segunda-feira, agosto 16, 2010

Já tem leitor eletrônico na Livraria Cultura

Já tem leitor eletrônico na Livraria Cultura


Este final de semana, estive na Livraria Cultura, para uma breve visita. Eu gosto de visitar livrarias.

Foi uma breve visita, pois cheguei pouco antes do horário do fechamento da loja. Contudo, quando eu estava saindo, vi uma referência ao leitor eletrônico (“e-reader”) da Positivo Informática, chamado “Alfa”. Pela referência, o tal leitor deveria estar disponível na loja. Voltei para a loja em busca dele. Não o achei. Tive que perguntar a um dos atendentes da loja, se ele já estava disponível ali. Estava.

O atendente me levou a uma das estantes, à qual eu não havia prestado atenção, e me mostrou uma caixa lacrada, com o dispositivo eletrônico para leitura de livros em versões de arquivos digitais. O dispositivo estava lá. O atendente da loja começou a me falar das coisas boas do aparelho, inicialmente me perguntando se eu já tinha ouvido falar do Kindle, da Amazon. Sim, eu já havia. O aparelho da Positivo possui o mesmo propósito, isto é, possibilitar a leitura de livros em formato de arquivo digital, e no caso da Livraria Cultura, o dispositivo já vem com um livro de brinde: O Príncipe, de Maquiavel, em versão eletrônica da Penguin / Companhia das Letras. Ele possui uma memória de 2 Gb, com capacidade para armazenar 1.500 livros. E eu fiquei pensando quanto tempo eu levaria para ler 1.500 livros. Ainda mais que costumamos ler um de cada vez, se bem que há algumas pessoas mais geniais que leem 3 ou 4 de cada vez, mas acho que são exceções. Afora isso, a memória do aparelho ainda pode ser expandida com cartões de memória, ou seja, que tal carregar 3.000 livros para onde você for?

Mas, pelo menos, no leitor eletrônico, seria mais fácil carregar 1.500 ou 3.000 livros; ele pesa menos de 300 gramas, o que talvez seja o peso de UM livro com umas 200 a 300 páginas. Imagine o peso de carregar 1.500 ou 3.000 livros em papel!

Segundo o atendente, uma carga de bateria pode durar até 20.000 viradas de página, isto é, uns 200 daqueles 1.500 livros que você pode carregar, ou até 20 dias, se você não usá-lo (ficar em “stand by”, conforme o atendente falou). Num caso assim, eu imagino que depois de ler uns 10 livros, você queira variar, ler um livro de papel, e deixar a máquina de ler um pouco de lado. Se você ler este livro em papel em menos de 20 dias, ainda poderá retomar a máquina, sem que precise de uma nova carga.

Aí eu cheguei na parte complicada. Perguntei quanto custava o produto. “699 reais”, me respondeu o atendente. Não pude deixar de pensar que era um pouco caro. Mas é possível parcelar em 5 vezes!

Infelizmente não havia um modelo em exposição passível de ser manuseado, o “hands-on”, como o pessoal vidrado em tecnologia gosta de dizer, enquanto eu estava ali. Há um disponível na loja, mas estava em outro setor. Como eu disse, cheguei muito perto do horário da loja fechar, e certamente eu não iria comprar o tal aparelho naquele momento. Poder experimentar o aparelho, ler e “virar páginas” com ele, para ver se de fato, um leitor eletrônico pode também ser uma muito boa experiência vai ficar para um outro dia.


O tempo de duração da carga de bateria parece ótimo, comparado com “notebooks” e “netbooks”. E o aparelho promete se compatível com a multidão de arquivos tipo “txt” e “pdf” que estão disponíveis na Internet, a começar pelo sítio Domínio Público. A máquina me gerou boas expectativas, embora o preço me deixe reticente...



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quarta-feira, agosto 11, 2010

Google informa que o mundo tem 130 milhões de livros publicados

A notícia é da Folha de São Paulo.

Para mim é um alívio. Eu imaginava que os livros publicados fossem mais de um bilhão. Mas ainda acho que o número deve ser pelo menos duas vezes maior, pois o texto da Folha não comenta sobre obras disponíveis on-line, que poderiam ser assemelhadas a livros (por exemplo, monografias, dissertações e teses acadêmicas).

Em todo, fica a dúvida: quem conseguiria ler 130 milhões de livros?


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terça-feira, março 02, 2010

O Futuro da Memória, de Gordon Bell e Jim Gemmell

A evocação do Big Brother de George Orwell – que a todos observa, controla e comanda –, quando surge, é sempre pejorativa. Seja por causa do Big Brother, o programa de televisão (que, aliás, tem pouco a ver com isso); seja por causa do medo de que o estado ou “as empresas” ou algum ditador venha(m), futuramente, a fazer isso. Contudo: algo de que não nos damos conta é que estamos, mais e mais, despejando, naturalmente, nossos dados, e registrando nosso dia a dia, e nossos movimentos, através da internet e de dispositivos a ela conectados. Por exemplo, nossos e-mails: quem usa uma ferramenta como o Gmail, ou similar para webmail, está registrando, por escrito, parte dos seus dias – para que, no mínimo, o Google acesse e saiba tudo o que houver ali para saber. Do mesmo jeito, quem tira fotos e, continuamente, as publica na Web. Ou, ainda, as “redes sociais”, onde registramos nossas relações, nossos círculos, nossos laços afetivos. Ou, mais prosaicamente, os bancos e as empresas de cartão de crédito, que estocam as informações sobre tudo o que consumimos, nossos hábitos, nossas preferências. Gordon Bell e Jim Gemmell, em O Futuro da Memória (Campus), simplesmente defendem que não há como fugir – e que esse processo, talvez, não seja tão trágico quanto previu Orwell em 1984. Bell e Gemmell acreditam que, no futuro, com a queda histórica no preço de armazenamento, processamento e transmissão de informações (Lei de Moore), nossa vida inteira registrada não vai custar muito caro. E com um buscador extremamente poderoso – como um Google (auto)biográfico –, poderemos resgatar desde imagens até cenas inteiras, desde conversas até vivências inteiras. É o que estão chamando de Total Recall. As implicações, em muitas áreas, são incontáveis. Implicações éticas, inclusive. Pessoas mortas, por exemplo, nunca deixarão de “existir” – por causa de seus registros. E talvez o “memorioso”, do conto de Borges, finalmente se materialize – com o alcance, infinito, da tecnologia... (Lembrando que leva, justamente, uma vida para reconstituir toda uma vida...)

Visto no Digestivo Cultural.

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quinta-feira, novembro 05, 2009

Historia do Brazil, de Frei Vicente de Salvador

O novo regime social

Obra fundadora, "Historia do Brazil", de frei Vicente do Salvador, identificava a mestiçagem como central à formação do país, em 1630

JOÃO FRAGOSO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Acaba de chegar às livrarias a mais nova edição da "Historia do Brazil", de frei Vicente do Salvador, um dos clássicos da crônica colonial. Desta vez, a obra foi preparada por Maria Lêda Oliveira, historiadora pernambucana e investigadora da Universidade Nova de Lisboa, que nos brinda com um cuidadoso estudo sobre o homem frei Vicente, sua época, os códigos letrados de então e as edições anteriores, inclusive a de Capistrano de Abreu [1853-1927].
Esta nova publicação veio a calhar, pois ocorre em um momento em que a historiografia nacional começa a se desprender das chamadas "teorias da dependência", modelos que por décadas prevaleceram na explicação da economia brasileira dos séculos 16 e 17. Assim, a reedição é uma ótima oportunidade para olharmos de maneira mais crítica para a formação da sociedade brasileira.
Concluída, provavelmente, em 1630, a "Historia do Brazil" nos traz depoimentos de um homem a um só tempo jesuíta e filho de uma nobreza da terra baiana em gestação sobre as feições de uma sociedade que logo seria centro do império ultramarino luso. Vejamos isso com mais atenção.
Em 1656, menos de 30 anos depois de concluída a "Historia do Brazil", o Conselho da Fazenda da monarquia lusa expunha a situação de seu império. O outrora florescente Estado da Índia estava reduzido a seis praças, "sem proveito religioso e econômico".
Em contrapartida, o Brasil tornara-se a "substância principal" da monarquia e "Angola o nervo das fábricas do Brasil". Portanto, conforme o egrégio conselho, o sistema atlântico luso já estava constituído naquele momento.

Economia da escravidão
Os engenhos de açúcar espalhavam-se pelo litoral de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. Da mesma forma, as produções de alimentos, encravadas ou não nas áreas agroexportadoras, abasteciam as gentes desta América. Completando o cenário, os escravos, cada vez mais, vinham de Angola, substituindo os chamados negros da terra (índios).
Esse sistema atlântico e escravista ampliou-se com a mineração e permaneceu como base da Monarquia lusa até 1822.
Diante desse panorama, uma pergunta parece inevitável. Como isso ocorreu? Afinal, em 1591, a estimativa do número de engenhos no Brasil era de apenas 63. Menos de 50 anos depois, em 1637, passava para 350. Segundo as toscas informações sobre o tráfico de africanos para o Brasil, entre 1580 e 1600, por ano, entraram 2.000 cativos e, na década de 1620, tais entradas já eram mais de 6.500 almas. Por conseguinte, em menos de 50 anos, os números de engenhos e de escravos africanos triplicaram, pelo menos. Assim voltamos ao nosso frade, contemporâneo dessa transformação do "Brazil". Por meio de uma leitura atenta de seu texto, podemos ter indícios da lógica social que presidiu aquela formação econômica e, consequentemente, as opções de seus agentes.
Em diversos capítulos ele nos relata, por exemplo, a ação dos Coelho, Albuquerque e dos Sá. Parentelas que, "à custa de suas fazendas e vidas", conquistaram partes daquela América, estendendo o domínio da monarquia de Pernambuco ao Maranhão e da Bahia ao Rio de Janeiro. Em seguida, cuidaram do "bem comum" das gentes, com o estabelecimento da Justiça, do mercado público e da defesa. Desse modo, começavam a funcionar as "repúblicas" ou municípios, sob a tutela do rei, porém dirigidos por Câmaras votadas pelos homens bons da terra, garantindo, tal como no reino, o autogoverno das comunidades. O relato dessas ações ocupa boa parte do livro e expressa práticas sociais conhecidas há tempos no Antigo Regime luso. Daí não nos causa espanto que Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, e seu cunhado, Jerônimo de Albuquerque (os dois vindos da Índia), tenham recorrido a essas práticas. Sendo a mesma receita utilizada por Mem de Sá, governador geral do Brasil (1504-72), e cuja autoridade teve como um dos alicerces sua parentela e clientela, e não apenas os parcos recursos da coroa.

Índios e fidalgos
Com certeza, esses e outros conquistadores, ainda dentro das normas do Antigo Regime, foram remunerados por sua majestade. Ou melhor, receberam mercês na forma de vastas terras, foros de fidalgo, privilégios mercantis e cargos régios que lhes davam acesso aos recursos da jovem sociedade. Mais ainda, ganharam do rei o mando político das gentes. Porém, esse mando só foi possível por meio de outro expediente: as alianças com segmentos das populações indígenas. Aqui surgem, na crônica de nosso frei Vicente sobre a formação do "Brazil", outros atores, com menos recursos, porém, ainda, agentes: os índios. O filho de Jerônimo de Albuquerque, seu homônimo e conquistador do Maranhão (1548-1618), tratava os índios de suas terras como "sobrinhos", talvez por ele próprio ser mestiço, neto materno de um chefe indígena. Ou seja, ele era produto da aliança com frações indígenas. Aliados e aparentados a índios flecheiros, Jerônimo, os descendentes de Diogo Álvares Correia (Caramuru) e outros conquistaram terras e índios escravos. Conforme se sabe hoje, a "decolagem" dos engenhos de açúcar fora possível pela escravidão indígena. Aqui a evangelização, seja dos índios aliados ou conquistados, como sugere Vicente Salvador e sublinha Maria Lêda Oliveira, era essencial para o sucesso do "Brazil". Principalmente se lembrarmos que não se contava com o crédito de capitais ingleses e holandeses, como ocorreu no Caribe seiscentista, dispostos a comprar avalanches de africanos para as "plantations".
Os mecanismos de Antigo Regime permitiriam à América lusa, no século 17, inundar o mercado internacional de açúcar e comprar cerca de 40% do total dos escravos que cruzaram o Atlântico. Mecanismos que se traduziram em um sistema atlântico diferente do comandado por Londres e Amsterdã, este último mais afinado com o capitalismo ou algo que o valha. A "Historia do Brazil" fornece indícios das origens do sistema Atlântico luso de tipo antigo e mais de uma sociedade que conseguiu, a um só tempo, combinar a mestiçagem e uma forte ascensão social, e isso nos quadros de uma hierarquia social com traços estamentais.


JOÃO FRAGOSO é professor do departamento de história da Universidade Federal do RJ e coorganizador de "Conquistadores e Negociantes" (ed. Civilização Brasileira).



HISTORIA DO BRAZIL Autores: Frei Vicente do Salvador (vol.1) e Maria Lêda Oliveira A. da Silva (vol. 2) Editora: Versal (0/xx/21/2239-4023)
Quanto: R$ 212 (592 págs.)


Texto do caderno Mais!, da Folha de São Paulo, de 15 de fevereiro de 2009.

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domingo, setembro 13, 2009

Um livro de Ondjaki, angolano

Obra de Ondjaki volta à Luanda dos anos 80

DA REPORTAGEM LOCAL

Na Luanda dos anos 80, o português confundia-se com o espanhol e o russo na tranquila praia do Bispo, onde o escritor Ondjaki, 31, foi criado.
Em meio à Guerra Fria, os angolanos conviviam com cubanos e soviéticos e tinham a paz de sua rotina ameaçada por estes últimos, empenhados em construir no local um mausoléu para o presidente Agostinho Neto, morto em 1979.
As lembranças que o autor tem daqueles tempos servem de base para "AvóDezanove e o Segredo Soviético", que tem lançamento nesta quinta, na Livraria da Travessa, no Rio.
Mas, como ele próprio ressalta, a história "torna-se ficção desde o primeiro instante".
"Qualquer visão da realidade, escrita num livro de ficção, é já um multifacetado espelho para novas interpretações. Fica muito difícil delinear a fronteira entre o que houve e o que não se passou bem assim", diz o autor, o mais celebrado nome da nova geração na literatura africana, que hoje vive no Rio.
No romance, dois meninos criam um plano mirabolante para evitar perder as suas casas para a obra no local. É um "exercício do que poderia ter acontecido", afirma o autor, que registra "os desejos e as conversas das crianças que testemunhavam uma mudança radical no seu bairro".
Conhecido por suas narrativas marcadas pela oralidade, Ondjaki celebra esse olhar infantil e o encontro de linguagens em Luanda numa escrita que transborda ironia. Um dos personagens russos, Bilhardov, por exemplo, vira para as crianças o "camarada Botardov" por causa do modo como se dirigia às pessoas em qualquer hora do dia -"bótard", tentando dizer "boa tarde". (RC)


AVÓDEZANOVE E O SEGREDO SOVIÉTICO
Autor: Ondjaki
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 36 (192 págs.
) Lançamento: qui., às 19h, na Livraria da Travessa (av. Afrânio de Melo Franco, 290, RJ, tel. 3138-9600)

Texto da Folha de São Paulo, de 23 de junho de 2009.

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Um livro de Mia Couto, moçambicano

Mia Couto vê o fim do mundo

Moçambicano chega ao Brasil para falar sobre seu novo romance e participar de eventos de teatro

Obra trata da busca pelo esquecimento no país do escritor; em SP e no Rio, ele também comenta as adaptações de seus textos


RAQUEL COZER
DA REPORTAGEM LOCAL

Depois que o mundo acabou, um lugarejo chamado Jesusalém tornou-se o lar do que restou da humanidade -Silvestre Vitalício, os dois filhos, um tio dos meninos, um serviçal e, vá lá, a jumenta Jezibela, "tão humana que afogava os devaneios sexuais" do velho Vitalício.
Mas um dia Mwanito, o filho mais novo, vê uma mulher e desaba em lágrimas, porque achava que não havia mais nenhuma delas na Terra. É a partir desse ponto, entre o fim e o começo da existência, que se desenrola "Antes de Nascer o Mundo", o mais recente romance do moçambicano Mia Couto. O livro tem lançamento simultâneo no Brasil e em Portugal, Angola e Moçambique.
Por aqui, Couto, 53, um dos maiores nomes da literatura africana contemporânea, desembarca nesta semana para uma série de eventos. O primeiro acontece nesta quinta, em São Paulo, quando o autor lança o romance na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Embora a descrição da história de "Antes de Nascer o Mundo" lembre algo de realismo fantástico, é de uma realidade bem próxima do autor que o romance trata. Jesusalém, "a terra onde Jesus haveria de se descrucificar", é um lugar como tantos outros que o escritor conheceu em seu país.
"No interior de Moçambique deparei com famílias que viviam numa quase completa condição de marginalidade. Estavam aparentemente longe de tudo. Trabalhei com essas comunidades e reparei sempre que, depois de um primeiro olhar, a ligação umbilical com o mundo de hoje estava presente", ele diz à Folha.
É dessa ligação que Vitalício, o líder do lugarejo, tenta se livrar. Mais precisamente, da lembrança que o mundo real lhe traz -a morte de Dordalma, mãe de seus filhos. A tentativa de apagar o passado é também uma fuga da guerra que, durante 16 anos, fez quase 1 milhão de mortos no país.
"Os moçambicanos escolheram o esquecimento. Quem hoje viaja pelo país não sente sinal nenhum dessa guerra. Esse esquecimento é uma sabedoria, uma percepção de que os demônios do passado ainda não foram enterrados. Mas é um falso esquecimento, como quase sempre sucede com os lapsos de memória", diz Couto.

No teatro
Os outros eventos de que o autor participa no Brasil são ligados ao teatro. Nesta sexta-feira, ele participa de um bate-papo no Sesc Avenida Paulista, onde está em cartaz a peça "O Outro Pé da Sereia", adaptada do romance homônimo do autor pela Cia. Fábrica São Paulo.
No dia 3 de julho, faz palestra no Sesc Ginástico, no Rio, dentro do Festlip -0Festival de Teatro da Língua Portuguesa (www.talu.com.br/festlip), que reúne 11 espetáculos de seis países.


ANTES DE NASCER O MUNDO
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 42 (280 págs.)
Lançamento: qui., às 19h, na Livraria Cultura do Cj. Nacional (av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3170-4033)

Texto da Folha de São Paulo, de 23 de junho de 2009.

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sábado, maio 30, 2009

Devemos permanecer leitores

Devemos permanecer leitores

Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)

A impressão que fica de "O Leitor Comum", livro de Virgínia Woolf, publicado pela Graphia, é a de que a escritora encadeia os seus textos buscando alcançar um público que se diferencia do crítico e do professor. Ela começa com um ensaio curtíssimo, quase um prólogo, que se ocupa de uma frase de Johnson: "Agrada-me concordar com o leitor comum"; e fecha com um ensaio mais longo sobre Como se deve ler um livro, dizendo: "O único conselho, de fato, que uma pessoa pode dar à outra sobre o ato de ler é não seguir conselho algum, seguir seus próprios instintos, usar suas próprias razões, chegar a suas próprias conclusões".

Em ensaios em que louva Jane Austen, Defoe, Conrad, Thomas Hardy, Scott e outros, o tema do leitor e do crítico aparece sempre. Há quase a sugestão de que uma obra deve possuir clareza e ser escrita para agradar aos leitores; e de que o autor deve contar a verdade sobre si mesmo, revelando-se. Mas é quando escreve Como atacar um contemporâneo e Ficção moderna, que Virgínia Woolf mostra um lado belicoso que não é fácil reconhecer em seus romances e contos. Ela ataca a crítica - "resenhistas nós temos, mas não críticos" -, achando-a contraditória na avaliação dos contemporâneos, nunca coincidindo nas opiniões, mas emitindo os mesmos comentários generosos sobre autores mortos e consagrados.

Nem é preciso ler o subtexto do livro para descobrir as preocupações da autora. Ela busca o reconhecimento do lugar que ocupa na moderna literatura inglesa. Sempre que pode é generosa e condescendente com seu tempo e com o esforço de escrever: "Nenhuma época pode ter sido tão rica quanto a nossa em escritores determinados a expressar as diferenças que os separam do passado e não às semelhanças que os conectam com ele". Embora poucas linhas adiante mergulhe no pessimismo: "Livro após livro nos deixam com a mesma sensação de promessa malograda, de pobreza intelectual, de brilho que foi roubado da vida, mas não transmutado em literatura". E como leitora apaixonada, também aponta defeitos nos autores que ama, para mais adiante reconhecer nesses mesmos defeitos as qualidades que os consagraram.

Todos os ensaios discorrem sobre a permanência e o esquecimento dos livros. E sobre o leitor, o único capaz de mantê-los vivos, através da leitura. Virgínia Woolf temia o esquecimento a que tanto se refere. Insiste na crença do autor na sua obra: "Basta acreditar, nos surpreendemos a dizer, e tudo o mais virá por si mesmo". E parece aceitar um lugar menos privilegiado na história: ... "seria sensato aos escritores do presente renunciar à esperança de criar obras-primas". E um pouco mais esperançosa: "É dos cadernos do presente que as obras-primas do futuro são feitas".

Sentimos que "O leitor comum" foi escrito por uma leitora apaixonada, que também era romancista. Existe um quase enredo entremeando os capítulos, o amor aos livros e seus autores, e um incitamento permanente ao ato de ler. Amor irrestrito, não apenas ao que foi consagrado, mas também ao que desponta. Insegura, talvez, quanto ao futuro do que escrevia, Virgínia Woolf condescende: "Toda literatura, à medida que o tempo passa, tem seus montes de entulho, seus registros de momentos findos e vidas esquecidas contados em tom vacilante e medíocre que se deterioram. Mas ao se entregar aos encantos da leitura de certas tolices você pode se surpreender, ser deveras conquistado, pelas relíquias da humanidade que foram banidas do que se considera modelo".

"O leitor comum" é uma relíquia que nos conquista.

Texto do Terra Magazine.


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quarta-feira, maio 06, 2009

Voltando à polêmica: O Código da Vinci, desta vez, o livro

Voltando à polêmica: O Código da Vinci, desta vez, o livro


Já estive escrevendo sobre “O Código da Vinci”. Na época o texto foi baseado sobre o filme, com os atores Tom Hanks e Audrey Tautou. Pelo que me lembro, eu estava bastante azedo a respeito da história.


Pois agora, nas férias, peguei o livro para ler, numa edição ricamente ilustrada e papel de alta gramatura, com capa dura. Ou seja, uma edição de luxo cheia de figurinhas.


Pois bem, como diria um ontologista, “uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”. Ou ainda, como talvez dissesse Humberto Eco quando perguntado sobre a adaptação de livro O Nome da Rosa para o cinema, “um filme é uma obra diferente de um livro”. Assim não dá para fazer comparações diretas.


A despeito disso, considerei o livro bem superior ao filme. Normalmente considero os livros superiores às suas adaptações cinematográficas, mas procuro pensar que os produtores de filmes dependendo de cada obra, têm bem menos recursos para recriar o universo imaginado pelo escritor.


Não é o caso aqui. Um roteirista tem a limitação do tempo padronizado de duração de um filme. Algo entre 90 e 120 minutos de duração, embora vez por outra apareça um longa metragem com 180 minutos. Os cerca de cem capítulos do livro abarcam cerca de dois dias dos personagens e da história narrada.


Mas se eu estive azedo quando comentei o filme, devo dizer que estive com a alma muito mais leve ao ler o livro.


O Código da Vinci tem sua estrutura de “best seller”, com uma história que começa com um assassinato, e com perseguições, numa linguagem fluida. O suspense vai crescendo, de maneira que é difícil largar o livro enquanto não se chega ao fim. Eis aí um bom motivo para lê-lo nas férias.


Também dá para entender melhor a ira de algumas pessoas da Igreja Católica. Se no filme as menções eram relativamente sutis, no livro está explícita a citação da Opus Dei como um grupo de radicais que inclusive estão dispostos a matar para sufocar qualquer coisa que venha a ser uma ameaça para a Igreja.


Os motivos para o meu azedume de outrora estão lá, inclusive melhor explicados, melhor desenvolvidos. Mentiras deslavadas sobre o Império Romano no tempo de Constantino, sobre os relacionamento entre cristãos e pagãos. Mentiras sobre a formação do Novo Testamento e os evangelhos apócrifos. Mentiras sobre os resultados do Concílio de Niceia (325 A.D.). Mentiras sobre a perseguição do Papa aos Templários. Mas sabe de uma coisa? Parece que para mim, agora, valeu o que me disse um colega quando reclamei do filme, “É uma obra de ficção”. Então, por que se preocupar se o autor mente sobre a História? Ele só quer “prender” seus leitores.


E, por fim, dá para dizer que o livro ajuda a compreender certas coisas sobre o filme, as quais, apenas assistindo o filme não ficam muito claras.


E não se preocupe muito com a Igreja Católica sufocando “o sagrado feminino”. A prominência feminina, ou a sociedade matriarcal, se é que de fato existiu (pode-se inferir sua possível existência via registro arqueológico, mas não se comprovar a partir de testemunhos escritos), foi substituída pelo patriarcado desde os gregos pré-cristãos até sociedades tão longínquas quanto a China.


Diversão e distração garantidas.


Observação: este texto foi manuscrito em 22/02/2008.

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quarta-feira, dezembro 24, 2008

Lévi-Strauss e Papai Noel

"Papai Noel vem em socorro de adultos"

Ensaio de Lévi-Strauss sobre o Natal, agora lançado, é exemplo de seu método e antecipa desenvolvimentos atuais da antropologia

RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

A Cosac Naify acaba de publicar, oportunamente para as festas de fim de ano, um ensaio inédito em português do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss sobre o significado de Papai Noel e do Natal.
A empreitada pode parecer simpática, porém prosaica, à primeira vista. Trata-se, no entanto, de um lance de enorme pretensão de um dos maiores pensadores do século 20.
Publicado em 1952, "O Suplício do Papai Noel" procura aplicar os princípios metodológicos da antropologia estrutural, criada e testada na lida com outras sociedades, a uma prática moderna e ocidental.
Lévi-Strauss antecipava-se assim, em décadas, ao projeto de pensar as sociedades industrias a partir de suas relações e diferenças com as chamadas sociedades "primitivas" ou "tradicionais", projeto que tem sido levado à frente, mais recentemente, por figuras de ponta da disciplina, como o norte-americano Roy Wagner e a britânica Marilyn Strathern.
Papai Noel surge no início do ensaio, em notícia de jornal, com as barbas e o resto do corpo queimados. A Igreja Católica francesa, pouco depois do final da Segunda Guerra e incomodada com o crescimento em importância desta figura ao mesmo tempo pagã e norte-americana, andou promovendo umas cerimônias curiosas, em que ateava fogo ao barbudo, dentro de igrejas e diante de criancinhas órfãs.

Importância
A igreja, com sua experiência no assunto, não costuma errar ao atribuir valores significativos a manifestações sociais, diz o antropólogo francês. E o significado de Papai Noel e do Natal moderno são capitais, ele diz. Como compreendê-lo?
Primeira operação: nas festas natalinas, desde os tempos das comemorações pagãs em celebração do solstício de inverno e da "volta" gradual da vida após o auge da escuridão, as sociedades costumam perder, ao menos simbolicamente, a divisão tradicional que as caracteriza -em classes ou grupos sociais hierarquicamente diferenciados. Trata-se, afinal, de uma festa de "reunião e comunhão".
Lévi-Strauss faz aqui, explicitamente, uma aproximação entre o Natal e o Carnaval, no abandono temporário, ainda que simbólico e parcial, das distinções "verticais" de uma sociedade, o que pode em princípio causar alguma estranheza. É interessante, por isso mesmo, encontrar aproximação semelhante num artigo de 1940 escrito por Graciliano Ramos, recolhido no livro "Viventes das Alagoas" (Record).
"No interior, tudo é diferente", ele escreve. "Nem francês de barbas, nem árvore com frutos enrolados em papel de seda, poucas mesas fartas, ausência de piedade". Após chamar o Natal sertanejo de "festa profana", o escritor alagoano a descreve assim: "Uma grande feira, tem muito do carnaval e dos torneios artísticos".

Troca de distinções
Pois bem, em lugar da divisão socioeconômica e hierárquica, continua Lévi-Strauss, lança-se mão temporariamente de uma nova divisão simbólica: desta vez entre crianças, que receberão os presentes, e adultos, que trabalharão para a manutenção do segredo que cerca a não-existência de Papai Noel.
Cumpre ao velhinho, portanto, ao mesmo tempo separar (uns, adultos, conhecem a sua não-existência; outros, crianças, nele acreditam) e unir esses dois grupos (os presentes passarão de uns a outros por suas mãos).
Segunda operação: encontrar outras relações, diferentes da divisão original promovida por Papai Noel, que com ela se relacionarão, que darão sentido a essa divisão entre crianças e adultos. É isso, uma analogia, de certo modo a forma geral de qualquer significado, para Lévi-Strauss. Na troca de presentes, crianças e adultos estão em relação com o quê?
Com a morte e com a vida, para dizer de uma vez. Trata-se de uma questão desta magnitude, segundo o antropólogo. O trabalho do artigo será mostrar que as crianças podem justamente significar a morte (usando exemplos de outros costumes e festas, mas também apoiado na lógica de que ambos são figuras de um "outro", de uma alteridade em relação aos adultos, passando pela representação, mais fácil, de pequenos anjinhos), e que há um sentido em lhes dar presentes.
Colocando-as nesse "lugar simbólico", lugar que fica no além, garantimos, ainda que precariamente, nossa vaga do lado de cá, e reforçamos, digamos assim, nossa relação com a vida, esse valor constantemente ameaçado.
"Sem dúvida, há uma grande distância entre a prece aos mortos e a prece repleta de conjurações que, todos os anos e cada vez mais, dirigimos às crianças -encarnação tradicional dos mortos- para que, acreditando no Papai Noel, elas consintam em nos ajudar a acreditar na vida", escreve o antropólogo.
"A crença que inculcamos em nossos filhos de que os brinquedos vêm do além oferece um álibi ao movimento secreto que nos leva a ofertá-los ao além, sob o pretexto de dá-los às crianças. Dessa maneira, os presentes de Natal continuam a ser um verdadeiro sacrifício à doçura de viver, que consiste, em primeiro lugar, em não morrer."
Que lição se pode ainda extrair desse estranho conto de Natal? Lévi-Strauss nos apresenta, aqui e em toda a sua obra, uma dialética que não comporta síntese. O significado sempre une sem igualar, e distingue sem cindir. O encontro final entre termos, idéias e grupos relacionados -ou seja, o fim da diferença entre eles- representaria o fim da possibilidade de sentido ou, dito de forma mais dramática, a morte.
Gente que leu Lévi-Strauss a sério nos oferece hoje, tantos anos depois desse ensaio, as mais interessantes propostas interpretativas das sociedades industriais.
Leituras que conseguem evitar a pulsão de morte de certas dialéticas -de direita ou de esquerda- que buscam ou, pior, já encontraram, algum fim para a história.


O SUPLÍCIO DO PAPAI NOEL
Autor: Claude Lévi-Strauss
Tradução: Denise Bottmann
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 25 (56 págs.)
Avaliação: ótimo

Texto da Folha de São Paulo, de 22 de dezembro de 2008.

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quinta-feira, novembro 27, 2008

Uma leitura interrompida

Uma leitura interrompida

UM FILHO, diz Cristovão Tezza no romance mais premiado deste ano, "é a idéia de um filho; uma mulher é a idéia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com a idéia que fazemos delas; às vezes não".
A frase aparece nas primeiras páginas de "O Filho Eterno" (ed. Record), que ganhou os prêmios Jabuti, Bravo! e Portugal Telecom de 2008. Premiações nem sempre dizem muita coisa, mas a consagração de Cristovão Tezza é merecidíssima.
Eu tinha começado a ler "O Filho Eterno" há vários meses. Só que o meu plano de escrever sobre o livro ia sendo adiado. Tentei ler o romance três vezes. E paro sempre no mesmo ponto, aí pela página 40. Não porque o livro seja ruim. Ao contrário: é tão bom, tão maduro e verdadeiro que estremeço e não consigo prosseguir.
"Um filho é a idéia de um filho." Quem formula esse pensamento é o personagem principal do livro, abertamente autobiográfico. Trata-se de um rapaz de 28 anos, que naqueles finais da década de 70 guarda um bocado do ideário hippie. Acredita-se predestinado à literatura, há quatro anos é sustentado pela mulher e consegue arranjar alguns trocados fazendo a revisão gramatical de teses universitárias.
"Alguém provisório", define-se; "alguém que ainda não começou a viver". O livro começa com uma frase da mulher: "Acho que é hoje". Ela está no último mês da gravidez. Pai e filho, de certo modo, começarão a viver no mesmo dia.
Na sala de espera da maternidade, o protagonista mantém a atitude desligada e humorística que o caracterizou até ali. Se um filho é apenas "a idéia de um filho", a realidade daquele momento (o futuro pai fumando na sala de espera) também é apenas "a idéia" de um futuro pai fumando na sala de espera. Uma cena meio cômica, "um cartum", resume o autor.
A arte de Cristovão Tezza se assemelha à de uma cobra que se encolhe antes de dar o bote. O leitor simpatiza com esse pai cuca-fresca e reconhece a sua sensação de que, em qualquer acontecimento importante da vida, existe algo de engraçado e irreal. É como se participássemos de um roteiro repleto de lugares-comuns, como se a idéia pré-fabricada que temos das coisas tirasse delas o seu significado mais profundo.
Quem lê compartilha esse olhar humorístico, de "cartunista", do narrador. Mas logo se percebe uma diferença entre o "modo de ver" e o "modo de falar" empregado nas primeiras páginas do livro. As cenas e pensamentos são delineadas com leveza, como se feitas a lápis; mas a elocução, a sintaxe, a ordem das frases, é compactada e densa.
O narrador cochila no sofá. O recém-nascido chega: um "pacotinho suspirante". A mãe "vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri".
Um médico dá início à preleção.
"Observem os olhos, que têm a prega nos cantos, a pálpebra oblíqua... o dedo mindinho das mãos, arqueado para dentro... achatamento da parte posterior do crânio..."
O pai, que pouco tempo antes fizera a revisão de uma tese sobre síndrome de Down, entende na hora do que se trata. Mas como entender? "Ele recusava-se a ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro; recusava-se mesmo a olhar para a cama, onde todos se concentravam num silêncio bruto, o pasmo de uma maldição inesperada."
Copiando este trecho, vejo que talvez tenha sido uma atitude semelhante a que me impediu de continuar o livro. Leio e releio essas páginas iniciais. Depois, digo para mim mesmo, eu continuo.
Enquanto isso, descubro novas belezas em "O Filho Eterno". Por exemplo. Antes da revelação terrível, o pai brinca com os parentes, que lhe perguntam com quem se parece o recém-nascido. Ele o vira apenas através dos vidros do berçário.
Repete a piada clássica: o filho parece um joelho. Pensa também, ao ver tantos bebês juntos: "Somos de fato todos irmãos, tão parecidos uns com os outros!"
Nem todos.
Antes ainda, enquanto transcorria o parto, o protagonista se lembra (é muito distraído) de avisar a família.
Compra umas fichas de telefone. Na calçada, fora do hospital, há uma fileira de telefones públicos, "um deles com o fone arrancado e um patético fio solto".
Uma ligação eterna se fará, sabemos, entre pai e filho. Mas interrompo a leitura, e este artigo também.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 12 de novembro de 2008.


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quinta-feira, outubro 30, 2008

54a. Feira do Livro de Porto Alegre



Começa amanhã.

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quarta-feira, outubro 29, 2008

O fim do livro impresso

O fim do livro impresso

VENHO DE alguns dias em Lisboa, onde mal informados de lá me colocaram no júri que avaliou os originais concorrentes ao primeiro Prêmio LeYa -novo grupo editorial que destinou cem mil euros ao vencedor. O regulamento estabelecia que seriam julgadas somente obras inéditas, embora os autores pudessem ter publicados outros textos no mesmo gênero literário. O sigilo foi absoluto, somente após a decisão dos julgadores seria aberto o envelope com o nome do vencedor. Até então, todo o material do concurso correria com um pseudônimo. Um sistema bastante usual, levado a sério, sem tramóias ou pressões, funciona com a isenção desejada para este tipo de avaliação.
O prêmio tinha caráter internacional, abrangia Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Timor Leste. E o júri também o era, com representantes de países lusófonos, sob a presidência do escritor Manuel Alegre, poeta, romancista, vice-presidente do Congresso e ex-candidato à presidência da República.
Foi impressionante o número de concorrentes: 422. Numa época em que se discute o funeral do romance e o fim do livro impresso, a vitalidade do gênero, pelo menos em língua portuguesa, continua em alta. Oito originais foram selecionados pela própria editora e submetidos a um júri em que havia apenas um gato pingado que era eu próprio.
Predominaram brasileiros nas duas fases do prêmio. Dos oito finalistas, somente um era português. E por seis a um, ganhou um mineiro de 60 anos, Murilo Antônio de Carvalho, com um longo e bem elaborado romance, "O Rastro do Jaguar". Ao comunicarmos a vitória, ele custou a entender do que se tratava, estava numa canoa, perdido num rio da Amazônia, a três dias de distância do povoado mais próximo. Informou que havia escrito o livro havia tempo, soube do concurso pela imprensa e mandara o original para ver no que podia dar. E deu.
Bem, esta seria a notícia em si, mas ela exige um comentário de minha parte. Continua-se escrevendo -ou, como dizem os portugueses, continua-se "a escrever". Por isso ou aquilo, há dentro de cada ser humano um escritor potencial, ou seja, uma pessoa que tem o gosto ou a necessidade de transmitir aos outros a sua visão de mundo ou a sua história. Com o advento da comunicação eletrônica, nunca antes -como diria Lula- tanta gente está escrevendo na telinha dos computadores.
Não posso falar pelos outros, mas o meu caso não foi nem gosto nem a necessidade. Foi o instinto de sobrevivência não na posteridade mas na minha própria atualidade. Fui mudo até os cincos anos e quando comecei a falar, falava tudo errado, trocando letras e pronúncias. Já contei esta história por aí: fui falar que uma vizinha gostava de cozinhar e em vez de "fogão" disse "fodão".
Para evitar vexames, refugiei-me na escrita até que minha mãe me avisou que enquanto eu não aprendesse a dizer "lingüiça", ela jamais faria meu prato então predileto. Eu dizia "lintiça". Para ser devidamente abastecido, passei a escrever bilhetes para ela, fui talvez o primeiro cara do mundo que usou a porta de uma primitiva geladeira para deixar um aviso doméstico. Escrevia lingüiça corretamente, sem o trema que está para ser abolido pelo novo acordo ortográfico. Eu não sabia que estava à frente do meu tempo, embora atrasado no tempo dos outros.
Voltando ao Prêmio LeYa: o anúncio oficial foi feito na Feira de Frankfurt, semana passada. Na mesma feira onde editores de todo o mundo perceberam o ocaso do livro impresso, guttemberguiano, substituído pelos livros eletrônicos que começam a tomar conta do mercado cultural.
Homem terminal, escritor terminal, não estou muito preocupado com isso. Faço parte de uma cultura também terminal. Mesmo assim, se fosse avisado a tempo, talvez tivesse mandado o 423º original para Lisboa. Alegando minha suspeição, me dispensaria de atravessar o Atlântico, ida e volta, para avaliar os originais dos outros.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 24 de outubro de 2008.

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segunda-feira, maio 28, 2007

Bibliotecas no Século XVI

"(...). Chartier apresenta dados interessantes, quase divertidos, sobre o crescimento das bibliotecas dos homens cultos do século XVI. As 'coleções dos médicos passam, em média, de 26 para 62 obras; as dos juristas, de 25 para 55; as dos mercadores de quatro para dez títulos; e, entre os artesãos têxteis, o livro único já não constitui a regra, substituído por "bibliotecas" de quatro volumes.'(...)"
Este texto foi parte da apresentação de Roger Chartier, que esteve em Porto Alegre para uma noite nos seminários Fronteiras do Pensamento, na semana passada. Esta apresentação foi escrita pelo Juremir Machado da Silva, no Correio do Povo, do dia 19 de maio de 2007, um sábado.
Quantas pessoas que se atribuam o título de jurista hoje em dia, possuem uma biblioteca vasta com 55 volumes?

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quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Capital Mundial do Livro 2007

Nota no caderno Vitrine do Correio do Povo deste sábado, dia 10 de janeiro, informa que Bogotá foi eleita pela Unesco, como a Capital Mundial do Livro para o ano de 2007. Ela concorreu contra cidades respeitáveis como Amsterdã, Dublin e Coimbra.
Pois é, ela mesma Santa Fé de Bogotá, capital da Colômbia, venceu três cidades europeias como Capital Mundial do Livro da Unesco. Sua vitória se deu porque na última década, Bogotá criou 19 bibliotecas públicas, ligadas em anel por uma ciclovia, atendendo a um público de cerca de 4,8 milhões de usuários.
A iniciativa da Unesco visa fomentar os programas em favor da edição e da leitura.

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