deus de Israel e os heróis bíblicos para além de reduções psicológicas ou políticas, perdemos a força do perdão dado no Sinai.
Deus não precisa perdoar ninguém porque Ele não precisa de ninguém. Este é o personagem. Quando o povo trai a aliança depois de tudo que Ele fez, Ele poderia simplesmente destruir tudo. Fosse Ele apenas justo, o sol pararia de brilhar. A ideia que Deus seja misericordioso nasce do fato que Ele nos criou e é paciente conosco sem precisar sê-lo. Daí a afirmação comum na Bíblia hebraica de que Ele carrega o mundo na palma de Sua mão enquanto nós somos uma sombra que passa.
O filósofo judeu A.I. Heschel (século 20) diz, num texto dedicado ao Dia do Perdão, que neste dia estamos de pé diante de Deus. O sentimento é de "pahad" (medo em hebraico). Devemos abaixar a cabeça e tremer, desnudando um coração que diante de Deus é sempre nu. Evidente que, além do temor, está em questão as grandes virtudes hebraicas, a gratidão, a coragem e a humildade. O pó em nós estremece diante da imensidão infinita que é Deus. Ao ouvir o coração disparado de medo, devemos escutar nele a alegria que é existir.

O texto é de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 28 de setembro de 2009.

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segunda-feira, agosto 31, 2009

Gás venenoso

Gás venenoso

Dias atrás , esperando um voo, ouvi uma expressão que sempre me soa idiota: "Passageiros da melhor idade".
Uso dessa lembrança para responder aos leitores que me escreveram (por conta da coluna do dia 29/06) um tanto revoltados com a dureza do meu tratamento do fenômeno loser (homens e mulheres fracassados na vida, envelhecidos, sem dinheiro, sem amor, sem chances) e de outro fenômeno, o otimismo para retardados. Muitos leitores questionavam meu "direito" de dizer coisas duras assim para as pessoas e que todos têm o "direito a ter esperanças".
A maioria da humanidade é loser. Tanto a arte, quanto seu oposto, a estatística, prova isso. Mas o que seria um programa de otimismo para retardados? Cuidado que você pode, de repente, tropeçar com ele na empresa ou na escola (que horror!), e provavelmente levado a cabo pelo departamento de recursos humanos ou por alguma pedagoga boba apaixonada pela felicidade como produto da educação.
Mas antes, reafirmo: somos todos losers, na medida em que, se tudo está dando certo hoje, a fragilidade da vida (traições, ódios, indiferença, crise financeira, morte) mostrará sua cara. Todavia, a maioria de nós vive isso de modo mais imediato: virtudes são raras, a covardia impera, as competências são escassas (sempre aparece alguém melhor do que você), a inveja corrói as relações, o mercado mata.
A própria paixão que a modernidade tem pela "velocidade" carrega em si o lado negro desta paixão: o risco da aceleração para o vazio é grande e o desejo de permanecer tendo sucesso no mundo contemporâneo tem a consistência de um gás venenoso. Por exemplo, na carreira profissional inventaram uma bobagem chamada "agregar valor a si mesmo" que significa basicamente: não repouse nunca, corra sempre. Ninguém consegue correr sempre, e a experiência humana do envelhecimento fala exatamente do contrário: a vida caminha para o repouso.
A tentativa de negar isso é a palhaçada do termo "melhor idade" para se referir aos idosos, que na realidade não têm valor algum no mundo porque poucos produzem e quase nenhum consome. "Agregar valor a si mesmo" e "melhor idade" são dois exemplos claros do programa de otimismo para retardados.
Faz parte desse programa outro exemplo: a ideia de que exista uma coisa chamada "direito a esperança" e que "respeitar" isso passe pelo perfil obrigatório de um colunista ou de um intelectual. Pelo contrário, quanto melhor for uma reflexão, menos comprometida ela deve ser com um programa de otimismo para retardados. O simples imperativo de associar pensamento à felicidade já é sequela deste programa.
Chamar a última fase da vida de "melhor idade" é um desrespeito ao idoso inteligente. A desvalorização do envelhecimento é consequência inevitável da inaptidão do idoso para responder às demandas do capital e da paixão idiota pela velocidade que falei acima. Sendo o idoso a "encarnação" do passado, e tendo sua experiência valor zero no mercado do mundo, é inevitável que ele sinta que não vale nada.
Contra os idosos hoje em dia há também o fato de que são muitos. Com o grande aumento da quantidade deles, fruto dos avanços da medicina (graças a Deus e às indústrias farmacêuticas, que espero continuem a ser criativas e a ter muito lucro), percebemos que a maioria dos idosos é banal e pouco sábia. Aliás, o efeito das grandes quantidades é sempre este: redução do valor como mercadoria, banalização do conteúdo. Quanto mais idoso existe, menos ele vale no mercado dos homens. Contradição dura esta, não? A vida longa é desejável, mas o resultado é o aumento do estoque de banalidade na forma deformada do corpo humano.
Outro fator a destruir o lugar do idoso no mundo contemporâneo é sua substituição por outros instrumentos de transmissão de conhecimento: internet, mídia, uma escola a cada esquina (mesmo que vagabunda). Esse fenômeno foi chamado de "morte do narrador": ninguém precisa do idoso para "narrar o mundo" e dar sentido a ele. O idoso é ultrapassado, não acompanha as mudanças, é lento, tende ao repouso. De lugar da produção de sentido (o narrador da vida), ele passa a ser o abismo da falta de sentido dela: envelhece, perde funções vitais, é um peso para os seus, ocupa espaço e é inútil.
Sofro com o fato tanto quanto os que "têm esperança". Respiro do mesmo gás. Morrerei do mesmo veneno.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 6 de julho de 2009.


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quarta-feira, junho 10, 2009

Luiz Felipe Pondé: Frankensteinianas

Frankensteinianas

FAÇAMOS hoje um exercício de ficção. Imaginemos que em 2080 teremos atingido um alto grau de técnicas preventivas de reprodução humana. Teremos separado a reprodução humana (artificial) do ato sexual (prazer). Aí surge nosso articulista imaginário, escrevendo em 2209 sobre este fato, já no passado. O objeto de seu artigo é o um livro de história, lançado em 2209, que narra a "velha" polêmica vivida em 2089. Vejamos.
"O livro "Pré-História da Reprodução Humana no Brasil", da historiadora Lia Ka, é uma boa chance para conhecermos a história dos biodireitos no Brasil. O foco são as polêmicas ao redor da lei que proibiu a reprodução humana não assistida (natural, como era chamada) no Brasil. Até então, confundia-se sexo com reprodução.
Em 2080, iniciou-se no Brasil a campanha conhecida como "direito por mais vida". A "Lei da Reprodução Sustentável", finalmente aprovada em 2089, tornou crime inafiançável a reprodução humana não assistida (ou reprodução ilegítima ou não sustentável, sinônimos na época).
Setores biorreacionários (termo comum para quem se opunha a lei) negavam as vantagens evidentes da reprodução programada, além de defenderem o absurdo que era a submissão das mulheres aquele horror das barrigas enormes.
Imagens de mulheres assim (as grávidas) é coisa do passado. Quem não tem horror a essas mulheres deformadas? O fato é que já em 2099 o índice de mulheres que ainda desejavam portar barrigas deformadas foi reduzido a 3,5% da população reprodutiva.
Quando os primeiros índices surgiram na China apontando para a superação definitiva da reprodução não assistida, os setores bioprogressistas se organizaram. O movimento por "mulheres-sem-barriga" e por "bebês biossaudáveis" ganharam espaço entre nós, até que conseguimos proibir qualquer geração fora dos limites dos laboratórios portadores do selo conhecido na época como "biosselo".
Uma segunda lei para reprodução sustentável foi aprovada meses depois estabelecendo os critérios para a geração de bebês dentro dos parâmetros de biolegitimidade. A conhecida Escala Feng de legitimação da vida foi aplicada ao Brasil. Em 20 anos, os índices de morte na infância despencaram 78,6%, provando definitivamente a eficácia da reprodução assistida. Foi gerada uma economia de recursos públicos, aplicados a área da saúde, da ordem de 27,5%. Esquemas de controle foram necessários para inviabilizar a reprodução ilegítima, sempre dentro dos limites da lei de qualidade de vida aprovada em 2080. Uma prática que foi largamente estimulada, e que se revelou benéfica para a população, foi o "disk mais vida" facilitando a identificação e neutralização de focos de reprodução ilegítima.
Em 2089, ainda era comum se questionar o dado evidente de que a reprodução ilegítima era um alto fator de poluição ambiental e social. Até 2075, os trabalhos de Schultz e Hua quantificando o conceito de poluição social (via a identificação dos índices Lox de inadequação sociofisiológica) ainda não eram aplicados no Brasil.
Estes trabalhos mediram, pela primeira vez em 2072, os índices de transtornos familiares, escolares, afetivos, intelectuais e profissionais devido a presença de fatores de inadequação sociofisiológica.
Especialmente interessante é o capítulo que aborda as controvérsias ao redor do conceito de embriões sustentáveis (safe babies) x embriões podres (naturais). Cerca de 50 anos foram necessários até a eliminação completa do mercado ilegal de reprodução de embriões humanos podres.
Hoje nos preparamos para novo salto na direção da total eliminação da reprodução humana não sustentável: cientistas suecos têm tido grande sucesso na assimilação de compostos de DNA de babuínos em embriões humanos.
Segundo pesquisas da Liga Zoe (dedicada aos biodireitos para o aumento da qualidade em reprodução), os "bebês compostos" (como estão sendo chamados) desenvolvem habilidades motoras e cognitivas mais eficazes do que "bebês não compostos" da ordem de 7,7 % no prazo de dois anos. A luta, agora, é para que todos os cidadãos tenham acesso aos embriões compostos." Voltemos a 2009. Qual a moral da história? A moral é que o "tipo" de bebê que você tem hoje nas mãos, um dia, poderá ser um bebê podre. A história "avança", e os conceitos de "doença" e "poluição" também. Você votaria nessa lei?

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 4 de maio de 2009. É viagem. Mas dá o que pensar.

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quarta-feira, maio 06, 2009

Tentações do Bem

As tentações do bem

UMA LEITORA muito especial (minha mulher!) me chamou atenção para o risco de que entendessem, a partir de minha coluna de 13 de abril, que eu desprezo o meio ambiente e me falou que seria bom eu esclarecer minha crítica. Como não sou bobo nem louco, obedeci a ela (quem quer problema com a mulher?!), e, portanto, hoje volto a alguns dos temas da semana passada.
Repito: são os vícios que nos humanizam, e não as virtudes. Por exemplo, uma leitora me dizia como "é bom acordar acabada depois de uma noite de vícios e sentir como ela é um nada". Essa me entendeu. Uma ressaca de álcool ou uma ressaca moral cura qualquer vaidade besta. Achar-se virtuoso é a marca essencial de todo bom canalha. Adoro almas pecadoras cheias de culpa. Os puros me acusam: você tem medo do homem evoluído! Respondo: sim, morro de medo.
Quem se acha agente de pureza tem minha natural antipatia. Muita gente cospe na cara da Igreja Católica e de religiosos em geral, acusando-os de hipócritas cheios de falsas virtudes. Hoje, a falsa virtude se espalha por rostos que exalam o mesmo mau cheiro da mentira moral de muitos dos bispos no passado.
Uma das coisas que mais chocou alguns leitores que provavelmente se acham puros foi a analogia entre proteger animais e os nazistas. Leiam "Liberal Fascism", de Jonah Goldberg, editora Doubleday, 2007 (uma referência possível entre outras). Voltarei a isso logo, tenham paciência.
É evidente que o fato de escovar os dentes de manhã (coisa que os nazistas deveriam fazer) não torna os praticantes de higiene bucal membros do partido. Tampouco ter pena dos pandinhas faz de alguém um nazista latente. A analogia se dá pelo "que" de superioridade moral que muitas dessas pessoas associam à preocupação com os ursos pandas, a natureza e o antitabagismo. Quem disser o contrário, mente. O mesmo tipo de mentira moral acompanha grande parte dos comedores de rúcula (dizem por aí que Hitler era vegetariano...). Não comer carne significaria um dado de pureza diante da baixaria sangrenta típica dos comedores de picanha. Bobagem. Muitos canalhas se sentem mal em churrascarias, detestam tabaco e conversam com plantas.
A correspondente de guerra Martha Guellhorn conta em seu livro "A Face da Guerra" (editora Objetiva, 2009), numa conversa com um refugiado polonês, que os nazistas, depois de mandar judeus para o inferno e poloneses para a escravidão, enviavam veterinários para cuidar da população de cães e gatos da região. Que sensibilidade ambiental, não?
A relação que o jornalista Goldberg descreve em seu interessante livro é conhecida de muitos: a preocupação com a natureza é fruto do romantismo (coisa em que os alemães dos séculos 18, 19 e 20 foram muito bons), raiz do nacional-socialismo (prestem atenção: "socialismo"!). O romantismo foi muito marcado pela ideia de que os humanos poluem a divindade da natureza. Adorar a natureza é coisa de neopagão bobo: câncer é tão natural quanto foquinhas. Isso não significa que matar focas a pauladas seja bonito, mas significa que esse papo de "deusa-natureza" é coisa de fanático. Para muitas viúvas do Che, "ser verde" é o "produto utopia" que resta.
Mas minha dúvida é a seguinte: qual o motor principal desse ódio aos "poluidores" da natureza? Não acredito que sejam as coitadas das foquinhas, mas sim a capacidade natural do ser humano de gostar de odiar outros seres humanos, principalmente se este ódio for justificado por alguma falsa virtude (amor aos animais, ódio aos fumantes, paixão pelas cenouras).
E, por fim, chegamos ao fantasma da eugenia (a busca de uma vida perfeita cheia de humanos saudáveis). A tese central de Goldberg é que o fascismo permanece em nosso horizonte cultural como um mercado invisível de eugenia silenciosa. Essa eugenia é nossa "tentação do bem". O paradigma de uma sociedade da "grande saúde" é típico dos totalitarismos. Belos corpos, comida balanceada (outra coisa cara aos nossos ancestrais nazistas: preocupação com a alimentação), ar sempre puro, pessoas que agregam saúde aos comportamentos cotidianos. Suspeito que muitos desses fascistas da saúde que andam por aí se sentiriam em casa em algumas das organizações nazistas preocupadas com o meio ambiente e com a saúde na Polônia em 1943.
E, para terminar, olhem que pérola: "Adoro ver essa demonstração de saúde ao meu redor", Adolph Hitler.

Texto de de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 20 de abril de 2009.


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segunda-feira, abril 06, 2009

Luiz Felipe Pondé: "Gran Torino"

”Gran Torino

CLINT EASTWOOD é o melhor cineasta dos EUA. Não vejo nenhum herdeiro de sua coragem. Quase todo mundo teme a opressiva esquerda cultural americana que faz de qualquer pessoa uma vaquinha de presépio. Eastwood é um herdeiro da narrativa trágica norte-americana: enquanto o homem enfrenta sozinho a vastidão do ódio e da indiferença, testemunha os detalhes da beleza solitária de alguns dos seus semelhantes.
A cultura contemporânea é vítima da mania de ver a si mesma como agente do "bem comum" e, neste movimento, acaba por repetir, a exaustão, a ideia de que o homem seja capaz de escapar do destino. Esta posição é presa de uma dedução falsa: (1) sou "progressista" (otimismo social), logo, (2) tenho coragem. A lengalenga politicamente correta, que só agrada aos amantes de clichês (o "outro" é bom, os gays são bons, mães solteiras são legais, a democracia é linda, o multiculturalismo é o Éden), estimula a covardia estética.
Qual destino? Nas palavras do personagem que Eastwood interpreta em "Gran Torino" (um carro modelo 1972, grande objeto de desejo no enredo do filme que carrega seu nome): "o mundo nunca foi justo". Afirmações como estas normalmente são entendidas, pelos amantes dos "clichês de presépio", como sendo contra a liberdade humana.
Nada mais ridículo, quando você está diante de um artista que rompe a ditadura da arte "progressista": Eastwood leva ao limite a consciência trágica de que o ser humano está enredado numa teia que o esmaga, mas nem por isso os valores humanos como coragem, amor, generosidade, valem menos, se você está disposto a enfrentar essa teia.
Esta é a máxima que escapa aos olhos cegos de medo de que, ao final, o homem seja uma paixão inútil. Seríamos nós uma sombra que se bate contra o vento que passa? Já nos "Os Imperdoáveis", Eastwood, relendo o faroeste (estilo estético que trata do mito americano da coragem que se bate com a fronteira do mundo), dizia que, afinal, a razão da transformação de um assassino (com um talento imbatível para matar) em um bom esposo e pai de família era a ausência do álcool.
Nada mais terrível, para uma cultura "de presépio", do que deduzir a diferença moral da presença ou não de uma mera substância química, ou seja, uma forma de materialismo miserável.
Em "Sobre Meninos e Lobos", ele marcará a diferença entre você ser ou não fraco: o personagem vivido por Tim Robbins é um fraco desde a infância, quando entra no carro dos pedófilos e permanece inseguro sempre, a ponto de escolher uma mulher que o entrega para a morte, enquanto o outro (vivido por Sean Penn), sempre acima de dramas comuns de consciência e que tem a filha assassinada, terá, ao final da trama, na sua deliciosa esposa, a reafirmação de seu valor como homem e pai de suas filhas.
Em "Menina de Ouro", Eastwood, ousadamente, descreve a "vida de uma santa" (a dedicada e generosa pugilista) destruída pela inveja e pelo azar: um golpe baixo a lança a tetraplegia e a eutanásia. Aqui ele toca o máximo da descrição de como o mundo esmaga a virtude e a beleza. Em "Gran Torino", Eastwood interpreta um velho herói da guerra da Coreia, morando entre asiáticos nos EUA. Gangues étnicas cortam o cotidiano do bairro decadente. Seus filhos são interesseiros e desinteressados pelo velho pai viúvo.
Os dois filhos da vizinha vietnamita serão seus parceiros na luta solitária contra a violência interna a comunidade asiática. Essa menina corajosa e esse menino tímido, mas resistente à violência, serão seus verdadeiros herdeiros. O velho herói percebe, sempre nos detalhes, a virtude de ambos e se põe ao lado deles. Eastwood é o velho "conservador" que se revela capaz de superar as "diferenças" em nome da resistência que esses adolescentes oferecem a violência de seus irmãos de sangue. Relendo as velhas cenas de duelos, Eastwood define a essência do heroi: quem quer verdadeiramente vencer o mal, não pode temer a morte. O filme supera o maniqueísmo bobo que a cultura barata da esquerda americana nos obriga a respirar. Para além da falsa oposição entre reacionários e progressistas, o cineasta aponta para o verdadeiro nó da condição humana, hoje e sempre: quem tem coragem de enfrentar o mundo sem ser parte do rebanho?
Ao final, o jovem vietnamita passeia com seu troféu: o Gran Torino, o símbolo da nostalgia de um tempo onde as pessoas sabiam que o destino é sempre imperdoável.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 20 de março de 2009.


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terça-feira, março 31, 2009

A escolha

A escolha

Escolheria minha filha, mesmo sabendo que meu ato implicou a morte de seres inocentes

TEMA DURO esse da menina estuprada em Pernambuco. O debate sobre aborto é difícil porque reúne forças sociais antagônicas. Os pró-aborto são tão duros quanto os católicos: é um diálogo de surdos. As crenças que alimentam a posição católica são nulas para os não-crentes.
Para os antiaborto, legalizar o aborto é legalizar uma forma de homicídio. Seria você menos radical se visse seu país tornar prática legítima um tipo de homicídio? Por outro lado, seria você menos radical se visse os religiosos te proibirem de se livrar de um problema (o feto) somente porque eles creem em algo que você não crê?
A violência dos pró-aborto vem da relação entre aborto e liberdade: proibir o aborto é tornar a mulher presa da mecânica reprodutiva. Sem precisar ir fundo na filosofia latente nessa posição, é evidente a negação da humanidade do feto nesse caso. O feto não seria mais do que um punhado de células.
Daí todo o infeliz debate acerca de uma definição "científica" da vida: os pró-aborto precisam se resguardar numa definição "científica" do que não seja humano (ou seja, desumanizar o feto) para não serem vistos como exterminadores de vítimas indefesas.
Do ponto de vista do Estado laico, legalizar o aborto pode ser visto apenas como um ato dentro do princípio político de tolerância, no qual o Estado "passa a bola" para o indivíduo e suas instâncias sociais: as pessoas que decidam, quem julgar "crime" não faça, quem não julgar "crime" que faça. Evidente que para os antiaborto, esse passo não é tolerante para com a vítima (o feto), que não tem voz ativa no processo. A própria ideia de crime de fato já desapareceu. De novo, seria como deixar ao assassino a decisão livre de matar ou não.
Outro fato que torna esse debate viciado é o preconceito contra a Igreja Católica, aliás, o único preconceito aceito pelos "inteligentes". Daí o desfile de expressões banais como "Inquisição", "Idade Média" ou "trevas". Puro senso comum. A igreja não é estúpida. Estúpido é quem pensa que ela o seja. Sua herança de 2.000 anos atesta a vida de uma instituição que soube atravessar séculos frequentando todas as trincheiras do mundo.
Para os pró-aborto, a máxima iluminista "O mundo só terá paz quando o último rei for enforcado nas tripas do último papa" continua sendo um princípio político. Infelizmente, grande parte dos estudos "científicos" sobre a Igreja Católica sofre do mesmo preconceito banal.
A identificação medíocre dela com mera instância de opressão vicia a reflexão, principalmente porque muitos desses estudiosos partilham da mesma máxima iluminista. Ao contrário, a igreja exerce hoje um (solitário) papel essencial como instituição que relativiza as obviedades modernas, entre elas o de nos lembrar da desumanização silenciosa do feto que opera no fundo dos argumentos pró-aborto.
Mas o caso da menina em Pernambuco tem dois agravantes: o suposto risco de vida da "mãe", uma menina de nove anos, e a violência sexual por parte do padrasto. Ambos tornam o aborto legítimo perante a lei. Aqui se agrava, aos meus olhos, o ruído de grande parte do debate.
Fosse minha filha a menina de nove anos, eu não pestanejaria, faria o aborto. A ideia de ela correr risco por culpa de um canalha me levaria a fúria. Entre perder minha filha e a eliminação de dois bebês "estranhos", optaria pela eliminação dos bebês. Não usaria eufemismos. Não pediria para que me considerassem um guerreiro da luz contra as trevas nem pediria palmas. Aceitaria a culpa como parte da escolha. Fosse eu o médico envolvido no procedimento, tampouco pestanejaria. Mas não veria aí a vitória da ciência contra a religião, mas uma dura decisão num campo de batalha: qual das vítimas deve morrer?
Para além da insensibilidade do bispo e das banalidades de quem se julga um agente da luz contra as trevas, acho essencial que alguém continue repetindo, mesmo sendo enxovalhado, que em meio às agonias dos seres humanos sempre existem vítimas silenciosas.
A história está cheia de exemplos de desumanização política e "científica" a serviço do extermínio.
Logo existirão cientistas que gritarão em favor do uso de fetos abortados em pesquisa. Por que o desperdício?
De minha parte, repito, escolheria minha filha, sabendo que meu ato implicou a morte de seres inocentes, mas a paixão por minha filha me impediria o luxo de ter princípios.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 23 de março de 2009.

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quinta-feira, novembro 13, 2008

Insônia

Insônia

CANSEI da filosofia. Essa é uma frase comum de se ouvir.
Denota um certo cansaço chique, quase blasé. No meu caso é uma mentira porque não sei fazer outra coisa além da filosofia. A opção pela filosofia não foi fruto de nenhuma virtude especial (afora a disciplina e o gosto da leitura), mas sim fruto da incapacidade de fazer qualquer outra coisa. Eu seria um médico preguiçoso.
Mas, por outro lado, essa frase descreve uma certa verdade. Explico-me: interessa-me mais falar com pessoas reais do que discutir "questões filosóficas".
Há uma certa impostura na filosofia pura. Quanto mais impura e suja, mais a filosofia me interessa. Quanto mais suja, mais precisa ela é. Suja como as pessoas. Isso não quer dizer que eu esteja interessado em filosofia como forma de fazer a vida melhor. Deixo isso para os charlatães da alma, que mentem por aí. Cuidado com eles, caro leitor.
Tampouco considero os seres humanos dignos em si mesmos. O pressuposto da dignidade "natural" do ser humano vale em guerras e misérias sociais (assim como uma ficção que combate a crueldade de que somos capazes), mas no pensamento tal pressuposto é infantil como a Cinderela. Muitas vezes somos apenas bestas banais. A paixão pela igualdade nos torna ridículos. Não somos todos iguais, alguns de nós são piores do que os outros.
Há algo no desespero comum que me comove. O medo nos humaniza, exatamente porque nos traz para perto da fraqueza que nos habita. Cansei do uso unicamente "profissional" da filosofia. Antes de mim, grandes filósofos disseram algo semelhante, por caminhos distintos: Montaigne, Pascal, Schopenhauer, Nietzsche, Cioran.
Muitas vezes penso que a literatura ou a crônica efêmera podem ser mais filosóficas do que a filosofia do "rigor". Por exemplo, o conhecimento exigido num comentário sobre, digamos, a segunda edição alemã da "Crítica da Razão Pura", de Kant, me parece excessivamente puro. Essencial, sem dúvida, na formação. Risco inevitável de cegueira sofisticada para o filósofo adulto.
Afinal de contas, a idéia de que possamos fundamentar a moral na razão sempre me pareceu uma brincadeira de crianças inteligentes. Ou de orgulhosos que tremem diante do fracasso da filosofia. A razão corre atrás da vida, mas nunca a alcança.
A mania da filosofia de salvar o mundo desde o século 18 é uma praga. Quando o pensamento se faz engenharia da vida, sempre fica idiota porque tem de mentir. Ou se transforma em assassino sistemático, como prova a história contemporânea.
Melhor tomar remédios, ir aos consultórios das psicólogas, ao confessionário ou aos centros espíritas e terreiros de candomblé. Há uma falta triste de bons sacerdotes.
E as ciências sociais, caro leitor? Essas foram parceiras irmãs de toda forma de violência ao longo do século 20 quando decidiram salvar o mundo. Sua objetividade já foi tão cruel quanto a fissura do átomo, a publicidade racista ou a fabricação de gazes letais pela química industrial. Seu olhar sobre as pessoas é inevitavelmente violento porque elas só vêm grandes quantidades. Sua pretensa santidade é sempre perigosa.
A cegueira das ciências sociais já foi objeto de reflexão por parte de sociólogos como Norbert Elias e Zygmunt Bauman. No Holocausto, o marketing e a sociologia tiveram um importante papel científico. Eles trabalharam na construção dos campos de concentração com sua precisão na análise dos comportamentos que geram medo e resignação.
Como diz a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís no seu maravilhoso livro "Contemplação Carinhosa da Angústia", hoje em dia todos querem agradar e salvar-nos: o professor, o metafísico, o artista, todos querem agradar. Como crianças, querem nossa atenção. Mas a criança quer atrair a atenção dos adultos porque no fundo sofre do terrível trauma da fragilidade de sua condição de criança. Devemos abraçar as crianças, mas não roubar o medo delas.
Aliás, a fragilidade das crianças deveria nos ensinar qual é nosso lugar no mundo. Somos obrigados a agir sem certezas, amar sem sermos sempre correspondidos, trabalhar sem justiça, responder sem saber as respostas. Enquanto elas dormem, ficamos acordados, atentos aos seus pesadelos. A contemplação de pesadelos é uma atividade insone. A boa filosofia é feita da mesma matéria da insônia.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 27 de outubro de 2008.


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quinta-feira, outubro 09, 2008

O gosto do pó

O Gosto do Pó

NÃO TENHO VOCAÇÃO para idealizar as coisas. Idealizar é pensar que o mundo é melhor do que parece. A idealização aumenta o já inevitável risco de fracassar na vida. Reconheço, caro leitor, que a incapacidade de idealizar pode se transformar numa doença mortal. O ceticismo, o cinismo, o niilismo, a melancolia, são formas possíveis dessa doença.
Muitos acreditam que sem utopias ou ideais a vida perde o sentido. Talvez tenham razão. Acho que não. Eu, desprovido de qualquer órgão para idealização, prefiro sempre a realidade à fantasia. Nunca tive qualquer esperança metafísica. Não acho que minha vida seja necessariamente melhor por isso. Uma das banalidades da sociedade moderna é confundir conhecimento com felicidade e sucesso. "A vida para a felicidade" é irmã gêmea da mediocridade.
Mas a mediocridade pode ser uma forma de sobreviver. Muitas vezes, não há muito mais do que isso como opção no cotidiano. Não acho que o conhecimento salve ninguém, mas ele nos ensina outras formas de olhar o mundo. Nós pensamos enquanto as aranhas tecem suas teias.
Habitamos em dois mundos: o externo e o interno. Do lado de fora, a ameaça vem do fato de sermos parte insignificante da cadeia alimentar. Portadores de um órgão que pensa e vê a beleza, sabemos que este órgão, gelatina cinzenta, é também alimento de muitos outros animais. Sejam eles gloriosos leões, sejam eles miseráveis vermes. Esse "excesso" de conhecimento é a ameaça que nos atormenta no mundo interno. Combatemos em duas frentes.
Na primeira, combatemos a violência do meio ambiente, onde animais devoram uns aos outros. Na segunda, combatemos a violência da alma, onde o medo se torna nosso irmão gêmeo. Esse "excesso" de conhecimento nos faz carregar nas costas, há infinitos milênios, a imagem de nosso próprio cadáver no espelho. À noite, quando dormimos, os fantasmas dessa alma, que sabe mais do que deve, nos visita.
Às vezes, na insônia, como diria Elias Canetti, ouvimos os ruídos do corpo e sentimos a fragilidade da vida que nos escapa. Certa feita, o escritor israelense Amóz Oz me disse, numa entrevista para a Folha, que tem o hábito de caminhar pelo deserto todas as manhãs. Esse hábito o ajuda a compreender melhor a condição humana.
Por quê? Amóz Oz tem em mente a antiga tradição religiosa de caminhar pelo deserto a fim de percebermos do que somos feitos: pó e cinzas. Grandes descobertas sobre si mesmo e sobre a vida são comuns nos relatos dessas caminhadas. Uma teologia forte nasce aí: na pobreza do pó.
Aliás, a ignorância com relação às grandes tradições religiosas é marca de um iluminismo estreito, característico da nossa formação em ciências humanas. Marx, Nietzsche e Freud, apesar de terem posto a teologia de joelhos, apresentam visões simplificadas da religião. Mesmo a literatura de auto-ajuda, esse grande engodo, bebe nesta experiência do deserto para construir suas fórmulas baratas de salvação.
Mas a consciência do deserto pode nos assaltar mesmo em meio a nossa vida cotidiana. Não é necessário irmos a Israel. O envelhecimento é um exemplo. O medo do envelhecimento mostra seus dentes todas as manhãs. Quando olho no espelho pela manhã, e vejo as marcas do tempo no rosto, sou visitado por este fantasma. Ou quando recebo o resultado infeliz de um exame de laboratório.
Hospitais e cemitérios são lugares excepcionais para fazermos filosofia. Imediatamente, é restabelecida, em minha alma, a consciência do punhado de pó que sou. A cada doença, o pó toma o lugar do corpo. Eis a agonia interna da alma se fazendo presente.
Uma das coisas mais difíceis de se pensar quando vivemos numa cultura excessivamente medrosa como a nossa, viciada na utopia do "humano eficaz", é que outros modos de vida já foram menos covardes. Isso nada tem a ver com "voltar ao passado". Faz parte de nossa cultura o auto-engano porque tememos que a tristeza nos torne menos eficientes.
Imperativos do tipo "seja jovem" excluem grande parte da experiência cotidiana. A imensa maioria das horas se passa entre a insegurança e o medo. Se o seu pai ou a sua mãe sonha em ser "jovem" como você, a fala escondida nesse desejo é: "você meu filho, você minha filha, não tem futuro". A coragem é necessária para sermos gente grande. A "propaganda da juventude" humilha a alma que tem, em sua boca, o gosto do pó todos os dias.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 6 de outubro de 2008.

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quarta-feira, setembro 10, 2008

Na escuridão

Na escuridão



SOU PROFESSOR , entro em sala todos os dias. Minha impressão básica é que o que falta muitas vezes na sala de aula é falarmos "a verdade". Apesar de ser um cético em quase tudo, acredito que há uma milagrosa relação entre o ser humano e "a verdade" quando ele percebe que ela é dita sem medo.
Uma grande traição feita aos mais jovens é atolá-los em "teorias a serviço da emancipação". Eu não quero emancipar ninguém porque para isso teria que mentir. Mentimos para sobreviver, isso é normal e civilizado, mas na sala de aula é uma traição.
Calma, caro leitor! Sei que "cada um é cada um". Uma afirmação forte como essa, "a verdade", pode me custar muitos amigos. Nunca mais jantares inteligentes. Hoje em dia você aprende no jardim da infância que "tudo é relativo", "a verdade" não existe, e todos os males do mundo são fruto do patriarcalismo e da Igreja Católica. Caricaturas ridículas da história são feitas a serviço da "liberdade"! Palavra já banal, quase idiota.
Existem também as palavras de ordem que devem ser ditas em meio às taças de vinho. Vejamos algumas delas: sou a favor do aborto, do casamento gay, da comercialização de fetos abortados (não! Essa ainda não é comum...) e não existe pecado. Qualquer coisa diferente, e de novo a ameaça: não te convido mais para jantar em casa. Não vou entrar no teor em si desses clichês e, falando sério, acho que há muito sofrimento verdadeiro nesses dramas humanos. Uma boa dose de auto-estima se faz necessária para não cairmos de joelhos diante desta "nova repressão". Toda fórmula para chegar à auto-estima é falsa, por isso resta-nos o sorriso da sorte ou da morte.
Quando falo "a verdade", me refiro a coisas mais simples do que debates filosóficos intermináveis sobre a natureza da verdade absoluta ou a existência de Deus. Refiro-me à luta cotidiana com nossa caótica condição humana e ainda termos que manter o bom humor e pagarmos as contas.
Refiro-me àquilo que gente como Ítalo Calvino chama de "dramas clássicos". O problema é que para ensinar isso, antes de tudo precisamos conhecer "isso" (coisa que vai ficando rara em meio ao blábláblá do relativismo cultural e da democracia no ensino). E pior, não podemos ter medo. Um dos dramas humilhantes do "otimismo moderno" é que para ser otimista temos que ser idiotas e negarmos os impasses assustadores da vida.
Explico-me: acho que os mais jovens agüentam ouvir "a verdade" mais do que professores de meia-idade. Esses professores já perceberam que a vida não é a bobagem das utopias de Maio de 68, tipo "sexo livre e é proibido proibir", mas se calam diante dessa dolorosa consciência. Às vezes por uma mera questão de salário. O pior é quando a resistência a isso se manifesta em meio à silenciosa melancolia da idade avançada. Na velhice não há festa e há muito silêncio.
Por exemplo, o ciúme do Otelo de Shakespeare. Todo homem é inseguro diante da mulher amada. É um tipo de maldição. Quando não é inseguro, é porque não ama. Se ela for muito bonita, muito simpática e "circular muito por ai", essa insegurança piora. Com isso não quero dizer que o homem deva "reprimir" a mulher para se sentir melhor, mesmo porque não adianta. Quero dizer que "papo cabeça" e "fórmulas de compromissos" não resolvem.
Em nossa época, a cama do casal virou uma frente de trabalho. É desgastante o fato de que devemos trabalhar "a relação" o tempo inteiro: nossos preconceitos, nossas inseguranças, nossos fracassos. O mercado de trabalho nos esgota, e o amor é uma trincheira. O imperativo da saúde total (psicológica, política e social) é uma praga que nos cobre como uma poeira invisível. Essa poeira nos sufoca, entrando pela boca. Explico-me: ou somos doentes ou somos ridículos, nunca saudáveis.
Outro exemplo, a infidelidade da Madame Bovary de Flaubert. Quem nunca viu a trágica figura da infeliz envelhecida que nos aborda com a segunda taça de vinho branco nas mãos? Ela que sonhava com uma vida cheia de paixões e acordou entre o tédio do cotidiano e a força cega do desejo destrutivo. Qualquer menina de 18 anos ouve isso e reconhece na infeliz Emma Bovary um risco possível: posso eu mesma virar uma Bovary, basta acreditar que a vida pode ser cheia de paixões!
A fronteira entre a paixão e o inferno é invisível. Os seres humanos reais caminham nessa tênue linha de sombra. Otelo, Bovary, você e eu, juntos, na escuridão.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 1º de setembro de 2008.

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