sexta-feira, dezembro 31, 2010

O silêncio

O silêncio



O VENTO FRIO, aos golpes, anunciava que o inverno estava se aproximando. Nuvens cinzentas cobriam os Alpes, navios que navegavam velozes. Era um velho mosteiro de freiras que praticavam o silêncio, costume abençoado que libertava as pessoas da obrigação de conversar com os vizinhos às mesas de refeições. Conversar por delicadeza quando não se quer falar e não se tem sobre o que falar é uma maldição.
Hóspede naquele mosteiro, eu deveria obedecer aos horários e participar dos eventos. Fui, então, informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 6 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci. Tenho horror a sermões. Mas me conformei.
O santuário era um velho celeiro de madeira hexagonal, muito grande e escuro, sem janelas. Os arquitetos, para por luz nas sombras, abriram buracos nas paredes de madeira, cobrindo-os com vidros coloridos. A luz do sol, entrando pelos orifícios e atravessando os vidros coloridos, faziam desenhos no espaço vazio, desenhos que se deslocavam à medida em que o sol caminhava pelo céu.
Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo, ao estilo da arte bizantina.
Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio.
Cheguei pontualmente. Havia umas poucas pessoas. Os mosteiros não são lugares que atraiam turistas. Fiquei à espera do início da liturgia, que deveria iniciar-se suiçamente ao repicar dos sinos às 6 da manhã. Os sinos repicaram, mas a liturgia não começou.
Como nada acontecia, nenhuma reza, nenhum hino, nenhuma leitura bíblica, pus-me a examinar o espaço e as luzes que se entrecruzavam. O exercício de simplesmente ver tem o efeito de fazer parar o pensamento. Tornamo-nos só olhos. Alberto Caeiro já dizia que "pensar é estar doente dos olhos..." Os pensamentos, produtos internos da cabeça, são perturbações que distorcem a pureza da visão.
Aí, ao misticismo do ver seguiu-se o misticismo do ouvir. O vento descia furioso das montanhas, em golpes, lufadas que torciam a estrutura de madeira, provocando aqueles ruídos típicos de navios à vela batidos pelo vento.
Ao lado do santuário havia uma plantação de macieiras nuas -o vento havia arrancado suas folhas todas e somente seus galhos pelados ficaram. Quando o vento sacudia a galharia era como se houvesse um mar enraivecido quebrando ondas. Aí os sons e as cores começaram a invocar poemas ancestrais.
"E a terra era um abismo sem forma e o vento de Deus soprava violentamente sobre a superfície das águas... E disse Deus: "Haja luz...'"
E aí meus pensamentos foram possuídos pela poesia.
Mas e a liturgia? Só depois de 20 minutos é que eu percebi que tudo já se iniciara 20 minutos antes. A liturgia era o silêncio.
FIM


Rubem Alves, na Folha de São Paulo, 28/12/2010

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quarta-feira, dezembro 22, 2010

A tirania da contingência

A tirania da contingência


SEMPRE QUE acontece uma tragédia nas nossas vidas -um fracasso amoroso, uma doença súbita, a perda de alguém que amamos- a velha pergunta regressa para nos assombrar: "Por que eu?" "Por que a mim?".
A pergunta certa não é essa, naturalmente. A pergunta certa seria: "E por que não eu?", "E por que não a mim?".
Mas a nossa "forma mentis" está programada para recusar "a tirania da contingência", para usar a expressão primorosa do narrador de Philip Roth no seu último romance, "Nemesis" (Jonathan Cape, 280 págs.). Aceitar a "tirania da contingência", tema fulcral das obras tardias de Roth, seria destruir a crença basilar da nossa civilização racionalista: a de que tudo depende dos nossos esforços racionais rumo a um fim perfeito. E racional.
Essa crença é cultivada por Bucky Cantor, o personagem central de "Nemesis". Bucky começou mal na vida: a mãe morreu no parto; o pai apodreceu no cárcere. Bucky foi educado pelos avós. Melhor: pelo avô, que incutiu nele uma inabalável crença nas suas forças e capacidades.
O resultado não poderia ser mais brilhante: física e mentalmente forte, Bucky é um Super-Homem em Newark, o território eletivo de Roth.
Claro que, para sermos rigorosos, a "tirania da contingência" sempre esteve presente na vida de Bucky.
Perder a mãe e o pai, mas ter avós disponíveis para uma educação de excelência, não é para qualquer um. É, digamos, uma "sorte". A "contingência" não significa necessariamente um mal; a contingência significa apenas que existe uma margem de imponderabilidade nas condutas humanas onde o mal e o bem acontecem.
E acontece com Bucky. Depois de ter sido salvo pelos avós na infância, Bucky será novamente salvo. Dessa vez, salvo na juventude e uma vez mais por um infortúnio pessoal.
A Segunda Guerra Mundial rebenta para os Estados Unidos depois de Pearl Harbor. Mas Bucky não marcha para o Pacífico como os rapazes da sua idade. Uma visão deficiente e um excesso de dioptrias obrigam-no a ficar em casa. Um destino que Bucky aceita, resignado, embora com um sentimento de culpa que já denuncia a sua incapacidade para aceitar que nem tudo obedece à nossa exclusiva vontade. Pela segunda vez, Bucky é salvo pela "tirania da contingência".
Não haverá terceira vez. Porque, se Bucky não foi à guerra, a guerra vem até ele. Não uma guerra tangível, feita de armas ou bombas; mas uma guerra imaterial, silenciosa e pestífera.
Estamos em 1944 e Newark estremece com uma epidemia de poliomielite. Falar da pólio, hoje, é o mesmo que falar de um dinossauro: uma doença de museu, não mais, depois da descoberta da vacina na década de 50.
Mas a pólio não era uma doença de museu em 1944. Era um vírus furtivo que roubava vidas e destroçava infâncias com violência inaudita.
Philip Roth é primoroso na descrição dessa peste: na descrição do medo que contamina a comunidade; do pânico que se apodera dela; da morte que se abate sobre os mais frágeis; da raiva que é cultivada pelas famílias enlutadas; e, sobretudo, da impotência dos homens para travar um castigo de Deus.
Pelo menos, Bucky acredita que sim. Faz parte da mentalidade racionalista atribuir ao divino a natureza do imponderável. Só um Deus louco, injusto e cruel pode enviar um castigo tão louco, tão injusto e tão cruel.
Mas é justificativa que dura pouco. A educação de Bucky conspira contra ele e a sua consciência exige um culpado mais terreno, mais humano. A pólio pode vir do patrão lá de cima. Mas é preciso alguém que a transporte e dissemine cá por baixo.
Esse alguém só pode ser Bucky, professor de ginástica que convive diariamente com os rapazes. E que, ao vê-los tombar, um por um, como soldados numa batalha invisível, assume em si a responsabilidade do massacre.
Lendo "Nemesis", narrativa magistral de um Roth crepuscular, entendemos como a contingência só é destrutiva quando existe em nós "um sentido deslocado de responsabilidade", para usar as sábias palavras do médico da história.
Ou, trocando em miúdos, só somos verdadeiramente destruídos por aquilo que não controlamos quando alimentamos em nós a ilusão de que tudo controlamos.
Agora que 2010 caminha para o fim, está encontrado o livro do ano.

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terça-feira, novembro 30, 2010

Hans Hoekendijk

Hans Hoekendijk

SEU NOME ERA Hans Hoekendijk que se pronuncia "rukendaik". Teria, aproximadamente, 60 anos. Com uma vasta cabeleira de cabelos grisalhos abundantes, seu rosto inspirava tranquilidade, seus olhos azuis eram tristes, sua voz em sussurro revelava mansidão e o cachimbo era, talvez, seu amigo mais íntimo.
 
De um cachimbo pode-se dizer "meu cachimbo". Mas nunca dizer "o meu cigarro". Lembrando-me dele tenho saudades do tempo em que eu fumava cachimbo. O cachimbo é uma amizade fiel e vagarosa. Ele era meu colega na instituição em que ensinávamos. Holandês, lutara na resistência contra os alemães durante a Segunda Guerra Mundial e estivera preso num campo de concentração nazista. Reuníamos-nos à sua volta para ouvir suas histórias.
 
Essa foi a que mais me impressionou. "Tínhamos um rádio clandestino", ele falou. "De noite acompanhávamos as notícias do "front" de batalha. As forças aliadas haviam desembarcado na Normandia e avançavam rapidamente na direção do campo em que estávamos presos. Fazíamos os cálculos. Avançando naquele ritmo dentro de poucos dias estaríamos livres!
 

Foi quando o comandante do campo nos reuniu a todos no pátio. "Sei que todos estão se alegrando, pensando que dentro de poucos dias estarão livres. Estão enganados. Antes que cheguem as tropas todos vocês serão enforcados!'"
 
Ele fez uma pausa no seu relato, comprimiu o fumo de seu cachimbo, deu umas baforadas perfumadas -a fumaça fazendo suas espirais-, e, então, continuou: "Um grito de horror saiu da boca de todos. Tão próxima a liberdade e tão longe."
 

"Aí", ele continuou, "passada a experiência de medo e horror, eu tive a maior experiência de liberdade de toda a minha vida. Se vou morrer dentro de dois dias e não há nada que eu possa fazer para evitar a morte, eu sou completamente livre para fazer e dizer o que quiser pois nada pior que a morte poderá me acontecer.
 
O medo se foi... Olhei então para aquele guarda alemão, metralhadora a tiracolo, bruto e sem compaixão, que sempre me amedrontara. Agora eu posso ir até ele e dizer tudo o que penso e sinto a seu respeito. Que me pode fazer? Dar-me uma rajada de metralhadora? Melhor morrer assim que morrer enforcado.
E aquela mulher -eu sempre a amei de longe, só com meus olhos. Ah! Os olhos... Os prisioneiros também amam e sonham... Eu nunca havia me aproximado dela. Ela era casada. Mas, agora, nós três -eu, ela e o marido- tínhamos um mesmo destino. Iríamos morrer. Senti que podia me aproximar dela e, na presença do marido, confessar meus sentimentos.
 
Não, não se tratava de um convite à infidelidade. Diante da morte a infidelidade não existe. Era apenas uma revelação de amor. E nos abraçamos..."
 
Ele se calou, limpou o cachimbo, enfiou-o no bolso, ficou mudo por alguns segundos e então terminou seu relato. "Mas aí nós não fomos enforcados. As tropas aliadas nos libertaram. Voltei, então, à vida normal, voltei a ter medo e perdi minha liberdade..."


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terça-feira, outubro 19, 2010

Kazantzakis e Deus

Durante toda a sua vida, o autor grego Nikos Kazantzakis (Zorba, A Ultima Tentação de Cristo) foi um homem absolutamente coerente. Embora abordasse temas religiosos em muitos de seus livros – como uma excelente biografia de São Francisco de Assis – sempre considerou a si mesmo como um ateu convicto. Pois é deste ateu convicto, uma das mais belas definições de Deus que eu conheço:

“Nos olhamos com perplexidade a parte mais alta da espiral de força que governa o Universo. E a chamamos de Deus. Poderíamos dar qualquer outro nome: Abismo, Mistério, Escuridão Absoluta, Luz Total, Matéria, Espírito, Suprema Esperança, Supremo Desespero, Silêncio. Mas nós a chamamos de Deus, porque só este nome – por razões misteriosas – é capaz de sacudir com vigor o nosso coração. E, não resta dúvida, esta sacudida é absolutamente indispensável para permitir o contacto com as emoções básicas do ser humano, que sempre estão além de qualquer explicação ou lógica.”


Do blog do Paulo Coelho.

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segunda-feira, agosto 30, 2010

Ipês amarelos

Os ipês-amarelos

Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: "E quem é Rubem Alves?". Um menininho respondeu: "O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos...". A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.
Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores... Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Gosto também de banho de cachoeira (no verão...), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme "Moça com Brinco de Pérola"), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.
Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.
Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: "Rosa de água com escamas de cristal...".
Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.
Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas. O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.
Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.
Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui... Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos...

Texto de Rubem Alves, na Folha de São Paulo, de 24 de agosto de 2010.

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Abel

“(...)

Sou um pobre de espírito. Passo horas temendo o abandono, o desprezo e a indiferença. Comparando meus pequenos sucessos com os mais infelizes do que eu. Ainda bem que eles existem. Rezo para que o mundo me ame. Em meus pesadelos sempre sou o último dos amados do mundo. Quando encontro alguém melhor do que eu, perco o sono, quero destruí-lo. Sua respiração me sufoca. Sua generosidade me humilha. Seu sorriso é uma prova de que fracassei em amar o mundo.

(...)

Entendo Caim em seu ódio por Abel. Ao contrário das bobagens que afirma Saramago em seu livro "Caim" -críticas típicas de quem nada entende acerca da tradição bíblica porque permaneceu infantil espiritualmente-, Caim não suportou o fato de que Abel era melhor do que ele e por isso o matou. Existe algum Abel aí ao seu lado?”

Trechos da coluna de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 16 de agosto de 2010.


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quinta-feira, março 18, 2010

Sobre Avatar

Eu não ia nem assistir Avatar. Eu não me interesso muito por filme de fantasia. E nem me interessava por ficção científica. Cada vez me interesso mais. A nossa sociedade foi ficando tão boba e os anseios ocidentais são tão idiotas que só filmes desse tipo dão conta de retratar toda a estupidez do imaginário. Eu gostei demais de Avatar, esse é o ponto. Primeiro por conta desse negócio de fazer o avatar dos nativos. E toda essa construção que a gente tem de diferença eigualdade através do corpo. É sempre a partir disso que vamos montando o nosso quadro de afinidades. E aí pra ser na'vi você tem que ser azul. E depois, no final, aquilo de tentar levar acientista e o Jake pro corpo dos na'vi pra sempre e tal. Veja que eu pensei mesmo que Shrek e mesmo A Bela e a Fera eram um marco da superação do corpo. E volta esse resgate todo e tals. Eu gosto muito disso, de olhar pra isso. Mas o melhor do filme, pra mim, foi constatado a partir de um comentário do meu irmão. Que assistiu comigo. Quando avisam os na'vi que os americanos vão invadir. E eles não temem o suficiente. Meu irmão disse "esses na'vi são uns tontos, eles tem que fugir". E eu acho que esse é o xis da gaita de todos esses filmes a respeito daeliminação sistemática do Outro. É que o Outro nunca tem a menor ideia. Do tamanho da maldade na nossa cultura. O quanto somos capazes de ser maus e de não ter escrúpulo. Acho que a gente relativiza tanto pra dar conta mesmo. Da nossa flexibilização moral. Que é quase infinita. E então ninguém é tonto. Nem na'vi nem Incas nem ninguém. Eles apenas não conseguiram imaginar o tamanho do Mal. Porque é realmente uma construção social muito bem engendrada, a nossa maldade. Ela não é da natureza humana. Nós tivemos um trabalho imenso para construí-la e isso nos tornou imbatíveis mesmo. Todos os confrontos com o Ocidente simulam algum tipo de combate inteligível, né? Então temos os EUA fazendo isso e o Iraque respondendo com aquilo. Uma coisa assim. E de repente. Degringola. Todo mundo se lembra da primeira noite de ataque dos EUA ao Iraque. Aquilo que põe fim a qualquer tentativa de interação etc. É avassalador. E com tudo é assim. A empresa vai lá e conversa com a aldeia de pescador. E o líder dos pescadores fala isso, o porta-voz da empresa fala aquilo. E aí panz. Num belo dia são tratores e motosseras passando por cima. E eu acho que é isso que mais incomoda todo mundo por aqui. A gente sabe que toda negociação, todo diálogo é uma ilusão. E aí aquelechefe dos fuzileiros no filme. Impaciente com a simulação. E ele fica num papel de vilão, mas na verdade é o herói. Porque todo mundo ali conhecia o desfecho e só ele tratava com transparência. Então eu gostei muito de toda essa construção no filme. Que a gente já sabe o desfecho e assiste ele ser adiado e tals. Como todo mundo, eu acho que o final não deveria ter sido feliz. E embora eu ache que ainda é recorrente, discordo demais do "amor pela natureza"como alternativa para a maldade. Parece ser a única que encontramos. E então o final é sempre pobre. Se eu acho que a eliminação do Outro pelo ocidente deve ser ainda discutida, considero que precisamos de outras alternativas para o incômodo. E eu não tenho ideia de qual seria. Os dois focos de resistência "humana"* também me agradaram. A cientista pelo motivo óbvio. Oirmão da Phoebe chega a verbalizar. Essa merda paga a sua ciência. E isso é um ponto. Porque essa ideologia de combate à maldade através da natureza, acaba combatendo a própria ciência. A gente sabe que a ciência é o maior pilar do capitalismo e não é possível que ela seja usada para outros fins que não o da eliminação dos obstáculos para o capital. Introdução ao marxismo de boteco, eu sei. Mas é a pura verdade. O Jake porque os motivos dele são todos extremamente individuais. Primeiro ele quer andar. Depois ele se apaixona por uma na'vi. O único papel que vale a pena é o da moça que pilota o helicóptero. Ela seria a única antissistêmica. E veja que ela não fez papagaiada de vestir avatar azul nem nada. Ela apenas se opôs e tal. Como a gente pensa que faz. Nós pensamos que essa lógica da maldade acontece fora da gente e tal. Enfim. Eu gostei do filme por esses motivos. E por aqueles outros. Eu gostei da rede em que eles dormem. E dos troncos da floresta. Achei bonito.

*Na verdade, humanos norte-americanos.

Origem: A Feminista.

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terça-feira, março 16, 2010

Este blog não é um necrológio...

Este blog não é um necrológio...


...Apesar de ficar parecendo, eu reconheço. Reconheço porque, como dono do blog, não pude deixar de perceber que enfileirei quatro “posts” sobre mortes.


Para reafirmar que este blog não é um necrológio, vou tentar explicar os motivos destes “posts” enfileirados relacionados à morte.


O primeiro, sobre um clérigo muçulmano sunita, é sobre a presença de importantes lideranças muçulmanas que não são intolerantes. Segundo a notícia, este homem declarara que determinada veste imposta às mulheres muçulmanas era uma tradição, não uma regra doutrinária; o terrorismo é contra o islamismo; a excisão do clitóris de meninas não era coisa aprovada por ele; e ele também foi capaz de apertar a mão de um dirigente do estado de Israel. Era uma notícia sobre a morte do imame, mas o importante eram suas posições equilibradas a respeito da ética muçulmana.


O segundo “post”, sobre a morte de “seu” Alfredo, é sobre morte, mas, na verdade, foi uma expressão do meu sentimento de luto quando soube da notícia.


O terceiro, sobre a morte de ator Peter Graves, é relacionado com as memórias da minha infância. Como eu disse, muitas vezes vi episódios da série Missão Impossível. Minha irmã era uma fã, e eu via junto com ela.


Por fim, quando comento sobre o assassinato do cartunista Glauco, estou expressando minha perplexidade pela violência que pode irromper no nossa dia a dia, e brutalmente ceifar uma vida, assim, de repente.


Depois de refletir sobre tudo isso, não estou certo que eu tenha convencido a mim mesmo que este blog não é um necrológio. Mas há coisas subjacentes ao necrológio: ética da religião, luto, memória, violência. Todos estes “posts” são manifestação de certa perplexidade diante da fragilidade da vida.



16/03/2010


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terça-feira, janeiro 26, 2010

Paz na Terra

Paz na Terra

ENCONTRO COM antigo colega do seminário, hoje padre, na porta da igreja. Eu esperava uma filha, e ele esperava a hora de fazer sua prédica sobre o mês de maio. Havia uma chuva miúda, o vento saía do túnel novo e varria as duas avenidas que vomitam automóveis vindos da cidade, em busca de Copacabana.
Lá dentro, na igreja, há calor e beatas. Alguém reza em voz alta, mas as buzinas dos carros soam mais fortes.
-Milagre?
-Não. Espero alguém.
Ele faz cara compreensiva, embora compreendendo outra coisa.
-Como vai essa ovelha tresmalhada?
-Já não sou tresmalhado, nem sequer sou ovelha.
-Isso depende de você. Olha, mais dia menos dia, você não aguenta mais.
Mudo de assunto:
-E o papa?
Há um brilho comovido nos olhos do padre.
-Você gosta dele?
A pergunta parece sem sentido, era claro, não tinha nada contra o papa.
-Pois olha, é um homem admirável.
E começa a falar. Do papa, descemos aos cardeais, depois aos bispos. Deu-me notícias que o nosso dom Jorge Marcos de Oliveira continuava o mesmo "Turcão" que conhecemos no seminário. Isso significa muita coisa de ternura e admiração.
"Turcão" era o camarada mais inteligente do seminário e do mundo. Bispo em Santo André, já falecido, tornou-se notável pelo seu zelo e pela sua competência pastoral. Vítima do noticiário dos jornais, dom Jorge muitas vezes foi apresentado como "moderno" demais, amigo demais dos trabalhadores. Esse "moderno" é justamente o "Turcão" do seminário.
Mas a sineta toca lá dentro e o padre entra.
-Vou falar sobre o mês de Maria. Na saída, voltamos a conversar.
-Posso ouvir?
-Não. Não aconselho. Vá esperar seu alguém.
O padre entra e eu vou atrás. Sento no banco mais escuro e triste. Beatas por todos os lados, lá no canto um homem idoso e curvado tosse com estrondo.
Acendem-se as luzes e o padre entra.
-Meus amigos, ia falar hoje sobre o mês de Maria. Mas encontrei lá fora um amigo de infância e mocidade, companheiro de ideal e de antigas lutas, hoje do outro lado da trincheira. Falar sobre o mês de maio seria ocioso para ele. Para vocês, outros padres falarão melhor do que eu sobre esse assunto. Pois falarei sobre um tema que tanto pode servir a vocês quanto a ele e a mim. A paz.
Não a paz dos guerreiros, a paz dos políticos, dos financistas. A paz paz, pacificamente instalada no coração e na angústia do homem. Lembrou a encíclica "Paz na Terra", não era qualquer paz que interessava para o homem.
E lembrou dois trechos do Evangelho. Quando Cristo diz: "Eu não vim trazer a paz, mas a guerra"; e quando, já ao fim de seus dias na Terra, faz sua grande oferta: "Eu vos dou a minha Paz".
Lá no fundo sinto o bruto orgulho de ter um amigo falando bonito e bem. Revivo algumas cenas de nossa infância, nossos estudos, o dia em que, juntos, começamos a estudar filosofia, quando apostamos tirar dez em ontologia. Toda a ternura antiga e não sabida vem à tona.
A prédica acaba, as beatas se ajoelham para a missa e eu saio trôpego, sem saber se devo ficar ou se devo partir imediatamente, infinitamente, em busca dos caminhos que escolhi sem ter preferido.
Lá fora, o vento que o Atlântico sopra vem por dentro dos túneis que engolem massas compactas de carros, as luzes vermelhas piscando histericamente na noite que desce sobre a cidade atrofiada de ossos e músculos cansados.
Na igreja, começa a missa, o mesmo rito antigo que Joyce colocou no pórtico de seu "Ulisses" e eu coloquei no pórtico de minha adolescência frustrada: "Subirei ao Altar de Deus". Que Deus? Que Altar? Há trincheiras ou, feitas as contas, não estamos todos do mesmo lado atirando contra o nada?
A chuva para. O mundo está lavado e um hálito fresco sobe do chão. Perto do carro, minha filha me espera. Meu carro será em breve um ponto histérico a mais, a ser devorado pela goela insaciável dos túneis e da vida. Olho para trás, o padre inicia o ofertório e se oferta. Paz.
Minha filha estende a mão e me chama para o chão, que nos traga sem ofertas, com lágrimas que começam a brotar em silêncio, secas no fundo e na treva.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 22 de janeiro de 2010.


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quinta-feira, novembro 05, 2009

De joelhos

De joelhos

A CULPA me encanta. Os olhos vidrados de dor, a alma torturada pela terrível verdade sobre si mesma.
A literatura está cheia de exemplos nos quais o herói ou a heroína chora de desespero pela consciência de sua responsabilidade no mal do mundo. Entre os vários erros cometidos pela cultura moderna, um deles é tentar negar que a culpa seja um instrumento essencial de humanização. Não existe experiência moral sem culpa. Nelson Rodrigues dizia: "Tire a imortalidade do homem e ele cai de quatro". Eu diria, seguindo sua maravilhosa intuição: tire a culpa e o homem cai de quatro.
Hoje eu gostaria de oferecer ao leitor um comentário sobre uma peça literária clássica na qual a culpa aparece em toda sua beleza. Ao contrário do que falam os especialistas em desumanizar o homem (afirmando que o estão libertando), a experiência da culpa é que tira o homem da banalidade do mal e o devolve à ação transformadora de si mesmo e do mundo à sua volta.
Dostoiévski é um clássico. Não vou entrar no debate de se podemos ou não falar de clássicos, no sentido de um conjunto de autores mais importantes para formar um ser humano. Dostoiévski e Shakespeare são melhores do que quase tudo o que a humanidade produziu em literatura. Quem nega isso, o faz por ignorância. Diante da mera ignorância, afirma-se uma teoria relativista qualquer para soar chique e esconder sua banalidade.
Enfim, lemos um clássico para saber quem somos. Enquanto você lê o livro, o livro lê você. É com esse espírito que proponho a leitura do conto "Sonho de um Homem Ridículo", de Dostoiévski, uma pérola da literatura moral. Voltando ao Nelson Rodrigues, eu diria que esse conto é o tipo de obra que você deve ler de joelhos. Nelson disse isso especificamente sobre sua peça "Senhora dos Afogados" -em cartaz atualmente em São Paulo: é uma peça a que devemos assistir de joelhos.
Estar de joelhos é a posição correta se quisermos pensar o humano na sua condição mais profunda: seu medo, sua insegurança, sua capacidade de amar ainda que seja um ser infinitamente efêmero diante da ordem indiferente do mundo, enfim, sua natureza de respirar o mistério.
Muitas vezes penso que chorar nos torna uma pessoa menos ridícula. As lágrimas colocam as coisas nos seus devidos lugares. Infelizmente, sistemas objetivos para produção de humildade (que muitas igrejas tentaram) apenas destroem a pessoa por meio da demanda desumana de obediência infinita. Independentemente disso, como diria o escritor francês Bernanos (século 20), "a humildade é sempre invencível".
O conto mostra um homem à beira do suicídio, como tantas outras figuras na literatura de Dostoiévski, que busca no autoaniquilamento a afirmação de sua liberdade para com um mundo horroroso. No caminho de casa, vê uma bela estrela e decide que é aquela noite a grande noite de seu suicídio. Uma menina pequena, em desespero, pede que a ajude com sua mãe doente, mas ele a empurra para o lado e segue para o seu glorioso suicídio. Chegando à casa, quando finalmente vai se matar, ele adormece e sonha. Em seu sonho, é levado a um paraíso onde as pessoas vivem sem sofrimento, sem mentira, sem agonia. De tamanha perfeição, elas nem falam, vivendo num eterno estado de torpor feliz.
O que de início será um encantamento com toda aquela beleza sem desespero logo se transformará num desespero pelo vazio que sente em si mesmo diante de tanta plenitude. Nosso homem ridículo descobre que não há amor onde não há sofrimento. Chora pela agonia do mundo (nosso mundo) e percebe que sua vida só tem sentido na medida em que é parte dessa agonia. Quando finalmente consegue trazer aqueles "perfeitos" para uma relação consigo, invejas e ódios se instalam entre os "perfeitos do segundo paraíso" por culpa de nosso herói ridículo e suicida, que passa a ser disputado como troféu. Agora, finalmente, ele os amava.
Acorda. Olha em volta. O desejo de se matar desaparecera. Vasculha o fundo da sua alma e já não é mais a mesma pessoa. O que havia mudado? O que havia mudado era que agora tinha consciência de que fora ele que destruíra aquele paraíso. Ele era a serpente. Nunca reconhecera sua face na narrativa bíblica de sua conversa com Eva. Essa descoberta o lança de volta ao desejo pelo mundo, em vez de paralisá-lo.
Levanta-se e, olhando nos seus olhos, leitor, ele afirma: vou continuar! Abre a porta e sai de casa em busca da menina.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 11 de maio de 2009.


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sexta-feira, setembro 25, 2009

Filme: Uma Prova de Amor

Crítica/ "Uma Prova de Amor"

Com boas atuações infantis, drama questiona a ciência

RONI FILGUEIRAS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Em "Uma Prova de Amor", o diretor-roteirista Nick Cassavetes faz incursão a temas psicanalíticos, com desdobramentos que vão da bioética à teoria do sentido, passando pela eutanásia.
E nos apresenta um mosaico humano a partir do drama dos Fitzgerald: Sara (Cameron Diaz) e o marido Brian (Jason Patric) recebem o diagnóstico de que Kate (Sofia Vassilieva), filha de dois anos, tem câncer.
Por meio de manipulação genética, o casal concebe Anna (Abigail Breslin), com o fim de prolongar a vida da irmã, por meio de cirurgias e transfusões.
Até que aos 11 anos Anna contrata um advogado (Alec Baldwin) para impedir os pais de disporem de seu corpo. Como num jogo de xadrez, o diretor investiga, então, as jogadas humanas, cujo nível estratégico é limitado pelo acontecimento maior da morte iminente. Um movimento que conduz a configuração do tabuleiro de drama familiar ao xeque-mate do filme de tribunal.
Mesmo com concessões, excesso de tramas paralelas e longe do brilhantismo de "Alpha Dog", Cassavetes tem o mérito de cutucar com vara curta um vespeiro ético atualíssimo. E mostra como situações-limite são catalisadores de paixões.
Se a família para Cassavetes representa a origem das tragédias, as mães encarnam a natureza selvagem. No entanto, Diaz não foi a melhor escolha para fazer a leoa que briga com Deus para salvar a cria.
O show aqui fica com as jovens Abigail ("Pequena Miss Sunshine") e Sofia (da série "Medium"). Num mundo em que os limites da ética estão cada dia mais fluidos e esgarçados, Cassavetes afirma que a morte pode restituir o sentido das coisas, de forma trágica.


UMA PROVA DE AMOR

Direção: Nick Cassavetes
Produção: EUA, 2009
Com: Cameron Diaz, Abigail Breslin
Onde: Espaço Unibanco de Cinema, Cine TAM e circuito
Classificação: 12 anos
Avaliação: bom

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 11 de setembro de 2009.

Eu não estou certo que eu venha a assistir o filme, mas gostei da resenha.


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segunda-feira, agosto 31, 2009

Gás venenoso

Gás venenoso

Dias atrás , esperando um voo, ouvi uma expressão que sempre me soa idiota: "Passageiros da melhor idade".
Uso dessa lembrança para responder aos leitores que me escreveram (por conta da coluna do dia 29/06) um tanto revoltados com a dureza do meu tratamento do fenômeno loser (homens e mulheres fracassados na vida, envelhecidos, sem dinheiro, sem amor, sem chances) e de outro fenômeno, o otimismo para retardados. Muitos leitores questionavam meu "direito" de dizer coisas duras assim para as pessoas e que todos têm o "direito a ter esperanças".
A maioria da humanidade é loser. Tanto a arte, quanto seu oposto, a estatística, prova isso. Mas o que seria um programa de otimismo para retardados? Cuidado que você pode, de repente, tropeçar com ele na empresa ou na escola (que horror!), e provavelmente levado a cabo pelo departamento de recursos humanos ou por alguma pedagoga boba apaixonada pela felicidade como produto da educação.
Mas antes, reafirmo: somos todos losers, na medida em que, se tudo está dando certo hoje, a fragilidade da vida (traições, ódios, indiferença, crise financeira, morte) mostrará sua cara. Todavia, a maioria de nós vive isso de modo mais imediato: virtudes são raras, a covardia impera, as competências são escassas (sempre aparece alguém melhor do que você), a inveja corrói as relações, o mercado mata.
A própria paixão que a modernidade tem pela "velocidade" carrega em si o lado negro desta paixão: o risco da aceleração para o vazio é grande e o desejo de permanecer tendo sucesso no mundo contemporâneo tem a consistência de um gás venenoso. Por exemplo, na carreira profissional inventaram uma bobagem chamada "agregar valor a si mesmo" que significa basicamente: não repouse nunca, corra sempre. Ninguém consegue correr sempre, e a experiência humana do envelhecimento fala exatamente do contrário: a vida caminha para o repouso.
A tentativa de negar isso é a palhaçada do termo "melhor idade" para se referir aos idosos, que na realidade não têm valor algum no mundo porque poucos produzem e quase nenhum consome. "Agregar valor a si mesmo" e "melhor idade" são dois exemplos claros do programa de otimismo para retardados.
Faz parte desse programa outro exemplo: a ideia de que exista uma coisa chamada "direito a esperança" e que "respeitar" isso passe pelo perfil obrigatório de um colunista ou de um intelectual. Pelo contrário, quanto melhor for uma reflexão, menos comprometida ela deve ser com um programa de otimismo para retardados. O simples imperativo de associar pensamento à felicidade já é sequela deste programa.
Chamar a última fase da vida de "melhor idade" é um desrespeito ao idoso inteligente. A desvalorização do envelhecimento é consequência inevitável da inaptidão do idoso para responder às demandas do capital e da paixão idiota pela velocidade que falei acima. Sendo o idoso a "encarnação" do passado, e tendo sua experiência valor zero no mercado do mundo, é inevitável que ele sinta que não vale nada.
Contra os idosos hoje em dia há também o fato de que são muitos. Com o grande aumento da quantidade deles, fruto dos avanços da medicina (graças a Deus e às indústrias farmacêuticas, que espero continuem a ser criativas e a ter muito lucro), percebemos que a maioria dos idosos é banal e pouco sábia. Aliás, o efeito das grandes quantidades é sempre este: redução do valor como mercadoria, banalização do conteúdo. Quanto mais idoso existe, menos ele vale no mercado dos homens. Contradição dura esta, não? A vida longa é desejável, mas o resultado é o aumento do estoque de banalidade na forma deformada do corpo humano.
Outro fator a destruir o lugar do idoso no mundo contemporâneo é sua substituição por outros instrumentos de transmissão de conhecimento: internet, mídia, uma escola a cada esquina (mesmo que vagabunda). Esse fenômeno foi chamado de "morte do narrador": ninguém precisa do idoso para "narrar o mundo" e dar sentido a ele. O idoso é ultrapassado, não acompanha as mudanças, é lento, tende ao repouso. De lugar da produção de sentido (o narrador da vida), ele passa a ser o abismo da falta de sentido dela: envelhece, perde funções vitais, é um peso para os seus, ocupa espaço e é inútil.
Sofro com o fato tanto quanto os que "têm esperança". Respiro do mesmo gás. Morrerei do mesmo veneno.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 6 de julho de 2009.


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quarta-feira, julho 29, 2009

Da necessidade dos truques

Da necessidade dos truques

DE UNS tempos para cá, tornou-se comum o camarada morrer e não saber. Evidente, os outros "sabem", menos o próprio, que em tese e na prática devia ser o principal interessado no assunto. Vai daí, de repente descobri que um dos meus truques é fazer justamente ao contrário do que ficou estabelecido pelos atos, posturas, leis, decretos e regulamentos em vigor.
Por isso, decidi que morri no dia 1º de dezembro de 1981. Pode ser que muita gente acredite que morri antes desta feliz data para a humanidade, mas, para efeito pessoal, eu mesmo me decretei morto a partir daquele radioso dia de final de ano, lembro que fazia um sol que o Nelson Rodrigues classificaria como digno de rachar catedrais.
Em linhas gerais, e para fins particulares, estou morto e alguns ainda não sabem: amigos, parentes, credores e candidatos à Academia Brasileira de Letras, que são muitos e têm faro especial para essas coisas.
Pode parecer truque macabro, de péssimo gosto, mas tem lá suas vantagens. Não recebi qualquer tipo de homenagem, dessas que comumente se prestam aos defuntos. Não provoquei nenhuma lágrima pela minha ausência, nenhuma prece pela minha alma (e de nada adiantarão as rezas pela minha salvação), não mereci a módica linha impressa no obituário das folhas.
Aparentemente, tudo continuou como antes, mas eu sei que estou morto. Não tenho mais nada a ver com o que aí está, a vida, o mundo, as mulheres, o inverno, onde enterraram Michael Jackson, a crise no Senado, a faina humana e inglória. Bem verdade que os estabelecimentos bancários não aceitam essa morte de moto próprio, embora aceitem a hipótese de eu me espatifar por aí dirigindo minha própria moto. Moto que por sinal não tenho, justamente para não morrer de moto próprio.
Qual a vantagem de ter um truque? "Quid prodest?" -perguntariam os latinos. Respondo: é uma sensação tranquila essa da gente se saber morto, clandestino morto, insuspeitado morto na tripulação do mundo. Não me sinto mais comprometido com nada -mas continuo como testemunha do espetáculo, não mais cúmplice nem vítima.
Enquanto vivi, evidente que vi eventos extraordinários que se transformaram em ordinários. Um deles foi me tornar cronista de jornal sendo obrigado a dizer coisas quase todos os dias e sem ter nada a dizer em meu interesse ou no interesse dos outros. Isso sem falar no remoto ano em que levei originais mal datilografados a um editor e ele me disse: "Eu topo!".
Bem verdade que então era ainda vivo mas suspeitava que a minha vida entrava na fase vegetativa.
Lembro um episódio da vida de Napoleão. Quando foi coroado na Notre Dame, tendo obrigado o papa a se deslocar para Paris a fim de presidir a solenidade, sua mãe Letícia ocupava um camarote ao lado do altar-mor.
Ela viu aquela pompa toda, aquele absurdo, seu obscuro rebento nascido na distante Ajácio sendo sagrado imperador do mundo.Virou-se para sua filha Paulina e comentou: "Se o pai de vocês visse isso!"
Carlo Buonaparte já havia morrido de fato, não teve vida bastante para assistir às estripulias do filho. Mas se visse?
Taí a chave do truque. Ao contrário do pai de Napoleão, continuo pagando imposto de renda e demais posturas federais, estaduais e municipais, vendo muita coisa interessante sem a obrigação de tomar partido, de gostar ou de desgostar, de sofrer ou de encontrar prazer com a desdita ou a glória dos outros.
Dessa forma, me aproximarei, concretamente, daquele personagem de Gorki que muito gosto de citar. Era um bêbado que falava demais ou ficava calado demais. Um dia explicou: "Eu me aborreço em voz alta e me distraio em silêncio".
Aliás, essa necessidade de ter um truque vem também de Gorki: um personagem que, ao se suicidar, deixou um bilhete para o colega de quarto, um vagabundo tão miserável quanto ele, explicando por que se matava: "Faltou-me um truque".
Sem truque, é difícil, quase impossível aguentar a barra da vida. Com meu truque, não só aguentarei a barra da vida -pesadíssima- como a barra da própria morte -com seu diáfano peso de nada.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 24 de julho de 2009.


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quinta-feira, julho 16, 2009

É necessário estar sempre bêbado

Embriagai-vos

É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e voz faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Charles Baudelaire (1821-1867)

Visto no Diário Gauche.

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quarta-feira, junho 10, 2009

Luiz Felipe Pondé: Frankensteinianas

Frankensteinianas

FAÇAMOS hoje um exercício de ficção. Imaginemos que em 2080 teremos atingido um alto grau de técnicas preventivas de reprodução humana. Teremos separado a reprodução humana (artificial) do ato sexual (prazer). Aí surge nosso articulista imaginário, escrevendo em 2209 sobre este fato, já no passado. O objeto de seu artigo é o um livro de história, lançado em 2209, que narra a "velha" polêmica vivida em 2089. Vejamos.
"O livro "Pré-História da Reprodução Humana no Brasil", da historiadora Lia Ka, é uma boa chance para conhecermos a história dos biodireitos no Brasil. O foco são as polêmicas ao redor da lei que proibiu a reprodução humana não assistida (natural, como era chamada) no Brasil. Até então, confundia-se sexo com reprodução.
Em 2080, iniciou-se no Brasil a campanha conhecida como "direito por mais vida". A "Lei da Reprodução Sustentável", finalmente aprovada em 2089, tornou crime inafiançável a reprodução humana não assistida (ou reprodução ilegítima ou não sustentável, sinônimos na época).
Setores biorreacionários (termo comum para quem se opunha a lei) negavam as vantagens evidentes da reprodução programada, além de defenderem o absurdo que era a submissão das mulheres aquele horror das barrigas enormes.
Imagens de mulheres assim (as grávidas) é coisa do passado. Quem não tem horror a essas mulheres deformadas? O fato é que já em 2099 o índice de mulheres que ainda desejavam portar barrigas deformadas foi reduzido a 3,5% da população reprodutiva.
Quando os primeiros índices surgiram na China apontando para a superação definitiva da reprodução não assistida, os setores bioprogressistas se organizaram. O movimento por "mulheres-sem-barriga" e por "bebês biossaudáveis" ganharam espaço entre nós, até que conseguimos proibir qualquer geração fora dos limites dos laboratórios portadores do selo conhecido na época como "biosselo".
Uma segunda lei para reprodução sustentável foi aprovada meses depois estabelecendo os critérios para a geração de bebês dentro dos parâmetros de biolegitimidade. A conhecida Escala Feng de legitimação da vida foi aplicada ao Brasil. Em 20 anos, os índices de morte na infância despencaram 78,6%, provando definitivamente a eficácia da reprodução assistida. Foi gerada uma economia de recursos públicos, aplicados a área da saúde, da ordem de 27,5%. Esquemas de controle foram necessários para inviabilizar a reprodução ilegítima, sempre dentro dos limites da lei de qualidade de vida aprovada em 2080. Uma prática que foi largamente estimulada, e que se revelou benéfica para a população, foi o "disk mais vida" facilitando a identificação e neutralização de focos de reprodução ilegítima.
Em 2089, ainda era comum se questionar o dado evidente de que a reprodução ilegítima era um alto fator de poluição ambiental e social. Até 2075, os trabalhos de Schultz e Hua quantificando o conceito de poluição social (via a identificação dos índices Lox de inadequação sociofisiológica) ainda não eram aplicados no Brasil.
Estes trabalhos mediram, pela primeira vez em 2072, os índices de transtornos familiares, escolares, afetivos, intelectuais e profissionais devido a presença de fatores de inadequação sociofisiológica.
Especialmente interessante é o capítulo que aborda as controvérsias ao redor do conceito de embriões sustentáveis (safe babies) x embriões podres (naturais). Cerca de 50 anos foram necessários até a eliminação completa do mercado ilegal de reprodução de embriões humanos podres.
Hoje nos preparamos para novo salto na direção da total eliminação da reprodução humana não sustentável: cientistas suecos têm tido grande sucesso na assimilação de compostos de DNA de babuínos em embriões humanos.
Segundo pesquisas da Liga Zoe (dedicada aos biodireitos para o aumento da qualidade em reprodução), os "bebês compostos" (como estão sendo chamados) desenvolvem habilidades motoras e cognitivas mais eficazes do que "bebês não compostos" da ordem de 7,7 % no prazo de dois anos. A luta, agora, é para que todos os cidadãos tenham acesso aos embriões compostos." Voltemos a 2009. Qual a moral da história? A moral é que o "tipo" de bebê que você tem hoje nas mãos, um dia, poderá ser um bebê podre. A história "avança", e os conceitos de "doença" e "poluição" também. Você votaria nessa lei?

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 4 de maio de 2009. É viagem. Mas dá o que pensar.

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sábado, maio 09, 2009

O Santo Padre Bento XVI vai à Terra Santa

O Santo Padre Bento XVI vai à Terra Santa


Ao acessar a Internet hoje pela manhã vi manchetes sobre uma viagem do Papa Bento XVI à Terra Santa. Segundo o jornal eletrônico Último Segundo, o Santo Padre inicia sua viagem pela Jordânia, onde ficará quatro dias, e depois passará pelos territórios palestinos ocupados na Cisjordânia, indo ás cidades de Belém, Nazaré e Jerusalém, fundamentais para a tradição cristã, e passará também pelo território do Estado de Israel.


Me parece que como todo cristão devoto, o Papa Bento XVI num caso como este, se torna um simples peregrino. Um discípulo andando pelos locais descrito pela Sagrada Escritura Cristã. O jornal diz que ele passará pelo monte Nebo, de onde, segundo a tradição, Moisés viu a Terra Prometida, mas sabia que não poderia alcançá-la, porque Deus não o permitiria. A notícia informa que quando a visibilidade é boa, é possível avistar Jerusalém a partir do monte. Também visitará a margem oriental do rio Jordão, onde foram encontradas ruínas de pias batismais romanas do século IV. O Papa anterior, João Paulo II, esteve ali no início desta década, e, tendo em vista estas ruínas, então recém descobertas, inferiu, e estabeleceu, que a margem oriental deveria ter sido também o local onde Jesus teria sido batizado por João Batista.


O Papa Bento XVI pelo seu passado de teólogo apologista da doutrina católica, ex-chefe da Congregação para Doutrina da Fé, que muitos gostam de lembrar que é a sucessora da Inquisição, e pelas suas posições como Papa mesmo, que mais se assemelham a de um teólogo apologista da doutrina que às posições de um pastor de almas, como acontecia com o Papa João Paulo II, tendo a não ser tão benquisto. O semblante de Bento XVI é mais, digamos assim, carregado, e menos simpático que o de João Paulo II. Mas me parece que as posições teológicas são semelhantes. Sendo assim, um teólogo conservador, sem a simpatia do Papa anterior, Bento XVI tem mais dificuldades em cativar as pessoas. Mas eu vejo o atual Papa com simpatia. Muito mais simpatia que antipatia.


A notícia do Último Segundo informa ainda que a Jordânia possui uma minoria de cerca de 6% de cristãos, a maioria destes dividida entre católicos romanos e ortodoxos gregos. O s muçulmanos são os outros 94%, 92% deles sunitas e 2% xiitas. E um cristão devoto, e peregrino por aquelas terras, deve lembrar o passado com saudades. Antes do surgimento do islamismo e sua expansão a partir do século VII, a maioria da população onde hoje fica a Jordânia deveria ser cristã, pelo menos nominalmente. Curiosamente o texto comenta que o Papa sai de uma Europa que está se tornando cada vez mais descrente, para uma terra onde a crença ainda é vital. E diz esta notícia que isso aproximaria mais o Papa dos cidadãos jordanianos do que talvez ele estivesse dos europeus descrentes. Não tenho certeza se isto é verdadeiro, ou apenas para preencher colunas de texto, ou talvez ainda, para agradar os muçulmanos da Jordânia, dos Territórios Ocupados e de Israel (sim, há muçulmanos em Israel; são minoria mas estão lá).


Por fim, o texto fala ainda do contexto político da visita do atual Papa, comparando-o com o contexto da visita de João Paulo II. Os tempos são mais complicados agora. João Paulo II, pôde falar de uma solução de dois estados para judeus e palestinos. O atual governo israelense não quer falar em dois estados (o que me leva para aquela questão que se não querem dois estados, precisam dar direitos de cidadãos aos palestinos, mas aí Israel deveria também deixar de seu um estado de caráter judeu, caráter judeu este que os atuais e anteriores governos de Israel sempre fazem questão de enfatizar). Além disso a liderança palestina está dividida com o Fatah governando a Cisjordânia, e o Hamas governando a Faixa de Gaza. Definitivamente um contexto político mais complicado aguarda Bento XVI.


Veremos o que nos dirão os próximos dias sobre a visita de Bento XVI à Terra Santa.


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quarta-feira, maio 06, 2009

Tentações do Bem

As tentações do bem

UMA LEITORA muito especial (minha mulher!) me chamou atenção para o risco de que entendessem, a partir de minha coluna de 13 de abril, que eu desprezo o meio ambiente e me falou que seria bom eu esclarecer minha crítica. Como não sou bobo nem louco, obedeci a ela (quem quer problema com a mulher?!), e, portanto, hoje volto a alguns dos temas da semana passada.
Repito: são os vícios que nos humanizam, e não as virtudes. Por exemplo, uma leitora me dizia como "é bom acordar acabada depois de uma noite de vícios e sentir como ela é um nada". Essa me entendeu. Uma ressaca de álcool ou uma ressaca moral cura qualquer vaidade besta. Achar-se virtuoso é a marca essencial de todo bom canalha. Adoro almas pecadoras cheias de culpa. Os puros me acusam: você tem medo do homem evoluído! Respondo: sim, morro de medo.
Quem se acha agente de pureza tem minha natural antipatia. Muita gente cospe na cara da Igreja Católica e de religiosos em geral, acusando-os de hipócritas cheios de falsas virtudes. Hoje, a falsa virtude se espalha por rostos que exalam o mesmo mau cheiro da mentira moral de muitos dos bispos no passado.
Uma das coisas que mais chocou alguns leitores que provavelmente se acham puros foi a analogia entre proteger animais e os nazistas. Leiam "Liberal Fascism", de Jonah Goldberg, editora Doubleday, 2007 (uma referência possível entre outras). Voltarei a isso logo, tenham paciência.
É evidente que o fato de escovar os dentes de manhã (coisa que os nazistas deveriam fazer) não torna os praticantes de higiene bucal membros do partido. Tampouco ter pena dos pandinhas faz de alguém um nazista latente. A analogia se dá pelo "que" de superioridade moral que muitas dessas pessoas associam à preocupação com os ursos pandas, a natureza e o antitabagismo. Quem disser o contrário, mente. O mesmo tipo de mentira moral acompanha grande parte dos comedores de rúcula (dizem por aí que Hitler era vegetariano...). Não comer carne significaria um dado de pureza diante da baixaria sangrenta típica dos comedores de picanha. Bobagem. Muitos canalhas se sentem mal em churrascarias, detestam tabaco e conversam com plantas.
A correspondente de guerra Martha Guellhorn conta em seu livro "A Face da Guerra" (editora Objetiva, 2009), numa conversa com um refugiado polonês, que os nazistas, depois de mandar judeus para o inferno e poloneses para a escravidão, enviavam veterinários para cuidar da população de cães e gatos da região. Que sensibilidade ambiental, não?
A relação que o jornalista Goldberg descreve em seu interessante livro é conhecida de muitos: a preocupação com a natureza é fruto do romantismo (coisa em que os alemães dos séculos 18, 19 e 20 foram muito bons), raiz do nacional-socialismo (prestem atenção: "socialismo"!). O romantismo foi muito marcado pela ideia de que os humanos poluem a divindade da natureza. Adorar a natureza é coisa de neopagão bobo: câncer é tão natural quanto foquinhas. Isso não significa que matar focas a pauladas seja bonito, mas significa que esse papo de "deusa-natureza" é coisa de fanático. Para muitas viúvas do Che, "ser verde" é o "produto utopia" que resta.
Mas minha dúvida é a seguinte: qual o motor principal desse ódio aos "poluidores" da natureza? Não acredito que sejam as coitadas das foquinhas, mas sim a capacidade natural do ser humano de gostar de odiar outros seres humanos, principalmente se este ódio for justificado por alguma falsa virtude (amor aos animais, ódio aos fumantes, paixão pelas cenouras).
E, por fim, chegamos ao fantasma da eugenia (a busca de uma vida perfeita cheia de humanos saudáveis). A tese central de Goldberg é que o fascismo permanece em nosso horizonte cultural como um mercado invisível de eugenia silenciosa. Essa eugenia é nossa "tentação do bem". O paradigma de uma sociedade da "grande saúde" é típico dos totalitarismos. Belos corpos, comida balanceada (outra coisa cara aos nossos ancestrais nazistas: preocupação com a alimentação), ar sempre puro, pessoas que agregam saúde aos comportamentos cotidianos. Suspeito que muitos desses fascistas da saúde que andam por aí se sentiriam em casa em algumas das organizações nazistas preocupadas com o meio ambiente e com a saúde na Polônia em 1943.
E, para terminar, olhem que pérola: "Adoro ver essa demonstração de saúde ao meu redor", Adolph Hitler.

Texto de de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 20 de abril de 2009.


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terça-feira, maio 05, 2009

Homens e Lobos

Homens e lobos

EXISTEM MOMENTOS em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz.
Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem.
Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato. E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objetos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade.
Um gato ajuda a entender tudo isso. Mas um livro publicado recentemente reforça a ideia. Confesso: comprei o livro sem expectativas numa livraria do aeroporto de Heathrow, em Londres. Só o título despertou a curiosidade: "The Philosopher and the Wolf: Lessons from the Wild on Love, Death and Happiness" (o filósofo e o lobo: lições do selvagem sobre amor, morte e felicidade; Granta, 246 págs.). Não é manual de filosofia "ligeira". Longe disso. O livro de Mark Rowlands é uma mistura erudita de experiência pessoal e reflexão metafísica, em que Nietzsche, Heidegger e Camus têm participação direta.
Ponto de partida: certo dia, o professor Rowlands leu anúncio no jornal. Alguém vendia lobos por US$ 500. Rowlands entrou na aventura. Horas depois, a casa estava destruída pelo novo hóspede, de nome Brenin, que não poupou a mobília e as cortinas. Primeira lição: um lobo não é um cão. E, nos 11 anos seguintes e após treino apertado, Brenin foi a companhia do professor. Em casa. Na rua. Em viagem. E até nas aulas, para espanto de colegas e alunos: enquanto o professor dissertava sobre Platão e Aristóteles, o lobo dormitava ao seu lado. As aulas terminavam com um uivo. O livro de Rowlands é uma descrição pessoal de tudo isso: da relação idiossincrática de um homem com um lobo. Mas o livro de Rowlands oferece-se essencialmente como uma longa meditação sobre a natureza da felicidade humana. Ou, se preferirem, sobre a sua impossibilidade.
Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projeto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projeto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. Viver com Brenin ensinou a Rowlands essa crucial diferença entre Homens e animais: nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total. A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o teto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam?

Texto de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo, de 31 de março de 2009.

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terça-feira, janeiro 20, 2009

“Pastor, por que o teto da igreja desabou?”

Pastor, por que o teto da igreja desabou?”


A pergunta foi disparada de repente. O pastor teve que parar, pensar. O que poderia dizer? Além disso ele nem tinha qualquer ligação formal com a denominação cujo teto desabara. Esta era uma igreja “nova”, fundada nos anos 1980, neo-pentecostal, com cânticos informais, assim como informal e mais ou menos espontâneo era o culto. O pastor liderava uma congregação de uma denominação histórica, como ele mesmo gostava de dizer. A denominação dele vinha dos rescaldos ainda da Reforma do século XVI.

O que dizer? Dizer que aquilo era um castigo do Senhor, por conta de pecados da liderança da igreja? Esta hipótese não podia ser descartada. Tempos atrás, um semanário denunciara que a igreja estava sendo processada por ex-membros. Estes alegavam que foram enganados pelos líderes da Igreja, ao servirem como fiadores de aluguéis da Igreja. Algumas vezes a igreja não pagava os aluguéis e deixava a questão para ser resolvida pelos fiadores. E é claro que havia o problema do contrabando de dinheiro, crime pelo qual líderes da igreja estavam agora, cumprindo pena nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, além deste problema dos aluguéis, ainda havia acusações de lavagem de dinheiro, mas sobre este último caso, muito da acusação se confundia com maledicência, e o processo andava a passos de tartaruga. E o pastor lembrou do episódio de Datã e Abirão, no Velho Testamento, ainda na Lei, no livro de Números, no capítulo 16. Ali parte dos líderes de Israel que saíram do Egito junto com Moisés, resolvem se tornar, eles mesmos, sacerdotes do povo. E Deus manifesta sua ira contra esta tentativa de profanação do sacerdócio, fazendo com que a terra se abra sob os pés dos postulantes ao sacerdócio e de seus familiares, absorvendo-os, consumindo-os. Podia-se pensar nisso. Mas no caso dos revoltosos do Sinai, eles mesmos se tornaram as vítimas e foram punidos na sua rebelião. Aqui os líderes nem sequer foram feridos pelo incidente. Os mortos eram simples membros da congregação. Além disso, não é possível comparar o abrir-se do chão, com a degradação da estrutura que dava sustentação ao templo religioso. Se lá, a ira de Deus não podia ser contida, aqui uma manutenção mais atenciosa ao prédio poderia ter evitado a perda de uma dezena de vidas e de algumas dezenas de feridos.

Difícil isto. A própria pessoa que disparara a questão ao pastor se questionava sobre o porquê disso. A liderança da igreja, em nota distribuída, lembrou o versículo bíblico do Novo Testamento, onde o apóstolo Paulo afirmava que, para ele, “o viver era Cristo, e o morrer lucro”. Quem morre com Cristo, não morre de fato, é a esperança de quem de fato crê em Cristo. Mas esta morte ainda é sentida de duas formas. Uma é que, mesmo com a esperança da vida eterna, os vivos aqui ainda sentem falta dos entes queridos que morrem. A outra é que, como a ressurreição ainda não veio, a fé pode parecer pouco efetiva.

Bom. Pelo menos é de se esperar que centenas de líderes esclarecidos pelo país afora, cuidem da manutenção de seus templos, para que se algum dos membros daquelas comunidades tiver que deixar esta vida ali, que seja pela exaltação de suas emoções, por entender que efetivamente o Senhor o esteja chamando ali, e não porque a tesoura do teto precisava ser reforçada, ou a coluna que sustentava a parede precisava de reforço.


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quarta-feira, janeiro 07, 2009

Sobre o filme Na Natureza Selvagem

Na Natureza Selvagem


Cara colega,



Abaixo está texto que escrevi inspirado pelo filme Na Natureza Selvagem, homônimo ao livro de Jon Krakauer. Este mesmo texto eu pretendo copiar no meu blog, o Voltas em Torno do Umbigo, pois afinal, quase tudo dá para a gente registrar num blog.

Há um “caríssima” no início do texto, pois eu o pensei como um diálogo contigo. Era isso. Espero que gostes.



Zé Alfredo.



Sobre o filme Na Natureza Selvagem


Caríssima,


Não coloquei como uma prioridade a ser alcançada em breve ler o livro Na Natureza Selvagem (“Into the Wild”), de Jon Krakauer, mas tive oportunidade de ver o filme homônimo, dirigido por Sean Penn, e estrelado por Emile Hirsch, que vive Chris McCandless no filme.

E é um filme lindo, inspirador, o qual lamento muito não ter ido assistir no cinema.

Inspirador ver o jovem, que após cumprir seus deveres com sua família, ou seja, ser um razoável filho, estudar até completar a faculdade, sai pelos Estados Unidos, em uma busca de si mesmo.

E nesse caminho ele encontra um monte de gente. E ele traz sentidos para a vida destas pessoas que ele encontra ao longo de seu caminho. Seja o casal de hippies, seja a garota (belíssima) que ele encontra no acampamento na Califórnia mas com quem evita envolvimento maior, sendo ela ainda menor de idade. Seja o plantador que o contrata como trabalhador temporário, e que acaba preso sei lá porquê...O plantador comenta algo sobre a busca que ele, Chris-Hirsch está levando a cabo. E há ainda o soldado aposentado, que perdera a mulher e o filho em um acidente automobilístico, e que havia se tornado um artesão em couro, que gostaria de ter Chris como seu filho.

E há William Hurt como seu pai. E Hurt é um coadjuvante de luxo no filme. No decorrer do filme, e no passar do filme, sua impotência e sua incapacidade de reencontrar o filho vão como que desmanchando-o . Se a história dele com o filho não havia sido a da mais bela família, isso agora o fazia sofrer e muito.

E por fim há a “natureza selvagem”, o Alasca, ponto de chegada que Chris marcou para si próprio. A dificuldade que ele encontra para se alimentar e para se proteger do frio. Suas leituras e seus apontamentos. Gostei muito de um ponto em que ele diz que toda experiência vivida deve ser compartilhada, ou algo parecido.

E o filme termina com a paisagem do Alasca, e nós choramos.

E ficamos pensando o que aconteceria se a história tivesse continuado...



O comentário:


Legal teus comentários...realmente gostei muito da paisagem e dessa parte que fala de compartilhar experiências vividas. Também pensei no q aconteceria se a história tivesse continuado...mas talvez a continuação da vida dele não seria tão melhor ou tão intensa quanto foi aqueles meses "como foragido" e não estaríamos agora pensando e relembrando passagens do filme.. Li o livro faz muito tempo mas pelo q lembro "o filme parece estar fiel ao escrito" e também me arrependi de não ter ido ao cinema.


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