quarta-feira, dezembro 22, 2010

A tirania da contingência

A tirania da contingência


SEMPRE QUE acontece uma tragédia nas nossas vidas -um fracasso amoroso, uma doença súbita, a perda de alguém que amamos- a velha pergunta regressa para nos assombrar: "Por que eu?" "Por que a mim?".
A pergunta certa não é essa, naturalmente. A pergunta certa seria: "E por que não eu?", "E por que não a mim?".
Mas a nossa "forma mentis" está programada para recusar "a tirania da contingência", para usar a expressão primorosa do narrador de Philip Roth no seu último romance, "Nemesis" (Jonathan Cape, 280 págs.). Aceitar a "tirania da contingência", tema fulcral das obras tardias de Roth, seria destruir a crença basilar da nossa civilização racionalista: a de que tudo depende dos nossos esforços racionais rumo a um fim perfeito. E racional.
Essa crença é cultivada por Bucky Cantor, o personagem central de "Nemesis". Bucky começou mal na vida: a mãe morreu no parto; o pai apodreceu no cárcere. Bucky foi educado pelos avós. Melhor: pelo avô, que incutiu nele uma inabalável crença nas suas forças e capacidades.
O resultado não poderia ser mais brilhante: física e mentalmente forte, Bucky é um Super-Homem em Newark, o território eletivo de Roth.
Claro que, para sermos rigorosos, a "tirania da contingência" sempre esteve presente na vida de Bucky.
Perder a mãe e o pai, mas ter avós disponíveis para uma educação de excelência, não é para qualquer um. É, digamos, uma "sorte". A "contingência" não significa necessariamente um mal; a contingência significa apenas que existe uma margem de imponderabilidade nas condutas humanas onde o mal e o bem acontecem.
E acontece com Bucky. Depois de ter sido salvo pelos avós na infância, Bucky será novamente salvo. Dessa vez, salvo na juventude e uma vez mais por um infortúnio pessoal.
A Segunda Guerra Mundial rebenta para os Estados Unidos depois de Pearl Harbor. Mas Bucky não marcha para o Pacífico como os rapazes da sua idade. Uma visão deficiente e um excesso de dioptrias obrigam-no a ficar em casa. Um destino que Bucky aceita, resignado, embora com um sentimento de culpa que já denuncia a sua incapacidade para aceitar que nem tudo obedece à nossa exclusiva vontade. Pela segunda vez, Bucky é salvo pela "tirania da contingência".
Não haverá terceira vez. Porque, se Bucky não foi à guerra, a guerra vem até ele. Não uma guerra tangível, feita de armas ou bombas; mas uma guerra imaterial, silenciosa e pestífera.
Estamos em 1944 e Newark estremece com uma epidemia de poliomielite. Falar da pólio, hoje, é o mesmo que falar de um dinossauro: uma doença de museu, não mais, depois da descoberta da vacina na década de 50.
Mas a pólio não era uma doença de museu em 1944. Era um vírus furtivo que roubava vidas e destroçava infâncias com violência inaudita.
Philip Roth é primoroso na descrição dessa peste: na descrição do medo que contamina a comunidade; do pânico que se apodera dela; da morte que se abate sobre os mais frágeis; da raiva que é cultivada pelas famílias enlutadas; e, sobretudo, da impotência dos homens para travar um castigo de Deus.
Pelo menos, Bucky acredita que sim. Faz parte da mentalidade racionalista atribuir ao divino a natureza do imponderável. Só um Deus louco, injusto e cruel pode enviar um castigo tão louco, tão injusto e tão cruel.
Mas é justificativa que dura pouco. A educação de Bucky conspira contra ele e a sua consciência exige um culpado mais terreno, mais humano. A pólio pode vir do patrão lá de cima. Mas é preciso alguém que a transporte e dissemine cá por baixo.
Esse alguém só pode ser Bucky, professor de ginástica que convive diariamente com os rapazes. E que, ao vê-los tombar, um por um, como soldados numa batalha invisível, assume em si a responsabilidade do massacre.
Lendo "Nemesis", narrativa magistral de um Roth crepuscular, entendemos como a contingência só é destrutiva quando existe em nós "um sentido deslocado de responsabilidade", para usar as sábias palavras do médico da história.
Ou, trocando em miúdos, só somos verdadeiramente destruídos por aquilo que não controlamos quando alimentamos em nós a ilusão de que tudo controlamos.
Agora que 2010 caminha para o fim, está encontrado o livro do ano.

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quinta-feira, setembro 16, 2010

Aborto...

AS DISCUSSÕES sobre o aborto despertam o poeta que há em nós. Uma amiga disse-me hoje que era favorável ao aborto livre porque só existe vida, ser humano, "pessoa", quando existe um nome.
Entendo a metáfora: o feto converte-se em vida quando somos capazes de projetar uma identidade nele. Quando o feto deixa de ser feto e passa a ser, sei lá, Maria ou Manuel. Quando é, no fundo, desejado.
Em silêncio, ainda contemplei as vantagens de uma legislação que consagrasse essa espécie de "validade onomástica": os pais evitavam dar nome ao filho até os 12 ou 13 (anos, não meses) e esperavam para ver.
Se ele fosse um adolescente típico, com maus modos e péssima higiene, seria sempre possível despachar a "coisa", a inominada "coisa", para o outro mundo. E por que não?
Se o feto só é vida quando somos capazes de imaginar uma vida para ele e com ele, a própria noção de "vida humana" deixa de repousar nas mãos do mistério (evitemos referências ao patrão lá de cima) e passa a ser opção de cada um.
Como, na verdade, já é: podemos mascarar a discussão sobre o aborto com quilos de retórica social, feminista, criminal ou sanitária.
Mas a "liberalização do aborto" parte de uma atitude filosófica que consiste em "privatizar" a noção de vida humana.
Para uns, é Maria. Para outros, é um amontoado de células (benignas) que se remove como se removem as malignas. Caso encerrado.

Trecho da coluna de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo, de 31 de agosto de 2010.

A coluna se chama “Abortos, Canibais e Peregrinos”, e como tal está dividida em três pedaços, o que está acima é sobre o aborto. Sobre canibais há um comentário sobre uma notícia (falsa) de um restaurante brasileiro em Berlim, que serviria carne humana aos clientes que se dispusessem a fazer uma refeição lá. Era “pegadinha”.

Sobre peregrinos ele relembra a comparação feita pelo historiador britânico Paul Johnson de que os fãs de ídolos pop de hoje são semelhantes aos crentes de outrora atrás de uma relíquia de santos e beatos. Ele comenta que um vaso sanitário de John Lennon recebeu oferta de 9.500 dólares em um leilão, e o vaso do escritor J. D. Salinger recebeu oferta de um milhão de dólares. Para Coutinho, isso ainda demonstraria a superioridade da literatura sobre a música pop no imaginário de seus fãs. Talvez, mas não penso que deva ser uma absoluta verdade...


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quarta-feira, setembro 01, 2010

O fantasma de Paulo Francis

O fantasma de Paulo Francis

PAULO FRANCIS queria ser o fantasma do Metropolitan Museum, em Nova York. Não sei, não. Estive no "Met" semanas atrás. Posso jurar que havia um espectro por lá, óculos de lentes grossas, a dizer "waaal" em todas as salas.
Mas se Francis não virou fantasma do Metropolitan, virou fantasma do jornalismo brasileiro. Basta consultar qualquer jornal, site ou blog para reconhecer o ritmo, a voz, os tiques de Francis. Ele foi uma espécie de blogueiro "avant la lettre", pela profusão de temas e pelo tratamento conciso e obsessivo das loucuras do mundo, e aqui concordo com Paulo Eduardo Nogueira.
Mãos amigas fizeram-me chegar "Paulo Francis - Polemista Profissional" (Imprensa Oficial, 154 págs.), que li com prazer. O livro é uma revisão da vida e obra ("just the facts, dear"), mas depois Paulo Eduardo Nogueira dá braçadas em alto mar e o melhor acontece.
Concórdias? Muitas. Discórdias? Algumas. Mas, primeiro, vamos às surpresas, que me deixaram como um fantasma de museu: a pairar sobre a realidade.
Desconhecia, juro, que o golpe de 1964 tinha embranquecido o cabelo do bicho. Aconteceu o mesmo com o pai de Tocqueville na Revolução de 1789. Será mito ou mera coincidência capilar? Nessas matérias, a minha filosofia é John Ford "vintage": imprima-se a lenda.
Desconhecia também a frase perfeita dita a Sérgio Augusto para justificar a opção Nova York: "Cheguei a uma idade em que preciso de um país com quatro estações definidas por ano". Meu Deus. Não sei quantas vezes pensei nisso ao olhar para Portugal, que em matéria sazonal é mais preciso que um relógio suíço. A minha gratidão não tem preço.
Por fim, ri bastante quando Lucas Mendes explicou o "modus operandi" de Francis para com certas personagens que lhe eram antipáticas. "Aí ele era complicado. Não ficava na mesma sala, ia embora e era até capaz de peidar alto perto da pessoa."
É o cúmulo da sofisticação anal, digno de uma ópera popular de Mozart. E imagino desde já as conversas de inveja entre os objetos do seu desafeto: "Por que motivo ele peida na sua presença e não na minha? Você pensa que é melhor que eu?"
Vamos às concórdias. Francis não tinha grande faro político? Verdade. Exatamente como Mencken, pai espiritual de nós todos, que foi decisivo na descoberta de prosadores mil (Hemingway, Dreiser, Fitzgerald etc.) mas que falhou politicamente e com estrondo: o desprezo pela democracia e a incapacidade de perceber a natureza sinistra do nazismo são manchas inapagáveis.
Mas cuidado: dizer que a África do Sul pós-apartheid e a China "Frankenstein" de hoje são casos de sucesso, contrariamente ao que profetizava Francis, implica uma confiança no futuro que está interdita a um cético. Como dizia um antigo primeiro-ministro chinês na década de 1970 sobre as consequências da Revolução Francesa, ainda é muito cedo para dizer.
A principal discórdia está com a interpretação "neoconservadora" de Paulo Eduardo Nogueira. Francis deu uma guinada para a direita. Mas seria essa guinada uma emanação do "neoconservadorismo" de Kristol e "tutti quanti"?
Duvido. Discordo. O "neoconservadorismo" é fenômeno exclusivamente norte-americano (e, em menor grau, inglês) que lida com o fracasso sentido por uma parte da esquerda liberal americana (e já não trotskista) que se confrontou com os fracassos econômicos, sociais e morais da "Grande Sociedade" de Lyndon Johnson; e que nunca olhou para a URSS com a complacência de outros "liberais" da Ivy League. O DNA trotskista (leia-se antistalinista) nunca os abandonou.
Paulo Francis, depois da virada, ganhou aquela carapaça anticomunista só possível em antigos clientes da casa, é um fato. Mas essa foi uma virada para um conservadorismo clássico, elitista (no sentido platônico) e não "neoconservador".
A costela libertária de Francis, em matéria de "costumes" (droga, pornografia, jogo, etc.) teria horrorizado qualquer um dos Kristol (pai, filho ou mãe Himmelfarb).
E, claro, a ideia "neoconservadora" (ou será antes "cripto-trotskista"?) de que a democracia americana é produto de exportação teria provocado no fantasma do Metropolitan gargalhadas sinistras.
O mundo é uma coleção de tribos, dizia Francis no final da vida. Um problema insolúvel. Se me permitem o excesso de metáforas zoológicas, foi o canto do cisne para o pequeno leãozinho Trotsky que ainda brincava dentro dele.

Texto de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo, de 24 de agosto de 2010.


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terça-feira, maio 05, 2009

Homens e Lobos

Homens e lobos

EXISTEM MOMENTOS em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz.
Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem.
Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato. E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objetos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade.
Um gato ajuda a entender tudo isso. Mas um livro publicado recentemente reforça a ideia. Confesso: comprei o livro sem expectativas numa livraria do aeroporto de Heathrow, em Londres. Só o título despertou a curiosidade: "The Philosopher and the Wolf: Lessons from the Wild on Love, Death and Happiness" (o filósofo e o lobo: lições do selvagem sobre amor, morte e felicidade; Granta, 246 págs.). Não é manual de filosofia "ligeira". Longe disso. O livro de Mark Rowlands é uma mistura erudita de experiência pessoal e reflexão metafísica, em que Nietzsche, Heidegger e Camus têm participação direta.
Ponto de partida: certo dia, o professor Rowlands leu anúncio no jornal. Alguém vendia lobos por US$ 500. Rowlands entrou na aventura. Horas depois, a casa estava destruída pelo novo hóspede, de nome Brenin, que não poupou a mobília e as cortinas. Primeira lição: um lobo não é um cão. E, nos 11 anos seguintes e após treino apertado, Brenin foi a companhia do professor. Em casa. Na rua. Em viagem. E até nas aulas, para espanto de colegas e alunos: enquanto o professor dissertava sobre Platão e Aristóteles, o lobo dormitava ao seu lado. As aulas terminavam com um uivo. O livro de Rowlands é uma descrição pessoal de tudo isso: da relação idiossincrática de um homem com um lobo. Mas o livro de Rowlands oferece-se essencialmente como uma longa meditação sobre a natureza da felicidade humana. Ou, se preferirem, sobre a sua impossibilidade.
Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projeto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projeto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. Viver com Brenin ensinou a Rowlands essa crucial diferença entre Homens e animais: nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total. A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o teto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam?

Texto de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo, de 31 de março de 2009.

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sábado, novembro 29, 2008

Morte e vida

Morte e vida

COMPAREÇO A um funeral. Um desses funerais a que vamos por convenção social ou familiar, não por ligação pessoal ou sentimental. Conhecia mal o defunto.
A minha família conhecia-o bem. E sempre se espantou com a longevidade do senhor: 97 anos. Uma proeza que só a medicina moderna é capaz de produzir na sua busca pela imortalidade possível? Sem dúvida.
Mas é preciso olhar para o outro lado da questão: os últimos 20 anos foram passados na cama ou na cadeira de rodas, em frustração ou agonia crescentes. O homem morreu aos 97. Em rigor, morreu talvez pelos 80. O resto foi desperdício.
Estou sendo cruel? Talvez. Mas a vida é cruel. Sobretudo quando a prolongamos excessivamente. E, em minha defesa, cito um artigo recente: a revista britânica "The Lancet" resolveu fazer um estudo sobre a qualidade de vida a partir dos 50 anos. Porque viver mais não significa viver melhor. A partir dos 50 anos, que esperança boa de vida têm os habitantes da União Européia?
Os homens podem contar com nove a 23 anos de vida saudável. As mulheres, com dez a 24. Em outras palavras: até aos 73/74 anos, no máximo, homens e mulheres podem viver com dignidade. A partir dos 73/ 74, entramos em período de prorrogação. Como no futebol.
A Dinamarca leva a Copa como o país onde os velhos vivem melhor a partir dos 50. A Estônia é o pior país.
Portugal fica algures pelo meio, invertendo apenas a tendência entre homens e mulheres: a partir dos 50, os homens podem contar, em média, com 14 anos de vida saudável. As mulheres, com 12.
Duas conclusões da revista.
A primeira é que o investimento nos cuidados geriátricos melhora a qualidade de vida a partir dos 50. Lógico. O meu defunto, aliás, é a prova disso: a partir dos 50, a medicina deu-lhe uma ajuda, ano após ano, para ele ir derrotando as maleitas todas que atacavam a sua carcaça: diabetes, hipertensão e, antes do derrame cerebral que o levou ao tapete, operações cirúrgicas várias em várias zonas do corpo que ameaçavam entrar em greve. Pequenas batalhas que a medicina foi vencendo.
Mas existe uma segunda conclusão no estudo: a medicina vence batalhas, mas não vence a guerra. Ela não derrota a mortalidade do corpo.
E, se a "Lancet" está certa, a partir dos 73 (para os homens) e dos 74 (para as mulheres), o prolongamento da vida pode confundir-se com um inútil e tantas vezes doloroso adiamento do fim. Que fazer?
Regresso ao funeral. Eu, caminhando atrás do carro fúnebre, olhando em volta. Pessoas, poucas.
Velhos, alguns. Crianças ou jovens, nenhum. Curioso: o homem tinha netos e bisnetos. Nenhum deles está presente.
Eu próprio, com os meus 32 anos, sou talvez a personagem mais nova desse filme. Comento o fato com alguém. Dizem-me que é normal: nos funerais modernos, é importante "proteger" (atenção ao verbo) as crianças e os jovens da morte. "Proteger". Da morte.
Admirável. Durante séculos, a civilização soube acomodar a morte entre os vivos, porque uma vida feliz implicava, como Montaigne dizia, aprender a morrer: aprender que a finitude da vida revaloriza a própria vida. Porque só a consciência plena do fim nos permite uma entrega total aos entretantos. Como dizia um conhecido historiador francês, a morte estava no centro da vida como a igreja no centro da vila.
Tudo mudou. Conheço casos de gente que, por questão de princípio, não vai a funerais (exceto, presumo, ao próprio). Hoje, a morte é um embaraço que se intromete entre uma festa de juventude permanente.
Mesmo que essa festa tenha prazo: 73 ou 74 anos de saúde boa para homens ou mulheres. O resto é desperdício.
O resto é pó, como o pó que cai sobre o caixão. Olho para a cova, ouço a terra que cai sobre a madeira. Tenho um céu de chumbo sobre mim. Irá chover, não tarda. Mas, antes que os céus se abram em choro sobre o mundo, dou por mim numa oração íntima em frente ao meu destino. E então peço a esse Deus desconhecido que me dê a graça e a sabedoria de partir na altura certa.
Meu Deus, faz com que eu morra vivo. Não me dês a eternidade ilusória nem suspendas o meu pobre corpo no limbo dos homens. Ensina-me a morrer, a única forma de eu aprender a viver com a consciência de que todos os dias da minha vida são frágeis e temporários, e, por isso, valiosos. Concede-me essa dádiva, e eu prometo que não irei estragá- la com a ganância própria dos desesperados.

Texto de João Pereira Coutinho, no caderno Ilustrada, na Folha de São Paulo, de 25 de novembro de 2008.


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