sexta-feira, dezembro 24, 2010
Saco cheio de Papai Noel
RIO DE JANEIRO - Tempos natalinos provocam mão de obra suplementar em nosso cotidiano. Somos obrigados às confraternizações, aos votos de boas-festas, a dar e a receber presentes, um saco. A mensagem de solidariedade humana fica reduzida a uma mesa de churrascaria, ao chope quente e à picanha fatiada com batatas fritas engorduradas.
Os apelos comerciais, que antes da era eletrônica enchiam a nossa paciência, os jornais e revistas, os agressivos outdoors que poluíam o já poluído cenário urbano, invadem agora a telinha de nossos notebooks, oferecendo-nos em suaves prestações mensais aquilo de que não precisamos.
Em alguns países, a tradição de dar e receber presentes, transferida para 6 de janeiro, Dia de Reis, é mais lógica e tem um exemplo ilustre. Afinal, os magos levaram incenso, ouro e mirra e receberam em troca a oportunidade de seguirem a estrela que brilhou para eles nos céus da Judeia. Haveria algum sentido na atual troca de presentes.
Limparíamos o Natal da febre consumista a que estamos habituados. A grande festa da cristandade paganizou-se com símbolos nem sempre bonitos e sempre aleatórios. Olhar a cara do Bom Velhinho, borrado de Kodacolor, esbarrar em árvores de natal complicadíssimas, ouvir o "jingle bells" e o "Noite Feliz" por toda parte. Novamente, um saco.
Nada disso facilita o mergulho que devemos fazer em nós mesmos, acreditemos ou não na mensagem que se iniciou naquela noite de Belém, em torno de uma manjedoura, com um burro e uma vaca no lugar de todos nós. Eles sabiam o que faziam.
Sempre impliquei com Papai Noel. Gosto de dar e de receber presentes, mas vejo no Bom Velhinho uma edição mercadológica do rei Momo, de quem também não gosto, mas considero mais necessário e autêntico.
Marcadores: Carlos Heitor Cony, Natal
quinta-feira, dezembro 24, 2009
Feliz Natal e Ótimo 2010

Como é tradicional por estas épocas do ano, este blogueiro deseja a todos os seus visitantes um Feliz Natal e um ótimo e próspero Novo Ano em 2010.
Talvez voltemos antes de 2010...
Presépio da ImageShack.
Mais um versículo bíblico de Natal em 2009
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz;
Isaias 9:6
Um versículo bíblico de Natal escrito mais de 600 anos antes de Jesus nascer, ora pois!
Um amigo me lembrou este verso, através de uma mensagem eletrônica...
quarta-feira, dezembro 23, 2009
José Simão vê o Natal em 2009
“E sabe o que um Papai Noel de shopping pediu pro Papai Noel? Um emprego fixo. Rarará!”
Na coluna dele (José Simão), na Folha de São Paulo. Detalhe importante nas colunas do José Simão é este “Rarará”, a onomatopeia da risada :) .
Marcadores: 2009, humor, José Simão, Macaco Simão, Natal, Papai Noel
Um Texto Bíblico de Natal em 2009
1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
2 Ele estava no princípio com Deus.
3 Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
4 Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
5 E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
6 Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.
7 Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele.
8 Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz.
9 Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.
10 Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.
11 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
12 Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome;
13 Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
14 E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Evangelho de João, capítulo 1, versos 1 a 14.
Comentário do blogueiro: pode não parecer um texto bíblico de Natal, mas este é o mais perfeito texto biblico de Natal na Bíblia.
segunda-feira, dezembro 21, 2009
Salas dos Passos Perdidos, ou Contardo Calligaris escreve uma crônica para o Natal
Salas dos passos perdidos
NATAL É uma das épocas do ano em que mais viajamos.
Isso é especialmente verdadeiro no hemisfério Sul. Ao Norte do equador, as pessoas tentam reunir suas famílias, que foram dispersas pelo tempo, pelos casamentos, pelas perspectivas de trabalho ou, simplesmente, por cada indivíduo ter anseios de independência e vontade de tocar a vida por conta própria. Ao Sul do equador, a essa vontade de reunião de família, acrescenta-se a proximidade das férias de verão: junte Natal com o Ano Novo, use 15 dias de férias, e lá vamos nós.
Por essa razão, no Natal, as rodoviárias e os aeroportos são sempre abarrotados, pelos viajantes e por seus restos voluntários (lixo) e involuntários (malas extraviadas e crianças perdidas). A quem viaja, aconselha-se levar consigo o necessário para encarar, sem demasiado tédio, filas e esperas intermináveis. É um paradoxo: "Chegue antes porque, de fato, o voo partirá só bem depois do horário previsto".
Seja como for, muitos de nós passarão um bom tempo naqueles espaços intermediários que são os saguões, as salas de espera, as salas de embarque, em suma, os cenários (menos fugazes do que gostaríamos) de nosso trânsito.
Uma bonita expressão francesa designa esses espaços como "salles des pas perdus", com ou sem hífen, que significa "salas dos passos perdidos". Não sei se existe uma etimologia definitiva dessa expressão, mas parece que, originalmente, salas dos passos perdidos são os átrios dos tribunais de Justiça, onde as partes, depois de ter exposto seus argumentos, esperam a decisão da corte em intermináveis idas e voltas de passos "perdidos", ou seja, movidos só pela ansiedade e pela incerteza quanto ao futuro.
Hoje, a expressão se refere também às salas de espera e aos vestíbulos centrais dos aeroportos e das estações ferroviárias, em suma, a aqueles lugares onde fazemos a hora batendo pernas, lugares que, simplesmente, não são nem nossa origem nem nosso destino, mas sempre apenas transições.
Já assisti a noticiários televisivos de 25 de dezembro em que a notícia eram os "infelizes" que, entre atrasos, tempestades e "overbooking", passaram a noite do dia 24 no saguão de uma aeroporto. Logo no Natal; é o cúmulo, não é?
Nem tanto. Pense bem, o Natal cristão celebra um nascimento, o de Jesus, que acontece num estábulo, que, para quem viajava a dorso de mula ou de jumento, 2.000 anos atrás, era o equivalente de uma rodoviária ou de um aeroporto.
O Natal anuncia que a vida é uma viagem, não só porque estaríamos em trânsito para outro lugar onde seremos recompensados ou punidos para sempre, mas porque somos todos, como o recém-nascido da festa, viajantes: ninguém vale pela sua ascendência, pelo lugar onde nasceu ou pela tradição a qual ele pertence, mas cada um vale pelo que ele conseguirá fazer com sua vida.
Leitura natalina: no começo do romance de W. G. Sebald, "Austerlitz" (Companhia das Letras), o narrador encontra o professor Austerlitz na sala dos passos perdidos da estação de Antuérpia. Detalhe: se o professor Austerlitz tem um interesse muito especial pelas estações de trem, seus átrios e suas salas de espera, é porque o mundo é uma gigantesca sala dos passos perdidos, em que estamos todos, sempre, em trânsito ou talvez (numa veia mais kafkiana) caminhando em círculos, angustiados, na espera de algum oficial público que nos diga, enfim, qual foi a decisão da corte.
Música natalina: "Salle des Pas Perdus", de 2001, é o primeiro CD de Coralie Clément (uma jovem cantora francesa, que canta com uma voz ofegante, estilo anos 1960-70). Na letra da música que dá o título ao CD, uma jovem escreve a um moço, propondo-lhe um encontro num café, depois de ter cruzado com ele no vestíbulo do prédio (em que ambos moram, talvez) e no átrio da estação St. Lazare. "Você sente meu perfume a cada noite, no vestíbulo do prédio", mas, mesmo assim, a gente poderia nunca se encontrar.
Precisamos aprender a viver e a encontrar os outros nas salas dos passos perdidos. Precisamos inventar a arte de viver em trânsito.
E me ocorre que a maior (única?) artista da vida em trânsito é Sophie Calle. Sua maravilhosa exposição, "Cuide de Você", deixou São Paulo e está agora no Museu de Arte Moderna do Rio, até fevereiro 2010.
Mas estou divagando (é o que a gente faz nas salas dos passos perdidos); só queria dizer isto a quem viaja no Natal: console-se, Natal é também uma festa para transeuntes.
Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo, de 17 de dezembro de 2009.
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quarta-feira, dezembro 24, 2008
Neste Ano da Graça de 2008, também desejamos Feliz Natal

Utilizando uma imagem dos magos do oriente que vieram adorar Jesus recém-nascido, conforme narra o Evangelho de Mateus. Posteriormente a tradição transformou os sábios em reis, e inclusive atribuiu nomes a eles (Gaspar, Belchior e Baltazar). Trouxeram ouro, incenso e mirra para oferecer a Jesus. Se a algo no Evangelho tem a ver com o frenesi de compras e trocas de presentes de final de ano, certamente são estas dádivas que Jesus recebeu logo após seu nascimento. Há países onde ainda se celebra o “Dia de Reis”, 6 de janeiro.
Eu queria apenas desejar Feliz Natal, e gerei algumas linhas de palavras. Que verborragia!
Feliz Natal!
A imagem é proveniente do Priper3, via Google.
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Próxima parada, avenida Paulista
A MENOS QUE a recessão seja ainda pior do que dizem, há coisas em São Paulo que nunca param de crescer e que afastam qualquer idéia de que possam diminuir um dia.
A decoração natalina é uma delas: segue a lei do acúmulo, da superposição, do entupimento. Não há como esperar, de um ano para outro, versões mais econômicas, mais "clean".
O vazio não é tolerado; sempre se encontra espaço, numa árvore ou numa fachada de loja, para enfiar um enfeite a mais onde já não cabia mais nenhum.
Como há ainda mais carros do que lampadazinhas natalinas na cidade (não sei se já fizeram o cálculo comparativo), o congestionamento noturno tem sido intenso em lugares como a avenida Paulista e as imediações do Ibirapuera.
Pelo parque Ibirapuera só passei de dia. O cone gigantesco que instalaram ali não evoca em mim antigas imagens de pinheiros de Natal: parece mais algum equipamento de emergência do Detran para evitar o engarrafamento de trenós.
Na avenida Paulista, o prêmio vai para aquela esquina do Banco de Boston. Nem sei se o banco já mudou de nome.
O fato é que, de ano para ano, amontoam-se ao redor daquele palacetezinho branco mais e mais reis magos, embalagens de presente, bolotas, pirulitos, camelos, neves, santos e trombetas, numa congestão comemorativa capaz de fazer de qualquer igreja barroca uma aula de despojamento e sensatez.
Pouco importa; nada disso foi feito para agradar a críticos e arquitetos, mas sim às crianças que levamos para passear por lá.
Fiz a experiência num sábado e aprendi bastante sobre a cidade em que vivo. Saí do carro e, com dois meninos pequenos ao meu lado, passei uma hora e pouco na condição de pedestre na Paulista.
É um dos pontos de São Paulo em que ser pedestre não inspira medo.
Nada mais incomum por aqui do que a sensação, corriqueira em qualquer cidade do mundo, de que a rua pertence a quem anda nela. Pelas calçadas largas da Paulista, a cidade entretanto se abre aos seus habitantes, como se fosse um formidável e grotesco presente.
Lembro-me de ter recebido, quando criança, alguns presentes assim. Certo caminhão de madeira, grande demais para brincar de carrinho, pequeno demais para que uma criança se instalasse em cima dele. Uns tantos pacotões de gesso, argila e alvaiade destinados a transformar-me em pequeno escultor.
Apareceu até (doloroso confessar) um conjunto de carimbos e tipos móveis de borracha, com o qual se esperava que eu compusesse, por conta própria, meu pequeno jornal.
Quem sabe ainda reencontro, entre os guardados, esse brinquedo.
Coisas impossíveis, coisas inadministráveis, coisas maiores do que nós: lá estavam os bonecos, pacotes, renas e prédios da Paulista montados numa calçada acolhedora, por onde pais, crianças, e essas crianças de outro tipo, os turistas, podiam aparentemente andar sem medo.
E conversar também. Camelôs, vendedores de milho verde e jornaleiros não são pessoas com quem temos tempo ou disposição para trocar idéias. Na companhia de crianças, tudo muda. Meus filhos (e eu também) maravilharam-se com a quantidade de línguas e sotaques que se cruzavam pela rua.
Uma mulher, vendendo água e refrigerante, falava árabe e francês.
Veio do Líbano, tivera uma banca de tapioca, odiosamente confiscada pelas autoridades. Tratava de reconstruir a vida com sua geladeirinha de isopor. Belo pacote, sem dúvida, ao pé de uma imensa instalação natalina organizada pelo banco tal e tal.
Encontrei no passeio um brinco prateado, oculto num canteiro sujo.
Como logo ali ao lado um artesão expunha jóias e badulaques para vender, estimulei meu filho maior a perguntar-lhe se a peça não era sua. O artesão respondeu em portunhol.
Outra conversa começou.
O homem não era espanhol, era chileno. Falava castelhano, mas sua família era catalã. Os espanhóis, garantiu, eram todos ladrões, exploradores, assassinos. Só os catalães prestavam.
Uma espécie de trenzinho de Papai Noel estava sendo construído na fachada de outro banco. Meus filhos quiseram entrar nele; não estava pronto ainda. Desconfio que não fique pronto nunca.
Voltamos para casa, sem trenzinho, de metrô. Meus filhos talvez não se lembrem de nada disso no futuro, mas eles avançaram algumas estações na viagem que fazem pelo mundo.
Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, de 24 de dezembro de 2008.
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O Presépio
O presépio
MENINO, LÁ EM MINAS , eu tinha inveja dos católicos. Eu era protestante sem saber o que fosse isso. Sabia que, pelo Natal, a gente armava árvores com flocos de algodão imitando neve que não sabíamos o que fosse. Já os católicos faziam presépios.
Os pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.
Até os católicos mais humildes faziam um presépio. As despidas salas de visita se transformavam em lugares sagrados. As casas ficavam abertas para quem quisesse se juntar aos reis, pastores e bichos. E nós, meninos, pés descalços, peregrinávamos de casa em casa, para ver a mesma cena repetida e beijar a fita.
Nós fazíamos os nossos próprios presépios. Os preparativos começavam bem antes do Natal. Enchíamos latas vazias de goiabada com areia, e nelas semeávamos alpiste ou arroz. Logo os brotos verdes começavam a aparecer. O cenário do nascimento do Menino Jesus tinha de ser verdejante.
Sobre os brotos verdes espalhávamos bichinhos de celulóide. Naquele tempo ainda não havia plástico. Tigres, leões, bois, vacas, macacos, elefantes, girafas. Sem saber, estávamos representando o sonho do profeta que anunciava o dia em que os leões haveriam de comer capim junto com os bois e as crianças haveriam de brincar com as serpentes venenosas. A estrebaria, nós mesmos a fazíamos com bambus. E as figuras que faltavam, nós as completávamos artesanalmente com bonequinhos de argila.
Tinha também de haver um laguinho onde nadavam patos e cisnes, que se fazia com um pedaço de espelho quebrado. Não importava que os patos fossem maiores que os elefantes. No mundo mágico tudo é possível. Era uma cena "naif". Um presépio verdadeiro tem de ser infantil.
E as figuras mais desproporcionais nessa cena tranqüila éramos nós mesmos. Porque, se construímos o presépio, era porque nós mesmos gostaríamos de estar dentro da cena. (Não é possível estar dentro da árvore!).
Éramos adoradores do Menino, juntamente com os bichos, as estrelas, os reis e os pastores.
Será que essa estória aconteceu de verdade? Foi daquele jeito descrito pelas escrituras sagradas? As crianças sabem que isso é irrelevante. Elas ouvem a estória e a estória acontece de novo. Não querem explicações. Não querem interpretações. A beleza da estória lhes basta. O belo é verdadeiro. Os teólogos que fiquem longe do presépio. Suas interpretações complicam o mundo.
O presépio nos faz querer "voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de um outro mundo." (Octávio Paz )
Seria tão bom se os pais contassem essa estória para os seus filhos!
Texto de Rubem Alves, na Folha de São Paulo, de 23 de dezembro de 2008.
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Versículo Bíblico de Natal - Natal de 2008
Mateus 1:21
Verso encontrado na Bíblia Online.
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José Simão e o Papai Noel
Natal 2008! Estudo sociológico do ser humano no Natal. O ser humano se divide em quatro estágios. 1) Você acredita em Papai Noel. 2) Você não acredita mais em Papai Noel. 3) Você é o Papai Noel, se fantasia e anima a festa da família. 4) Você PARECE o Papai Noel!
Trecho da coluna de José Simão, o Macaco Simão, na Folha de São Paulo, de 19 de dezembro de 2008. É possível que isso já tenha sido publicado aqui no passado...
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Lévi-Strauss e Papai Noel
"Papai Noel vem em socorro de adultos"
Ensaio de Lévi-Strauss sobre o Natal, agora lançado, é exemplo de seu método e antecipa desenvolvimentos atuais da antropologia
RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL
A Cosac Naify acaba de publicar, oportunamente para as festas de fim de ano, um ensaio inédito em português do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss sobre o significado de Papai Noel e do Natal.
A empreitada pode parecer simpática, porém prosaica, à primeira vista. Trata-se, no entanto, de um lance de enorme pretensão de um dos maiores pensadores do século 20.
Publicado em 1952, "O Suplício do Papai Noel" procura aplicar os princípios metodológicos da antropologia estrutural, criada e testada na lida com outras sociedades, a uma prática moderna e ocidental.
Lévi-Strauss antecipava-se assim, em décadas, ao projeto de pensar as sociedades industrias a partir de suas relações e diferenças com as chamadas sociedades "primitivas" ou "tradicionais", projeto que tem sido levado à frente, mais recentemente, por figuras de ponta da disciplina, como o norte-americano Roy Wagner e a britânica Marilyn Strathern.
Papai Noel surge no início do ensaio, em notícia de jornal, com as barbas e o resto do corpo queimados. A Igreja Católica francesa, pouco depois do final da Segunda Guerra e incomodada com o crescimento em importância desta figura ao mesmo tempo pagã e norte-americana, andou promovendo umas cerimônias curiosas, em que ateava fogo ao barbudo, dentro de igrejas e diante de criancinhas órfãs.
Importância
A igreja, com sua experiência no assunto, não costuma errar ao atribuir valores significativos a manifestações sociais, diz o antropólogo francês. E o significado de Papai Noel e do Natal moderno são capitais, ele diz. Como compreendê-lo?
Primeira operação: nas festas natalinas, desde os tempos das comemorações pagãs em celebração do solstício de inverno e da "volta" gradual da vida após o auge da escuridão, as sociedades costumam perder, ao menos simbolicamente, a divisão tradicional que as caracteriza -em classes ou grupos sociais hierarquicamente diferenciados. Trata-se, afinal, de uma festa de "reunião e comunhão".
Lévi-Strauss faz aqui, explicitamente, uma aproximação entre o Natal e o Carnaval, no abandono temporário, ainda que simbólico e parcial, das distinções "verticais" de uma sociedade, o que pode em princípio causar alguma estranheza. É interessante, por isso mesmo, encontrar aproximação semelhante num artigo de 1940 escrito por Graciliano Ramos, recolhido no livro "Viventes das Alagoas" (Record).
"No interior, tudo é diferente", ele escreve. "Nem francês de barbas, nem árvore com frutos enrolados em papel de seda, poucas mesas fartas, ausência de piedade". Após chamar o Natal sertanejo de "festa profana", o escritor alagoano a descreve assim: "Uma grande feira, tem muito do carnaval e dos torneios artísticos".
Troca de distinções
Pois bem, em lugar da divisão socioeconômica e hierárquica, continua Lévi-Strauss, lança-se mão temporariamente de uma nova divisão simbólica: desta vez entre crianças, que receberão os presentes, e adultos, que trabalharão para a manutenção do segredo que cerca a não-existência de Papai Noel.
Cumpre ao velhinho, portanto, ao mesmo tempo separar (uns, adultos, conhecem a sua não-existência; outros, crianças, nele acreditam) e unir esses dois grupos (os presentes passarão de uns a outros por suas mãos).
Segunda operação: encontrar outras relações, diferentes da divisão original promovida por Papai Noel, que com ela se relacionarão, que darão sentido a essa divisão entre crianças e adultos. É isso, uma analogia, de certo modo a forma geral de qualquer significado, para Lévi-Strauss. Na troca de presentes, crianças e adultos estão em relação com o quê?
Com a morte e com a vida, para dizer de uma vez. Trata-se de uma questão desta magnitude, segundo o antropólogo. O trabalho do artigo será mostrar que as crianças podem justamente significar a morte (usando exemplos de outros costumes e festas, mas também apoiado na lógica de que ambos são figuras de um "outro", de uma alteridade em relação aos adultos, passando pela representação, mais fácil, de pequenos anjinhos), e que há um sentido em lhes dar presentes.
Colocando-as nesse "lugar simbólico", lugar que fica no além, garantimos, ainda que precariamente, nossa vaga do lado de cá, e reforçamos, digamos assim, nossa relação com a vida, esse valor constantemente ameaçado.
"Sem dúvida, há uma grande distância entre a prece aos mortos e a prece repleta de conjurações que, todos os anos e cada vez mais, dirigimos às crianças -encarnação tradicional dos mortos- para que, acreditando no Papai Noel, elas consintam em nos ajudar a acreditar na vida", escreve o antropólogo.
"A crença que inculcamos em nossos filhos de que os brinquedos vêm do além oferece um álibi ao movimento secreto que nos leva a ofertá-los ao além, sob o pretexto de dá-los às crianças. Dessa maneira, os presentes de Natal continuam a ser um verdadeiro sacrifício à doçura de viver, que consiste, em primeiro lugar, em não morrer."
Que lição se pode ainda extrair desse estranho conto de Natal? Lévi-Strauss nos apresenta, aqui e em toda a sua obra, uma dialética que não comporta síntese. O significado sempre une sem igualar, e distingue sem cindir. O encontro final entre termos, idéias e grupos relacionados -ou seja, o fim da diferença entre eles- representaria o fim da possibilidade de sentido ou, dito de forma mais dramática, a morte.
Gente que leu Lévi-Strauss a sério nos oferece hoje, tantos anos depois desse ensaio, as mais interessantes propostas interpretativas das sociedades industriais.
Leituras que conseguem evitar a pulsão de morte de certas dialéticas -de direita ou de esquerda- que buscam ou, pior, já encontraram, algum fim para a história.
O SUPLÍCIO DO PAPAI NOEL
Autor: Claude Lévi-Strauss
Tradução: Denise Bottmann
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 25 (56 págs.)
Avaliação: ótimo
Texto da Folha de São Paulo, de 22 de dezembro de 2008.
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