segunda-feira, dezembro 13, 2010

Tragédia silenciosa (sobre suicídio no Brasil)


Tragédia silenciosa 
NEURY JOSÉ BOTEGA

Diariamente, 25 pessoas põem fim a suas vidas no Brasil. Foram 9.090 suicídios oficialmente registrados em 2008. Para cada óbito, no mínimo cinco ou seis pessoas próximas ao falecido foram profundamente afetadas. O impacto do suicídio na vida das pessoas e da nação é silenciado pela sociedade.
Nos meios de comunicação há orientação, discutível quando adotada em termos absolutos, de não se noticiar suicídio. Silencioso, ele resta à margem das tragédias nacionais. Mas é possível evitar uma parcela dessas mortes.
Numa escala mundial, nosso coeficiente de mortalidade por suicídio é relativamente baixo: 5,4 mortes em cada 100 mil habitantes, ao longo de um ano. Esse índice cresceu 30% nos últimos 25 anos.
O coeficiente é uma média nacional e esconde importantes contrastes. Em algumas cidades, os índices equiparam-se aos de países do Leste Europeu. Ademais, como somos um país populoso, atingimos o décimo lugar mundial em número total de suicídios, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
No espectro do comportamento autoagressivo, o suicídio é a ponta de um iceberg. Estima-se que o número de tentativas supere o de mortes em pelo menos dez vezes. Um inquérito populacional elaborado pela OMS e levado a cabo por pesquisadores da Unicamp apurou que, em cada cem habitantes da cidade de Campinas, 17 já haviam pensado seriamente em pôr fim à vida e três efetivamente tentaram o suicídio.
A causa de um suicídio é invariavelmente mais complexa do que um acontecimento recente que salta à vista e que é tomado como explicação rápida para o ocorrido.
A perda do emprego ou o rompimento de um relacionamento amoroso geralmente são os fatores precipitantes. Na maioria das vezes, pessoas que põem fim à vida sofrem de um transtorno mental subjacente (fator predisponente) que aumenta a vulnerabilidade para o suicídio. Depressão e dependência de álcool são os mais frequentes.
Recentemente, nossa sociedade vem-se abrindo para discutir o tema-tabu. O suicídio passou a ser enfrentado na arena da saúde pública. Um exemplo disso é a parceria firmada entre a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e a Rede Globo, a partir da qual inserções de 30 segundos entram na programação da televisão.
Há, hoje, considerável informação a respeito do que, em vários países, deu certo em prevenção.
Exemplo recente foi um estudo realizado em serviços médicos de vários países, entre os quais o Hospital de Clínicas da Unicamp, que acompanhou, desde o atendimento em um pronto-socorro, 1.867 pessoas que tentaram o suicídio.
Metade delas, após sorteio, foi acompanhada por meio de telefonemas periódicos. Após 18 meses, o número de suicídios nesse grupo foi, comparativamente, dez vezes menor. Com os telefonemas, a tentativa de suicídio deixou, assim, de ser um pedaço de história a ser esquecido ou silenciado.
Em agosto de 2006, o Ministério da Saúde publicou as diretrizes que orientariam um Plano Nacional de Prevenção do Suicídio. O plano ainda não saiu. É preciso transformar as diretrizes em ações assistenciais baseadas em evidências científicas, as quais, por sua vez, poderão orientar novas políticas de prevenção e estratégias de atendimento.
Na área da saúde, isso constitui um desejado círculo virtuoso entre política, assistência e pesquisa, que não é simples de ser alcançado.


NEURY JOSÉ BOTEGA é professor titular do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), representante nacional na Associação Internacional de Prevenção do Suicídio e coordenador da Comissão de Prevenção de Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria.

E-mail: botega@fcm.unicamp.br .

Marcadores: , , ,

quarta-feira, outubro 27, 2010

De repente, a morte - Romeu Tuma, Nestor Kirchner

Nestes últimos dois dias fomos surpreendidos pela morte de dois personagens ilustres.

Ontem faleceu o senador e ex-delegado Romeu Tuma. No caso de Tuma, a morte não chega tão repentinamente assim. O senador estava internado faz algum tempo, e um portal de notícias havia divulgado sua morte tempos atrás numa barriga que não chegou a ser desmentida com o mesmo destaque da então falsa notícia de morte. O senador tinha 79 anos, e se notabilizou por ser chefe do Dops de São Paulo, no final da década de 1970, o que lançou uma certa sombra de dúvida sobre o senador nestes últimos dias. Também desempenhou o cargo de chefe da Polícia Federal no governo Sarney, e de secretário da Receita Federal. Exercia o mandato de senador desde 1994.

Mais do que o falecimento do senador Romeu Tuma, foi a notícia hoje, no final da manhã do falecimento do ex-presidente argentino, e atual secretário da Unasul, Nestor Kirchner. Kirchner foi o presidente que veio restabelecer certo equilíbrio sobre a Argentina, após o caos que se abateu sobre o país vizinho após o governo Menem. De La Rua foi eleito, mas renunciou diante de grave crise econômica decorrente da conversibilidade peso-dólar que vigorara no governo anterior. Em seguida, três presidentes se sucederam rapidamente tentando achar uma solução. A coisa mais próxima de uma solução no caso da Argentina acabou por ser a eleição de Kirchner em 2003. Kirchner acabou por renegociar uma dívida externa, que até hoje é contestada por alguns credores. E sua esposa, Cristina Fernandez, acabou por sucedê-lo. Após passar mal, foi levado ao hospital, onde veio a falecer, em El Calafate, no sul da Argentina. A notícia do IG, dá contas de lamentações por parte de praticamente todos os dirigentes dos países da América do Sul.


Marcadores: , , , , ,

quarta-feira, outubro 13, 2010

Tropa de Elite 2 - Avaliação preliminar e sumária

No final de semana fui assistir o filme Tropa de Elite 2 no cinema.

Posso dizer que o filme é tão bom quanto o primeiro, isto é, quem gostou do primeiro filme, Tropa de Elite, de 2007, tende a gostar deste igualmente.

É um filme tenso. Quando saí da sessão percebi que estava com as mãos geladas, um sintoma meu de bastante tensão.

Contudo, penso que o diretor José Padilha começou a ficar ambicioso demais.

E, como ouvi outra pessoa, falar, é bem possível que em breve venhamos a assistir Tropa de Elite 3 nos cinemas.

Por enquanto era isso, espero ter condições de um comentário mais elaborado em breve.


Marcadores: , , , , ,

quarta-feira, setembro 22, 2010

Dia Mundial sem Carro

Hoje, 22 de setembro, é para ser chamado de “dia mundial sem carro”.

Aqui em Porto Alegre não pude notar. Parecia que havia tantos carros quanto qualquer outro dia, ou até mais.

Talvez eu tenha tido esta impressão porque o trânsito sofreu alguns gargalos por conta de manutenções no Largo da Rodoviária, e instalação de uma nova sinaleira na Avenida Farrapos. Ou talvez houvesse mais carros na rua mesmo. Ou as duas coisas.

Uma coisa me parece certa, o tal do dia sem carro, para usar um chavão comum, “não pegou”. Pelo menos, até agora. Pelo menos, em Porto Alegre.


Marcadores: , , ,

quarta-feira, julho 21, 2010

A Companhia Aérea Gol e a Copa do Mundo

BALANÇO

E, nos dias em que a seleção brasileira jogou na Copa, em junho, a Gol chegou a cancelar 300 dos 800 voos diários que mantém no Brasil. Algumas aeronaves chegaram a ficar completamente vazias, sem nenhum passageiro para embarcar.

Informação da coluna da Mônica Bérgamo, na Folha de São Paulo, de 16 de julho de 2010.


Marcadores: ,

segunda-feira, julho 05, 2010

E por falar em Copa do Mundo...

E por falar em Copa do Mundo...


O Brasil foi desclassificado sexta-feira passada, ao ser derrotado pelos Países Baixos, por 2 a 1. Pelo que pude perceber choveram críticas pela grande mídia e pela Internet, contra a seleção brasileira e seu técnico, Dunga. Compreensível a choradeira. Quando Dunga divulgou a sua lista de convocados, as principais reclamações eram as ausências de Ronaldinho, atualmente no Milan, e de Neymar e Ganso, jovens atacantes do Santos. Difícil dizer se qualquer um desses em campo mudaria o resultado acontecido na sexta-feira. Eu duvido (embora isso também não queira dizer nada, pois sobre o que poderia ter acontecido se pode dizer qualquer coisa). Após o jogo contra os Países Baixos, eu continuo dizendo o que eu dizia no início da Copa do Mundo. A seleção brasileira sob o comando de Dunga é isso aí. É o que tem sido a seleção sob o comando de Dunga desde que ele assumiu. A seleção ganhou a Copa América, a Copa das Confederações, e chegou em primeiro lugar nas Eliminatórias, jogando daquele jeito, meio burocrático, com uma jogada bonita ou outra, mas estas jogadas bonitas são raras. E no primeiro tempo contra os Países Baixos, parecia que o Brasil ia vencer com facilidade o jogo. Um gol anulado com razão (mas passível de ser validado), um gol de Robinho, um pênalti não marcado em Kaká, um chute de Kaká para uma defesa salvadora do goleiro neerlandês... Fomos para o intervalo achando que, a se manterem as mesmas condições, estaríamos na semi-final. Infelizmente parece que o time entrou desconcentrado no segundo tempo. Junte-se a isso um raro lance de falha do goleiro Júlio César, e o destempero do Felipe Melo, e a seleção brasileira voltou para casa antes do que gostaríamos. E aí dê-lhe xingar Dunga, Felipe Melo e outros menos cotados. Faz parte. Em 1982 se reclamava do Telê, que “não tinha pontas”, por exemplo. Mas hoje muita gente fala com saudosismo do “futebol arte” daquele time, que acabou desclassificado pela Itália (que, por sinal, acabou campeã naquele ano depois de um início cambaleante). Bom, eu, como muita gente, desconfiava muito de uma seleção que começasse com Valdir Perez no gol. Acho que essa seleção de 2010 mostrou futebol superior, por exemplo, àquele time campeão de 1994. Infelizmente o time de 2010 perdeu nas quartas-de-final. Faz parte.


A Argentina levou quatro gols da Alemanha no mesmo dia, e também voltou para casa mais cedo que gostaria. Mas quem viu o jogo, pôde ver um jogo relativamente equilibrado até os 20 minutos do segundo tempo, quando a Alemanha fez o segundo gol. Aí sim a Argentina se desmanchou. Mas até então, bem poderia ter feito um gol e a partida poderia ser bem outra. Sim, a Alemanha era (é) um time mais organizado, com mais força defensiva, e jogo coletivo, mas em futebol isso não seria totalmente suficiente para uma vitória. Mas a Alemanha ganhou. Vai agora enfrentar a Espanha na semi-final. Uma reedição da final da Eurocopa de 2008. Vencida então pela Espanha.


Meu palpite sobre o final da Copa do Mundo seria uma final entre Países Baixos e Alemanha. E, nesse caso, acho que a Alemanha é favorita para ganhar seu quarto título. Mas futebol, como dizem alguns, “é uma caixinha de surpresas”. E minha simpatia está com o Uruguai, último sul americano remanescente, que irá enfrentar justamente os Países Baixos que desclassificou o Brasil.


A conferir. Semi-finais a partir de amanhã, e finalíssima no domingo.


Marcadores: , , ,

quarta-feira, junho 16, 2010

Copa do Mundo: Kaká contra a Coréia do Norte

“E o Kaká não tá 100%. Porque 10% vai pra bispa Sônia.”


José Simão, o Macaco Simão, na Folha de São Paulo, comentando a atuação do meia da seleção brasileira. Faz sentido...



Atualização: Kaká 90%

“E o Kaká nunca vai ficar 100%. Porque 10% sempre vai pra bispa Sônia. No máximo, o Kaká vai ficar 90%! O futebol do Kaká tem que Renascer! Rarará!”

Novamente o José Simão, na Folha de São Paulo, agora na edição de 18/06/2010.

Marcadores: , , ,

terça-feira, junho 15, 2010

Copa do Mundo 2010 (I)


Quinta-feira passada, dia 10, foi a cerimônia de abertura da Copa do Mundo de Futebol de 2010, que se realiza na África do Sul.
Uma série de jogos já aconteceu.
Hoje é o primeiro jogo da seleção brasileira.
Brasil x Coréia do Norte.
Vejamos...


Atualização: Brasil 2 x 1 Coréia do Norte.

Marcadores: , , ,

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Machado, Euclides, Nabuco

Três gigantes

RIO DE JANEIRO - Não é nada, não é nada, é quase um tudo. Tivemos no ano passado o centenário de Machado de Assis, que foi comemorado "ad nauseam". Mesmo assim muita coisa ficou sem ser dita a respeito de um homem que foi e continua sendo um caso no panorama cultural brasileiro.
Neste ano, temos Euclides da Cunha, outro caso que dá o que pensar sobre a importância de personalidades dentro e acima de qualquer história. Embrião de Guimarães Rosa e Glauber Rocha, marcado pela tragédia e pelo quixotismo, que o fez quebrar a espada de oficial numa cerimônia militar, Euclides está sendo pensado e repensado como um dos pais fundadores de nossa civilização.
Finalmente, temos Joaquim Nabuco, cujo centenário, no ano que vem, já está sendo planejado pela Academia Brasileira de Letras, que, por sinal, lhe deve muito de sua fundação. Curiosamente, os três gigantes de nossa paisagem cultural estiveram juntos na mesma academia. Foram além de simples escritores, interessados na forma e no encanto das palavras. Pensaram grande sobre a condição humana, sobre o homem brasileiro, sobre a nação da qual permanecem como intérpretes principais.
Machado, Euclides e Nabuco são momentos da história do Brasil, cada qual em seu setor, mas juntos pelo amor ao ofício do pensamento e das letras. Neste particular, Euclides foi o mais exagerado, subordinando muitas vezes o pensamento à perfeição da forma. Ao publicar a segunda edição de "Os Sertões", ele apertou ao máximo o limite de sua linguagem. Não mexeu no conteúdo, mexeu apenas na forma.
Hoje, como é natural em tempos de dúvida e de incertezas, quando cada acadêmico da ABL reavalia a sua presença naquela instituição, se absolve em foro íntimo por estar na casa que foi de Machado, Euclides e Nabuco.

Texto de Carlos Heitor Cony, de 18 de agosto de 2009.


Marcadores: , ,

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Peças históricas confirmam povoamento antes da fundação de São Vicente

Peças históricas confirmam povoamento antes da fundação de São Vicente

Prefeitura e arqueólogos encontraram objetos que datam de 1516.
Primeira vila do Brasil foi fundada na cidade em 1532.

Juliana Cardilli Do G1, em São Paulo


A Prefeitura de São Vicente, no Litoral Sul de São Paulo, descobriu por meio de escavações no Centro da cidade construções e objetos arqueológicos datados entre 1516 e 1520, comprovando o povoamento do local antes da fundação oficial da primeira vila do país, em 1532. Os trabalhos começaram em setembro, e foram finalizados no fim de novembro. De acordo com a prefeitura, o sítio será aberto para a visitação do público, dentro da Casa Martim Afonso de Sousa, entre janeiro e fevereiro de 2010.

As escavações foram feitas no entorno de uma parede histórica que já estava parte à mostra no local. A base desta parede estava coberta, e a prefeitura fez um convênio com o Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas para fazer uma limpeza no local e encontrar a base.

“Já sabíamos que a parede era antiga, mas achamos ainda mais coisas. Encontramos um sambaqui, ocupação que data de 3 mil anos atrás, cerâmicas da cultura tupi acima deles e acima destas cerâmicas havia louças, objetos de ferro, vidro e bronze, utilitários usados no processo colonial”, explicou o arqueólogo Manoel Gonzalez, que participou dos trabalhos.

A base da parede e os objetos do período colonial foram datados como sendo de antes da fundação da cidade. O que não é uma novidade para os historiadores. “A história de que havia construções nesse local antes da chegada de Martim Afonso [um dos fundadores da vila] é muito antiga. Aparece em um texto de 1530 de Alonso de Santa Cruz, falando de dez a 12 casas de portugueses e uma construção para se proteger dos ataques dos índios”, explicou o historiador Marcos Braga, da Secretaria de Cultura de São Vicente.

A descoberta, entretanto, comprova pela primeira vez com material concreto essa informação. De acordo com o arqueólogo Gonzáles, a datação dos objetos históricos foi feita por meio de termoluminescência, técnica mais recente que usa raios luminosos para determinar a data do material.

No total, foram retiradas do sítio 883 peças arqueológicas, que serão expostas na Casa Martim Afonso de Sousa. Outros materiais foram deixados como parte do contexto do sítio, que será aberto para a visitação do público no início do próximo ano.

“A gente já sabia que a parte da parede que estava evidenciada não era de uma simples casa, mas de uma edificação maior. Agora, temos a confirmação do que já havia nos textos históricos, a confirmação da importância do local”, afirmou Braga. “Ainda devemos achar mais material no local. Esse é apenas o início do processo.”

Notícia do G1.

Marcadores: ,

segunda-feira, novembro 23, 2009

Desastre anunciado em Iguape

Desastre anunciado em Iguape

O desabamento da cobertura do Sobrado dos Toledos, na cidade, não é fruto de descaso iguapense; poderia ocorrer em qualquer outra localidade brasileira

CARLOS A. C. LEMOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Nossa sociedade vista como um todo, englobando ricos e pobres, letrados e analfabetos, escuros e branquelas, "quatrocentões" e imigrantes recentes, certamente não pode ter uma única e generalizada acepção do que seja um bem cultural arquitetônico nacional. Sobretudo se ele foi apenas escolhido pelos órgãos oficiais de preservação de nosso dito Patrimônio Histórico e Artístico.
A razão disso está no multifacetado universo mental da população que não se comove com as seleções perpetradas por pessoas categorizadas chamadas pelos governantes para compor conselhos responsáveis pela definição do elenco representativo de nossa cultura material. Além do descompasso no julgamento de validades estéticas atribuídas aos bens escolhidos para tombamento, há entre as pessoas de pé no chão a sensação desconfortável do prejuízo dos proprietários alcançados pela providência de salvaguarda do Patrimônio.
Nessa hora, há muita solidariedade e há, também, o pensamento: quem tomba, que tome conta. Na verdade, tudo isso induz a uma ampla indiferença às preferências dos doutos conselheiros culturais. Não só indiferenças, mas também desacordo, que pode levar à desatenção às determinações legais e igualmente às da cidadania. O mal de tudo é que muita gente finge que aceita os bens classificados, nem tão belos nem tão históricos, segundo seu julgamento, porque não deseja passar por ignorante ou desatenciosa no convívio social com os seus pares ou com seus eleitores ou subordinados.
Isso é o pior que pode acontecer perante a notícia do perigo que corre um monumento tombado de desabar por abandono e descuido de sua estabilidade. Nesse momento crítico, todos ficam aparentemente condoídos e lastimosos, chorando a perda iminente da herança cultural, mas não há a vontade explícita de enfrentar o problema, vontade que até poderia ser política.
Derramam-se lágrimas de crocodilo e ninguém faz nada, ninguém tenta levantar a opinião pública a favor de um bem que, por ser cultural, é de interesse social e pertencente à cidade toda. Não é fora de propósito, por exemplo, uma coleta pública de dinheiro para aquele fim patriótico de preservar a memória dos antepassados. Enfim, essas linhas nasceram de nossa indignação ao receber a informação do desabamento total da cobertura do Sobrado dos Toledos, ocorrência há muito prevista pela valente "Tribuna de Iguape", que, para usar um chavão, ainda não se cansou de pregar no deserto.
Iguape tem uma história que nos vem desde os tempos de Martim Afonso e, também, dos peruleiros do século 16, contrabandistas de prata capitaneados por Rui de Mosquera; dos garimpeiros de ouro no alto Ribeira de Iguape desde o começo do século 17. A partir do início do século 19, o esplendor chegou à cidade com a riqueza trazida pelo cultivo do arroz. Entre o terceiro e o último quartel daquela centúria, Iguape era maior e mais rica que Santos, mantendo contato direto e frequente com o Rio de Janeiro, recebendo e fruindo de todas as novidades da corte.
Desde logo, engalanou-se de nobres sobrados de pedra e cal equipados com o mais rico mobiliário Luís Felipe, como era a moda. Louçaria também de origem francesa e muita prata lavrada. Jornais e ativa vida teatral.
No início daquele cenário de euforia, no segundo quartel do século, o vereador Toledo levanta o seu magnífico sobrado, não no estilo costumeiro, mas na nova manifestação estilística, o neoclássico trazido pelos artistas franceses chegados com D. João 6º. Pelo que sabemos, esse edifício é a primeira construção paulista derivada das lições do arquiteto Victor Grandjean de Montigny, o renovador de nossa arquitetura. É um exemplar importante de nossa história.
Com o passar do tempo, aquela vasta residência foi acabar nas mãos da Igreja, por sinal, bastante rica graças ao renome dos milagres do Senhor Bom Jesus, cuja imagem até agora venerada foi achada na praia da Jureia em 1647. Sua festa, em agosto, sempre levou à cidade milhares de romeiros, cujos barcos atulhavam o porto. Vinham embarcações não só dos litorais norte, isto é, do Rio, de Ubatuba, Santos e Itanhaém, mas também e, principalmente, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Até o padre Guilherme Pompeu de Toledo, o opulento financiador dos bandeirantes do século 17, abalou-se de Santana de Parnaíba, no planalto, para verificar e aquilatar aquela fama milagreira e, talvez, apenas rezar, por mera manifestação da fé, já que não precisava de milagres de nenhuma natureza. O enorme afluxo de romeiros por três séculos, que costumavam acampar atrás da basílica, logo transformam o nosso sobrado em hospedaria improvisada destinada primordialmente a mulheres e suas crianças.
Sobretudo depois de seu tombamento pelo Condephaat, o imóvel histórico não mais recebeu trato algum. A Igreja, a proprietária, que sempre ganhou de presente tudo o que possui, devolveu ao povo, isto é, à prefeitura, a construção periclitante na forma de um comodato, tendo em vista sua reconstrução. Em resumo: o telhado desabou e as paredes desamparadas balançam com o trepidar dos veículos pesados.
Os leões de louça no alto dos cunhais da fachada, que tanto encantaram, em 1858, o viajante Robert Ave-Lallemant, olham para baixo preocupados com a altura a ser vencida brevemente em queda livre. Seus cacos certamente serão distribuídos às crianças da cidade pelos omissos, que sempre olham de lado, como lembranças inúteis daqueles que já se foram e que hoje dormem profundamente, como nos contou o poeta Manuel Bandeira; porque o mundo é dos vivos.
Sabemos que o leitor já intuiu que essa imagem poderá ocorrer em qualquer localidade brasileira, evidentemente o descaso não é apenas iguapense. É nacional. Essa ocorrência em Iguape não passa de um pretexto para um desabafo.

CARLOS ALBERTO CERQUEIRA LEMOS, arquiteto, é professor de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 9 de outubro de 2009.

Remete a outros já publicados por aqui, de igrejas mineiras do barroco colonial em ruínas e sob risco de desabamento:

Entre salvação e a ruína - patrimônio histórico em Santa Rita Durão, distrito de Mariana, MG

Igrejas do século XVIII podem ruir em Minas Gerais


Marcadores: , , ,

quinta-feira, novembro 19, 2009

Seria isto racismo?

Seria isto racismo?


Visito a agência de um banco brasileiro aqui na Rua Sete de Setembro. A rua Sete de Setembro é cheia de bancos. Neste caso é o banco familiar brasileiro.


Digo familiar porque o controle acionário pertence a uma família. Há uns 20 anos atrás havia mais bancos familiares brasileiros: o Auxiliar, por exemplo, pertencia a uma família mas foi liquidado extra-judicialmente nos anos 1980, ainda no governo Figueiredo. Tivemos o Mercantil de São Paulo, que acho que foi vendido ao Bradesco. O Banco Real foi vendido ao holandês ABN, e daí passou para o espanhol Santander. O Bamerindus foi comprado pelo britânico HSBC. Aqui no Rio Grande do Sul já tivemos Sul Brasileiro, Habitasul, Maisonnave, Banco de Crédito Real do Rio Grande do Sul. Todos sumiram, liquidados como o Sul Brasileiro, ou comprados como o Crédito Real. Assim, eu acho que bancos pertencentes a famílias só ficaram o Safra, o Itaú e o Unibanco. E estes dois últimos estão se fundindo. Ou o Itaú adquiriu o controle do Unibanco, o que dá quase no mesmo no final das contas.


Mas voltemos ao início do texto. Eu dizia que visitava uma agência de um destes bancos na rua Sete de Setembro, aqui em Porto Alegre. A rua Sete de Setembro é cheia de bancos.


Enquanto aguardo para ser atendido dou uma olhada ao redor, contei uns oito ou nove funcionários, entre gerentes e auxiliares de gerência e caixas. Todos brancos.


Está certo que Porto Alegre não é a cidade brasileira com o maior percentual da população com a tez escura, mas fiquei me perguntando porquê não haveria entre os funcionários de frente do atendimento da agência ao menos um funcionário negro ou mulato. O sistema de seleção para contratações não conseguiu achar uma pessoa educada o suficiente para trabalhar ali? Ou será que tal sistema de seleção, mesmo que de forma algo inconsciente, descarta candidatos pela cor da pele?


Talvez o banco assuma que os clientes sejam em sua maioria de cútis clara e não gostariam de ser atendidos por pessoas de cútis escura? Sei lá!


Ou talvez eu seja muito paranóico!


Certo é que Ali Kamel, funcionário das Organizações Globo, se deu ao trabalho de escrever um livro para demonstrar que nós, brasileiros, não somos racistas.


Marcadores: , , ,

terça-feira, novembro 17, 2009

TV deixa de ser item mais importante entre os jovens

TV deixa de ser item mais importante entre os jovens

A TV, o eletrodoméstico de maior penetração no país, já não é considerado o item mais importante do dia a dia para a população jovem (de até 34 anos), segundo resultado de pesquisa feita pelo Ibope sobre hábitos de consumo de meios de comunicação.
Para a faixa etária de dez a 17 anos,o computador com acesso a internet é o aparelho mais relevante (com 82% no ranking de prioridade), seguido pela TV (65%) e telefone celular (60%). Dos 18 aos 24 nos, o líder do ranking passa a ser o telefone celular (78%), com computador ligado à rede (72%) e TV (69%) em sequência, o que tem pequenas diferenças em relação ao próximo grupo, dos 25 aos 34: celular (81%), TV (73%) e computador (65%). Na média geral da população, a TV fica na liderança da pesquisa, com77% de preferência.
Para Dora Câmara, diretora comercial do Ibope, os resultados também são explicados por um processo de convergência: quanto mais jovem a população, maior é a capacidade de acomodar os meios de comunicação de forma simultânea.
"Metade dos jovens de 12 a 19 anos costuma acessar a internet enquanto veem TV ou ouvem rádio", diz.
Apesar disso, 82% dos 800 entrevistados preferem consumir um meio de cada vez. Dora brinca que, apesar da evolução dos meios, "o homem ainda é versão 1.0", o que de certa forma explica essa preferência. "Estamos cada vez mais midiáticos, mas isso não significa que abandonaremos os meios mais antigos. Apenas incorporamos os novos em nossa rotina", diz Dora.


Trecho da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 26 de outubro de 2009.


As emissoras de TV deveriam ficar preocupadas.


Marcadores: , ,

terça-feira, novembro 10, 2009

O pagador do sucesso

O pagador do sucesso

RIO DE JANEIRO - São frequentes os atores de cinema que se transformaram em bons diretores. Os casos mais notáveis seriam Chaplin e Orson Welles, passando por Vittorio De Sica, que começou como galã do cinema italiano e terminou como diretor de obras-primas, como "Ladrões de Bicicletas", "Umberto D" e "Milagre em Milão".
Anselmo Duarte, em nível nacional, lembra sobretudo De Sica. Quando estreou na direção, com "Absolutamente Certo", a crítica reconheceu que o eterno galã das chanchadas da Atlântida tinha jeito para a coisa, o filme ficava acima da produção daquela época. Mas era, ainda, uma extensão mais ou menos séria dos filmes populares que então eram feitos no Brasil.
Veio depois o impacto de "O Pagador de Promessas", que, antes mesmo da Palma de Ouro de Cannes, foi considerado um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos. O prêmio internacional, paradoxalmente, se não fez mal ao filme, fez mal a seu diretor. Anselmo passou a ser negado não só pela crítica mas pelos colegas de ofício, notadamente o pessoal do cinema novo, que então começava a despontar.
Tentando desqualificar a Palma de Ouro, foi dito que o júri daquele ano dividira-se entre Buñuel e Antonioni, dois cobras assumidos do cinema internacional. Anselmo teria aproveitado a brecha e, namorando a presidente dos jurados, foi o tertius que levou a Palma e a sua alma.
Nunca se recuperou do trauma em sua própria terra. Funcionando sempre de olho nos prêmios internacionais, principalmente no de Cannes, os cineastas e produtores nativos eram unânimes em negar não só o filme mas, sobretudo, o diretor. Ensaios e livros são pródigos em elogiar os filmes do cinema novo, mas colocam uma pedra do silêncio em cima de Anselmo Duarte.

O texto é de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 10 de novembro de 2009.

O ator e diretor de cinema, Anselmo Duarte, faleceu no final de semana passado. Foi o único diretor de cinema brasileiro vencedor de Cannes até agora. Mas pelo que dizem os necrológios, isto talvez lhe tenha feito mais mal que bem na época, e, a partir de então, na vida e obra de Anselmo Duarte.

Marcadores: , , , ,

quinta-feira, novembro 05, 2009

Historia do Brazil, de Frei Vicente de Salvador

O novo regime social

Obra fundadora, "Historia do Brazil", de frei Vicente do Salvador, identificava a mestiçagem como central à formação do país, em 1630

JOÃO FRAGOSO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Acaba de chegar às livrarias a mais nova edição da "Historia do Brazil", de frei Vicente do Salvador, um dos clássicos da crônica colonial. Desta vez, a obra foi preparada por Maria Lêda Oliveira, historiadora pernambucana e investigadora da Universidade Nova de Lisboa, que nos brinda com um cuidadoso estudo sobre o homem frei Vicente, sua época, os códigos letrados de então e as edições anteriores, inclusive a de Capistrano de Abreu [1853-1927].
Esta nova publicação veio a calhar, pois ocorre em um momento em que a historiografia nacional começa a se desprender das chamadas "teorias da dependência", modelos que por décadas prevaleceram na explicação da economia brasileira dos séculos 16 e 17. Assim, a reedição é uma ótima oportunidade para olharmos de maneira mais crítica para a formação da sociedade brasileira.
Concluída, provavelmente, em 1630, a "Historia do Brazil" nos traz depoimentos de um homem a um só tempo jesuíta e filho de uma nobreza da terra baiana em gestação sobre as feições de uma sociedade que logo seria centro do império ultramarino luso. Vejamos isso com mais atenção.
Em 1656, menos de 30 anos depois de concluída a "Historia do Brazil", o Conselho da Fazenda da monarquia lusa expunha a situação de seu império. O outrora florescente Estado da Índia estava reduzido a seis praças, "sem proveito religioso e econômico".
Em contrapartida, o Brasil tornara-se a "substância principal" da monarquia e "Angola o nervo das fábricas do Brasil". Portanto, conforme o egrégio conselho, o sistema atlântico luso já estava constituído naquele momento.

Economia da escravidão
Os engenhos de açúcar espalhavam-se pelo litoral de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. Da mesma forma, as produções de alimentos, encravadas ou não nas áreas agroexportadoras, abasteciam as gentes desta América. Completando o cenário, os escravos, cada vez mais, vinham de Angola, substituindo os chamados negros da terra (índios).
Esse sistema atlântico e escravista ampliou-se com a mineração e permaneceu como base da Monarquia lusa até 1822.
Diante desse panorama, uma pergunta parece inevitável. Como isso ocorreu? Afinal, em 1591, a estimativa do número de engenhos no Brasil era de apenas 63. Menos de 50 anos depois, em 1637, passava para 350. Segundo as toscas informações sobre o tráfico de africanos para o Brasil, entre 1580 e 1600, por ano, entraram 2.000 cativos e, na década de 1620, tais entradas já eram mais de 6.500 almas. Por conseguinte, em menos de 50 anos, os números de engenhos e de escravos africanos triplicaram, pelo menos. Assim voltamos ao nosso frade, contemporâneo dessa transformação do "Brazil". Por meio de uma leitura atenta de seu texto, podemos ter indícios da lógica social que presidiu aquela formação econômica e, consequentemente, as opções de seus agentes.
Em diversos capítulos ele nos relata, por exemplo, a ação dos Coelho, Albuquerque e dos Sá. Parentelas que, "à custa de suas fazendas e vidas", conquistaram partes daquela América, estendendo o domínio da monarquia de Pernambuco ao Maranhão e da Bahia ao Rio de Janeiro. Em seguida, cuidaram do "bem comum" das gentes, com o estabelecimento da Justiça, do mercado público e da defesa. Desse modo, começavam a funcionar as "repúblicas" ou municípios, sob a tutela do rei, porém dirigidos por Câmaras votadas pelos homens bons da terra, garantindo, tal como no reino, o autogoverno das comunidades. O relato dessas ações ocupa boa parte do livro e expressa práticas sociais conhecidas há tempos no Antigo Regime luso. Daí não nos causa espanto que Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, e seu cunhado, Jerônimo de Albuquerque (os dois vindos da Índia), tenham recorrido a essas práticas. Sendo a mesma receita utilizada por Mem de Sá, governador geral do Brasil (1504-72), e cuja autoridade teve como um dos alicerces sua parentela e clientela, e não apenas os parcos recursos da coroa.

Índios e fidalgos
Com certeza, esses e outros conquistadores, ainda dentro das normas do Antigo Regime, foram remunerados por sua majestade. Ou melhor, receberam mercês na forma de vastas terras, foros de fidalgo, privilégios mercantis e cargos régios que lhes davam acesso aos recursos da jovem sociedade. Mais ainda, ganharam do rei o mando político das gentes. Porém, esse mando só foi possível por meio de outro expediente: as alianças com segmentos das populações indígenas. Aqui surgem, na crônica de nosso frei Vicente sobre a formação do "Brazil", outros atores, com menos recursos, porém, ainda, agentes: os índios. O filho de Jerônimo de Albuquerque, seu homônimo e conquistador do Maranhão (1548-1618), tratava os índios de suas terras como "sobrinhos", talvez por ele próprio ser mestiço, neto materno de um chefe indígena. Ou seja, ele era produto da aliança com frações indígenas. Aliados e aparentados a índios flecheiros, Jerônimo, os descendentes de Diogo Álvares Correia (Caramuru) e outros conquistaram terras e índios escravos. Conforme se sabe hoje, a "decolagem" dos engenhos de açúcar fora possível pela escravidão indígena. Aqui a evangelização, seja dos índios aliados ou conquistados, como sugere Vicente Salvador e sublinha Maria Lêda Oliveira, era essencial para o sucesso do "Brazil". Principalmente se lembrarmos que não se contava com o crédito de capitais ingleses e holandeses, como ocorreu no Caribe seiscentista, dispostos a comprar avalanches de africanos para as "plantations".
Os mecanismos de Antigo Regime permitiriam à América lusa, no século 17, inundar o mercado internacional de açúcar e comprar cerca de 40% do total dos escravos que cruzaram o Atlântico. Mecanismos que se traduziram em um sistema atlântico diferente do comandado por Londres e Amsterdã, este último mais afinado com o capitalismo ou algo que o valha. A "Historia do Brazil" fornece indícios das origens do sistema Atlântico luso de tipo antigo e mais de uma sociedade que conseguiu, a um só tempo, combinar a mestiçagem e uma forte ascensão social, e isso nos quadros de uma hierarquia social com traços estamentais.


JOÃO FRAGOSO é professor do departamento de história da Universidade Federal do RJ e coorganizador de "Conquistadores e Negociantes" (ed. Civilização Brasileira).



HISTORIA DO BRAZIL Autores: Frei Vicente do Salvador (vol.1) e Maria Lêda Oliveira A. da Silva (vol. 2) Editora: Versal (0/xx/21/2239-4023)
Quanto: R$ 212 (592 págs.)


Texto do caderno Mais!, da Folha de São Paulo, de 15 de fevereiro de 2009.

Marcadores: , , ,

quinta-feira, agosto 20, 2009

Agora a Tropa de Elite no National Geographic

National Geographic visita favela carioca

Guerra ao tráfico no Rio dá início à série documental "Shadow Soldiers"

Apresentada pelo militar e escritor Chris Ryan, nos próximos episódios programa também passará por Colômbia, México e EUA

JANAINA LAGE
DE NOVA YORK

O escritor Chris Ryan elegeu o Rio de Janeiro como um dos locais para a série de documentários "Shadow Soldiers" (soldados das sombras). A guerra do Bope (Batalhão de Operações Especiais) contra o tráfico de drogas nas favelas do Rio foi exibida neste mês no canal National Geographic, nos EUA.
Chris Ryan, na verdade um pseudônimo para o militar Colin Armstrong, ficou famoso ao se tornar o único membro da missão "Bravo Two Zero" da força aérea especial britânica, a SAS, a sobreviver e escapar na primeira guerra do Golfo, em 1991. Depois disso, ele se tornou escritor.
Nas próximas semanas estão previstos episódios na Colômbia, no México e nos EUA. No Rio, ele acompanhou as operações do batalhão durante uma semana e participou de uma invasão à Vila Cruzeiro, favela na zona norte da cidade.
O retrato da criminalidade e do papel da polícia na série é bastante estereotipado. A começar pela narração em voz dramática de cada passo da equipe e do sotaque do narrador que chama o batalhão de "bópp". Frases como "as favelas do Rio são uma zona de guerra" e "as gangues cariocas são o seu futuro, eles são do Comando Vermelho" dão o tom do documentário.
Ryan tece elogios ao "caveirão", o veículo blindado da PM usado durante as operações em favelas, e constata a falta de recursos da corporação.
O documentário alterna explicações sobre a origem dos fuzis AK-47, usados pelos traficantes, com o fascínio pelo misticismo da corporação. Um dos membros do Bope mostra uma caveira, o símbolo do batalhão, que o salvou de um tiro durante uma incursão policial. A bala teria batido na caveira que faz parte da faca do policial.
O documentário não tem conclusão, apenas a constatação de que a guerra contra o tráfico no Rio é pior do que Ryan esperava.

Texto da Folha de São Paulo, de 17 de agosto de 2009.

É programa pra gringo ver e pensar no sofá da sala: “Puxa, como são violentas estas cidades do terceiro mundo”. Em breve também na sua TV por assinatura.


Marcadores: , , , , ,

terça-feira, agosto 11, 2009

Fotos de 10 de agosto de 2009 (I)




SOL DE INVERNO
Homem solta pipa com cores da bandeira brasileira no parque Villa-Lobos, na zona sul de São Paulo, ontem, quando os termômetros marcaram 27C na região central; chegada de frente fria deve baixar temperaturas hoje e amanhã na capital

Foto de Joel Silva, para a Folha Imagem. Na Folha de São Paulo.

Marcadores: , ,

quarta-feira, julho 08, 2009

Opiniões: Miguel Nicolelis

SABATINA FOLHA
MIGUEL NICOLELIS


União com máquinas vai libertar o cérebro do corpo

Neurocientista brasileiro radicado nos EUA vê sistema nervoso como uma "democracia"

O DESENVOLVIMENTO da neurociência deverá libertar o cérebro do corpo e permitir, por exemplo, que seres humanos explorem o espaço usando máquinas capazes de transmitir movimentos e sensações. A previsão foi feita pelo do neurocientista paulistano Miguel Nicolelis, 48, em sabatina promovida pela Folha anteontem. "Em muito menos de 30 anos, você vai conseguir ter a sua presença à distância". Diretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke (EUA) e do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra, Nicolelis disse também que está "à beira de demonstrar que é balela" a ideia de que o córtex cerebral se divide em áreas.

DA REPORTAGEM LOCAL

O pesquisador é pioneiro no estudo de interações entre cérebro e máquina, e já realizou proezas tecnológicas como fazer um robô no Japão andar impulsionado por ondas cerebrais de uma macaca nos EUA.
O objetivo do trabalho é desenvolver próteses neurais que permita a pessoas paralisadas andarem novamente.
Nicolelis foi entrevistado pelos jornalistas Gilberto Dimenstein, membro do Conselho Editorial da Folha e Hélio Schwartzman, articulista do jornal, e pela neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da UFRJ. A mediação foi de Claudio Angelo, editor de Ciência.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/ep.gif


IMAGEM DO BRASIL
Em 1991, cheguei um dia para dar uma palestra na Califórnia e falei que era da Universidade de São Paulo. Quando terminei de falar, um americano olhou para mim e disse: "Isso é perto de Santa Monica?"
O que vejo [agora] é o Brasil com algumas coisas no centro da agenda científica mundial. O Brasil, nas projeções que vi, vai se transformar no grande celeiro do mundo, tem a biodiversidade, a possibilidade de ser o primeiro país a se livrar do petróleo, a energia alternativa.

MILIONÁRIOS
Nos Estados Unidos, as pessoas que têm muito dinheiro pensam que é a chance de comprar a imortalidade.
A [Universidade] Duke teve várias doações de pessoas que queriam associar o nome delas a uma descoberta. E evidentemente que o governo americano foi muito esperto de criar uma legislação fiscal que ajuda.
Aqui no Brasil a relação com dinheiro é outra. As pessoas ainda têm a ilusão de que levam com elas o dinheiro. A elite americana valoriza mais uma educação de alto nível.

BUROCRACIA
É muito mais fácil eu doar dinheiro para a Duke do que para a USP. Se eu quiser hoje pôr o nome da minha avó no anfiteatro da Faculdade de Medicina, provavelmente morro antes de conseguir - e o nome dela nem é tão longo. Quando cheguei aqui no Brasil para criar nosso projeto [o Instituto Internacional de Neurociência de Natal], eu contei: foram 65 assinaturas para provar que eu existia.
Quando era aluno da USP, era impossível importar um anticorpo, um insumo. Melhorou muito, mas ainda não é o que um cientista num laboratório de ponta desejaria ter.

OURO DO PENTÁGONO
[Ao ser questionado sobre receber dinheiro do Departamento de Defesa americano.] O que eles me pediram foi para criarmos uma forma de, em 30 anos, fazer os veteranos de guerra paralisados voltarem a andar. E estamos chegando lá.
O Sidney Simon, que é meu grande amigo americano, falou: "Dinheiro é dinheiro". Não me meto. Dou uma palestra, mostro o que sei fazer, aí entram dez advogados e eles sentam com quem quer doar.

DEUS
Deus, na minha opinião de palmeirense -você acredita se quiser-, é uma necessidade que todos nós temos de explicar de onde viemos. Aparentemente existe uma necessidade do nosso cérebro de contar uma história. Acho que o cérebro é um grande simulador, ele simula a realidade completa, toda a história da nossa vida. E essa história tem que ter um começo, ela tem que ter uma explicação lógica de onde nós viemos. Nesse domínio vem a noção de Deus, a religião.

O CÉREBRO UNIFICADO
Nós vamos publicar daqui a poucas semanas registros do córtex visual em que 12% das células respondem à informação tátil e vice-versa.
Faz cem anos que essa ideia [de que o cérebro se divide em "casinhas", cada uma com uma função] se cristalizou. Nós estamos à beira de demonstrar que isso é balela. A função, no cérebro, não é determinada geograficamente. Ela é determinada de acordo com as demandas da tarefa que se impõe ao cérebro.
Então, se uma pessoa perde a visão e ela tem que navegar pelo mundo sem o sistema visual, ela remapeia o atributo táctil por todo o córtex, inclusive o visual. Nós estamos abandonando essa ideia de que o cérebro é um grande mosaico e partindo para noção de que o cérebro é uma grande democracia.

PARKINSON
[Sobre o tratamento contra Parkinson com estimulação elétrica desenvolvido por sua equipe na Duke.] Quando começamos a olhar para animais [camundongos] que desenvolviam um Parkinson muito violento e muito rápido, tudo levava a crer que a atividade do cérebro parecia uma crise epiléptica. Então falamos "isso é uma crise epiléptica, vamos tratá-la como se fosse uma". As vantagens de estimular atrás da medula espinhal são várias: é mais seguro, muito mais fácil, muito mais barato. Mas a grande vantagem, do ponto de vista teórico, é que muda a forma de olhar para o cérebro. Ao invés de tentar tratar um lugarzinho, que era o que a teoria anterior achava, você está tratando o circuito inteiro. Do ponto de vista filosófico, isso é uma mudança radical. Já temos os modelos para primatas prontos e nós vamos fazer boa parte desses estudos lá em Natal. Espero que, se os resultados em macacos forem tão bons quanto eles foram nos roedores, no ano que vem a gente começa a fazer esses estudos em humanos.

CORPO MECÂNICO
O pensamento nada mais é do que uma onda elétrica pequenininha, se espalhando pelo cérebro, numa escala de tempo de milissegundos. O que fizemos [com primatas] foi descobrir que é possível ler esses sinais e extrair deles comandos motores capazes de reproduzir num braço mecânico ou numa perna robótica a intenção motora daquele cérebro.

TELECINESIA
E nós fechamos o circuito: o macaco usou sinais do córtex motor para controlar a prótese e a prótese [usando sensores, quando o pé atinge o chão] mandou informação de volta sem usar o corpo para nada. O cérebro se libertou do corpo de vez. Isso quer dizer que, a longo prazo, nosso alcance como humanos vai mudar completamente. Você vai ter a chance de atuar voluntariamente em um ambiente a milhares de quilômetros da sua presença física.
No futuro, em muito menos de 30 anos, você vai conseguir ter a sua presença à distância. A Agência Espacial Europeia analisou nossos trabalhos e concluiu que não tem sentido mandar humanos para Marte. Nós vamos de qualquer jeito, manda algo que nos represente pelos nossos pensamentos.

UNIVERSIDADES
Se estivesse na situação de um jovem hoje, pensaria muito antes de ir para a universidade. Ela precisa mudar demais, se reestruturar tremendamente.
As divisões são do século 19, elas têm muito pouco a ver com a realidade. Precisamos criar mecanismos para acelerar e desburocratizar o processo de formação de cientistas. No mundo inteiro.

LULA E PT
Eu não me rotularia um petista, me rotularia um humanista [ao ser perguntado se seu petismo arrefeceu]. E eu e mais 80% da sociedade brasileira acreditamos que o atual governo teve avanços fundamentais.

CIÊNCIA "DO MAL"
A ciência transformou-se em uma coisa misteriosa. Sempre que fazia uma palestra, a primeira pergunta era: "E se isso for usado para o mal?". Vejo na imprensa no mundo inteiro esse afã de "e se fizer um gene desses errado, vai surgir um Frankenstein que vai destruir a raça humana". Pode? Pode.
Mas tudo pode. O Palmeiras pode ganhar o título neste ano.
Mas as chances são remotas.


NA INTERNET
VEJA A SABATINA COM MIGUEL NICOLELIS NA FOLHA ON-LINE
www.folha.com.br/091601

Na Folha de São Paulo, de 10 de junho de 2009.

Marcadores: , ,

quarta-feira, junho 24, 2009

Paisagem com figuras

Paisagem com figuras

RIO DE JANEIRO - Em meados dos anos 60, o poeta João Cabral de Mello Neto jantava na cantina Fiorentina, no Leme, com seus colegas Fernando Pessoa Ferreira e Felix de Athayde, pernambucanos como ele. Em certo momento, ouviu-se um rumor na varanda e João Cabral perguntou o que estava acontecendo. "É o Chacrinha, que acabou de chegar", informou Fernando.
"Chacrinha? Quem é Chacrinha?", quis saber João Cabral. "É um apresentador de tevê, muito famoso", disseram. Cônsul do Brasil em Barcelona, com raras vindas ao Rio e famoso por não se interessar por música e por tomar dez aspirinas por dia para a dor de cabeça, o poeta estava por fora do que acontecia por aqui.
E, mesmo que estivesse a par, não podia haver ninguém menos Chacrinha do que João Cabral. Na sua poesia, grave e desidratada, as palavras eram de pedra, os cães, sem plumas, e as facas, só lâminas. Já Chacrinha era o barroco em Technicolor, embora a tevê ainda fosse em preto-e-branco. Apresentava os piores cantores do Brasil, atirava bacalhau para a plateia e promovia concursos de comer barata. Os comunicólogos ainda não o tinham descoberto como símbolo do "mau gosto genial".
Chacrinha entrou ventando pela Fiorentina, cercado de dez ou quinze assistentes. Ao se aproximar da mesa de João Cabral, estacou e olhou-o por um segundo. Então, abriu os braços e exclamou: "Cabral!!!". O poeta levou um susto, mas não deixou a bola cair: "Abelardo!!!". Levantou-se no ato e os dois se abraçaram, aos soluços.
O poeta João Cabral de Mello Neto -cujos dez anos de morte se completam em outubro próximo- e o apresentador Abelardo "Chacrinha" Barbosa, colegas de primário nos Maristas, de Recife, e que não se viam havia mais de 30 anos, tinham acabado de se reconhecer e reencontrar. É o Brasil.

Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo, de 4 de maio de 2009.

Marcadores: , , , ,

sexta-feira, junho 12, 2009

O desperdício de Cérebros


O desperdício de Cérebros

Por Alexandre

Nassif,

Não estamos prontos para ter essa discussão. Verdade seja dita: ninguém liga para a classe média no Brasil, não a classe média elevada à esta condição pela subida do salário mínimo, a classe média de professores universitários, trabalhadores especializados e profissionais liberais. Já li algum dia que a classe média era a mola propulsora da economia: a classe alta não era suficientemente numerosa nem a classe baixa teria renda suficiente para isso.

Para quem acha que o Governo Lula aliviou ou resolveu esse problema, sugiro o artigo do Professor Marcio Pochmann (acima de qualquer suspeita de ser oposicionista, creio) “Desemprego estrutural no Brasil e a anomalia da fuga de cérebros”, onde ele deixa claro o agravamento da situação. Enquanto China e Índia estão penando para formar e (bem) empregar milhares de cientistas e engenheiros, o Brasil se dá ao luxo de desperdiça-los.

Eu, Mestre em Engenharia da Computação jamais encontrei um emprego condizente com meu nível de formação, mas tenho uma renda razoável. Minha noiva, Mestre em Biologia, simplesmente nunca encontrou nenhuma vaga (por vaga, leia-se emprego, não bolsa ou qualquer coisa assim) que pagasse mais de 600 reais. Por enquanto, ela desistiu de exercer sua profissão e ocupa um cargo de nível médio no MP-SP onde ganha 3 vezes mais.

A solução definitiva? Nós estamos emigrando para o Canadá. Como disse um colega nosso (que já está lá): cansei de tentar mudar o mundo, decidi mudar de mundo.

Visto no blog do Luís Nassif.

Marcadores: ,