quarta-feira, dezembro 22, 2010

Os valores da "era Reagan"

Os valores da "era Reagan"

Deve ser a regra com todos os presidentes dos Estados Unidos. Mas fiquei espantado com o tempo que levou entre a morte de Ronald Reagan e o seu sepultamento. Os rituais fúnebres tomaram quase uma semana inteira, e o corpo do presidente fez uma peregrinação através de vastas extensões do território norte-americano, numa espécie de última campanha eleitoral -em busca, como se diz, do sufrágio de sua alma.

No fim de um longo parágrafo em que recenseava os fatos da semana, uma publicação anticonservadora americana mal conteve sua satisfação sinistra ao noticiar numa única linha: "O presidente Reagan finalmente morreu". Será?

Os valores da "era Reagan" estão longe de ter perdido o vigor. No princípio, aquilo parecia apenas um delírio reacionário, voltado para recuperar a auto-estima americana, em baixa desde a Guerra do Vietnã e de Watergate. Baseava-se em propostas de duvidosa consistência: o corte de impostos e a criação de um escudo espacial antimísseis, a chamada "Guerra nas Estrelas".

Tudo vinha embrulhado numa máscara sorridente, pronta a expressar simpatias pelo fundamentalismo bíblico, misturando ficção científica dos anos 50 com fitas de caubói e técnicas de relações públicas das mais antiquadas. Lembro-me de como parecia fora de moda, nas primeiras fotos de Reagan presidente, o lencinho branco dobrado que ele usava no bolso do paletó. A imagem que ele projetava, naquele começo da década de 80, era de um passadismo inviável, artificial e mortífero.

O próprio rosto de Ronald Reagan tinha algo de ressurrecto, de empalhado; ator de relativo sucesso em outras décadas, o presidente recém-eleito parecia ter-se levantado subitamente dos abismos da obscuridade, já bastante envelhecido, mas tentando manter o charme dos bons tempos. Um cronista americano referia-se, durante a campanha presidencial, a seus cabelos "precocemente alaranjados"; é como se o uso da tintura capilar não levasse em conta, no ator sexagenário, que os filmes em preto-e-branco eram coisa do passado.

Bem ao contrário, quase tudo em Reagan apontava para o futuro, e seus cabelos tingidos simbolizavam uma intenção de permanência que os tempos atuais pouco fizeram para desmentir. Os yuppies da década de 80 -aquele Mickey Rourke de "Oito Semanas e Meia de Amor", vendo as cotações de Wall Street piscando em fósforo verde na tela do micro, nos lábios um sorriso bailarino, na janela uma Kim Basinger pronta para uma fantasia light- não são diferentes dos de agora.

Nada mais reaganiano (mas durante o governo Reagan isso ainda era um sonho distante, eu acho) do que a imagem do Mc Donald's em Pequim, ou de butiques Prada e Armani na Praça Vermelha. Um mundo de alta tecnologia e consumo de luxo, zunindo de competitividade, entretenimento, dureza e rapidez, foi projetado como o cenário de um filme de George Lucas; uma minoria afortunada passou a viver dentro dele, estivesse na Califórnia, na Espanha, na Índia ou no Brasil.

Esse mundo ilusório, criado durante os anos Reagan, persiste. Persiste há tanto tempo que já se transformou em realidade. Desconfio até que toda a nossa dependência do virtual, dos jogos de computador, da holografia, do encapsulamento em shoppings e condomínios é conseqüência daquele fundamentalismo reaganiano: a confiança absoluta de que se pudesse moldar a realidade a partir de uma ideologia econômica (a famosa "reaganomics") bastante frágil e simplista.

Mas me vejo falando do reaganismo em termos que seriam igualmente apropriados ao desejo marxista de criar uma sociedade a partir de uns poucos princípios incontestáveis. É talvez por isso mesmo que o pensamento de esquerda se viu hipnotizado e rendido diante do conservadorismo dos anos 80: a ideologia yuppie tinha justamente um apelo intelectual, uma aerodinâmica afetiva, um charme de paradoxo e novidade com que os velhos manuais do materialismo dialético não mais conseguiam competir.

Claro, podemos dizer que o "rumo da história" (outra frase de sabor marxista) era aquele mesmo e que tudo ia no sentido prenunciado por Reagan. Algumas coisas, contudo, parecem não ter dado certo. Teve pouco futuro, por exemplo, a tentativa de reconstruir os valores religiosos e comportamentais da família wasp americana, com ensino bíblico, puritanismo sexual e boas doses de aversão a quem não fosse branco. Mesmo a Aids foi incapaz de barrar o processo constante de libertação sexual que vinha dos anos 60; e, por mais que Reagan fosse conservador nesse campo, a geração yuppie não transigiria com essa conquista.

Também já não me parece tão certo o poder do "virtual" sobre o "real". Talvez comece a fazer parte do passado a famosa crença, proveniente dos anos 80, de que a realidade foi substituída por simulacros manipuláveis via computador; entra igualmente em descrédito a sensação correlata de que os inimigos do sistema seriam vencidos de forma "limpa", com a mesma impalpável facilidade com que o mundo comunista desapareceu.

Toquei outro dia nesse assunto; temo ter incorrido no velho clichê de comparar as guerras atuais a videogames. O atual conflito no Iraque, entretanto, é de uma materialidade atroz; corpos despedaçados, corpos nus, corpos torturados se amontoam, numa orgia macabra e real. Tema para outro artigo, quem sabe; e já é tempo de deixar Reagan descansando em paz.




De uma coluna de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, em 16 de junho de 2004.

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quarta-feira, janeiro 20, 2010

Inscrições bíblicas em armas usadas por EUA causam polêmica

Inscrições bíblicas em armas usadas por EUA causam polêmica

Um grupo americano que zela pela separação da religião e do Estado entre as Forças Armadas do país revelou que as miras usadas na armas de soldados americanos e britânicos no Iraque e no Afeganistão estão sendo gravadas com referências a passagens da Bíblia.

As inscrições estão codificadas e se referem, por exemplo, a versos do livro de João (com os dizeres "JN8:12") e no 2 Coríntios ("2COR4:6").

A Military Religious Freedom Foundation (MRFF), dos Estados Unidos, disse ter descoberto o caso através de uma denúncia por email, provavelmente vinda de um soldado muçulmano do Exército americano.

A Trijicon, fabricante de armas americanas e uma das maiores fornecedoras do Departamento de Defesa, disse que as referências bíblicas já são gravadas há anos nas miras. A empresa foi fundada por um cristão devoto que afirma administrá-la "sob padrões bíblicos".

Repercussão

Mas autoridades militares nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha manifestaram sua preocupação com a maneira como o fato pode repercutir.

Um representante do Corpo de Fuzileiros Navais americanos disse à BBC que haverá uma reunião entre o grupo e a direção da Trijicon para "discutir futuras aquisições de miras".

O Exército dos Estados Unidos afirmou que está examinando se houve violações de políticas internas, enquanto um porta-voz do Ministério da Defesa britânico reconheceu, em entrevista à BBC, que as referências à Bíblia podem provocar ofensas.

O representante do Ministério disse ainda que "na época da compra (de 480 miras do modelo Acog), não sabia que essas marcas tinham um significado amplo".

As miras desse modelo são usadas em rifles Sharpshooter, que serão usados por tropas britânicas no Afeganistão até o final do ano.

Propaganda inimiga

As inscrições são sutis e aparecem em relevo no final do número de série das miras.

O versículo João 8:12 diz: "Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: 'Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida'".

Já a inscrição sobre o livro dos Coríntios se refere aos dizeres: "Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo".

Para Mikey Weinstein, presidente do MRFF, as inscrições podem dar ao Talebã e a outras forças inimigas uma ferramenta para propaganda de seus ideais.

"Não preciso me perguntar nem por um nanosegundo como os americanos reagiriam se citações do Alcorão estivessem inscritas nessas armas em vez de referências ao Novo Testamento", afirmou.

Em 2009, o Ministério da Defesa americano assinou um contrato de compra dos produtos da Trijicon, na ordem de US$ 66 milhões.

Notícia originária da BBC Brasil.

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quinta-feira, dezembro 17, 2009

Identidade Pesadelo

Identidade pesadelo

ALAN PAULS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Quem chega aos Estados Unidos com um contrato de trabalho temporário -um cargo de professor visitante em uma universidade, por exemplo- não desembarca exatamente nos Estados Unidos. Desembarca num lugar parecido, mas provisório.
Uma espécie de pré-país limpo e funcional onde o recém-chegado -ainda com as sequelas taquicárdicas que lhe deixou o funcionário da imigração ao examinar o formulário DS-2019 de seu visto durante 15 minutos, com o cenho franzido de um papirólogo ou um decifrador de mensagens codificadas- passará muito tempo fazendo filas, preenchendo formulários, assinando pedidos, esperando autorizações e carimbos. Sem estes, nos próximos quatro meses de sua vida -já bastante parecida com um pesadelo- não terá nem sequer direito a ter uma vida.
Otimistas e realistas podem discordar quanto ao prazo, mas não quanto à natureza dessa quarentena que teria feito Kafka tremer nas bases.
É um calvário. Não apenas porque o recém-chegado não faz, não pode fazer, outra coisa senão gastar sua escassa energia de sul-americano inabalável nessa sequência de trâmites mas porque o horizonte excitante, a vida bela, plena e nova que lhe haviam prometido -aulas cercadas de cedros e carvalhos centenários, bibliotecas opulentas, o sonho do scanner e da fotocopiadora próprios, credenciais capazes de franquear todos os acessos, almoços com prêmios Nobel que esquecem os macarrões da sopa na barba, graciosas estudantes sul-asiáticas atravessando o campus de bicicleta, como flechas- ficam suspensos, como que congelados em uma espera ameaçadora.
O recém-chegado os vê, os cheira, pode descrevê-los em detalhes. Mas não pode vivê-los. Ainda não.

Mais valioso que o DNA
A vedete do calvário é o "social security number", mais conhecido -nesse mundo de meninos-espiões onde tudo se chama W-9, VIF2, V9UGRD ou I-94- como SSN. Tudo o que o recém-chegado faz nas três semanas mais soviéticas de sua vida é sortear comprovantes, reunir requisitos e satisfazer condições para chegar são, salvo e apto ao SSN, uma pegada digital que todo mundo aqui considera mais decisiva que o DNA.
Ou seja, por 21 dias o recém-chegado vive para responder a uma só necessidade, a necessidade norte-americana de excelência, a única capaz de manter em pé um aparato burocrático que deixaria exasperado o cidadão cubano mais tolerante: a necessidade de identificar-se.
Nos Estados Unidos, qualquer pessoa pode comprar um kit para falsificar documentos e um manual para trocar de identidade, operar seu rosto ou forjar-se um passado novo, mas ninguém pode pagar em dinheiro vivo o depósito adiantado de segurança de um apartamento alugado ou, muito menos, os U$S 9,50 que custa um almoço médio -o cardápio de hoje foi cafta egípcia com cuscuz- no refeitório de professores da universidade.
É estranho, mas em um país cuja moeda é um verdadeiro objeto de fé e traz impresso o lema "In God We Trust" (em Deus confiamos), o "cash" é o tabu número um. (Existe outro tabu também, mas é mais vulgar: viver em concubinato heterossexual, uma condição que não se sabe se é impudica ou anacrônica, que os formulários administrativos ou fiscais, tão tolerantes com o casamento padrão ou as uniões gays, estigmatizam com a insultante expressão "domestic partner").

Obscenidade policial
Escandalosa como um "snuff movie", mais perturbadora que um pacote abandonado em um canto de aeroporto, a obscenidade do dinheiro em espécie não é moral, mas policial. As cédulas despertam suspeitas, pois não servem para identificar, porque não revelam nada sobre quem as usa, e, ao não dizer nada, dizem sempre o pior, aquilo que só pode ameaçar -narconegócios, máfia russa, pedofilia de aluguel-, pela simples razão de que não constam em nenhum dos arquivos onde os números das economias do plástico, em contrapartida, reluzem e delatam.

O grande dia
Algum dia, contudo, essas três semanas de limbo e hibernação jurídica chegam ao fim, o banco diz que sim, o cartão da biblioteca começa a funcionar, instalam o telefone e o wi-fi, o visto é ativado e chega à caixa de correio o cartão com o SSN.
É esverdeado, de um desenho pomposo e antiquado, muito parecido com uma cédula de dinheiro, e recomendam que você não o entregue a ninguém e nunca o carregue consigo. Exausto, humilhado e feliz, o recém-chegado sente que "entrou no sistema". E a vida é como o trânsito (outro orgulho local): uma circulação fácil, disciplinada, previsível.
Só que essa liquidez -tão agradável e tão norte-americana- é proporcional ao grau de submissão com que motoristas obedecem à Lei suprema que rege a rua: manter-se em sua faixa. Tudo é amabilidade e bons modos, até que alguém muda de ideia sobre a marcha, se arrepende ou se deixa seduzir por um desvio melhor.
Em segundos, então, a cortesia degenera em um insulto, uma enxurrada de buzinas, uma tentativa de linchamento. Quando não em acidentes.

Calma interrompida
Sem ir mais longe, a bucólica comunidade de Princeton me fez deparar com alguns quantos. As vítimas (quatro: duas loiras, duas morenas) foram todos esquilos. Difícil saber de quem foi a culpa, se dos motoristas (enfurecidos porque alguém acionou o pisca à esquerda, mas preferiu dobrar à direita) ou dos roedores (menos assustadiços e mais domésticos). Algo pude intuir quando ouvi um etólogo de renome anunciar em um elevador que os esquilos estão destinados a ser a "espécie dominante do futuro".
Por quê? "Porque hesitam. Em outras palavras, porque pensam", disse o acadêmico. E eu traduzi: "Porque não acreditam na identidade".


ALAN PAULS é escritor argentino, autor de "O Passado" (Cosac Naify); atualmente é professor visitante da Universidade Princeton, onde dá aulas de literatura latino-americana

Tradução de CLARA ALLAIN

Texto originário da Folha de São Paulo, de 15 de dezembro de 2009.


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terça-feira, julho 07, 2009

Robert McNamara (1916-2009)

Robert McNamara (1916-2009)


E os portais da Internet dão notícia da morte de Robert Strange McNamara.

Não sei se estou com fixação na morte, ou se é algum tino de historiador diletante que me faz prestar atenção nestas mortes de personalidades mais ou menos famosas.

Robert McNamara faleceu nesta segunda-feira, supostamente de velhice. Segundo a sua esposa ele não estava doente, mas recém completara 93 anos de idade.

Sua morte ocorre pouco mais de uma semana após a morte do provavelmente muito mais famoso junto ao público Michael Jackson.

Mas há esta grande diferença: McNamara morreu aos 93, Jackson aos 50. O que para mim indica que Michael Jackson ainda poderia ter mais uns 40 anos de vida pela frente.

Robert McNamara foi secretário da defesa dos Estados Unidos, durante os governos de John Kennedy, e Lyndon Johnson, nos anos 1960.

Esteve na linha de frente da escalada do envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã, e também na crise dos mísseis em Cuba, em outubro de 1962. Saiu (ou foi saído) do governo Johnson em 1968. Mais tarde foi nomeado presidente do Banco Mundial, do qual se aposentou em 1981.

Em 2003 foi o assunto de um documentário de Errol Morris (excelente na opinião deste blogueiro) chamado “Sob a Névoa da Guerra”. O filme ganhou o Oscar de melhor documentário em 2004.



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quinta-feira, novembro 27, 2008

Um sacerdote africano do século 19

Um sacerdote africano do século 19

SÓ PODE ter sido trabalho de santo. Na semana em que Barack Obama elegeu-se presidente dos Estados Unidos, chegou às livrarias no Brasil "Domingos Sodré - Um Sacerdote Africano", do professor João José Reis autor do magistral trabalho sobre a revolta de 1835 dos escravos malês.
O livro conta a história da vida e da prisão de um sacerdote do candomblé que vivia em Salvador na segunda metade do século 19.
Vizinho de Castro Alves, foi acusado de feitiçaria e receptação de objetos roubados. Vestiu o uniforme de veterano da Guerra da Independência para ser levado à cadeia. Ficou cinco dias na cana e morreu em 1887, com uns 90 anos de idade.
Se a vida dos barões desfila em discursos, festas e panegíricos de um império de macaquice, a dos escravos sobrevive nos inquéritos policiais, nos arquivos eclesiásticos e, em alguns casos, nos inventários. Esse foi o mundo de Sodré desenterrado por Reis. A grandeza do trabalho está na reconstrução da vida e da cultura dos negros de Salvador. O professor teve paciência e sorte, pois apesar de tudo o sacerdote deixou mais rastro que Jim Robinson, o tataravô de Michelle Obama, que nem túmulo tem.
Domingos nasceu na Nigéria nos últimos anos do século 18 e chegou escravizado a Salvador no início do Oitocentos. Um viajante descreveu o movimento da cidade à época: "Tudo o que corre, grita, trabalha, tudo que transporta e carrega é negro".
Alforriado em 1836, Domingos viveu num sobrado da ladeira de Santa Tereza. Ao longo da vida comprou, vendeu e alforriou seis escravos. Lá foi preso, acusado de ser "o principal da ordem dos sortilégios e feitiços". Na sua casa foram confiscados objetos de culto, búzios e um exu. Entre as mágicas, sempre demonizadas pela imprensa, estavam receitas para "amansar patrão". (Um chocalho com ervas maceradas e um dente de onça, numa composição benigna, ou arsênico, na maligna.)
Além dos rituais, Domingos foi um operador da "juntas de alforria", uma caixa de poupança mantida pelos escravos. Eram fundos alimentados por contribuições semanais que complementavam a compra da liberdade.
Quando o negro sacava acima dos seus depósitos, ressarcia a junta com juros de 20% ao ano. Quitada a dívida, o alforriado podia continuar na junta, como investidor.
No Brasil do século 19 o preconceito e a violência da escravidão eram apenas uma parte da paisagem. Havia ainda restrições à propriedade e ao trabalho, bem como um sistema tributário concebido para escorchar os negros livres. Os sobrados onde viviam os libertos eram chamados de "quilombos".
A arqueologia de Reis socorre o Brasil do século 21, ensinando-o a olhar para o do 19. Felizmente, a história de hoje é conhecida em tempo real. A repórter Márcia Vieira revelou a existência de uma tese de doutorado da professora Andréia Clapp Salvador, da PUC-Rio, com uma comovente descrição das alegrias e vicissitudes dos alunos que entraram naquela universidade com o benefício de uma política de ação afirmativa. Alguns deles moravam longe e alugaram uma quitinete na vizinhança. Nela chegaram a pernoitar dez estudantes. Dividiam a comida do bandejão, as ofertas de emprego e os livros didáticos.
Tomara que a história dos negros da PUC não demore mais de um século para ser contada em livro.

Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 12 de novembro de 2008.


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terça-feira, novembro 04, 2008

Religiosos mostram Bíblia como história natural no Museu da Criação no Kentucky

Atraente, local recebeu quase 600 mil visitantes, dizem fundadores.
Criacionistas dizem não negar ciência, mas divergir na interpretação.

Daniel Buarque Do G1, no Kentucky


Crianças e dinossauros brincam juntos em um bosque, tiranossauros se alimentam de frutas, e as teorias evolucionistas que dizem que o universo foi criado há milhões de anos são enfaticamente rejeitadas em um museu do norte do estado norte-americano do Kentucky.

Assista ao lado imagens do museu

Contrariamente às exibições de história natural espalhadas pelas maiores cidades do mundo, o Creation Museum (Museu da Criação) nega a principal corrente científica defendida por acadêmicos e apresenta as origens da vida de acordo com um livro: A Bíblia.

Como o nome já deixa perceber, o local defende o criacionismo, teoria cristã segundo a qual o livro do Genesis explica de forma literal o surgimento do universo, e que nega qualquer tese que fale em evolução. A instituição que criou o local, o grupo Answers in Genesis (Repostas no Genesis ou AIG), defende a religião como base da história do mundo desde o "princípio".

O G1 visitou o Museu da Criação na tarde desta quinta-feira (30), depois de duas horas de viagem desde Columbus, em Ohio. Localizado numa região de tríplice fronteira entre Kentucky, Indiana e Ohio, o museu tinha muitos visitantes, apesar de ser um dia de semana e de o prédio ficar afastado de centros urbanos (a cidade mais próxima, Cincinnati, fica a 30 minutos de viagem de carro). A apresentação é impressionante, atraente, e explica bem a primeira parte da Bíblia, atraindo crianças e adultos.

Usando vídeos cheios de efeitos especiais, apresentações quase interativas, robôs animados, estátuas que parecem pessoas, um planetário e explicações muito bem detalhadas, o museu tenta rechaçar críticas de que é radical e "não-científico". "Queremos mostrar uma caminhada história de acordo com a Bília", explicou o co-fundador do museu, Mark Looy, que conversou com o G1 durate a visita.

Sucesso

Fundado há pouco mais de um ano, em maio de 2007, o museu foi um sucesso surpreendente até mesmo para seus criadores. "Esperávamos receber no máximo 250 mil pessoas no primeiro ano, mas tivemos mais de 440 mil visitantes até o aniversário e quase 600 mil até hoje", disse Looy. "Excedemos todas as expectativas, e até evolucionistas elogiam nosso trabalho", completou.

"Deus destruiu o mundo", dizia uma criança de cinco ou seis anos enquanto assistia a um vídeo sobre o dilúvio. Dezenas delas se divertiam com os vídeos e com os robôs de dinossauros na tarde em que o G1 esteve no museu.

Parecendo um parque de diversões da Flórida, com 6.500 metros quadrados de área, o museu traz uma longa apresentação do surgimento do mundo, dos animais, dos seres humanos. Conta a história de Adão e Eva, do fruto proibido, de Matusalém e da arca de Noé – esta última, do grande dilúvio, é usada para explicar a extinção dos dinossauros e a existência de fósseis.

Fatos e interpretações

A principal tese usada pelo museu é de que criacionistas e evolucionistas partem das mesmas evidências para interpretar o passado, mas que chegam a conclusões diferentes. "Raramente discordamos dos evolucionistas em relação às evidências, a separação está na interpretação. Queremos mostrar que a evidência científica leva ao criacionismo", disse Looy.

"Do ponto de vista científico, o que o museu mostra é simplesmente ridículo", rebateu, enfático, Steven Newton, um dos diretores do National Center for Science Education (Centro Nacional para Educação em Ciência – NCSE) , uma das instituições que mais fazem oposição ao trabalho do AIG. "Essas pessoas acreditam que a terra tem apenas 6.000 anos de idade, o que não faz nenhum sentido e pode ser provado como equivocado", disse ao G1.

Questionado sobre a crítica científica, o co-fundador do museu disse não ligar. "Muitos nos ridicularizam, mas isso não incomoda. Essas pessoas têm uma visão diferente, e não acreditam no que defendemos", disse, lembrando que no passado ele próprio era uma dessas pessoas críticas do criacionismo.

Educação

O principal trabalho do NCSE em oposição ao grupo que fundou ao museu diz respeito a educação de crianças, tentando evitar o fortalecimento do ensino do criacionismo nas escolas. "Estes grupos estão cada vez mais fortes e querem que o ensino religioso entre nas escolas como se tivesse alguma base científica", disse Newton. "Queremos que a religião fique de fora do ensino de ciência, pois isso atrapalha e confunde os estudantes, o que é ruim para o país como um todo."

As escolas públicas norte-americanas não podem atualmente ensinar o criacionismo como uma teoria, mas o debate em estados mais conservadores como o Texas e a Louisiana debatem a possibilidade de permitir que a tese religiosa seja apresentada junto com os estudos.

Segundo Looy, o grupo que ele representa de fato produz material didático para ensino do criacionismo nas escolas, negando teorias evolucionistas. "Mas apenas em instituições privadas", disse. Segundo ele, o AIG não defende o ensino forçado do criacionismo nas escolas públicas, apenas pede a liberdade para que os professores também possam apresentar o criacionismo às crianças.

"Isso é um objetivo político disfarçado", respondeu Newton. "Nenhum desses grupos admite defender o ensino do criacionismo, mas eles fazem campanha tentando se passar por grupos sem interesses, como se estivessem defendendo a liberdade", completou. científico.

Política

Durante as entrevistas dos representantes dos dois grupos ao G1, eles negaram defender um ou outro candidato à Presidência nas eleições da próxima terça-feira (4). Por serem grupos sem objetivos lucrativos, eles recebem doações e não podem se envolver em disputas políticas.

"Podemos defender a proibição do aborto, e incentivar as pessoas a votarem em quem seja contra o aborto, mas não podemos citar nomes", disse Looy em relação ao grupo que criou o museu, indiretamente indicando favorecer John McCain.

Texto do G1.


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terça-feira, setembro 30, 2008

Como as religiões vêem os grandes temas nos EUA

Como as religiões vêem os grandes temas nos EUA

Cathy Lynn Grossman

Deus está nos punindo. Os anjos da guarda nos protegem. A Terra está em grave perigo.

Foi o que descobriu uma pesquisa recente da Universidade Baylor sobre as crenças e práticas religiosas dos norte-americanos. A pesquisa, que será divulgada hoje, foi baseada em entrevistas com 1.700 adultos, realizadas no outono de 2007.

Meio ambiente

Os evangélicos não se preocupam tanto com a mudança climática global. A maioria dos entrevistados na pesquisa sobre religião da Baylor concorda que "se não mudarmos as coisas de forma dramática", a mudança climática global será "um desastre" (67%); o carvão, petróleo e gás natural irão acabar (70%) e a maior parte das plantas e da vida animal será destruída (57%).

Mas os protestantes evangélicos têm bem menos tendência (55%) do que os outros grupos religiosos a se sentirem alarmados com a mudança climática global ou com a previsão de destruição da vida se o homem não mudar (49%).

Enquanto 56% dos adultos dos EUA dizem que o governo não está gastando o suficiente para ajudar e proteger o meio ambiente, o número de evangélicos que têm a mesma opinião é menor - 41%, segundo o sociólogo F. Carson Mencken, da Universidade Baylor.

De fato, os evangélicos são pelo menos duas vezes mais propensos a dizer que o governo já está gastando muito com o meio ambiente do que qualquer outro grande grupo religioso. Entre os que tendem a dizer que os gastos são muito pequenos estão os judeus, 81%, e as pessoas sem filiação religiosa, 79%.

"É o fim do mito do movimento ambientalista evangélico", diz Mencken. "Isso não quer dizer que os evangélicos são anti-ambientalistas, mas que seu apoio à causa ambiental não é tão forte quanto entre outras tradições religiosas."

O ambientalismo tem sido um tema controverso entre os evangélicos. Quando a Associação Nacional de Evangélicos lançou o "Chamado para a Ação" contra a mudança climática em 2006, alguns religiosos conservadores, liderados por James Dobson da organização Foco na Família, opuseram-se com veemência.

Gênero e política

As mulheres devem participar da política? O tema divide profundamente os americanos.

A pesquisa revelou que a sociedade americana está bastante dividida em relação aos papéis da mulher na sociedade, e isso pode influenciar as eleições de novembro.

Por exemplo, 33% dos americanos dizem que "a maioria dos homens estão mais preparados emocionalmente para a política dos que a maioria das mulheres". 44% dos protestantes evangélicos concordam com isso, mais do que outros cristãos e muito mais do que os judeus (29%), outras religiões (23%), e pessoas sem religião (14%).

Os dados da Baylor foram reunidos em 2007, quando a senadora Hillary Clinton lutava pela nomeação como candidata pelo partido Democrata, muito antes que a governadora do Alaska, Sarah Palin, fosse nomeada para a vice-presidência da candidatura republicana, chamando atenção para a questão da maternidade e de gênero. Palin é mãe de cinco filhos, incluindo uma criança com síndrome de Down.

Os dois candidatos republicanos são protestantes evangélicos (John McCain é batista e Palin não tem uma denominação específica). O candidato do Partido Democrata, Barack Obama, é protestante (Igreja Unida de Cristo), e seu vice, o senador Joe Biden, é católico apostólico romano.

A pesquisa também revelou:

- que 41% disseram que as crianças em idade pré-escolar sofrem se suas mães trabalham fora (54% dos evangélicos defendem isso, quase o dobro dos outros grupos).

- que 31% disseram que "é o desejo de Deus que as mulheres tomem contas de seus filhos" (48% de evangélicos).

Essas visões podem definir os votos? "As pessoas podem sustentar esses valores sociais, mas nem sempre isso se traduz nas urnas", diz Lauren Winner, professora-assistente de espiritualidade cristã na Universidade Duke. "Apesar de a visão conservadora em relação aos gêneros ser uma peça fundamental da visão de mundo evangélica, ela não é o principal fator para as pessoas - como é o aborto.

"As pessoas podem relevar a contravenção de Palin em relação aos papéis tradicionais - uma mãe que pode ir para a Casa Branca - agarrando-se à sua posição clara contra o aborto".


A tragédia e o mal

Deus causa ou permite "que grandes tragédias aconteçam, como um aviso aos pecadores", dizem 20% dos adultos dos Estados Unidos.

Enquanto 43% dizem que o maior mal é causado pelo diabo, 47% discordam - num empate estatístico.

Mas a maioria (68%) não diria que a natureza humana é essencialmente má.
Então onde é que o mal reside - no diabo ou na espécie humana? A pesquisa Baylor, que permite respostas sobrepostas, descobriu que 36% concordam com ambas as definições.

"Aqueles que acreditam que Deus causa ou permite que coisas ruins aconteçam não disseram que as tragédias são culpa de Deus", diz o sociólogo de Baylor Christopher Bader.

Segundo Bader, as pessoas disseram que "as tragédias são nossa culpa. Nós pecamos enquanto nação, e Deus não impediu que coisas terríveis acontecessem."

Entre as perguntas que o reverendo Rick Warren fez para ambos os candidatos à presidência em seu Fórum Civil sobre a Presidência em Saddleback, estava: "O mal existe?". Ambos os candidatos disseram que sim.

O senador Barack Obama disse que é "tarefa de Deus eliminar o mal do mundo", mas que "nós podemos ser soldados nesse processo."

O senador John McCain disse que "o mal deve ser derrotado", e relacionou-o totalmente com o "desafio transcendente do século 21 - o extremismo radical islâmico."

Fonte: Pesquisa Baylor de Religião, Instituto de Estudos da Religião, Universidade Baylor. Baseado em pesquisa com 1.700 adultos no outono de 2007; a margem de erro é de 4 pontos percentuais para mais ou para menos.

Tradução: Eloise De Vylder

Texto do USA Today, no UOL.

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terça-feira, setembro 02, 2008

AMERICANO NÃO SABE PERDER

DENVER, COLORADO - Já antecipo a minha defesa: não, não estou injuriado com a derrota do Brasil no vôlei masculino. Não vi o jogo. A NBC não passou ao vivo. Aqui funciona assim: eles guardam o jogo para o dia seguinte. Se os Estados Unidos ganharem eles passam na íntegra, com festa, entrega de medalhas e hino. Se os Estados Unidos perderem eles não passam. Juro por Deus.

Até o quadro de medalhas andou sumido da cobertura televisiva. Ainda que tenham mudado o jeito de contar as medalhas, desprezando as de ouro em benefício do total -- assim os Estados Unidos "ganhariam" de novo --, os americanos não querem dar o braço a torcer e admitir que a China venceu um número maior de medalhas de ouro.

Já antecipo minha defesa: não acho que alguém deva bater no peito pelo simples fato de ter nascido em latitude ou longitude diferente. Acho um porre essa história de ficar cantando "eu, sou brasileiro, com muito orgulho". É mais cafona que usar pochete. Gosto do esporte. Gosto de basquete, de atletismo, de futebol. Se o cara for bom eu gosto. Se o time for bom eu gosto. Além disso, essa história de recrutar criança no berçário para defender as cores do país acho que beira o fascismo.

Dito isso não posso deixar de notar a dor-de-cotovelo dos americanos. Quando eles perderam na ginástica trouxeram de volta o caso da idade provavelmente falsificada das ginastas chinesas. Não questionaram a vitória de Michael Phelps naquela decisão no mínimo controversa. Na TV, nem um pio. Os jornais, sim, mencionaram que a empresa de cronometragem da natação é patrocinadora de Phelps e publicaram as fotos que, na verdade, não provam que ele venceu.

O que me irrita, sinceramente, é a patriotada que beira o desrespeito. A rede NBC editou a disputa do salto em distância e conseguiu não colocar o salto da vencedora, embora tenha colocado uma imagem da comemoração. Até entendo que, por causa da audiência, eles escolham para transmitir os esportes nos quais os atletas daqui tenham maior chance. Mas, em nome do tal "espírito olímpico", deveriam admitir que eles não são os únicos vencedores. Essa mistura de patriotada com prepotência é que me irrita.

Texto do Luiz Carlos Azenha, no Vi o Mundo.

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segunda-feira, junho 25, 2007

Earth to America: "Can you hear?"

terça-feira, junho 12, 2007

"Yankees, come here!"

Depois de falar tanto em McDonalds, Burger King, Coca-Cola, e coisas assim, e lembrando do blog Na Periferia do Império, que se diz "um blog anti-imperialista, mas não anti-americano" (embora eu tenha um conhecido que diga que tal afirmação é uma contradição em termos), este blog está quase gritando o antônimo do famoso slogan: "Yankees, come here!". Mas só para certas coisas! :)

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quarta-feira, maio 23, 2007

Jerry Falwell 1933-2007

O jornal The New York Times deu um longo necrológio para o reverendo Jerry Falwell, falecido em 15 de maio passado, aos 73 anos de idade, na cidade de Lynchburg, na Virgínia, Estados Unidos.

Jerry Falwell era um pastor batista, mas provavelmente ficará conhecido como um dos principais articuladores do que passou a ser chamado, a partir do final dos anos 1970, de “Maioria Moral”, juntando conservadores de diversos matizes, com uma agenda, por exemplo, contra o aborto, a pornografia, e favor da família nuclear tradicional e heterossexual. O movimento conseguiu unir protestantes, católicos e judeus conservadores em torno desta agenda, e ligou-se ao Partido Republicano, e teve certa influência para a eleição do presidente Ronald Reagan nos anos 1980, como sobre o próprio governo Reagan. Esta influência diminuiu um pouco no governo do presidente George Herbert Bush, ou Bush pai. E aumentou substancialmente com o governo atual do presidente George Walker Bush. Sendo o atual presidente seriamente comprometido com os valores daquela agenda, a tal ponto de restringir ajuda a países em campanha contra a disseminação da AIDS àqueles que produzissem campanhas de incentivo à abstinência sexual. No caso do Brasil, por exemplo, a ajuda nestes temos foi recusada.

No governo Clinton, os conservadores estiveram na base daquela constrangedora história de pedir impedimento do presidente por ele ter se envolvido com uma estagiária da Casa Branca, e supostamente ter mentido ao Congresso sobre isso. No extremo, entraram por lá numa discussão sobre qual o conceito de relação sexual.

Ele foi fundador e dirigente da Liberty University, na mesma cidade de Lynchburg. Seus dois filhos devem dar prosseguimento à obra do pai. Um deles a frente da universidade, e outro no púlpito da Igreja Batista de Thomas Road.

Como muitos cristãos, ele viveu sua infância entre uma mãe piedosa, e um pai indiferente à religião. E dentro desse quadro, ele viu seu próprio lar como uma arena de batalha entre o bem e o mal. O bem representado pelos ensinamentos que sua mãe lhe passou. O mal pela falta de vida espiritual do pai, o qual em um acidente com arma de fogo matou o irmão, trauma do qual nunca se perdoou, e nunca se recuperou, tendo morrido alcoólatra.

Provavelmente é por isso que ele era, como outros cristãos conservadores um crítico da cultura, e fazia questão de manifestar suas opiniões na arena pública. Além disso, ele vivia nos Estados Unidos da América, aquele país em que posições políticas são melhor representadas por posicionamentos culturais, do que por lutas de classe explícitas.

A notícia de sua morte foi divulgada pela universidade Lynchburg, e até o momento da publicação do jornal, as causas não haviam sido estabelecidas. Ele havia sido encontrado inconsciente em seu escritório, na universidade.

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terça-feira, maio 08, 2007

Homem-Aranha 3 - Softpower e Hardpower

E a propósito do Homem-Aranha, há um momento em que o super-herói fica, por uma fração de segundos, em frente a uma imensa bandeira dos Estados Unidos. Esta fração de segundo com o Homem-Aranha e o pavilhão estadunidense juntos seria um exemplo bem acabado do antigo poder de sedução que os Estados Unidos ofereciam para o mundo. Não que este poder de sedução tenha acabado, pois como diz um professor meu, nós continuamos em grande parte a assistir filmes produzidos por Hollywood; ouvir ou dançar, ou ambas as coisas, "rock 'n roll" (talvez o meu professou escrevesse roquinrol, ou roquinrou...), e vestir calças "jeans" e camisetas de algodão (esta maneira de vestir começou a ser propagada no final dos anos 1950, e como? pelos filmes de Hollywood!) .
O cientista político, e antigo assessor do Governo Federal dos Estados Unidos, Joseph Nye, afirma em seus livros que os Estados Unidos são a maior superpotência que existe atualmente, mas que para manter esta liderança, o país precisa utilizar ao máximo o "softpower", isto é, chamar outros países para parcerias, colaboração, desenvolvimento conjunto, e usar o mínimo de "hardpower", ou seja, intervenções militares puras e simples, intimidações, acusações e outros que tais. Eu certamente concordo com ele em muito do que diz.
E é justamente isto que parece tornar a exibição do pavilhão estadunidense em um filme algo anacrônico para a assistência que não seja cidadã dos Estados Unidos. Se em algum momento, a bandeira dos Estados Unidos esteve ligada a sistemas legais, busca por justiça, etc, desde a invasão do Iraque, e da criação do campo de detenção de Guantánamo, isto se desvaneceu. A invasão do Iraque foi baseada em falsos argumentos, e os detidos em Guantánamo vivem num limbo legal (casualmente quando o Papa Bento XVI encaminha a Igreja Católica para apagar qualquer tradição ligada ao limbo, aquele lugar para onde, segundo alguns, iriam as crianças que morrem sem consciência do pecado humano, mas também sem batismo. Ao renunciar a esta tradição o Papa se aproxima do senso comum da crença das igrejas protestantes em matéria de destino de crianças após a morte. Mas isto talvez seja assunto para um outro "post"), e lá estão detidos, alguns há sete anos, sem julgamento e condenações formais, porque o Departamento de Justiça resolveu rotulá-los de "combatentes inimigos ilegais". E recentemente o Departamento de Justiça encaminhou pedido ao judiciário para restringir o acesso de advogados aos detidos em Guantánamo, limitando o número de visitas, tendo acesso à correspondência trocada entre detidos e advogados, e restringindo o acesso a evidências que possam ser usadas como peças de acusação. O jornal The New York Times publicou editorial reclamando do Departamento de Justiça.
Pobre bandeira norte-americana. Pobre Homem-Aranha. Podiam não pagar este mico.
Talvez o diretor devesse ter duas versões para o filme. Uma com a cena para o público interno (para aqueles que acreditam de todo o coração que o país ainda representa justiça para o mundo. Ainda há pessoas que percebem que o país está perdendo, perdeu credibilidade com o governo Walker Bush.), e uma sem a cena para o resto do mundo. O Homem-Aranha vai salvar Nova York, mas não precisa do pavilhão para lhe fazer companhia naquela hora...

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