sexta-feira, dezembro 24, 2010

Saco cheio de Papai Noel

Saco cheio de Papai Noel

RIO DE JANEIRO - Tempos natalinos provocam mão de obra suplementar em nosso cotidiano. Somos obrigados às confraternizações, aos votos de boas-festas, a dar e a receber presentes, um saco. A mensagem de solidariedade humana fica reduzida a uma mesa de churrascaria, ao chope quente e à picanha fatiada com batatas fritas engorduradas.
Os apelos comerciais, que antes da era eletrônica enchiam a nossa paciência, os jornais e revistas, os agressivos outdoors que poluíam o já poluído cenário urbano, invadem agora a telinha de nossos notebooks, oferecendo-nos em suaves prestações mensais aquilo de que não precisamos.
Em alguns países, a tradição de dar e receber presentes, transferida para 6 de janeiro, Dia de Reis, é mais lógica e tem um exemplo ilustre. Afinal, os magos levaram incenso, ouro e mirra e receberam em troca a oportunidade de seguirem a estrela que brilhou para eles nos céus da Judeia. Haveria algum sentido na atual troca de presentes.
Limparíamos o Natal da febre consumista a que estamos habituados. A grande festa da cristandade paganizou-se com símbolos nem sempre bonitos e sempre aleatórios. Olhar a cara do Bom Velhinho, borrado de Kodacolor, esbarrar em árvores de natal complicadíssimas, ouvir o "jingle bells" e o "Noite Feliz" por toda parte. Novamente, um saco.
Nada disso facilita o mergulho que devemos fazer em nós mesmos, acreditemos ou não na mensagem que se iniciou naquela noite de Belém, em torno de uma manjedoura, com um burro e uma vaca no lugar de todos nós. Eles sabiam o que faziam.
Sempre impliquei com Papai Noel. Gosto de dar e de receber presentes, mas vejo no Bom Velhinho uma edição mercadológica do rei Momo, de quem também não gosto, mas considero mais necessário e autêntico.


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segunda-feira, junho 21, 2010

A Copa e o tempo

A Copa e o tempo

AS RUAS estão enfeitadas de verde e amarelo: é a Copa do Mundo, mais uma. Competição e patriotismo à parte, cada Copa serve de referência, de baliza temporal para medir os anos que passam. Valem mais do que o simples Réveillon que comemoramos anualmente: afinal, o tempo ganhou uma dimensão nova e o espaço de 12 meses é curto para as grandes perspectivas interiores.
Quatro anos não é muito nem pouco: é bastante. Chegará o dia em que mediremos nossa verdadeira idade interior pelas Copas e não pelos anos. Aliás, na Antiguidade media-se o tempo histórico pelas Olimpíadas.
E independente do resultado de cada torneio mundial, fica o espanto pelo tempo que foi passando. Custo a absorver os 60 anos que me separam da Copa de 1950, aqui mesmo no Rio, a primeira depois do intervalo provocado pela Segunda Guerra Mundial.
Evidente que tudo era estranho: Getúlio ainda não se suicidara, ninguém conhecia JK, Pelé era um menino de várzea, a Lua, inatingível, o Brasil não sabia fabricar uma tesourinha de unha. No plano particular, algumas mulheres que amei nem tinham nascido ainda.
Os livros que escrevi não estavam sequer na cabeça. Enfim, se um terremoto matasse os 200 mil torcedores que se espremiam no Maracanã naquele Brasil x Uruguai de 1950, eu simplesmente não teria sido eu.
Não é o caso de perguntar se valeu a pena esta sobrevida de 60 anos. No plano estritamente esportivo, evidente que valeu: não vi o Brasil campeão em 1950, mas desforrei a frustração em 58, 62, 70, 94 e 2002.
No campo geral da vida, desaprendi algumas coisas e aprendi outras, não necessariamente melhores. Casei, descasei, tive filhos, escrevi livros, fui preso, desci aos infernos e não subi aos céus.
Cada Copa me traz, assim, um referencial completo, inadiável, de minha passagem pela vida e pelo mundo -e já não ouso invocar aquela piedosa imagem da oração católica que chamou esta vida e o mundo de "vale de lágrimas".
Não, não houve tantas lágrimas assim. As últimas, em certo sentido, foram deixadas no próprio Maracanã, quando acabou o jogo e a multidão, atônita, sentiu que o sonho acabara.
Anos depois, um cara de Liverpool que se julgava mais importante do que Jesus Cristo, também proclamou que o sonho acabara. Bolas, o sonho não acaba: afinal, cada despertar é o noviciado para novo sonho e assim vamos, de sonho em sonho, de Copa em Copa, levando o barco para frente.
De qualquer forma, é confortador que em 1982, na Copa da Espanha, eu estava de malas prontas para as férias de Positano, que Mila -minha setter de olhos cor de mel- acabara de chegar em minha vida.
Bom lembrar que em 1970 eu iniciava um tumultuado período de vida. Enfim, cada Copa, como cada dia, segundo as escrituras, tinha a sua malícia: "Sufficit diei malitia sua" (a cada dia bastam as suas preocupações). Imagino quantas Copas ainda terei pela frente. Duas, três, quatro? Talvez nenhuma. Bem, o problema, de tão meu, não chega a ser meu: é do destino.
E aí está o que desejava dizer desde o início da crônica: cada Copa é um encontro com o destino, não apenas no estádio, mas no campo minado de incertezas de cada mente, de cada coração.
A cada Copa ela se torna mais presente na vida de todos, nos becos e nas ruas, asfalto e favela reagem do mesmo jeito, até o mercado aquece, vende-se mais, bebe-se mais. Mesmo comparando a de 1950, que foi no Brasil, com o Maracanã novinho, não havia tanto comprometimento social, mercadológico e sentimental como hoje.
O simples futebol é um pretexto temporal e factual para um encontro, breve, mas profundo, com os outros e até conosco. De repente nos descobrimos autênticos, sofrendo ou gozando por nada mesmo, por um sentimento geral que desperta em cada um de nós um estágio de pureza infantil, egoísta e coletiva ao mesmo tempo.
Evidente que a esperança (ou a confiança) no resultado final é o reagente químico para um tipo de festa que nem sempre acontece. Não importa. Cada Copa funciona como um tranco dentro de nós mesmos e, por mais paradoxal que seja, uma pausa na verdadeira Copa da vida onde sempre perdemos.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 18 de junho de 2010.


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segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Verão Demais - 2009-2010

Verão demais

SÃO DIAS de sol e calor, basta olhar e a gente sabe que o verão se instalou, para desespero daqueles que não suportam aquilo que alguns chamam de "canícula". Ou pior, "verão senegalesco", que faz dupla no lugar-comum com o "frio siberiano".
Em algumas plagas, o verão dura o ano inteiro, aqui no Rio, por exemplo, mas sem este exagero como o deste ano, que abriu suas fornalhas em cima de justos e pecadores. A luminosidade é excessiva, mas não dá vontade de fazer nada, como foi possível criar uma civilização no trópico, chegamos a abençoar aqueles dias cinzentos, desses que os poetas chamam de "plúmbeos".
Nada tenho contra o verão -Deus é testemunha disso. Mas não me agrada o assanhamento geral que já escolheu a musa do verão, a gíria do verão, a música do verão e a dança do verão. Sem ter culpa formada, o verão foi condenado a ser produto de consumo, como um sabonete ou um iPod.
Bem, cada qual se coça como pode, o corcunda sabe como se deita. O melhor verão de um amigo meu, que detestava badalação e gente, foi passado numa praia distante, pescando os seus carapicus em velha e desbotada canoa, um barco descascado que lhe fez companhia, casa e arca, chão e viagem pelo tempo da vida que escolheu.
A mulher que ele amava estava próxima, ao alcance da vista e do desejo, mas ela não interferia na sua solidão, no seu silêncio e na lenta peregrinação através do calor e do mar. Foi, em todos os sentidos, o seu verão, texto final de sua vida. Quando o inverno chegou, os barcos foram retirados para descansar na areia, cobertos com as redes ainda molhadas pelos mares do mundo, ele teve um momento de lucidez retroativa, disse adeus e foi-se embora com um tiro no peito. Chamava-se Jô, como o gordo Soares.
Mas não boto a boca no mundo porque este verão está de lascar, rachando catedrais -como dizia o Nelson Rodrigues. Obedeço ao poeta Horácio e curto o dia de hoje nada deixando para amanhã -e sei que muita gente, mesmo ignorando o poeta latino, já descobriu essa forma de caminhar pela vida.
O certo, também, é que há gente demais no mundo e tudo fica terrivelmente chato no meio de tanta gente. Que fazer? Essa pergunta foi feita por Lênin, num título de livro seu, e parece que nem ele encontrou respostas, embora o problema dele tenha sido outro.
De minha parte, enfrento como posso e com ar-refrigerado, o coração contrito e humilhado, o verão canicular e senegalesco que desabou sobre a cidade. (Em tempo: por pior que seja, acho que o verão não merece esses adjetivos que formam o lugar-comum acima citado).
Quero o verão fora do calendário, tornando-o aquilo que os ascetas chamavam de "estado d'alma" -eis a fórmula para fazermos o nosso laboratório para o verão que já se instalou. E desde já a advertência: não adianta dividir o verão com muita gente.
Lembro a piada do lorde inglês. Estava à janela de sua mansão quando o mordomo, olhando o tempo lá fora, informou: "Acho que vamos ter chuva, sir". Ao que o lorde retrucou: "Não, meu caro James (os mordomos sempre se chamam James nessas piadas), eu terei a minha chuva e você terá a sua chuva!".
Recuso o papel de órfão da tempestade, mas também recuso o assanhamento geral dos dias de sol. Sei que o verão foi feito para todos, mas tenho um truque muito caviloso para fruí-lo à minha maneira. Guardo de cada verão uma imagem na carne da minha memória.
Escrevi certa vez um romance que tinha o verão como personagem principal, foi até filmado em Cabo Frio, com Norma Bengell e Jardel Filho. Um casal que descobre o desamor e resolve se separar depois do verão. A história desse último verão é densa, amarga, sofrida.
O título era óbvio: "Antes, o Verão". Não sei por que (nem para que) andei cismando em fazer outro romance com o título que coloquei acima: "Verão demais". Não, não é um bom título. E ninguém merece esse tipo de ameaça.
Entre o verão assassino que caiu sobre o Rio e o verão diluviano que rompeu suas águas sobre São Paulo, prefiro ainda o do Rio. Verdade seja dita, na pior das hipóteses, o verão, tanto o do Rio como o de São Paulo, dá ainda motivo para uma crônica suada como esta.

Crônica de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 29 de janeiro de 2010.


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terça-feira, janeiro 26, 2010

Paz na Terra

Paz na Terra

ENCONTRO COM antigo colega do seminário, hoje padre, na porta da igreja. Eu esperava uma filha, e ele esperava a hora de fazer sua prédica sobre o mês de maio. Havia uma chuva miúda, o vento saía do túnel novo e varria as duas avenidas que vomitam automóveis vindos da cidade, em busca de Copacabana.
Lá dentro, na igreja, há calor e beatas. Alguém reza em voz alta, mas as buzinas dos carros soam mais fortes.
-Milagre?
-Não. Espero alguém.
Ele faz cara compreensiva, embora compreendendo outra coisa.
-Como vai essa ovelha tresmalhada?
-Já não sou tresmalhado, nem sequer sou ovelha.
-Isso depende de você. Olha, mais dia menos dia, você não aguenta mais.
Mudo de assunto:
-E o papa?
Há um brilho comovido nos olhos do padre.
-Você gosta dele?
A pergunta parece sem sentido, era claro, não tinha nada contra o papa.
-Pois olha, é um homem admirável.
E começa a falar. Do papa, descemos aos cardeais, depois aos bispos. Deu-me notícias que o nosso dom Jorge Marcos de Oliveira continuava o mesmo "Turcão" que conhecemos no seminário. Isso significa muita coisa de ternura e admiração.
"Turcão" era o camarada mais inteligente do seminário e do mundo. Bispo em Santo André, já falecido, tornou-se notável pelo seu zelo e pela sua competência pastoral. Vítima do noticiário dos jornais, dom Jorge muitas vezes foi apresentado como "moderno" demais, amigo demais dos trabalhadores. Esse "moderno" é justamente o "Turcão" do seminário.
Mas a sineta toca lá dentro e o padre entra.
-Vou falar sobre o mês de Maria. Na saída, voltamos a conversar.
-Posso ouvir?
-Não. Não aconselho. Vá esperar seu alguém.
O padre entra e eu vou atrás. Sento no banco mais escuro e triste. Beatas por todos os lados, lá no canto um homem idoso e curvado tosse com estrondo.
Acendem-se as luzes e o padre entra.
-Meus amigos, ia falar hoje sobre o mês de Maria. Mas encontrei lá fora um amigo de infância e mocidade, companheiro de ideal e de antigas lutas, hoje do outro lado da trincheira. Falar sobre o mês de maio seria ocioso para ele. Para vocês, outros padres falarão melhor do que eu sobre esse assunto. Pois falarei sobre um tema que tanto pode servir a vocês quanto a ele e a mim. A paz.
Não a paz dos guerreiros, a paz dos políticos, dos financistas. A paz paz, pacificamente instalada no coração e na angústia do homem. Lembrou a encíclica "Paz na Terra", não era qualquer paz que interessava para o homem.
E lembrou dois trechos do Evangelho. Quando Cristo diz: "Eu não vim trazer a paz, mas a guerra"; e quando, já ao fim de seus dias na Terra, faz sua grande oferta: "Eu vos dou a minha Paz".
Lá no fundo sinto o bruto orgulho de ter um amigo falando bonito e bem. Revivo algumas cenas de nossa infância, nossos estudos, o dia em que, juntos, começamos a estudar filosofia, quando apostamos tirar dez em ontologia. Toda a ternura antiga e não sabida vem à tona.
A prédica acaba, as beatas se ajoelham para a missa e eu saio trôpego, sem saber se devo ficar ou se devo partir imediatamente, infinitamente, em busca dos caminhos que escolhi sem ter preferido.
Lá fora, o vento que o Atlântico sopra vem por dentro dos túneis que engolem massas compactas de carros, as luzes vermelhas piscando histericamente na noite que desce sobre a cidade atrofiada de ossos e músculos cansados.
Na igreja, começa a missa, o mesmo rito antigo que Joyce colocou no pórtico de seu "Ulisses" e eu coloquei no pórtico de minha adolescência frustrada: "Subirei ao Altar de Deus". Que Deus? Que Altar? Há trincheiras ou, feitas as contas, não estamos todos do mesmo lado atirando contra o nada?
A chuva para. O mundo está lavado e um hálito fresco sobe do chão. Perto do carro, minha filha me espera. Meu carro será em breve um ponto histérico a mais, a ser devorado pela goela insaciável dos túneis e da vida. Olho para trás, o padre inicia o ofertório e se oferta. Paz.
Minha filha estende a mão e me chama para o chão, que nos traga sem ofertas, com lágrimas que começam a brotar em silêncio, secas no fundo e na treva.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 22 de janeiro de 2010.


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segunda-feira, dezembro 07, 2009

Machado, Euclides, Nabuco

Três gigantes

RIO DE JANEIRO - Não é nada, não é nada, é quase um tudo. Tivemos no ano passado o centenário de Machado de Assis, que foi comemorado "ad nauseam". Mesmo assim muita coisa ficou sem ser dita a respeito de um homem que foi e continua sendo um caso no panorama cultural brasileiro.
Neste ano, temos Euclides da Cunha, outro caso que dá o que pensar sobre a importância de personalidades dentro e acima de qualquer história. Embrião de Guimarães Rosa e Glauber Rocha, marcado pela tragédia e pelo quixotismo, que o fez quebrar a espada de oficial numa cerimônia militar, Euclides está sendo pensado e repensado como um dos pais fundadores de nossa civilização.
Finalmente, temos Joaquim Nabuco, cujo centenário, no ano que vem, já está sendo planejado pela Academia Brasileira de Letras, que, por sinal, lhe deve muito de sua fundação. Curiosamente, os três gigantes de nossa paisagem cultural estiveram juntos na mesma academia. Foram além de simples escritores, interessados na forma e no encanto das palavras. Pensaram grande sobre a condição humana, sobre o homem brasileiro, sobre a nação da qual permanecem como intérpretes principais.
Machado, Euclides e Nabuco são momentos da história do Brasil, cada qual em seu setor, mas juntos pelo amor ao ofício do pensamento e das letras. Neste particular, Euclides foi o mais exagerado, subordinando muitas vezes o pensamento à perfeição da forma. Ao publicar a segunda edição de "Os Sertões", ele apertou ao máximo o limite de sua linguagem. Não mexeu no conteúdo, mexeu apenas na forma.
Hoje, como é natural em tempos de dúvida e de incertezas, quando cada acadêmico da ABL reavalia a sua presença naquela instituição, se absolve em foro íntimo por estar na casa que foi de Machado, Euclides e Nabuco.

Texto de Carlos Heitor Cony, de 18 de agosto de 2009.


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terça-feira, novembro 10, 2009

O pagador do sucesso

O pagador do sucesso

RIO DE JANEIRO - São frequentes os atores de cinema que se transformaram em bons diretores. Os casos mais notáveis seriam Chaplin e Orson Welles, passando por Vittorio De Sica, que começou como galã do cinema italiano e terminou como diretor de obras-primas, como "Ladrões de Bicicletas", "Umberto D" e "Milagre em Milão".
Anselmo Duarte, em nível nacional, lembra sobretudo De Sica. Quando estreou na direção, com "Absolutamente Certo", a crítica reconheceu que o eterno galã das chanchadas da Atlântida tinha jeito para a coisa, o filme ficava acima da produção daquela época. Mas era, ainda, uma extensão mais ou menos séria dos filmes populares que então eram feitos no Brasil.
Veio depois o impacto de "O Pagador de Promessas", que, antes mesmo da Palma de Ouro de Cannes, foi considerado um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos. O prêmio internacional, paradoxalmente, se não fez mal ao filme, fez mal a seu diretor. Anselmo passou a ser negado não só pela crítica mas pelos colegas de ofício, notadamente o pessoal do cinema novo, que então começava a despontar.
Tentando desqualificar a Palma de Ouro, foi dito que o júri daquele ano dividira-se entre Buñuel e Antonioni, dois cobras assumidos do cinema internacional. Anselmo teria aproveitado a brecha e, namorando a presidente dos jurados, foi o tertius que levou a Palma e a sua alma.
Nunca se recuperou do trauma em sua própria terra. Funcionando sempre de olho nos prêmios internacionais, principalmente no de Cannes, os cineastas e produtores nativos eram unânimes em negar não só o filme mas, sobretudo, o diretor. Ensaios e livros são pródigos em elogiar os filmes do cinema novo, mas colocam uma pedra do silêncio em cima de Anselmo Duarte.

O texto é de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 10 de novembro de 2009.

O ator e diretor de cinema, Anselmo Duarte, faleceu no final de semana passado. Foi o único diretor de cinema brasileiro vencedor de Cannes até agora. Mas pelo que dizem os necrológios, isto talvez lhe tenha feito mais mal que bem na época, e, a partir de então, na vida e obra de Anselmo Duarte.

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quarta-feira, setembro 02, 2009

Noites de Junho, Noites de Outrora

Noites de junho, noites de outrora

JUNHO ACABOU e eu nem sofri com isso. Sei que em alguns lugares as festas ainda teimam em sobreviver, mais por vício de calendário e pesquisa mercadológica do que por necessidade.
Considero obscena a decoração que as lojas comerciais promovem em nome de uma tradição que não mais existe, as bandeirinhas de papel fino, os balões armados com arame e plástico, as fogueiras de mentirinha, movidas a ventilador. No adro de algumas igrejas, também há movimento, mas sem empolgação, o lucro das barraquinhas mudará as telhas quebradas dos templos, alguns deles aos pedaços.
Não sei como as coisas se passam em outros sítios. Aqui, no Rio, é uma calamidade. Os jardins de infância faturam por fora em nome dos santos juninos, e os pais são obrigados a gastar os tubos com fantasias caipiras que as crianças acabam vestindo sem entender e sem amar. Até o presidente da República bota na cabeça um chapéu de palha em frangalhos e convida os ministros para um quentão oficial geralmente substituído por um uísque de 12 anos.
Da antiga e bonita tradição das festas de Santo Antônio e São João não sobrou nada, apenas a referência no calendário e a advertência anual das autoridades a respeito de balões e fogos.
Pois foi por aí que a festa acabou. Reconheço os motivos que obrigaram o governo, em seus diferentes níveis, a proibir balões. Mas que diabo, na minha infância, o céu ficava "pintadinho de balão" -como lembra a marchinha junina de Assis Valente. As casas eram mais frágeis, mais espaçadas, havia matagais em abundância na paisagem e mesmo assim os incêndios eram poucos.
Que me lembre, nunca vi incêndio provocado por balão, embora meu pai, nos anos de minha infância, fosse famoso baloeiro entre os baloeiros mais famosos. Foi talvez a única arte em que se distinguiu -nas demais foi um desastre.
Os preparativos começavam no início de maio, resmas de papel fino sueco -era o melhor e o mais resistente, de cores mais cintilantes e duradouras. Os balões se amontoavam pelas salas e quartos, pendurados em varas, em ganchos, em cima dos armários, deles saía um cheiro da cola de farinha de trigo e do papel importado. Ali eles aguardavam a noite mágica em que subiriam ao céu.
Murchos, coloridos e disformes, pareciam monstruosas fantasias de palhaços, sem alma, sem chama, à espera do momento em que entrariam em cena, no imenso espaço da noite de junho.
Mas dia 13 (Santo Antonio) ou dia 24 (São João), eles se erguiam, iluminados, varando o espaço majestosamente, enquanto aqui embaixo ficávamos, ao redor da fogueira, olhando atônitos aquela beleza que subia, frágil e poderosa. Eram enormes os balões, e belos.
Lá distante, da sala onde funcionava a primeira radiovitrola que meu pai comprara na Casa Édison, provavelmente a prazo, vinha a marchinha de Assis Valente na voz de Carlos Galhardo: "Cai, cai balão / não deixa o vento te levar / quem sobe muito / cai depressa sem voar/ e a ventania / de tua queda vai zombar / cai, cai balão / não deixa o vento te levar".
Mas os ventos levavam os balões e eles sumiam na imensa enseada da noite. Mais um pouco e as fogueiras ficavam reduzidas a cinzas, onde se assavam batatas doces e roletes de cana. Enquanto isso, os balões ainda voavam pela madrugada, silenciosos, as buchas apagadas. Manuel Bandeira tem versos pungentes sobre os balões apagados das madrugadas, no poema que foi o primeiro que entendi e amei. ("Profundamente").
Vivi a mesma experiência: acordava no meio da noite e pensava em todos os que estavam dormindo, profundamente, e de repente um balão apagado passava em silêncio pela minha janela, vindo de longe, cansado, sem glória, cumprindo o seu destino de balão. Todos estavam dormindo, menos eu, vigiando o céu, esperando que um deles viesse a cair em nosso quintal. Alvoroçado, acordava o pai e íamos juntos e orgulhosos apanhar a dádiva que o céu nos mandara.
Pois é. As fogueiras acabaram mesmo. As noites de junho eram as mais frias do ano. E as festas também estão acabando. Mas não posso deixar de lembrar os balões que nunca me libertaram de seu legado de tristeza, mansidão e fragilidade.

Texto do Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 17 de julho de 2009.


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quarta-feira, agosto 19, 2009

A primeira pedra

A primeira pedra

NÃO PARECE : justamente agora, quando pensávamos em desafios da era moderna, ecologia, internet, conquista espacial, somos obrigados a viver e conviver com velhas palavras e usanças que julgávamos desativadas para sempre. Uma delas, que voltou ao cartaz com força total, é nepotismo. Em sua origem latina teria duplo sentido, pois tanto pode significar alguma coisa relativa a um neto ou a um sobrinho, enfim, a um descendente. Sem querer deitar uma erudição que não tenho, lembro um caso do mais deslavado nepotismo, também um dos mais escandalosos: foi o daquele papa (Pio 4º) que nomeou seu sobrinho para o Sacro Colégio, ou seja, fez um jovem, quase um menino, tornar-se cardeal.
Tratava-se do nosso doméstico São Carlos, padroeiro involuntário de uma antiga escola de samba e do morro homônimo aqui no Rio. No calendário religioso, é venerado como São Carlos Borromeu (alguns grafam Borromeo), por sinal, meu santo onomástico, embora não lhe tenha nenhuma devoção. Seu corpo está hoje na cripta do Duomo de Milão, cidade onde foi bispo e herói. Morreu de peste, tentando salvar as vítimas da epidemia que assolava a sua cidade.
O seu irmão Frederico foi importante personagem do romance italiano mais famoso, "I Promessi Sposi" (Os noivos) de Manzoni, uma espécie de Alexandre Dumas com menos imaginação e melhor estilo. Carlos foi canonizado, é santo de trânsito mundial e, pelo menos no que lhe toca e concerne, justificou em parte a escolha do tio. Foi realmente um exemplo de pastor que deu a vida por suas ovelhas.
Mesmo assim, a exceção não confirma a regra. Se o nepotismo fizesse santos por aí afora não seria, como é, uma das pragas dos governos autoritários e paternalistas. Justiça seja feita aos governos militares dos quais ficamos livres; houve muita corrupção, muita leviandade no trato dos cargos e dos dinheiros públicos, sobretudo muita violência e muita tortura, mas não houve, realmente, um caso escancarado de filho ou um sobrinho em evidência.
Evidente que, nos escalões inferiores, ser parente de um general contava ponto no funcionalismo da nação, que era a espinha dorsal do nosso mercado de trabalho.
Pelo que se saiba, ninguém chegou ao primeiro escalão pelo fato de ser filho ou sobrinho do principal governante. Já no finalzinho do regime, o último general de plantão (João Figueiredo) se empenhou pela nomeação de um irmão teatrólogo para cargo de segundo escalão no Rio de Janeiro, presidente da Funarj ou coisa assim.
Já comentei em crônica da página 2 a onda moralista que atacou a mídia e alguns setores da sociedade quanto ao nepotismo específico dos atuais senadores. Moralismo suspeito, que lembra, pela virulência, os piores momentos da velha UDN, cujos principais líderes berravam nas manchetes dos jornais: "Somos um povo decente governado por ladrões". No passado, Getúlio nomeara um Vargas para chefe de polícia -foi a gota d'água que o derrubou em 1945. Levando em conta a situação da época, foi dose.
Nos quadros funcionais de todas as casas do Legislativo, Senado, Câmara, Assembleias estaduais e Câmaras municipais, um exame superficial nas folhas de pagamento mostrará a concentração massiva de parentes dos senadores, deputados federais, estaduais, vereadores. Mesmo com a proibição legal, os representantes do povo em seus diferentes níveis colocam parentes na cota dos colegas.
Foi assim que uma filha de FHC parou no gabinete de um senador onde podia trabalhar em casa, alegando que o Senado é uma bagunça.
Um senador estreante declarou que já empregou mais de 5.000 pessoas em sua vida pública. Lula perguntou a Eduardo Suplicy se em 18 anos de Senado ele não sabia de nada. O próprio Lula, nos quatro anos em que foi deputado, usou as passagens aéreas a que teria direito para levar sindicalistas do ABC a Brasília. Na ocasião, seriam eles uma espécie de cabos eleitorais do futuro presidente da República.
Evidente que o abuso não justifica o uso. Mas a grita, as gravações da PF e o espaço da mídia dedicados ao pedido de um emprego para o namorado da neta de um senador me pareceram redundantes. Quando os fariseus de sempre quiseram apedrejar a pecadora, foram desafiados na base: quem nunca pecou atire a primeira pedra.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 31 de julho de 2009.

Copiei este texto no meu blog Ainda a Mosca Azul, porque ele é eminentemente uma crônica sobre os costumes políticos, mas gostei do comentário sobre a vida de São Carlos, por isso o copiei aqui também.

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quarta-feira, julho 29, 2009

Da necessidade dos truques

Da necessidade dos truques

DE UNS tempos para cá, tornou-se comum o camarada morrer e não saber. Evidente, os outros "sabem", menos o próprio, que em tese e na prática devia ser o principal interessado no assunto. Vai daí, de repente descobri que um dos meus truques é fazer justamente ao contrário do que ficou estabelecido pelos atos, posturas, leis, decretos e regulamentos em vigor.
Por isso, decidi que morri no dia 1º de dezembro de 1981. Pode ser que muita gente acredite que morri antes desta feliz data para a humanidade, mas, para efeito pessoal, eu mesmo me decretei morto a partir daquele radioso dia de final de ano, lembro que fazia um sol que o Nelson Rodrigues classificaria como digno de rachar catedrais.
Em linhas gerais, e para fins particulares, estou morto e alguns ainda não sabem: amigos, parentes, credores e candidatos à Academia Brasileira de Letras, que são muitos e têm faro especial para essas coisas.
Pode parecer truque macabro, de péssimo gosto, mas tem lá suas vantagens. Não recebi qualquer tipo de homenagem, dessas que comumente se prestam aos defuntos. Não provoquei nenhuma lágrima pela minha ausência, nenhuma prece pela minha alma (e de nada adiantarão as rezas pela minha salvação), não mereci a módica linha impressa no obituário das folhas.
Aparentemente, tudo continuou como antes, mas eu sei que estou morto. Não tenho mais nada a ver com o que aí está, a vida, o mundo, as mulheres, o inverno, onde enterraram Michael Jackson, a crise no Senado, a faina humana e inglória. Bem verdade que os estabelecimentos bancários não aceitam essa morte de moto próprio, embora aceitem a hipótese de eu me espatifar por aí dirigindo minha própria moto. Moto que por sinal não tenho, justamente para não morrer de moto próprio.
Qual a vantagem de ter um truque? "Quid prodest?" -perguntariam os latinos. Respondo: é uma sensação tranquila essa da gente se saber morto, clandestino morto, insuspeitado morto na tripulação do mundo. Não me sinto mais comprometido com nada -mas continuo como testemunha do espetáculo, não mais cúmplice nem vítima.
Enquanto vivi, evidente que vi eventos extraordinários que se transformaram em ordinários. Um deles foi me tornar cronista de jornal sendo obrigado a dizer coisas quase todos os dias e sem ter nada a dizer em meu interesse ou no interesse dos outros. Isso sem falar no remoto ano em que levei originais mal datilografados a um editor e ele me disse: "Eu topo!".
Bem verdade que então era ainda vivo mas suspeitava que a minha vida entrava na fase vegetativa.
Lembro um episódio da vida de Napoleão. Quando foi coroado na Notre Dame, tendo obrigado o papa a se deslocar para Paris a fim de presidir a solenidade, sua mãe Letícia ocupava um camarote ao lado do altar-mor.
Ela viu aquela pompa toda, aquele absurdo, seu obscuro rebento nascido na distante Ajácio sendo sagrado imperador do mundo.Virou-se para sua filha Paulina e comentou: "Se o pai de vocês visse isso!"
Carlo Buonaparte já havia morrido de fato, não teve vida bastante para assistir às estripulias do filho. Mas se visse?
Taí a chave do truque. Ao contrário do pai de Napoleão, continuo pagando imposto de renda e demais posturas federais, estaduais e municipais, vendo muita coisa interessante sem a obrigação de tomar partido, de gostar ou de desgostar, de sofrer ou de encontrar prazer com a desdita ou a glória dos outros.
Dessa forma, me aproximarei, concretamente, daquele personagem de Gorki que muito gosto de citar. Era um bêbado que falava demais ou ficava calado demais. Um dia explicou: "Eu me aborreço em voz alta e me distraio em silêncio".
Aliás, essa necessidade de ter um truque vem também de Gorki: um personagem que, ao se suicidar, deixou um bilhete para o colega de quarto, um vagabundo tão miserável quanto ele, explicando por que se matava: "Faltou-me um truque".
Sem truque, é difícil, quase impossível aguentar a barra da vida. Com meu truque, não só aguentarei a barra da vida -pesadíssima- como a barra da própria morte -com seu diáfano peso de nada.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 24 de julho de 2009.


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sexta-feira, julho 17, 2009

Velórios de vida e morte e uma ínfima lição de filosofia

Velórios de vida e morte

NUNCA FUI de curtir velórios. Na realidade, detesto ir a qualquer compromisso social: batizados, casamentos, aniversários, noites de autógrafos, estreias teatrais. Dos enterros, sobretudo, procuro conservar a máxima distância. Costumo romper relações sociais com os amigos que morrem, fico na saudade e fico bastante. Cerimônias festivas ou fúnebres, só mesmo quando não dá para arranjar uma desculpa posterior, ou quando sou apanhado em flagrante.
Acontece que esse horror aos enterros tem agora uma justificativa: é que a plebe está aproveitando a ocasião para fazer festanças. Não sei se foi sempre assim, mas a mania propagou-se e não poupa defunto, ilustre ou não. No enterro do Glauber Rocha, por exemplo, foram feitas e ditas tantas besteiras que por pouco o Glauber não se levantava e dava banana do caixão.
Aos poucos, os velórios estão ficando parecidos com noites de autógrafos, festivais disso ou daquilo, shows promocionais de lançamentos musicais, exposições de variadas artes. Tudo bem, espetáculo é espetáculo, o show deve continuar -dizem os entendidos. Para o velório de Michael Jackson, o mais recente em escala mundial, distribuíram (ou venderam) 17 mil ingressos, com direito a barraquinhas de pipoca e cachorro quente nas imediações. Até do Camboja veio equipe de tevê para gravar a cerimônia.
Muitas vezes o evento fúnebre é aproveitado para declarações de princípios, que muitas vezes não são os mesmos do falecido. Lembro o velório do Mário Pedrosa, um sujeito curioso, papa absoluto da nossa crítica de artes plásticas, que apesar dos 80 anos dava a impressão de ter quinze. Sua trajetória na cultura nacional foi marcada pela dignidade, pela paixão, pela pureza. A exaltação que colocava na política tornou-se até anedótica.
Sofreu exílios, prisões, mas foi em frente. Abriu clareiras em nosso feudo acadêmico e tal como Otto Maria Carpeaux, que ficou enjoado da literatura e nos últimos anos de vida só pensava em política, Mário Pedrosa chutou a arte para corner e meteu os peitos na participação política, que para ele era uma forma de viver superior à arte.
Mas nem Mário Pedrosa foi grande o bastante para que o pessoal ficasse calado em seu velório. O que houve de bobagem daria para encher uma biblioteca. Cito apenas o exemplo: um psiquiatra nativo (parece que nascido em Minas, mas era nativo assim mesmo) disse que havia aprendido com Mário que "não há socialismo sem liberdade nem liberdade sem socialismo".
Bem, não conheci a obra toda de Mário para conferir. De qualquer forma, creio que o psiquiatra se excedeu. A primeira parte de sua afirmação é válida. O socialismo tende à liberdade. Abolindo o lucro, ele estabelece uma relação entre a sociedade e o Estado, e entre os indivíduos entre si, desvinculada de qualquer interesse que não o social.
O lucro, no sistema capitalista, fatalmente gera compartimentos econômicos que transformam cada setor numa gaiola da qual só se sai pela droga, pelo roubo ou pela competição doentia, tornando-se selvagem.
Agora, quanto à segunda parte ("não há liberdade sem socialismo") a besteira é primária. Liberdade faz parte da "essentia" humana. O socialismo, como qualquer outro "ismo!", é "acidens". Ou seja, acidente.
Não estou aqui para ensinar lógica aristotélica de graça, mas confundir um valor essencial com um valor acidental é burrice que não pode ser atribuída nem ao Mário nem a ninguém. A liberdade não foi criada pelo ser humano, pela sociedade humana. Tal como a consciência, ela é um valor em si, uma categoria "apta inesse pluribus", ou se quiserem, universal.
Já o socialismo, como o tribalismo, o teosofismo, o catolicismo, o canibalismo, o fascismo, o filatelismo, o escotismo e o feminismo são bolações humanas, feitas pelo homem e para uma espécie de homem, são acidentais e incidentais. Algumas prestam, outras nem tanto e muitas são perniciosas. A liberdade é apenas como a vida e a morte. Um valor absoluto que se conquista durante a vida e em alguns casos só se ganha depois da morte.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 10 de julho de 2009.


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terça-feira, julho 14, 2009

Orgulho do Rio

Orgulho do Rio

GARANTEM AS folhas que é uma onda fria, vinda do Sul, de onde chegam todas as ondas frias, até aí, não há novidade.
Nunca se ouviu dizer que o frio veio do Ceará ou do Piauí. A novidade é que está fazendo um friozinho gostoso aqui no Rio e eu olho e curto a minha cidade de outro jeito. Nada de praia, com muita luz e confusão, sem o chope azedo que fede duas esquinas antes de cada tasca. Sobra um Rio quase civilizado, quase manso como um corno, sem a agressividade da luz e do calor, a urgência de aproveitar a vida.
Tão bom que faço o impossível: em pleno domingo, tiro o carro da garagem (fazia isso no tempo das minhas setters Mila e Titi) e saio sem destino, dando voltas pelas ruas que cruzo diariamente sem sabor e sem afeto. Sim, aí está a minha cidade, aqui nasci e vivo, se possível aqui morrerei e meu pó será diluído neste ar e neste chão.
Passo sem querer (ou talvez por querer demais) na rua onde nasci, tantos anos passados. Relembro que durante alguns anos trabalhava duas esquinas adiante. Vivi meio século para atravessar duas esquinas na vida -na verdade, sou um fracasso. Tive e tenho amigos que vieram de longe, de Sobral, de Manaus, de Kiev, de Viena -e eu aqui, chumbado neste chão tamoio que, segundo alguns saudosistas, já era.
Volta e meia entra em discussão a decadência do Rio, o esvaziamento cultural e artístico da cidade que foi capital do Brasil durante quase dois séculos. Brasília dá conta do recado, todo dia chega um escândalo de lá. São Paulo não é mais terra da garoa, é terra de enchentes. A Bahia -bem, e aí entra a moleza- a Bahia é a terra dos santos e orixás, mágica e mítica. Segundo Vinicius de Moraes, ali os baianos fazem a arte e o engenho de viver a verdade -conheço esses babados, Vinicius de Moraes acreditou neles pelo espaço de dois verões, mas veio morrer na sua terra, no Rio, que ninguém é de ferro, nem mesmo os baianos adotivos.
Tantas vezes li que o Rio estava falido em todos os setores, sobretudo no campo das letras e artes, que já assumira a postura e o orgulho do provinciano que fica à espera das novidades vindas dos grandes e inesperados centros.
Em compensação, por prazer ou por trabalho, é que viajo com frequência. O fato de ter nascido no Rio já torna o carioca mais ou menos aberto ao mundo, não por necessidade, mas por curiosidade. Sinto-me melhor em Roma ou Florença do que no calorão da avenida Chile, como melhor no Trastevere do que no Mercado Modelo da Bahia. Podem me xingar, mas sei o que sou fazendo e sentindo.
Voltemos ao Rio. Tão cantada e decantada a sua decadência, eis que reencontro, num fim de semana plúmbeo (sei que os baianos conhecem e apreciam esta palavra, aqui no Rio seria apedrejado se a proferisse) a doce verdade: o Rio procura renovar seus encantos -que já são muitos, mas não bastantes.
A revitalização da zona portuária e da Lapa provoca grandes expectativas. A contratação do Fred para o Fluminense e do Adriano para o Flamengo foi comparada à conquista das Gálias -ouvi isso numa das mesas de esporte que enchem os domingos em todos os sentidos. A Rede Globo continua exportando o sotaque e as mazelas do Sudeste para o resto do país e até para Portugal e países lusófonos -um descalabro que não conta com a minha benção, mas ainda não chegamos ao descalabro pior de importar o sotaque e as mazelas de Petrolina, Própria, Campina Grande ou Marília.
Para acontecer mesmo, para se tornar nacional, um fato ainda precisa repercutir aqui no Rio. O finado prefeito Marcos Tamoio dizia que o charme da cidade não vinha do Corcovado nem do Pão de Açúcar, vinha do próprio nome: Rio. Três letras apenas, que a gente lê nos aeroportos do mundo: Rio.
Fellini se apaixonou por Roma quando, menino, em sua cidade natal, Rimini, viu num vagão de trem a placa com o nome: Roma. Em tempos de orgulho gay, toda vez que vejo o nome da minha cidade, mesmo num ônibus que chega de não sei de onde, coberto de pó e fadiga, sinto um orgulho besta e sempre renovado de aqui ter nascido, o rio de minha vida e de minha saudade.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 3 de julho de 2009.

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quinta-feira, maio 28, 2009

O passado de cada um

O passado de cada um

RIO DE JANEIRO - Volta e meia, o passado do papa atual, o alemão Joseph Ratzinger, é mencionado na mídia como o de um ex-integrante da Juventude Hitlerista. Antes mesmo de se tornar Bento 16, o detalhe de sua biografia já era lembrado por aqueles que não apreciavam as suas posições conservadoras.
Em primeiro lugar, nem todo conservador é necessariamente nazista, nem mesmo de direita. Há esquerdistas militantes que são mais conservadores, reagindo com histeria a qualquer tentativa de alterar o status quo de sua linha ideológica.
Em segundo lugar, na Alemanha dos anos 30, os jovens eram compulsoriamente obrigados a se filiar em organizações do Estado manipuladas pelo partido único, que era o nazista. Não significava uma adesão da juventude à política dominante. Artistas e intelectuais importantes, que nada tinham com o nazismo, eram obrigados a ter a carteirinha do partido para exercerem suas atividades, casos de Herbert Von Karajan e de Martin Heiddeger, para citar apenas dois exemplos notórios.
Na Itália de Mussolini, no mesmo período, os jovens em fase escolar eram forçados a se transformarem em "balillas", vestiam uniformes e participavam dos rituais. Fellini, de Sicca, Monicelli, Mastroianni, Rosselini, Pasolini (este último era comunista de carteirinha) foram "balillas" não por opção pessoal, mas por imposição do Estado fascista.
Na recente visita que o papa fez a Israel, o fato foi novamente lembrado por alguns líderes israelenses. Um recurso vulgar para desqualificar a mensagem de paz que Bento 16 foi levar a dois povos em conflito.

PS - Como era de praxe no desfile dos antigos blocos carnavalescos, o cronista saúda as autoridades, os rapazes da imprensa e o povo em geral, pedindo passagem para sair de férias.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 14 de maio de 2009.

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sexta-feira, abril 03, 2009

O Estado laico

O Estado laico

RIO DE JANEIRO - Ainda a propósito da excomunhão dos médicos que praticaram aborto legal numa menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto, uma das besteiras mais divulgadas por comentaristas de diversos feitios e tamanhos é a de que o Estado é leigo. Sim, é leigo desde a Proclamação da República, mas se comprometeu, em todas as Constituições republicanas, a respeitar a liberdade de crença e de culto.
Como o candomblé, as muitas seitas espíritas e os diversos ramos do protestantismo, incluindo a proliferação dos ritos evangélicos, o catolicismo romano tem uma visão do homem e da sociedade apoiada nos textos bíblicos, na literatura patrística e no próprio (e acidentado) percurso na história do ocidente ao longo de 2.000 anos
Uma excomunhão, como já lembrei aqui, na crônica "Comunhão e excomunhão", só diz respeito ao católico romano praticante, que aceita livremente o núcleo de uma doutrina que frequentemente discorda e até mesmo agride o estágio da ciência e da moral de determinadas épocas.
Entre outras asneiras, li que o arcebispo de Recife condenou ao inferno a vítima do estupro. Nem o papa tem poder de condenar quem quer que seja ao inferno. É uma atribuição de Deus que nem sempre acompanha o juízo de nenhum dos cultos existentes em seu nome.
Como agnóstico militante, mas formado em um contexto cristão e católico, compreendo -mas não chego a justificar- o ato daquele arcebispo.
Fazendo reportagem sobre o candomblé da Bahia, assessorado por Jorge Amado, fui impedido de entrar num recinto dedicado a Oxalá. Teria de me submeter a ritos complicados, a descargas que me tornassem digno de penetrar em sítio tão sagrado. Não me senti prejudicado no meu direito de ir e vir que o Estado leigo me garante.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 24 de março de 2009.

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sexta-feira, janeiro 30, 2009

O Dia do Holocausto

O dia do Holocausto

RIO DE JANEIRO - Na última terça-feira, e por decisão da ONU, foi comemorado o Dia do Holocausto, uma celebração que toca a fundo não apenas aos judeus, vítimas da barbárie, mas a toda a humanidade. Há extensa literatura sobre o assunto, depoimentos de vítimas, algumas ainda sobreviventes. Conheci pelo menos umas cinco ou seis pessoas que ainda trazem no braço a marca dos campos de concentração.
Há fotos e filmes suficientes, além de documentos oficiais do regime nazista, que comprovam a insanidade da tentativa de exterminar os judeus da face da Terra. E há, sobretudo, o livro que Hitler escreveu na prisão, antes de tomar o poder e depois do fracassado "putsch" na cervejaria em Munique.
Neste livro, com brutal sinceridade, o autor anuncia tudo o que faria se chegasse ao poder. No varejo diplomático, Hitler mentia muito, mas o núcleo de seu pensamento (e de sua personalidade) está explícito sem subterfúgios naquilo que ele chamou de "Minha Luta". O ódio ao judeu é exposto em quase todas as páginas. Em sua demência racial, ele tinha um nojo físico por aqueles que não eram arianos.
No caso dos judeus, havia ainda o ressentimento econômico e cultural, que mais tarde desembocaria na "solução final" -o genocídio compacto e sistemático de milhões de seres humanos. Recorrentemente aparecem movimentos que negam o Holocausto. O último deles foi o de um bispo da igreja anterior a do Concílio Vaticano 2º, que, não se sabe como, afirmou que os mortos do extermínio em massa não foram seis milhões de judeus, mas "apenas" 300 mil. É evidente que números redondos podem ser contestados, mas há registros fidedignos que chegam a 5.933.000 vítimas em diversos países dominados pelo nazismo. Foi a pior mancha na história da humanidade.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 29 de janeiro de 2009.


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segunda-feira, dezembro 29, 2008

Machado: Antes que o ano acabe

Antes que o ano acabe

RIO DE JANEIRO - O ano dedicado ao centenário da morte de Machado de Assis está chegando ao fim e até agora pouco ou nada me manifestei a respeito. Colegas da ABL, embora cordialmente, criticam-me pelo fato de não ter engrossado a onda que se formou para louvar o autor de "Quincas Borba", que é o meu romance preferido, não apenas na obra do mestre mas em toda a literatura nacional. Gosto não se discute -diz o vulgo.
Tirante um longo texto que escrevi para a edição comemorativa do Instituto Moreira Salles ("Cadernos da Literatura Brasileira", nº 23/ 24), nada fiz para louvar o mestre. Pelo contrário, dei algumas entrevistas declarando que Lima Barreto, como romancista, era superior a Machado, embora Machado seja, de longe, o nosso maior escritor.
Na maioria das matérias sobre "Dom Casmurro", que ficou sendo a principal referência machadiana, cansei de ouvir teorias sobre o adultério de Capitu e a repetição infindável de seus "olhos oblíquos e dissimulados".
O curioso é que a descrição do olhar da menina Capitu não é de Bentinho, seu namorado e mais tarde marido. É do agregado José Dias, um paspalhão esboçado pelo próprio Bentinho, que seria incapaz de observação tão sutil. É evidente que, depois de atribuir ao personagem mais ridículo da história a mais famosa definição de um olhar na literatura universal, o próprio Bentinho dela se apossa, acrescentando que os olhos de Capitu eram de ressaca.
Li não sei onde que o primeiro título que Machado daria ao romance seria "A Ressaca". No primeiro capítulo, Bentinho promete que durante a narrativa, se arranjasse título melhor, ele desistiria do "Dom Casmurro". Terminou mantendo-o, preferindo definir o personagem que conduz a ação, e não o pormenor que criou o drama principal.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 27 de novembro de 2008.

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quarta-feira, outubro 29, 2008

O fim do livro impresso

O fim do livro impresso

VENHO DE alguns dias em Lisboa, onde mal informados de lá me colocaram no júri que avaliou os originais concorrentes ao primeiro Prêmio LeYa -novo grupo editorial que destinou cem mil euros ao vencedor. O regulamento estabelecia que seriam julgadas somente obras inéditas, embora os autores pudessem ter publicados outros textos no mesmo gênero literário. O sigilo foi absoluto, somente após a decisão dos julgadores seria aberto o envelope com o nome do vencedor. Até então, todo o material do concurso correria com um pseudônimo. Um sistema bastante usual, levado a sério, sem tramóias ou pressões, funciona com a isenção desejada para este tipo de avaliação.
O prêmio tinha caráter internacional, abrangia Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Timor Leste. E o júri também o era, com representantes de países lusófonos, sob a presidência do escritor Manuel Alegre, poeta, romancista, vice-presidente do Congresso e ex-candidato à presidência da República.
Foi impressionante o número de concorrentes: 422. Numa época em que se discute o funeral do romance e o fim do livro impresso, a vitalidade do gênero, pelo menos em língua portuguesa, continua em alta. Oito originais foram selecionados pela própria editora e submetidos a um júri em que havia apenas um gato pingado que era eu próprio.
Predominaram brasileiros nas duas fases do prêmio. Dos oito finalistas, somente um era português. E por seis a um, ganhou um mineiro de 60 anos, Murilo Antônio de Carvalho, com um longo e bem elaborado romance, "O Rastro do Jaguar". Ao comunicarmos a vitória, ele custou a entender do que se tratava, estava numa canoa, perdido num rio da Amazônia, a três dias de distância do povoado mais próximo. Informou que havia escrito o livro havia tempo, soube do concurso pela imprensa e mandara o original para ver no que podia dar. E deu.
Bem, esta seria a notícia em si, mas ela exige um comentário de minha parte. Continua-se escrevendo -ou, como dizem os portugueses, continua-se "a escrever". Por isso ou aquilo, há dentro de cada ser humano um escritor potencial, ou seja, uma pessoa que tem o gosto ou a necessidade de transmitir aos outros a sua visão de mundo ou a sua história. Com o advento da comunicação eletrônica, nunca antes -como diria Lula- tanta gente está escrevendo na telinha dos computadores.
Não posso falar pelos outros, mas o meu caso não foi nem gosto nem a necessidade. Foi o instinto de sobrevivência não na posteridade mas na minha própria atualidade. Fui mudo até os cincos anos e quando comecei a falar, falava tudo errado, trocando letras e pronúncias. Já contei esta história por aí: fui falar que uma vizinha gostava de cozinhar e em vez de "fogão" disse "fodão".
Para evitar vexames, refugiei-me na escrita até que minha mãe me avisou que enquanto eu não aprendesse a dizer "lingüiça", ela jamais faria meu prato então predileto. Eu dizia "lintiça". Para ser devidamente abastecido, passei a escrever bilhetes para ela, fui talvez o primeiro cara do mundo que usou a porta de uma primitiva geladeira para deixar um aviso doméstico. Escrevia lingüiça corretamente, sem o trema que está para ser abolido pelo novo acordo ortográfico. Eu não sabia que estava à frente do meu tempo, embora atrasado no tempo dos outros.
Voltando ao Prêmio LeYa: o anúncio oficial foi feito na Feira de Frankfurt, semana passada. Na mesma feira onde editores de todo o mundo perceberam o ocaso do livro impresso, guttemberguiano, substituído pelos livros eletrônicos que começam a tomar conta do mercado cultural.
Homem terminal, escritor terminal, não estou muito preocupado com isso. Faço parte de uma cultura também terminal. Mesmo assim, se fosse avisado a tempo, talvez tivesse mandado o 423º original para Lisboa. Alegando minha suspeição, me dispensaria de atravessar o Atlântico, ida e volta, para avaliar os originais dos outros.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 24 de outubro de 2008.

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sexta-feira, junho 27, 2008

Histórias de plágio

Histórias de plágio

RIO DE JANEIRO - Ainda não me dei ao respeito de ler a biografia do Paulo Coelho escrita pelo sempre competente Fernando Morais. Amigos que a leram me informam, alarmados, que o mago, em início de carreira, plagiou uma crônica minha para se habilitar ao emprego num jornal do Nordeste. Nada tenho contra. Lamento apenas a falta de gosto ou de informação do Paulo. Bem que poderia ter escolhido autor mais importante.
Sou amigo dos dois, do biógrafo e do biografado. Lerei o livro com a unção que eles merecem. Quanto ao plágio, se verdadeiro for, é um acidente de percurso na carreira dele e na minha. Nada grave que dê para me chatear.
Chato mesmo é ler na internet textos meus assinados por outros. E, pior ainda, é ler textos de outros assinados por mim. Tive há tempos uma experiência que me chateou. Estava em Paris, cobrindo a Copa do Mundo de 98, quando soube que um colunista aqui do Rio assinara duas crônicas minhas como suas. Descoberto o plágio, não por mim, mas pela Folha, o jornalista foi demitido do "JB", certamente por um motivo justo: deveria ter escolhido um autor mais ilustre para copiar.
Mesmo assim -como disse- fiquei chateado por causa da demissão do colega. Quando tomei conhecimento do fato, a nossa seleção enfrentava um compromisso fora de Paris, acho que em Nantes ou em Marselha. Eu estava sem condições de interferir junto à direção do "JB" no sentido de impedir a dispensa do seu profissional.
Lembro agora que o Fernando Morais me telefonou, há tempos, perguntando se sabia do plágio do Paulo Coelho. Lógico que não sabia. E, mesmo se soubesse, dava-lhe a minha bênção e aprovação. Gosto dele, é um gentleman, o sucesso internacional não o modificou, é um garoto que muito sofreu e ainda acredita no maravilhoso.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 19 de junho de 2008.

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terça-feira, maio 13, 2008

Cascas de Banana

Cascas de banana

RIO DE JANEIRO - A vida é complicada mesmo. Ninguém precisa seguir o lema do finado Chacrinha, a quem se atribui a frase "eu não vim para explicar, vim para complicar", ou "confundir", o que dá na mesma. A vida se confunde e complica por si mesma, sem necessidade de apelos e palavras de ordem.
Guimarães Rosa, tal como o Abelardo Barbosa, que gostava de afirmações definitivas, dizia que "viver é muito perigoso". Com o devido respeito ao criador de "Sagarana", e igualmente ao homem da Buzina, prefiro a complicação ao perigo do Rosa e à confusão do Chacrinha.
Podia dar exemplos sobre a complicação humana, exemplos atuais -o tarado austríaco, os travestis do Ronaldo. Mas prefiro contar a história daquele eremita que se retirou da vida profana e passou a viver junto a um pequeno rio. Comia todos os dias uma banana e jogava a casca no rio. Num momento de fraqueza, em sua prece matutina, reclamou do Senhor da vida que levava, comendo banana todos os dias.
Após muito meditar e invocar santo Antão, padroeiro dos eremitas, tomou a decisão que lhe aparecia como a melhor. Resolveu mudar de lugar, seguindo sempre o curso do mesmo rio, até que encontrou, quilômetros à frente, um outro eremita, que comia todos os dias as cascas de banana que ele jogava fora. Não se tratava de um campeonato para ver quem era mais asceta do que o outro. De alguma forma, os dois se bastavam com o que tinham: o primeiro com a banana, o segundo com as cascas da banana.
O encontro trouxe uma complicação inesperada para os dois eremitas que haviam decidido levar uma vida sem complicações.
Voltaram à cidade e encararam a vida com mais humildade, fazendo parte da complicação geral, ampliando-a com uma quitanda, onde vendiam bananas sem casca e cascas sem banana.

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 6 de maio de 2008.

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sábado, maio 10, 2008

Mudanças Radicais

Mudanças radicais

RIO DE JANEIRO - Muita gente não sabe -nem precisa saber-, mas, nos primeiros tempos da Revolução de 30, que acabou com a República Velha e iniciou a nova, foi publicado no "Diário Oficial"" um decreto cuja transcendência revelou o ânimo revolucionário daquele movimento.
Por ato do chefe do governo então provisório, que provisoriamente ficaria no poder por 15 anos, o nome da Escola Naval de Guerra foi mudado para Escola de Guerra Naval.
Depois de 30, tivemos outras tentativas de revolução, inclusive a de 1964, que mudou o nome do próprio país. Éramos então os Estados Unidos do Brasil, e passamos a ser República Federativa do Brasil. Ignoro se a mudança do nome alterou alguma coisa no desempenho nacional, mas, para mim, pessoalmente, valeu uma crise profissional que me obrigou a pedir demissão do jornal em que trabalhava.
Deu-se que os comandos militares anunciavam um novo ato institucional, que seria o segundo da série, até chegar ao quinto, em dezembro de 1968. Havia muita especulação sobre o seu conteúdo, e eu tive a péssima idéia de imaginar como seria o novo instrumento legal que nos regeria dali por diante. Em seu artigo primeiro, declarei que "Os Estados Unidos do Brasil, a partir desta data, será o Brasil dos Estados Unidos".
Bem ou mal, eu estava no clima revolucionário que dominava a nação. Mudando nomes, muda-se alguma coisa. Lembro um esplêndido bife que comi, certa vez, num restaurante suspeito de Paris, freqüentado por aquilo que o dono chamava de "damas da noite". Teria efeitos afrodisíacos e tinha o nome de "Filé ao molho Pompadour".
Anos depois, fui convidado a cear num convento perto de Perúgia. Ali as freiras me serviram o mesmo bife, mas com o nome de "Filé ao molho Santa Terezinha".

Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 24 de abril de 2008 (para assinantes).

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