terça-feira, dezembro 28, 2010

Tenente Frank Derbin

Tenente Frank Derbin


O tempo é assim. A gente pensa consigo mesmo “daqui a pouco eu faço”, e lá se foi um mês.

Um mês já se foi desde a notícia do falecimento do ator Leslie Nielsen. Dizem os necrológios que ele faleceu em decorrência de pneumonia, aos 84 anos.

E então nós descobrimos que Nielsen tinha uma longa carreira em Hollywood, onde começou como ator “sério”, na década de 1950, onde atuou, por exemplo, num filme de ficção científica chamado “Planeta Proibido”.

Mas a verdade é que eu só me lembro dele, de filmes muito mais recentes, como “Apertem os cintos, o piloto sumiu”, da década de 1980, que é possível que eu tenha visto em fita de vídeo-cassete.

Com Mr. Magoo, que deve ter tido diversas reprises na TV aberta, ele protagonizou uma bela e engraçada adaptação do personagem de desenho animado com graves limitações visuais. Lá em casa virou bordão, uma frase onde um dos personagens pergunta “O Peru, está no Brasil?”, brincando com a anedótica ignorância dos norte-americanos de geografia (e do resto do mundo, também, ou você sabe a capital de Níger ou a do Lesoto). Em tempo: no filme se perguntava se o bandido Ortega Peru estava escondido no Brasil. Pois é, o Brasil como refúgio de criminosos também é lugar comum em filmes de Hollywood. Talvez, com razão?

Mas certamente minhas melhores memórias de Leslie, são as da série “Corra, que a polícia vem aí”, onde ele interpretava o tenente Frank Derbin. Foram muitas gargalhadas. Em especial, não me lembro em qual dos três filmes, uma cena em que Derbin / Nielsen se atrapalha com um criminoso disfarçado de cientista, preso a uma cadeira de rodas. Sempre sorrio, quando penso nela. A cena termina com uma “homenagem” ao filme “E.T., o Extraterrestre”, de Spielberg, no final.

O humor de Nielsen vai me deixar com saudades...

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Relembrando o grande tsunami de 2004...

MEMÓRIA
Mulheres vertem leite no mar na Índia em homenagem aos 230 mil mortos no tsunami de 2004.


Foto de Nathan G., para a EFE. Visto na Folha de São Paulo, 27/12/2010.

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sexta-feira, março 26, 2010

Lançamentos celebram 50 anos de Renato Russo

Lançamentos celebram 50 anos de Renato Russo


Se estivesse vivo, cantor faria aniversário neste sábado (27).


Álbum de duetos traz líder da extinta Legião Urbana em 15 encontros.


Henrique Porto

Do G1, no Rio


Se estivesse vivo, Renato Russo, líder do extinto grupo Legião Urbana, completaria 50 anos neste sábado (27). O aniversário será comemorado com novidades, entre eles um CD, um livro e uma produção para o cinema.


Nas livrarias, Renato é relembrado na obra “Como se não houvesse amanhã”. Organizado pelo escritor Henrique Rodrigues, o livro traz 20 histórias inspiradas em músicas da Legião Urbana, como "Tempo perdido" e "Eduardo e Mônica", cada uma escrita por um autor diferente.


O início da trajetória do ídolo morto em outubro de 1996 também será o tema do filme "Somos tão jovens", de Antônio Carlos Fontoura, que começa a ser rodado em Brasília, no segundo semestre.


Além disso, especiais de TV estão programados para este sábado. A MTV reprisa o "Acústico MTV Legião Urbana" e a entrevista feita por Zeca Camargo com Renato Russo, em 1993. Na TV Globo, o programa "Altas Horas", apresentado por Serginho Groisman, receberá Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, ex-companheiros de Renato na Legião, para falar sobre o grupo e tocar sucessos. Junto com Dado e Marcelo participarão os músicos Rogerio Flausino, Dinho Ouro-Preto, André Gonzáles, Fernando Catatau e Toni Platão.


"Duetos"


Na próxima semana, chega às lojas o álbum “Duetos” (EMI) que, entre registros já conhecidos e outros inéditos, traz Russo em 15 encontros em que divide os vocais com artistas como Dorival Caymmi, Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Marisa Monte e Cássia Eller.



Idealizador e produtor executivo do projeto, Marcelo Fróes conta como surgiu a ideia de compilar gravações antigas com novas montagens realizadas a partir de arquivos pessoais do cantor.


“Já existia a vontade de fazer algo assim há bastante tempo. Sempre soube que havia material em quantidade para se montar um álbum. Utilizei 25 fitas, todas muito bem guardadas, que digitalizei e ouvi em um estúdio. Passei alguns dias ouvindo tudo. Selecionei os takes de voz, escolhi as músicas e os artistas que seriam convidados. Tudo com a aprovação da família de Renato”, disse Fróes.



Fita avariada


Mas alguns dos duetos não foram tão simples de resgatar. “Celeste”, demo que Marisa Monte e o cantor gravaram juntos em dezembro de 1993. Na época, Marisa fazia a pré-produção de seu CD “Verde anil amarelo core de rosa e carvão”.


“Foi difícil nem tanto pela qualidade da gravação, mas sim pelo do estado de conservação físico da fita DAT, que é uma mídia bem frágil. A própria Marisa a localizou, e estava amassada. Tive que levar para um estúdio em São Paulo e recuperá-la. Ficamos todos com o coração na mão, sem saber se ia dar certo.


Mas deu. Em cima dessa demo, Marisa e o produtor Carlos Trilha trabalharam o arranjo e inseriram novos instrumentos. Mais tarde, essa canção se transformaria em “Soul parsifal”, lançada pela Legião no álbum ‘A tempestade’, em 1996”, explicou Fróes.


"Uma gata"


A faixa de abertura do CD, “Like a lover” (“O cantador”) permaneceu inédita por 15 anos. De autoria de Dori Caymmi e Nelson Motta — que ganhou uma versão em inglês nos anos 60 — foi finalizada com a voz de Fernanda Takai, da banda mineira Pato Fu.


“Esta é sobra do disco ‘Equilíbrio distante’, de 1995. Já havia sido gravada por Elis Regina na era dos festivais. Renato conhecia a versão em inglês, com o Sergio Mendes & Brasil 66, de um disco que ouvia quando criança. O take que utilizamos para compor este dueto tinha o Renato cantando alguns trechos e cantarolando outros. Então percebi que a voz dela poderia entrar justamente nestes momentos”, disse Fróes, explicando a participação da vocalista do Pato Fu no disco.


“Ele gostava muito do grupo e adorava a Fernanda. Era fã mesmo. Dizia que ela era uma gata, mas de uma forma divertida”, relembrou.


Ainda entre os duetos “virtuais”, em que convidados adicionaram voz posteriormente, a partir de gravações já existentes de Renato Russo, Fróes destaca a participação de Caetano Veloso em “Change partners”. A canção foi gravada por Tom Jobim e Frank Sinatra no álbum clássico lançado pelos dois em 1967.


“Caetano é a única voz masculina entre os duetos póstumos, produzidos por Clemente Magalhães. Em todos os outros tivemos cantoras”, destaca Fróes, listando Leila Pinheiro (“La solitudene”), a italiana Laura Pausini (“Strani amore”), Célia Porto (“Come fa un’onda”), além da supracitada Fernanda Takai.


O repertório de “Duetos” se completa com participações do vocalista da Legião Urbana em discos de outros artistas, como 14 Bis (“Mais uma vez”), Erasmo Carlos (“A carta”), Paulo Ricardo (“A cruz e a espada”), entre outros, além de gravações retiradas de especiais para a TV, caso dos encontros com Herbert Vianna durante “Paralamas & Legião”, produzido pela TV Globo, em 1988; e com a cantora Adriana Calcanhotto no programa “Por acaso”, apresentado por José Maurício Machline.


A parte burocrática do projeto, que envolve licenciamentos e autorizações e poderia atrapalhar na liberação de fonogramas e nas participações de outros cantores, foi bem menos complexa e traumática do que se poderia imaginar. A avaliação é do próprio produtor.


“Dá trabalho, mas a coisa melhorou muito de um tempo pra cá. Antes tudo era ‘não’, até segunda ordem. Porque qualquer coisa envolvia milhões em dinheiro. Hoje as pessoas estão tendo que se unir, porque o mercado acabou. Está enganado quem pensa que este projeto vai render muito dinheiro. Não existe mais isso. Infelizmente já não se vende mais o tanto que vendia antigamente”, lamenta.


"Hipocrisia"


Fróes também se adianta em responder aos críticos, que costumam rotular projetos como este de “caça-níqueis” e “oportunistas”.


“Levo essas porradas porque Renato Russo vende. Isso é uma hipocrisia. Aliás, considero uma grande sacanagem com ele. ‘Duetos’ não foi feito porque vende, e sim porque a família dele me conhece, porque existem fãs interessados em sua obra. E faço porque gosto dele”, desabafa Marcelo, comparando o resgate do espólio do cantor com outros trabalhos.


“Já fiz alguns projetos sobre Jackson do Pandeiro e ninguém nunca falou isso. E Jackson do Pandeiro vende. Aliás, vende muito. Mas nunca se preocuparam em falar mal. Mas é porque não sabem que vende muito ou porque não é famoso no Baixo Gávea”, pontua.


Para a alegria dos fãs, ele adianta que mais material referente ao vocalista da Legião Urbana deve ser editado ainda em 2010.


“Teremos mais coisas sim: sobras, curiosidades... Esse é o ano do Renato, né? Mas as últimas coisas inéditas, que são “Like a lover” e “Celeste”, soltamos no ‘Duetos’. Aguardem”.


Veja o repertório completo de "Duetos":

1 - "Like a lover", com Fernanda Takai

2 - "Celeste", com Marisa Monte

3 - "Vento no litoral", com Cássia Eller

4 - "Mais uma vez", com 14 Bis

5 - "A carta", com Erasmo Carlos"

6 - "A cruz e a espada", com Paulo Ricardo

7 - "Cathedral song/Catedral", com Zélia Duncan

8 - "Change partners", com Caetano Veloso

9 - "Strani amori", com Laura Pausini

10 - "La solitudine", com Leila Pinheiro

11 - "Come fa un'onda", com Célia Porto

12 - "Só louco", com Dorival Caymmi

13 - "Esquadros", com Adriana Calcanhotto

14 - "Nada por mim", com Herbert Vianna

15 - "Summertime", com Cida Moreira



Esta notícia é originária do G1.

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terça-feira, março 23, 2010

Kate Bush - Wuthering Heights




Kate Bush, do final dos anos 1970, início dos anos 1980. Lembranças de uma antiga propaganda de cigarros.

O linque do vídeo aqui.

E a letra da música disponível aqui.

Só porque ouvi a música no rádio hoje pela manhã...



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sexta-feira, março 19, 2010

A morte de Fess "Boone" Parker




O ator americano Fess Parker, considerado um ícone americano por ter interpretado Davy Crockett nos anos 50 e Daniel Boone nos anos 70, morreu por causas naturais, segundo a família, nesta quinta-feira, aos 85 anos, em sua casa-vinhedo no Vale de Santa Ynez, na Califórnia.


“O ator, empresário e viticultor Fess E. Parker morreu hoje, 18 de março, em sua casa em Santa Ynez”, destacou o comunicado divulgado pela família que reside neste vale vinícola, 200 km a noroeste de Los Angeles, perto de Santa Bárbara.


Como ator das séries dos anos 1950 Davy Crockett, Rei da Fronteira e Daniel Boone, Parker influenciou milhões de jovens no fim dos anos 1950 e 1960, quando estas histórias “western” para as famílias se tornaram populares no mundo todo.


Nascido no Texas (centro-sul dos EUA), Parker estudou História no começo dos anos 1950 e foi para a Califórnia, onde cursou Teatro na Universidade do Sul da Califórnia.


Na década de 70, trocou a carreira artística pela exploração de imóveis na costa de Santa Bárbara, onde instalou três complexos de alojamentos para férias no estilo de acampamento e um hotel de luxo com 150 quartos de frente para o oceano Pacífico.


A notícia foi vista no blog do Luís Nassif. O blog do Luís Nassif coloca a origem como o R7.


Recentemente eu expliquei que este blogue não é um necrológio. Contudo pessoas que fizeram parte de minha infância através da babá eletrônica continuam a morrer. Muitas tardes devo ter visto episódios de Daniel Boone, não me lembro em qual canal, mas possivelmente na retransmissora local da Rede Globo. A exemplo do que eu disse sobre Missão Impossível, sou incapaz de relembrar qualquer episódio de Daniel Boone, mas a abertura tinha uma cena memorável em que Daniel Boone partia uma tora ao meio através do arremesso de um machadinho...

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terça-feira, março 16, 2010

Ator da série "Missão Impossível", Peter Graves morre nos EUA

Ator da série "Missão Impossível", Peter Graves morre nos EUA

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da France Presse, em Los Angeles

O ator americano Peter Graves, famoso pelo personagem Jim Phelps na série de televisão "Missão Impossível", morreu no domingo em casa, em Los Angeles, aos 83 anos.

O ator foi encontrado morto dentro de casa, no bairro de Pacific Palisades, ao oeste de Los Angeles. De acordo com a polícia, o ator morreu de causas naturais.

Em quase 60 anos de carreira, Peter Aurness, conhecido com o nome artístico de Peter Graves, participou de 130 filmes e séries de televisão.

O ator apareceu em filmes como "Stalag 17" de Billy Wilder e "A Noite do Caçador", de Charles Laughton. Também trabalhou com o diretor John Ford.

No entanto, foi na televisão em que ficou famoso, em 1967, com a série "Missão Impossível", na qual interpretou o principal personagem, Jim Phelps, um agente secreto que tinha que superar diversas dificuldades para o êxito das operações.

Notícia visto na Folha Online.

Imagem vista no Revista TV Séries, via Google Imagens.

Na minha infância vi muitos episódios da série Missão Impossível, de 1967, na televisão durante os anos 1970. Sou incapaz de lembrar o enredo de qualquer um deles, mas a música tema (obviamente a mesma dos recentes filmes com Tom Cruise), enquanto um "pavio" passava pela tela mostrando imagens do episódio a ser apresentado, se tornou inesquecível. E claro, a fita que delegava a missão "impossível" ao personagem Jim Phelps sempre se auto-destruiria em 10 segundos (ou seriam 5?)...


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quarta-feira, março 10, 2010

“Morreu o Seu Alfredo”

“Morreu o Seu Alfredo”


Assim começou o meu dia nesta quarta-feira. Juntamente com a troca de cumprimentos de bom dia, recebi de minha vizinha a notícia do falecimento de importante membro da igreja que eu costumava freqüentar.


Engoli em seco a notícia, e desci a rua em direção à condução que me levaria ao trabalho. E logo a tristeza tomou conta, e lágrimas desceram pelo meu rosto.


Seu Alfredo morreu. Ainda que eu estivesse algo afastado da freqüência regular aos cultos da igreja, não pude deixar de pensar que nunca mais poderia compartilhar momentos com ele que me foram bastante prazerosos. Orar juntos. Estar juntos numa classe de escola dominical. Uma classe de escola dominical é um momento em membros de igrejas protestantes se reúnem para estudar juntos a Bíblia. Nesta igreja é às 9 h 15 min de cada domingo. Antes da realização do culto, que ocorre às 10 h 30 min.


Boas lembranças tenho do Seu Alfredo. Por exemplo, sua simpatia. Era muito mais comum vê-lo sorrindo, que vê-lo amuado. Normalmente tinha palavras de incentivo a dar. Nas tais classes da escola dominical de que falei acima, ele tinha palavras interessantes, relevantes. Uma vez me repreendeu quando eu utilizava palavras por demais etéreas para falar do livro do Apocalipse. Desde que uma vez alguém me falou que toda a riqueza lingüística utilizada pelo narrador para falar da Nova Jerusalém no último livro da Bíblia era incapaz de mostrar como a tal cidade em que Deus faria morada com os homens seria de fato, e eu acreditei nisso, ficou difícil falar no mundo do porvir. O texto do Apocalipse é assim: “e mostrou-me a grande cidade, a santa Jerusalém, que de Deus descia do céu./ E tinha a glória de Deus;/ e a sua luz era semelhante a uma pedra / preciosíssima, / como a pedra de jaspe, como o cristal resplandecente. (…) / E a cidade de ouro puro, / semelhante a vidro puro.” . Está no capitulo 21 do livro de Apocalipse. Para seu Alfredo o porvir era a esperança da ressurreição, como na carta de Paulo aos Coríntios. Como Jesus ressuscitou, os que crêem nele também haveriam de ressuscitar. E dessa ressurreição resultariam rencontros. Rencontros com os entes queridos que se foram antes de nós. E naquele momento, Seu Alfredo lembrou o pai dele. O porvir haveria de ser a ressurreição da carne e a alegria dos rencontros. Não à toa, me emociono enquanto escrevo isso. Seu Alfredo morreu crendo na ressurreição.


Nos nossos poucos momentos de convivência me lembro de passagens narradas de sua vida. A convicção de sua crença em Jesus, as iniciativas de testemunhar sobre isso. As atividades como pregador leigo, como diácono de igrejas. Uma pessoa que procurou, dentro de seu entendimento, viver como “luz do mundo” tal como Jesus diz no Sermão do Monte.


Pois é. Morreu o Seu Alfredo. Já não mais poderei orar com ele. Segundo me contaram estava com 93 anos. A vida neste mundo é curta!...


10/03/2010.


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terça-feira, março 02, 2010

O Futuro da Memória, de Gordon Bell e Jim Gemmell

A evocação do Big Brother de George Orwell – que a todos observa, controla e comanda –, quando surge, é sempre pejorativa. Seja por causa do Big Brother, o programa de televisão (que, aliás, tem pouco a ver com isso); seja por causa do medo de que o estado ou “as empresas” ou algum ditador venha(m), futuramente, a fazer isso. Contudo: algo de que não nos damos conta é que estamos, mais e mais, despejando, naturalmente, nossos dados, e registrando nosso dia a dia, e nossos movimentos, através da internet e de dispositivos a ela conectados. Por exemplo, nossos e-mails: quem usa uma ferramenta como o Gmail, ou similar para webmail, está registrando, por escrito, parte dos seus dias – para que, no mínimo, o Google acesse e saiba tudo o que houver ali para saber. Do mesmo jeito, quem tira fotos e, continuamente, as publica na Web. Ou, ainda, as “redes sociais”, onde registramos nossas relações, nossos círculos, nossos laços afetivos. Ou, mais prosaicamente, os bancos e as empresas de cartão de crédito, que estocam as informações sobre tudo o que consumimos, nossos hábitos, nossas preferências. Gordon Bell e Jim Gemmell, em O Futuro da Memória (Campus), simplesmente defendem que não há como fugir – e que esse processo, talvez, não seja tão trágico quanto previu Orwell em 1984. Bell e Gemmell acreditam que, no futuro, com a queda histórica no preço de armazenamento, processamento e transmissão de informações (Lei de Moore), nossa vida inteira registrada não vai custar muito caro. E com um buscador extremamente poderoso – como um Google (auto)biográfico –, poderemos resgatar desde imagens até cenas inteiras, desde conversas até vivências inteiras. É o que estão chamando de Total Recall. As implicações, em muitas áreas, são incontáveis. Implicações éticas, inclusive. Pessoas mortas, por exemplo, nunca deixarão de “existir” – por causa de seus registros. E talvez o “memorioso”, do conto de Borges, finalmente se materialize – com o alcance, infinito, da tecnologia... (Lembrando que leva, justamente, uma vida para reconstituir toda uma vida...)

Visto no Digestivo Cultural.

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segunda-feira, janeiro 18, 2010

Clube da Esquina (II)

Clube da Esquina

Hoje, quando saí, tive a intenção de comprar um disco para ti. imitando o gesto de outra colega.

O disco seria o Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges. Como no caso da colega que eu queria imitar, dar um disco destes de presente é mais o caso de algo que eu goste do que algo que tu gostes. Mas seria uma lembrança!

Clube da Esquina foi gravado no início dos anos 1970, num tempo em que nós, "os filhos da revolução, os burgueses sem religião, o futuro da nação" (como disse outro poeta) éramos crianças.

Claro que eu não ouvia Milton Nascimento com 6 anos de idade. Só vim a descobrir Milton no início da década seguinte (1980), quando comecei a trabalhar. Um álbum duplo em fita cassete: Clube da Esquina 2.

Só tempos depois comprei o Clube da Esquina. E, claro, não parei mais de ouvir.

Naqueles anos 1970, uma das canções, "Clube da Esquina n.2", foi gravada apenas com vocais de lá-lá-lá, lá-lá-iê. Fazia sentido, vivíamos o auge da ditadura. Os adultos, espertos, evitam falar em política. Nós, as crianças de então, éramos inocentes, não sabíamos. Quando o Milton, muitos anos depois, gravou o disco Angelus é que eu vi que a canção tinha versos como "sonhos não envelhecem, em meio a tantos gases lacrimogêneos ficam calmos, calmos, calmos...". Em 1970 não dava para gravar algo assim.

No Clube da Esquina tem uma outra canção, cantada pelo Lô Borges, chamada Um Girassol da Cor de seus Cabelos. É. Com alguma boa vontade dá para dizer que há girassóis da cor de teus cabelos.

Não encontrei o disco. Afinal quem ainda compra CD's hoje em dia? Talvez algum dia tu encontres cópia do disco nessas redes de compartilhamento da Internet...

Blá, blá, blá...

Tudo isto para dizer que sentirei saudades. Estou triste por deixar de conviver contigo diariamente, mas feliz porque vais em busca de tua felicidade.

Então, felicidades para ti!


15/01/2010.

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quinta-feira, janeiro 07, 2010

A perda de referências na cidade em movimento – A Companhia Wallig na Francisco Trein

A perda de referências na cidade em movimento – A Companhia Wallig na Francisco Trein



Na Avenida Francisco Trein, na Zona Norte de Porto Alegre, havia pelo menos duas coisas notáveis, uma a fábrica de fogões Wallig, a outra era o Hospital Nossa Senhora Conceição, ou apenas o Hospital Conceição.


Na década de 1970 minha avó, por exemplo, teve que passar alguns dias internada no Hospital para seus problemas cardíacos. E vez por outra vinha algum parente do interior do estado, para se tratar ali. O Hospital Conceição continua lá. Hoje é um dos grandes hospitais gerais públicos da cidade de Porto Alegre. E parece que hoje, mais do que no tempo de minha avó (ou nos tempos de minha infância) recebe pacientes de grande parte da Grande Porto Alegre, e mesmo de cidade mais afastadas.


A Companhia Wallig já foi sinônimo de fogão no Rio Grande do Sul. Assim como a Companhia Geral e os fogões Venax. O primeiro fogão que conheci foi um fogão Wallig. Obviamente porque era o que tínhamos em casa. Como foi dito, sua fábrica era na Avenida Francisco Trein. E me parece, que não por coincidência, o sindicato dos metalúrgicos ficava bem em frente à fábrica.


Infelizmente a Companhia Wallig quebrou no final dos anos 1970, início dos 1980 (e, a propósito, acho que a Venax e a Geral também não existem mais). Parte de seus empregados formou cooperativas de trabalho, que acabaram por se mudar para o município de Gravataí, se não estou enganado.


Ficaram na Francisco Trein as ruínas da velha fábrica que um dia funcionou ali. Ali ficaram por mais de dez anos.


Agora não mais. As velhas ruínas já foram postas abaixo.


Já foi feito um relatório de impacto ambiental, e até mesmo escavações arqueológicas foram realizadas no terreno onde funcionou a fábrica de fogões Wallig.


Breve ali mais um hipermercado e shopping center.


11/12/2009.


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quarta-feira, dezembro 16, 2009

Retratos capitais: Lombardi




Da revista CartaCapital, edição de 9 de dezembro de 2009.

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terça-feira, dezembro 15, 2009

Lombardi, vítima do mito

Lombardi foi prisioneiro do mito

TONY GOES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Certa vez alguns executivos do SBT tiveram uma ideia engraçada: propor à revista "Caras" uma matéria com o Lombardi, mostrando em detalhes a casa e a família do locutor mais famoso do Brasil.
Só uma coisa ficaria de fora: o rosto do locutor. Boa-praça como sempre, Lombardi topou na hora. Mas o projeto não foi adiante, porque esbarrou no veto de Silvio Santos. O apresentador fazia questão absoluta de manter a aura de mistério em torno do dono da voz que se confundia com a própria identidade de sua emissora.
Nos últimos anos essa proibição foi se abrandando. Apesar de jamais aparecer no vídeo, a cara de Lombardi não era mais tabu. Bastava uma "googlada" ou uma fuçada no YouTube e lá estava ele: um senhor de aparência comum, quase sempre de óculos escuros.
O locutor chegou a dar uma entrevista para um repórter da megarrival Globo na concentração da escola de samba Tradição, que em 2001 desfilou com um enredo em homenagem a Silvio Santos. Mesmo assim, o segredo continuava -ainda que em tom de brincadeira, com direito a comunidades no Orkut do tipo "Quem é o Lombardi?".

Quase uma estrela
Ele era realmente único. Voz e nome conhecidíssimos do Oiapoque ao Chuí, imitadíssimo por profissionais e amadores, a escada perfeita para a exuberância de Sílvio. Desde a era de ouro do rádio, nunca ninguém ficou tão célebre sem ter um rosto conhecido pelo público. Qualquer canal de TV tem seus locutores oficiais, que dão voz a chamadas e aberturas de programas. Mas são todos sempre anônimos, e nenhum pode se considerar uma estrela.
Lombardi era quase uma estrela. Instantaneamente reconhecível como um símbolo do SBT, ele não recebia da emissora um tratamento à altura. Seu salário era uma fração do que recebem os grandes nomes da casa. O homem virou vítima do personagem: seu campo de trabalho era limitado, porque estava por demais associado a um canal de TV. Pela mesma razão, não recebia propostas para mudar de emprego. Foi ficando, ficando, ganhando pouco e sem maiores perspectivas, prisioneiro de um mito construído ao longo de 35 anos.
Dificilmente haverá outro Lombardi. Seu estilo empostado está fora de moda, e os próprios programas de auditório parecem caminhar para a extinção. Mas vai deixar saudade, porque faz parte da memória afetiva de várias gerações de brasileiros. Afinal, quantos locutores podem se gabar de estarem sempre associados a momentos de alegria?


Texto publicado na Folha de São Paulo, de 6 de dezembro de 2009.

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sexta-feira, setembro 25, 2009

Dirce Migliaccio (1933-2009)

E faleceu nesta semana a atriz Dirce Migliaccio.

Segundo o noticiário, a atriz morreu em decorrência de pneumonia e infecção urinária. É dito também que ela estava com a saúde debilitada desde que sofreu um acidente vascular cerebral – AVC, em abril deste ano.

Informam que seu papel mais marcante foi como a boneca Emília na adaptação que a TV Globo produziu em 1977 da obra do escritor Monteiro Lobato, o Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Mas para mim, o papel mais marcante da atriz foi mesmo como uma das irmãs Cajazeiras, na novela O Bem Amado (1973), da mesma TV Globo.


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quarta-feira, setembro 02, 2009

Noites de Junho, Noites de Outrora

Noites de junho, noites de outrora

JUNHO ACABOU e eu nem sofri com isso. Sei que em alguns lugares as festas ainda teimam em sobreviver, mais por vício de calendário e pesquisa mercadológica do que por necessidade.
Considero obscena a decoração que as lojas comerciais promovem em nome de uma tradição que não mais existe, as bandeirinhas de papel fino, os balões armados com arame e plástico, as fogueiras de mentirinha, movidas a ventilador. No adro de algumas igrejas, também há movimento, mas sem empolgação, o lucro das barraquinhas mudará as telhas quebradas dos templos, alguns deles aos pedaços.
Não sei como as coisas se passam em outros sítios. Aqui, no Rio, é uma calamidade. Os jardins de infância faturam por fora em nome dos santos juninos, e os pais são obrigados a gastar os tubos com fantasias caipiras que as crianças acabam vestindo sem entender e sem amar. Até o presidente da República bota na cabeça um chapéu de palha em frangalhos e convida os ministros para um quentão oficial geralmente substituído por um uísque de 12 anos.
Da antiga e bonita tradição das festas de Santo Antônio e São João não sobrou nada, apenas a referência no calendário e a advertência anual das autoridades a respeito de balões e fogos.
Pois foi por aí que a festa acabou. Reconheço os motivos que obrigaram o governo, em seus diferentes níveis, a proibir balões. Mas que diabo, na minha infância, o céu ficava "pintadinho de balão" -como lembra a marchinha junina de Assis Valente. As casas eram mais frágeis, mais espaçadas, havia matagais em abundância na paisagem e mesmo assim os incêndios eram poucos.
Que me lembre, nunca vi incêndio provocado por balão, embora meu pai, nos anos de minha infância, fosse famoso baloeiro entre os baloeiros mais famosos. Foi talvez a única arte em que se distinguiu -nas demais foi um desastre.
Os preparativos começavam no início de maio, resmas de papel fino sueco -era o melhor e o mais resistente, de cores mais cintilantes e duradouras. Os balões se amontoavam pelas salas e quartos, pendurados em varas, em ganchos, em cima dos armários, deles saía um cheiro da cola de farinha de trigo e do papel importado. Ali eles aguardavam a noite mágica em que subiriam ao céu.
Murchos, coloridos e disformes, pareciam monstruosas fantasias de palhaços, sem alma, sem chama, à espera do momento em que entrariam em cena, no imenso espaço da noite de junho.
Mas dia 13 (Santo Antonio) ou dia 24 (São João), eles se erguiam, iluminados, varando o espaço majestosamente, enquanto aqui embaixo ficávamos, ao redor da fogueira, olhando atônitos aquela beleza que subia, frágil e poderosa. Eram enormes os balões, e belos.
Lá distante, da sala onde funcionava a primeira radiovitrola que meu pai comprara na Casa Édison, provavelmente a prazo, vinha a marchinha de Assis Valente na voz de Carlos Galhardo: "Cai, cai balão / não deixa o vento te levar / quem sobe muito / cai depressa sem voar/ e a ventania / de tua queda vai zombar / cai, cai balão / não deixa o vento te levar".
Mas os ventos levavam os balões e eles sumiam na imensa enseada da noite. Mais um pouco e as fogueiras ficavam reduzidas a cinzas, onde se assavam batatas doces e roletes de cana. Enquanto isso, os balões ainda voavam pela madrugada, silenciosos, as buchas apagadas. Manuel Bandeira tem versos pungentes sobre os balões apagados das madrugadas, no poema que foi o primeiro que entendi e amei. ("Profundamente").
Vivi a mesma experiência: acordava no meio da noite e pensava em todos os que estavam dormindo, profundamente, e de repente um balão apagado passava em silêncio pela minha janela, vindo de longe, cansado, sem glória, cumprindo o seu destino de balão. Todos estavam dormindo, menos eu, vigiando o céu, esperando que um deles viesse a cair em nosso quintal. Alvoroçado, acordava o pai e íamos juntos e orgulhosos apanhar a dádiva que o céu nos mandara.
Pois é. As fogueiras acabaram mesmo. As noites de junho eram as mais frias do ano. E as festas também estão acabando. Mas não posso deixar de lembrar os balões que nunca me libertaram de seu legado de tristeza, mansidão e fragilidade.

Texto do Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 17 de julho de 2009.


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sábado, junho 27, 2009

O verão de Off The Wall

O verão de Off The Wall


Não tenho certeza, mas acho que foi no verão de 1979/1980, que eu pude desfrutar meu último verão de puro ócio escolar. E aqui o primeiro de alguns parênteses que este texto terá. Os nossos verões austrais são divididos, dezembro de um ano, janeiro e fevereiro do ano seguinte. Qualquer pessoa que viva no hemisfério sul sabe disso, mas talvez não seja tão evidente para quem viva no hemisfério norte. Assim, fico com o verão de 1979/1980, pois no verão seguinte, 1980/1981, não pude desfrutar do verão. Consegui meu primeiro contrato de trabalho em janeiro de 1981.


O SESC, Serviço Social do Comércio, possui uma sede campestre lá pelo número 6000 da avenida Protásio Alves, em Porto Alegre. A Protásio Alves é uma das principais e mais longas avenidas de Porto Alegre. A sede campestre do SESC possui um conjunto de piscinas.


Naquele final da década de 1970 e início da seguinte, o SESC permitia aos estudantes da comunidade ao redor usufruir das piscinas entre terça e sexta-feira. Entre terça e sexta-feira os comerciários estão trabalhando, então o movimento no parque aquático era fraquíssimo. Então a direção do SESC teve a boa idéia de liberar as piscinas.


Eu fui um dos que pôde desfrutar das piscinas naquele período. O sistema de funcionamento estabelecia que o acesso poderia ser feito em determinado horário pela manhã, e em outro determinado horário à tarde. Acredito que fosse às duas da tarde. Naquela época não tínhamos horário de verão. Junto às piscinas havia uma lanchonete com dois balcões de acesso. Um acesso pelo parque das piscinas, e o outro pela área da sede campestre. Um sistema rigoroso de exame era feito então para o acesso às piscinas. Micoses em geral, e as temíveis frieiras em particular geravam banimento aos seus portadores. Como nós chegávamos antes do horário de abertura, precisávamos ficar aguardando.


Junto à lanchonete pelo balcão da sede campestre havia uma caixa de música, uma “jukebox”, dessas que funcionam com moedas. Se bem que aqueles eram tempos de inflação alta, então provavelmente a tal máquina funcionava com fichas. Eu nunca comprei uma ficha para a máquina. Mas muitos frequentadores compravam.


Uma das músicas mais tocadas era “Don't stop till you get enough”. Todo dia alguém comprava uma ficha e pedia esta música enquanto esperávamos o horário de acesso às piscinas. Houve dias em que a música pôde ser ouvida mais de uma vez. A música fazia parte do disco “Off The Wall”, de Michael Jackson.


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sábado, maio 30, 2009

Devemos permanecer leitores

Devemos permanecer leitores

Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)

A impressão que fica de "O Leitor Comum", livro de Virgínia Woolf, publicado pela Graphia, é a de que a escritora encadeia os seus textos buscando alcançar um público que se diferencia do crítico e do professor. Ela começa com um ensaio curtíssimo, quase um prólogo, que se ocupa de uma frase de Johnson: "Agrada-me concordar com o leitor comum"; e fecha com um ensaio mais longo sobre Como se deve ler um livro, dizendo: "O único conselho, de fato, que uma pessoa pode dar à outra sobre o ato de ler é não seguir conselho algum, seguir seus próprios instintos, usar suas próprias razões, chegar a suas próprias conclusões".

Em ensaios em que louva Jane Austen, Defoe, Conrad, Thomas Hardy, Scott e outros, o tema do leitor e do crítico aparece sempre. Há quase a sugestão de que uma obra deve possuir clareza e ser escrita para agradar aos leitores; e de que o autor deve contar a verdade sobre si mesmo, revelando-se. Mas é quando escreve Como atacar um contemporâneo e Ficção moderna, que Virgínia Woolf mostra um lado belicoso que não é fácil reconhecer em seus romances e contos. Ela ataca a crítica - "resenhistas nós temos, mas não críticos" -, achando-a contraditória na avaliação dos contemporâneos, nunca coincidindo nas opiniões, mas emitindo os mesmos comentários generosos sobre autores mortos e consagrados.

Nem é preciso ler o subtexto do livro para descobrir as preocupações da autora. Ela busca o reconhecimento do lugar que ocupa na moderna literatura inglesa. Sempre que pode é generosa e condescendente com seu tempo e com o esforço de escrever: "Nenhuma época pode ter sido tão rica quanto a nossa em escritores determinados a expressar as diferenças que os separam do passado e não às semelhanças que os conectam com ele". Embora poucas linhas adiante mergulhe no pessimismo: "Livro após livro nos deixam com a mesma sensação de promessa malograda, de pobreza intelectual, de brilho que foi roubado da vida, mas não transmutado em literatura". E como leitora apaixonada, também aponta defeitos nos autores que ama, para mais adiante reconhecer nesses mesmos defeitos as qualidades que os consagraram.

Todos os ensaios discorrem sobre a permanência e o esquecimento dos livros. E sobre o leitor, o único capaz de mantê-los vivos, através da leitura. Virgínia Woolf temia o esquecimento a que tanto se refere. Insiste na crença do autor na sua obra: "Basta acreditar, nos surpreendemos a dizer, e tudo o mais virá por si mesmo". E parece aceitar um lugar menos privilegiado na história: ... "seria sensato aos escritores do presente renunciar à esperança de criar obras-primas". E um pouco mais esperançosa: "É dos cadernos do presente que as obras-primas do futuro são feitas".

Sentimos que "O leitor comum" foi escrito por uma leitora apaixonada, que também era romancista. Existe um quase enredo entremeando os capítulos, o amor aos livros e seus autores, e um incitamento permanente ao ato de ler. Amor irrestrito, não apenas ao que foi consagrado, mas também ao que desponta. Insegura, talvez, quanto ao futuro do que escrevia, Virgínia Woolf condescende: "Toda literatura, à medida que o tempo passa, tem seus montes de entulho, seus registros de momentos findos e vidas esquecidas contados em tom vacilante e medíocre que se deterioram. Mas ao se entregar aos encantos da leitura de certas tolices você pode se surpreender, ser deveras conquistado, pelas relíquias da humanidade que foram banidas do que se considera modelo".

"O leitor comum" é uma relíquia que nos conquista.

Texto do Terra Magazine.


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quinta-feira, maio 28, 2009

A perda de referências na cidade em movimento – O hospital Lazzarotto

A perda de referências na cidade em movimento – O hospital Lazzarotto


O Hospital Lazzarotto ficava na avenida Assis Brasil, ali perto da Volta do Guerino.

Eu não sei porque a Volta do Guerino se chama Volta do Guerino, mas fica ali onde a avenida Assis Brasil se encontra com a Plínio Brasil Milano, e com a Brasiliano Índio de Moraes, entre o Passo d'Areia e o IAPI.

Era um hospital de referência em cardiologia. Minha mãe hospedou parentes e amigos que vinham da cidade de Rio Grande para receber tratamento no Lazzarotto. E atendia a saúde pública.

Mas um dia o hospital fechou. Não sei o motivo, mas fechou.

E por muitos anos aquele prédio vazio ficou ali na Assis Brasil. Quem sabe um dia pudesse ser reativado?...

Algum tempo atrás ele começou a ser demolido.

Rapidamente o prédio vazio passou a um monturo. E depois a um terreno vazio.

Em breve algum novo empreendimento imobiliário na zona norte de Porto Alegre.



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quarta-feira, maio 27, 2009

Uma ex-combatente polonesa

JADWIGA JELENSKA MIELZYNSKA (1916-2009)

A história de uma ex-combatente polonesa

ESTÊVÃO BERTONI
DA REPORTAGEM LOCAL

"Tendo como pano de fundo a história e a perversidade das tiranias, Jadwiga consegue o prodígio de narrar uma tragédia familiar de modo objetivo e sem ressentimentos", escreveu Maria Adelaide Amaral na contracapa.
O livro se chama "Pão Amargo" e foi escrito em polonês por Jadwiga Mielzynska. Traduzida para o português, a obra conta a história de uma ex-combatente polonesa mandada para a Sibéria durante a Segunda Guerra com a mãe e os três filhos.
No caso, a própria Jadwiga, que, em 1953, veio ao Brasil com a filha Mariela -as únicas que sobreviveram.
Filha de fazendeiros, teve quatro irmãos, um deles morto no campo de concentração de Auschwitz.
"Somos católicos. Os judeus não foram os únicos a serem mortos nos campos pelos nazistas", diz Mariela.
Ainda durante o conflito, trabalhou como enfermeira. Com o marido, que reencontrou na guerra, morou no Egito, na Inglaterra e na Argentina, onde se separou.
Formada em letras, gostava de matemática e "fez de tudo um pouco", antes de virar orientadora de estatística na pós-graduação da PUC (Pontifícia Universidade Católica). Conhecedora de história, escreveu três livros.
Jadwiga morreu na quinta (14), aos 92, em consequência de problemas cardíacos. Deixa uma filha, três netos e cinco bisnetos. A missa será no dia 1º de junho, pois a família aguarda a chegada da neta que mora na China.

Do obituário da Folha de São Paulo, de 25 de maio de 2009.


É uma tragédia familiar curiosa. Ela foi deportada junto com os filhos para a Sibéria (na sequência de Katyn?). Um irmão morreu em Auschwitz. É uma história que mereceria ser melhor conhecida neste “Pão Amargo” citado.


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terça-feira, janeiro 20, 2009

Memória: Carlo Giorgio Strazza (1919-2009)

CARLO GIORGIO STRAZZA (1919-2009)

Preso pelos dois lados na Segunda Guerra

ESTÊVÃO BERTONI
DA REPORTAGEM LOCAL

Carlo Strazza, combatente da divisão aérea italiana, chegou a ser abatido duas vezes durante a Segunda Guerra (1939-1945). Na segunda, foi preso pelos russos. Assim como outros prisioneiros, passou frio e fome, teve de andar quilômetros, mas escapou com vida. Na volta para casa, foi preso pelos alemães, ex-aliados -a Itália mudara de lado. Carlo considerava-se um privilegiado por ter sobrevivido. Natural de Nápoles, ao chegar finalmente em casa, na cidade de Camogli, em 1946, pesava apenas 49 kg. Gostava de recordar o passado: não se dizia arrependido de nada e condenava as atrocidades cometidas pelos dois lados do conflito. Em 1949, conseguiu um emprego no Brasil, país quejá conhecia -aos 15, havia feito uma viagem de navio pela América. Exerceria funções administrativas numa companhia dos Matarazzo. Anos depois, ficou sócio numa empresa de estruturas metálicas, especializada na construção de torres de comunicação. Em 1960, viajou pelo mundo -conheceu mais de 30 países. Apaixonado pelo mar, tinha o sonho de cruzar oceanos num veleiro. "Ele era rebelde", brinca o enteado. Viúvo havia quatro anos, não teve filhos. Morreu no domingo, aos 89, em consequência de um AVC (acidente vascular cerebral). Lutava contra um câncer no pâncreas. A missa de sétimo dia será hoje, às 11h, na igreja São José, em SP.

Obituário da Folha de São Paulo, de 12 de janeiro de 2009.

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segunda-feira, dezembro 29, 2008

Lévi-Straus a dois (?)

Lévi-Strauss a dois

RIO DE JANEIRO - Claude Lévi-Strauss, o antropólogo francês, está fazendo 100 anos. Em 1935, ele era um jovem marxista com uma visão mecânica da vida, como tantos. Mas veio para o Brasil, embrenhou-se no mato com os nossos bororos e nambiquaras, comeu do cru e do cozido, e isso abalou suas certezas. Em 1955, a experiência rendeu-lhe um livro, "Tristes Trópicos".
Nos anos 50, Lévi-Strauss já acusava o homem de ser o vilão da ecologia, quando os dicionários ainda não tinham chegado a um acordo nem sobre o significado da palavra. Contrariando o espírito da época, também nunca aceitou a idéia de que, com a alfabetização em massa, o progresso da humanidade seria fatal -quem éramos nós para sair alfabetizando populações que viviam tão bem sem o alfabeto?
Por defender a necessidade de preservar as identidades étnicas e culturais, combateu a idéia da globalização ainda no berço. Para ele, a globalização conduziria à uniformização, à anulação das diferenças -e o fim das diferenças levaria à indiferença, que é uma das piores pragas que poderiam nos afligir. Pois é o que está acontecendo, e bem que ele avisou.
Minha geração tem vários motivos para ser grata a Lévi-Strauss. Em 1968, um pretexto infalível para um rapaz e uma moça se encontrarem era ler e discutir o último livro do autor da moda. Eram grandes noites, que, de fato, começavam pela leitura de um capítulo do livro, geralmente o primeiro. Mas nunca se chegava ao segundo.
Naquele ano, o campeão disparado de tais leituras era "Eros e Civilização", de Herbert Marcuse. Mas, então, "Tristes Trópicos" saiu no Brasil, e Lévi-Strauss tomou-lhe o lugar. Eu tinha 20 anos, morava no Solar da Fossa, em Botafogo, e era incrível como não se passava uma noite sem uma discussão a dois sobre Lévi-Strauss.

Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo, de 26 de novembro de 2008.

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