quarta-feira, dezembro 22, 2010

Os valores da "era Reagan"

Os valores da "era Reagan"

Deve ser a regra com todos os presidentes dos Estados Unidos. Mas fiquei espantado com o tempo que levou entre a morte de Ronald Reagan e o seu sepultamento. Os rituais fúnebres tomaram quase uma semana inteira, e o corpo do presidente fez uma peregrinação através de vastas extensões do território norte-americano, numa espécie de última campanha eleitoral -em busca, como se diz, do sufrágio de sua alma.

No fim de um longo parágrafo em que recenseava os fatos da semana, uma publicação anticonservadora americana mal conteve sua satisfação sinistra ao noticiar numa única linha: "O presidente Reagan finalmente morreu". Será?

Os valores da "era Reagan" estão longe de ter perdido o vigor. No princípio, aquilo parecia apenas um delírio reacionário, voltado para recuperar a auto-estima americana, em baixa desde a Guerra do Vietnã e de Watergate. Baseava-se em propostas de duvidosa consistência: o corte de impostos e a criação de um escudo espacial antimísseis, a chamada "Guerra nas Estrelas".

Tudo vinha embrulhado numa máscara sorridente, pronta a expressar simpatias pelo fundamentalismo bíblico, misturando ficção científica dos anos 50 com fitas de caubói e técnicas de relações públicas das mais antiquadas. Lembro-me de como parecia fora de moda, nas primeiras fotos de Reagan presidente, o lencinho branco dobrado que ele usava no bolso do paletó. A imagem que ele projetava, naquele começo da década de 80, era de um passadismo inviável, artificial e mortífero.

O próprio rosto de Ronald Reagan tinha algo de ressurrecto, de empalhado; ator de relativo sucesso em outras décadas, o presidente recém-eleito parecia ter-se levantado subitamente dos abismos da obscuridade, já bastante envelhecido, mas tentando manter o charme dos bons tempos. Um cronista americano referia-se, durante a campanha presidencial, a seus cabelos "precocemente alaranjados"; é como se o uso da tintura capilar não levasse em conta, no ator sexagenário, que os filmes em preto-e-branco eram coisa do passado.

Bem ao contrário, quase tudo em Reagan apontava para o futuro, e seus cabelos tingidos simbolizavam uma intenção de permanência que os tempos atuais pouco fizeram para desmentir. Os yuppies da década de 80 -aquele Mickey Rourke de "Oito Semanas e Meia de Amor", vendo as cotações de Wall Street piscando em fósforo verde na tela do micro, nos lábios um sorriso bailarino, na janela uma Kim Basinger pronta para uma fantasia light- não são diferentes dos de agora.

Nada mais reaganiano (mas durante o governo Reagan isso ainda era um sonho distante, eu acho) do que a imagem do Mc Donald's em Pequim, ou de butiques Prada e Armani na Praça Vermelha. Um mundo de alta tecnologia e consumo de luxo, zunindo de competitividade, entretenimento, dureza e rapidez, foi projetado como o cenário de um filme de George Lucas; uma minoria afortunada passou a viver dentro dele, estivesse na Califórnia, na Espanha, na Índia ou no Brasil.

Esse mundo ilusório, criado durante os anos Reagan, persiste. Persiste há tanto tempo que já se transformou em realidade. Desconfio até que toda a nossa dependência do virtual, dos jogos de computador, da holografia, do encapsulamento em shoppings e condomínios é conseqüência daquele fundamentalismo reaganiano: a confiança absoluta de que se pudesse moldar a realidade a partir de uma ideologia econômica (a famosa "reaganomics") bastante frágil e simplista.

Mas me vejo falando do reaganismo em termos que seriam igualmente apropriados ao desejo marxista de criar uma sociedade a partir de uns poucos princípios incontestáveis. É talvez por isso mesmo que o pensamento de esquerda se viu hipnotizado e rendido diante do conservadorismo dos anos 80: a ideologia yuppie tinha justamente um apelo intelectual, uma aerodinâmica afetiva, um charme de paradoxo e novidade com que os velhos manuais do materialismo dialético não mais conseguiam competir.

Claro, podemos dizer que o "rumo da história" (outra frase de sabor marxista) era aquele mesmo e que tudo ia no sentido prenunciado por Reagan. Algumas coisas, contudo, parecem não ter dado certo. Teve pouco futuro, por exemplo, a tentativa de reconstruir os valores religiosos e comportamentais da família wasp americana, com ensino bíblico, puritanismo sexual e boas doses de aversão a quem não fosse branco. Mesmo a Aids foi incapaz de barrar o processo constante de libertação sexual que vinha dos anos 60; e, por mais que Reagan fosse conservador nesse campo, a geração yuppie não transigiria com essa conquista.

Também já não me parece tão certo o poder do "virtual" sobre o "real". Talvez comece a fazer parte do passado a famosa crença, proveniente dos anos 80, de que a realidade foi substituída por simulacros manipuláveis via computador; entra igualmente em descrédito a sensação correlata de que os inimigos do sistema seriam vencidos de forma "limpa", com a mesma impalpável facilidade com que o mundo comunista desapareceu.

Toquei outro dia nesse assunto; temo ter incorrido no velho clichê de comparar as guerras atuais a videogames. O atual conflito no Iraque, entretanto, é de uma materialidade atroz; corpos despedaçados, corpos nus, corpos torturados se amontoam, numa orgia macabra e real. Tema para outro artigo, quem sabe; e já é tempo de deixar Reagan descansando em paz.




De uma coluna de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, em 16 de junho de 2004.

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terça-feira, novembro 09, 2010

O pesadelo dos gerentes

O pesadelo dos gerentes


ACONTECE EM TODO lugar, mas videolocadoras são, ou eram até recentemente, as campeãs neste tipo de coisa. Você entra, os funcionários são muito jovens, estão mais interessados na própria conversa do que em atender o cliente, não fazem ideia do filme que você está pedindo e, na hora de pagar com cartão de crédito, o "sistema caiu".
Essa, pelo menos, era minha experiência desde os tempos do VHS e, ao que tudo indica, nos Estados Unidos ocorre o mesmo. Pois o exemplo da videolocadora aparece no capítulo inicial de "Não Tenha Medo de Ser Chefe", livro do consultor de negócios Bruce Tulgan, publicado no Brasil pela editora Sextante.
Por que seriam tão ruins os serviços daquela videolocadora hipotética? A culpa não é dos funcionários, nem do dono da empresa, responde Tulgan. A culpa é do gerente.
A questão, diz ele, é que estamos vivendo uma "epidemia de subgerenciamento". Teorias modernas de administração insistiram exageradamente na ideia de que é preciso delegar funções, atribuindo metas aos funcionários, sem orientá-los e acompanhá-los de perto.
Prêmios, penalidades, ordens precisas, baixa tolerância com a mediocridade: só assim, diz o livro, as coisas vão começar a funcionar.
Volto ao exemplo da videolocadora, entretanto, e penso em outra hipótese. O gerente, de fato, nunca está por perto em estabelecimentos desse tipo. Mas penso no funcionário que me atende.
Não se trata, necessariamente, de alguém com baixo nível de instrução. O que parece predominar nesse tipo de serviço é a figura do empregado temporário, muitas vezes um estudante. Basta você atrasar a devolução do DVD que todas as caras na locadora já mudaram. Provavelmente, o gerente também é outro.
O sociólogo Richard Sennett, em "A Corrosão do Caráter" (ed. Record), dá o exemplo de uma padaria, hoje totalmente informatizada, que ele tinha estudado há questão de 20 ou 30 anos.
O trabalho tornou-se muito menos exaustivo; o ambiente é asséptico como o de um laboratório. Produz-se uma quantidade muito maior e mais variada de pães.
Os empregados, entretanto, perderam comprometimento com a profissão. Não se consideram mais "padeiros". Apertam botões em um computador, cujo funcionamento desconhecem. Sabem que dali a alguns meses arranjarão outro serviço -numa locadora, provavelmente.
Pobre do gerente que quiser "liderar", como se diz, equipes desse tipo. A mão de obra tornou-se transitória como nunca num sistema de produção marcado pela extrema tecnologia. A velha "ética" do trabalhador, tanto na relação com seus colegas quanto com o resultado de seus esforços, pulverizou-se no que, com certa visão moralizante, gosta-se de denominar o "hiperindividualismo" contemporâneo.
O "hiperindividualismo" existe, antes de tudo, porque o próprio trabalho deixou de ser algo coletivo e perdeu o pouco sentido que antes possuía. Como exigir "motivação" de quem não passa de um apertador de botões e passador de cartões de crédito?
Na outra ponta, o alto dirigente tampouco está feliz. Em "O Executivo sem Culpa" (ed. Lua de Papel), João Ermida narra como passou por uma longa síndrome de pânico depois de muito sobe e desce no mercado financeiro. É dos que lamentam a "crise de valores" na sociedade contemporânea.
Infelizmente, para superá-la -adotando comportamento mais sábio e menos imediatista-, não bastam, a meu ver, transformações individuais. Seria preciso, antes de mais nada, avisar a concorrência.
Enquanto isso, o leitor interessado no assunto pode ler "Como Enrolar Seu Chefe", de João José da Costa (ed. Matrix). Entre as recomendações, na aparência humorísticas, mas bastante profundas de seu livro, estão a de tomar o máximo de cafezinhos por dia, participar de tudo quanto é curso de reciclagem, preparar um Power Point "multivalente" para sair dando palestras por aí, entrar em toda reunião inútil. O objetivo, claro, é trabalhar o menos possível.
Por trás de tudo, está o fato de que o trabalho se autoinventa; criam-se funções e projetos para justificar o que nunca teve tão pouco sentido; o desemprego, ou na melhor das hipóteses, o trabalho temporário, é o pesadelo do qual todos, gerentes ou não gerentes, gostariam de acordar.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 3 de novembro de 2010.


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quarta-feira, janeiro 27, 2010

Deus existe?

Deus existe?

QUANDO A pergunta é simples demais, o santo desconfia. A editora Planeta lançou recentemente um livro fascinante e curto (125 páginas), que, sob o título "Deus Existe?", transcreve um diálogo público entre um filósofo ateu, Paolo Flores d'Arcais, e ninguém menos do que o cardeal alemão Joseph Ratzinger.
O encontro se deu num teatro, em Roma, em fevereiro de 2000 -cinco anos antes, portanto, de Ratzinger tornar-se Bento 16.
Apesar do título do livro, a questão sobre a existência de Deus não se coloca de forma direta -e talvez seja melhor assim. O debate entre um ateu e um cardeal pode ser bem mais complexo do que sugere a pergunta. Uma formulação muito sumária, do tipo "Deus existe?", pode provocar respostas simples demais: "Sim", "não sei" ou "não".
Pessoalmente, desde criança marco a terceira alternativa. Mas até mesmo uma opção resoluta pelo ateísmo pode envolver ambiguidades. Posso dizer, por exemplo: "Não acredito que Deus exista". Ou: "Acredito que Deus não exista".
Posso, porém, observar apenas: "Quem diz que Deus existe não tem prova nenhuma do que está dizendo", e acrescentar: "Só acredito no que pode ser provado".
E, nesse momento, o bom Ratzinger já estará esfregando as mãos de contentamento apostólico. Pois é inegável que acredito em muitas coisas que não sei bem como poderiam ser provadas cientificamente. Acredito que exista uma coisa chamada beleza, por exemplo.
Se me pedirem para apontá-la, posso citar uma série de exemplos, uma série de manifestações da beleza no cotidiano; o crente pode apontar outras tantas manifestações de Deus, e ninguém provou nada com isso.
No seu diálogo com Paolo Flores d'Arcais, entretanto, Ratzinger dá um passo a mais. Certo, diz o cardeal, a existência de Deus não pode ser provada pelo "método positivo", isto é, científico. Mesmo sem ter provas, entretanto, a fé em Deus não é puramente irracional. Ao contrário, a razão está do lado dos católicos nesse caso.
Seu interlocutor resiste bravamente a esse golpe. Tolerante e ateu, Flores d'Arcais aceita que alguém simplesmente diga, como o velho teólogo Tertuliano, "acredito porque é absurdo". Ou que lembre Kierkegaard: "A fé começa justamente onde termina o pensamento".
Mas Ratzinger não quer limitar a crença em Deus aos porões sentimentais da alma. A tradição católica, diz ele, foi uma espécie de "pré-Iluminismo" contra as irracionalidades pagãs.
E a ideia de um Deus criador do céu e da Terra, prossegue, é indispensável para qualquer pessoa que preze a razão. Sem um logos, um verbo que está na origem de tudo, teríamos de admitir que o mundo, a natureza, o destino humano, não passa de fruto do acaso, não tem sentido nenhum, é puramente absurdo. Como então preservar qualquer "racionalidade" com esses pressupostos?
Num artigo incluído nessa edição, Ratzinger formula o problema com mais eloquência: "Pode a razão renunciar à prioridade do racional sobre o irracional, à existência original do logos sem abolir a si mesma?" Meu ateísmo -e meu racionalismo- respondem que sim. A medicina sabe perfeitamente que, com todos os seus avanços, não elimina o fato de que todos irão morrer. Reconhecer a "prioridade" da morte não faz com que a medicina esteja pronta a "abolir-se a si mesma"...
Flores d'Arcais não sai vitorioso, entretanto, do debate com Joseph Ratzinger. Quando se trata de defender princípios universais e inalienáveis, como os direitos humanos, nosso ateu de plantão cai na armadilha do relativismo: muitas sociedades admitiram o homicídio, a antropofagia...
Ratzinger insiste, com razão, que se muitas sociedades fizeram coisas detestáveis, isso não torna casuais, contingentes, os direitos humanos. D'Arcais também não gostaria que isso acontecesse, mas se confunde no debate.
O problema, a meu ver, teria de ser definido de outra forma. Se existem direitos universais, e se um termo como "dignidade humana" precisa ter sentido, a questão é saber como lhes dar fundamento. Mas esse fundamento, que deve ser a-histórico, absoluto, transcendente, não precisa fazer apelo ao "sobrenatural" -e negar o sobrenatural é algo que, pelo que li, não está nas cogitações de Ratzinger, com tudo o que concede às conquistas do Iluminismo.

O texto é de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 13 de janeiro de 2010. E este blogueiro acredita que sim, Deus existe.


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quarta-feira, dezembro 24, 2008

Próxima parada, avenida Paulista

Próxima parada, avenida Paulista

A MENOS QUE a recessão seja ainda pior do que dizem, há coisas em São Paulo que nunca param de crescer e que afastam qualquer idéia de que possam diminuir um dia.
A decoração natalina é uma delas: segue a lei do acúmulo, da superposição, do entupimento. Não há como esperar, de um ano para outro, versões mais econômicas, mais "clean".
O vazio não é tolerado; sempre se encontra espaço, numa árvore ou numa fachada de loja, para enfiar um enfeite a mais onde já não cabia mais nenhum.
Como há ainda mais carros do que lampadazinhas natalinas na cidade (não sei se já fizeram o cálculo comparativo), o congestionamento noturno tem sido intenso em lugares como a avenida Paulista e as imediações do Ibirapuera.
Pelo parque Ibirapuera só passei de dia. O cone gigantesco que instalaram ali não evoca em mim antigas imagens de pinheiros de Natal: parece mais algum equipamento de emergência do Detran para evitar o engarrafamento de trenós.
Na avenida Paulista, o prêmio vai para aquela esquina do Banco de Boston. Nem sei se o banco já mudou de nome.
O fato é que, de ano para ano, amontoam-se ao redor daquele palacetezinho branco mais e mais reis magos, embalagens de presente, bolotas, pirulitos, camelos, neves, santos e trombetas, numa congestão comemorativa capaz de fazer de qualquer igreja barroca uma aula de despojamento e sensatez.
Pouco importa; nada disso foi feito para agradar a críticos e arquitetos, mas sim às crianças que levamos para passear por lá.
Fiz a experiência num sábado e aprendi bastante sobre a cidade em que vivo. Saí do carro e, com dois meninos pequenos ao meu lado, passei uma hora e pouco na condição de pedestre na Paulista.
É um dos pontos de São Paulo em que ser pedestre não inspira medo.
Nada mais incomum por aqui do que a sensação, corriqueira em qualquer cidade do mundo, de que a rua pertence a quem anda nela. Pelas calçadas largas da Paulista, a cidade entretanto se abre aos seus habitantes, como se fosse um formidável e grotesco presente.
Lembro-me de ter recebido, quando criança, alguns presentes assim. Certo caminhão de madeira, grande demais para brincar de carrinho, pequeno demais para que uma criança se instalasse em cima dele. Uns tantos pacotões de gesso, argila e alvaiade destinados a transformar-me em pequeno escultor.
Apareceu até (doloroso confessar) um conjunto de carimbos e tipos móveis de borracha, com o qual se esperava que eu compusesse, por conta própria, meu pequeno jornal.
Quem sabe ainda reencontro, entre os guardados, esse brinquedo.
Coisas impossíveis, coisas inadministráveis, coisas maiores do que nós: lá estavam os bonecos, pacotes, renas e prédios da Paulista montados numa calçada acolhedora, por onde pais, crianças, e essas crianças de outro tipo, os turistas, podiam aparentemente andar sem medo.
E conversar também. Camelôs, vendedores de milho verde e jornaleiros não são pessoas com quem temos tempo ou disposição para trocar idéias. Na companhia de crianças, tudo muda. Meus filhos (e eu também) maravilharam-se com a quantidade de línguas e sotaques que se cruzavam pela rua.
Uma mulher, vendendo água e refrigerante, falava árabe e francês.
Veio do Líbano, tivera uma banca de tapioca, odiosamente confiscada pelas autoridades. Tratava de reconstruir a vida com sua geladeirinha de isopor. Belo pacote, sem dúvida, ao pé de uma imensa instalação natalina organizada pelo banco tal e tal.
Encontrei no passeio um brinco prateado, oculto num canteiro sujo.
Como logo ali ao lado um artesão expunha jóias e badulaques para vender, estimulei meu filho maior a perguntar-lhe se a peça não era sua. O artesão respondeu em portunhol.
Outra conversa começou.
O homem não era espanhol, era chileno. Falava castelhano, mas sua família era catalã. Os espanhóis, garantiu, eram todos ladrões, exploradores, assassinos. Só os catalães prestavam.
Uma espécie de trenzinho de Papai Noel estava sendo construído na fachada de outro banco. Meus filhos quiseram entrar nele; não estava pronto ainda. Desconfio que não fique pronto nunca.
Voltamos para casa, sem trenzinho, de metrô. Meus filhos talvez não se lembrem de nada disso no futuro, mas eles avançaram algumas estações na viagem que fazem pelo mundo.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 24 de dezembro de 2008.

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quinta-feira, novembro 27, 2008

Uma leitura interrompida

Uma leitura interrompida

UM FILHO, diz Cristovão Tezza no romance mais premiado deste ano, "é a idéia de um filho; uma mulher é a idéia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com a idéia que fazemos delas; às vezes não".
A frase aparece nas primeiras páginas de "O Filho Eterno" (ed. Record), que ganhou os prêmios Jabuti, Bravo! e Portugal Telecom de 2008. Premiações nem sempre dizem muita coisa, mas a consagração de Cristovão Tezza é merecidíssima.
Eu tinha começado a ler "O Filho Eterno" há vários meses. Só que o meu plano de escrever sobre o livro ia sendo adiado. Tentei ler o romance três vezes. E paro sempre no mesmo ponto, aí pela página 40. Não porque o livro seja ruim. Ao contrário: é tão bom, tão maduro e verdadeiro que estremeço e não consigo prosseguir.
"Um filho é a idéia de um filho." Quem formula esse pensamento é o personagem principal do livro, abertamente autobiográfico. Trata-se de um rapaz de 28 anos, que naqueles finais da década de 70 guarda um bocado do ideário hippie. Acredita-se predestinado à literatura, há quatro anos é sustentado pela mulher e consegue arranjar alguns trocados fazendo a revisão gramatical de teses universitárias.
"Alguém provisório", define-se; "alguém que ainda não começou a viver". O livro começa com uma frase da mulher: "Acho que é hoje". Ela está no último mês da gravidez. Pai e filho, de certo modo, começarão a viver no mesmo dia.
Na sala de espera da maternidade, o protagonista mantém a atitude desligada e humorística que o caracterizou até ali. Se um filho é apenas "a idéia de um filho", a realidade daquele momento (o futuro pai fumando na sala de espera) também é apenas "a idéia" de um futuro pai fumando na sala de espera. Uma cena meio cômica, "um cartum", resume o autor.
A arte de Cristovão Tezza se assemelha à de uma cobra que se encolhe antes de dar o bote. O leitor simpatiza com esse pai cuca-fresca e reconhece a sua sensação de que, em qualquer acontecimento importante da vida, existe algo de engraçado e irreal. É como se participássemos de um roteiro repleto de lugares-comuns, como se a idéia pré-fabricada que temos das coisas tirasse delas o seu significado mais profundo.
Quem lê compartilha esse olhar humorístico, de "cartunista", do narrador. Mas logo se percebe uma diferença entre o "modo de ver" e o "modo de falar" empregado nas primeiras páginas do livro. As cenas e pensamentos são delineadas com leveza, como se feitas a lápis; mas a elocução, a sintaxe, a ordem das frases, é compactada e densa.
O narrador cochila no sofá. O recém-nascido chega: um "pacotinho suspirante". A mãe "vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri".
Um médico dá início à preleção.
"Observem os olhos, que têm a prega nos cantos, a pálpebra oblíqua... o dedo mindinho das mãos, arqueado para dentro... achatamento da parte posterior do crânio..."
O pai, que pouco tempo antes fizera a revisão de uma tese sobre síndrome de Down, entende na hora do que se trata. Mas como entender? "Ele recusava-se a ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro; recusava-se mesmo a olhar para a cama, onde todos se concentravam num silêncio bruto, o pasmo de uma maldição inesperada."
Copiando este trecho, vejo que talvez tenha sido uma atitude semelhante a que me impediu de continuar o livro. Leio e releio essas páginas iniciais. Depois, digo para mim mesmo, eu continuo.
Enquanto isso, descubro novas belezas em "O Filho Eterno". Por exemplo. Antes da revelação terrível, o pai brinca com os parentes, que lhe perguntam com quem se parece o recém-nascido. Ele o vira apenas através dos vidros do berçário.
Repete a piada clássica: o filho parece um joelho. Pensa também, ao ver tantos bebês juntos: "Somos de fato todos irmãos, tão parecidos uns com os outros!"
Nem todos.
Antes ainda, enquanto transcorria o parto, o protagonista se lembra (é muito distraído) de avisar a família.
Compra umas fichas de telefone. Na calçada, fora do hospital, há uma fileira de telefones públicos, "um deles com o fone arrancado e um patético fio solto".
Uma ligação eterna se fará, sabemos, entre pai e filho. Mas interrompo a leitura, e este artigo também.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 12 de novembro de 2008.


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sábado, agosto 23, 2008

A doce morte de Dorival Caymmi

A doce morte de Dorival Caymmi


EM 1949, em plena glória existencialista, Albert Camus (1913-1960) veio ao Brasil. Estava gripado e deprimido. Detestou quase tudo.
Sobre a baía da Guanabara, disse que era espetacular demais para o seu gosto. As pessoas, na maioria, ele acha insuportáveis. Os motoristas brasileiros "ou são alegres loucos ou frios sádicos".
Fazem-no experimentar pratos da culinária baiana, "tão apimentados que fariam andar paralíticos".
Pobre Camus. Levam-no a uma macumba. A dança, "de estilo medíocre, é pesada e muito carregada".
O transe religioso produz nele um bocado de nojo: "Uma branca gorda, com uma cara animal, uiva sem parar [...]. Todos gritam e urram [...]. O calor, a fumaça dos charutos, o cheiro humano tornam o ar irrespirável.
Saio, trôpego, e respiro afinal deliciado o ar fresco. Amo a noite e o céu, mais do que os deuses dos homens".
Uma ou duas mulatas até que são bonitas, mas Camus concorda com o militante negro Abdias do Nascimento: "A raça é feia". De qualquer modo, pouco importa: "A natureza sufoca o homem".
A mistura de miséria e luxo lhe pareceu mais insolente no Brasil do que em qualquer outro lugar. "Desgosto e cinismo", resume Camus.
Mas seu "Diário de Viagem" (ed. Record) registra alguns momentos de felicidade. Camus vai jantar na casa de uns conhecidos franceses e encontra Manuel Bandeira, "pequeno homem extremamente fino".
Depois do jantar, aparece "Kaïmi, um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta". Ouvem-se "as canções mais tristes e mais comoventes". "Pouco a pouco, todos cantam, e vêem-se um negro, um deputado, um professor de faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido", anota Camus.
Tinha de ser. Quem sabe até cantou, junto com Dorival Caymmi, algumas daquelas canções que todo mundo conhece, e que, na verdade, parece que já conhecia antes mesmo de terem sido compostas.
Fico nas básicas, como "É Doce Morrer no Mar" e "O Mar" ("Quando quebra na praia..."). A "tristeza", para usar o termo de Camus, é imensa nessas músicas -só que nelas não parece haver lugar para sentimentos tristes. Canções de ninar também são tristes, e não servem para entristecer.
"É Doce Morrer no Mar" se parece, sem dúvida, com um acalanto, por causa da melodia hipnótica; e também porque parece ter surgido "pronta", sem autor, de algum fundo noturno de folclore e de memória.
"Não parece coisa feita por gente", diz Arnaldo Antunes, citado pelo ensaísta Francisco Bosco, num livro primoroso sobre o compositor, para a coleção "Folha Explica". Francisco Bosco acrescenta: as canções praieiras de Caymmi parecem "o canto das coisas em si, as coisas cantando".
Enumera, em seguida: o vento, as ondas, o mar, a areia...
E, com isso, voltamos àquelas frases de Camus. "A natureza sufoca o homem", diz o escritor a propósito do Brasil; "amo a noite e o céu, mais do que os deuses dos homens", observa ele, não sem cair em alguma contradição.
De certo modo, a "doçura de morrer no mar" está no fato de permitir esse desaparecimento de toda individualidade, que a natureza brasileira, e a música de Caymmi, conseguem efetuar por um momento.
Não é por outra razão que "um negro, um deputado, um tabelião" e talvez um intelectual europeu terminam a noite cantando juntos.
Mas a morte doce de Caymmi poderia significar apenas uma espécie de consolo, de esquecimento, como o da canção de ninar, sem que o ouvinte se sinta curiosamente desperto e insaciado cada vez que ouve uma de suas composições.
Ouço novamente "É Doce Morrer no Mar". Não sei se alguma canção de ninar começaria com aquele salto melódico nas duas primeiras sílabas, que tem um componente de inquietação, de resistência inicial ao balanço que se vai seguir.
A antítese escondida no verso (do mar salgado à morte doce) repete-se em outros planos. É o vozeirão de Caymmi quem fala pela mulher, lamentando a morte do "marinheiro bonito". Mas a mulher fala pelo marinheiro, pois apenas para este é doce ser levado pela "sereia do mar".
Na letra existe também um jogo com o saveiro, que numa estrofe "voltou sozinho", e que em outra...
"partiu e não voltou". Marinheiro e barco se confundem nesse vaivém da música.
Não há pura dormência nisso.
Quem quer o mar quer sair daqui, mas também quer voltar. Maracangalhas e Bahias, quem sabe, talvez venham a ficar no mesmo lugar.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 20 de agosto de 2008.

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