segunda-feira, junho 21, 2010

Escritor português José Saramago morre aos 87 anos

Escritor português José Saramago morre aos 87 anos

O escritor português José Saramago morreu nesta sexta-feira em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, Espanha, aos 87 anos.

Saramago, criador de obras como O Evangelho Segundo Jesus Cristo, A Viagem do Elefante e Ensaio sobre a Cegueira, se tornou, em 1998, o primeiro e único escritor em língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de Literatura.

O escritor passou recentemente vários períodos hospitalizado devido a problemas respiratórios.

A Fundação José Saramago informou que o escritor morreu às 12h30 (hora local, 7h30 em Brasília) em sua casa em Lanzarote "em consequência de falência múltipla dos órgãos, após uma prolongada doença. O escritor morreu acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila", segundo o jornal português.

De acordo com o jornal português Público, o estado de saúde do escritor, que estava doente, era "estável", mas a situação teria se agravado de acordo com o editor de Saramago, Zeferino Coelho.

'Estável'

Saramago nasceu na aldeia portuguesa de Azinhaga no dia 16 de novembro de 1922 e, apesar de se mudar aos dois anos de idade com a família para a capital, Lisboa, a aldeia teve uma importância constante em sua vida e foi citada em 1998, quando Saramago tinha 76 anos de idade, no discurso perante a Academia Sueca pela atribuição do Nobel de Literatura.

Seu primeiro livro foi publicado em 1947, Terras do Pecado, um fracasso comercial que contava a história de um camponês em crise.

O título original proposto por Saramago, Viúva, foi alterado por imposição da editora, que o considerava pouco comercial. Esta seria uma das razões pela qual Saramago resistia a incluí-lo na sua bibliografia.

O romance seguinte, Claraboia, foi recusado pelo editor e permanece inédito até hoje.

O escritor trabalhou então como crítico literário e, a partir de 1968, entrou para o Partido Comunista Português, no qual militou até sua morte.

A partir da década de 60, Saramago também desenvolveu um intenso trabalho jornalístico, trabalhando em jornais em jornais como Diário de Notícias e Diário de Lisboa.

Em 1975 o escritor chegou ao cargo de diretor-adjunto do Diário de Notícias, mas foi demitido naquele mesmo ano e decidiu virar escritor em tempo integral.

Volta à literatura

A partir da década de 80, Saramago lança seus romances mais famosos. É de 1980 o livro que é considerado uma das obras fundamentais do escritor, Levantado do Chão, uma história sobre os trabalhadores da região do Alentejo, que fala sobre assuntos como reforma agrária.

O livro que rendeu fama internacional ao escritor, Memorial do Convento, foi lançado em 1982 e se tornou um dos mais estudados e discutidos trabalhos do escritor.

Em seguida, Saramago lançou outras obras famosas como o Ano da Morte de Ricardo Reis, em 1984, História do Cerco de Lisboa, em 1989.

Em 1991 o escritor lançou um dos mais polêmicos livros de sua carreira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, com uma abordagem polêmica da história de Jesus.

Logo depois do lançamento deste livro, em 1993, Saramago se muda para Lanzarote, devido à oposição ao romance por parte do governo de direita de Portugal, que o considerou ofensivo aos católicos.

O governo do Partido Social Democrata, na época, vetou o romance para o Prêmio Europeu de Literatura.

Em 1995, Saramago lança Ensaio Sobre a Cegueira, que seria adaptado para o cinema pelo cineasta Fernando Meirelles em 2008.

Em setembro de 2008 Saramago lançou seu blog, chamado de O Caderno de Saramago.

Na época, o escritor afirmou que o espaço iria trazer "o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice".

A compilação dos posts de Saramago no blog foi publicada em 2009, trazendo textos nos quais o escritor criticava o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e o papa.

O último livro de Saramago, Caim, também foi lançado em 2009.

Falando à BBC em junho de 2009, o escritor afirmou que "posso ter três, quatro anos de vida, talvez menos".

"Toda vez que termino um livro, espero por outra ideia, que pode não vir desta vez, vamos ver."


Notícia da BBC Brasil.

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segunda-feira, março 08, 2010

Simon Axler sai de cena

Simon Axler sai de cena

QUANTAS vezes, leitores? Quantas vezes pensamos que a nossa vida seria melhor se os outros a tornassem melhor? No trabalho, na amizade. No amor, especialmente no amor. A crença patética, e tão moderna, de que seremos salvos por terceiros.
Salvos por alguém: as falhas e os medos que não soubemos resolver em privado, de nós para nós, serão sublimados e redimidos pela generosidade de estranhos. Nunca são. Nunca podem ser. Onde quer que estejamos; com quem quer que estejamos, nós também estaremos lá. Com todas as falhas, com todos os medos e com a evidência dolorosa de que ambos foram amplificados pelo desespero do náufrago. Quem acredita no amor como uma forma de salvação não merece amor nem salvação.
Mas como evitar esse ato de fé? Olhem para Konstantin Gavrilovich, uma das grandes personagens trágicas do teatro. Em "A Gaivota", de Tchécov, Konstantin não escreve nem ama para cumprir um desígnio inegociável, interior; para ser, em evocação de Rilke nas cartas ao jovem poeta, o que não pode deixar de ser.
Ele escreve e ama como os infelizes mendigam: esperando ver nos outros e receber dos outros o que ele não vê ou possui em si próprio. Algum talento, ou o reconhecimento desse talento. Algum afeto, ou a reciprocidade desse afeto. Alguma redenção, ou a possibilidade de uma redenção. Konstantin termina como começara: só e perdido.
Disse "Konstantin", mas poderia ter dito "Simon Axler", personagem de Philip Roth em novo livro que revisita Tchécov e dividiu a crítica. Não dividiu a mim. E repito o que escrevi nesta Folha a respeito de "Indignação" ou "Homem Comum": os grandes livros de Roth não são mais os livros grandes, como "Fantasma Sai de Cena" ou "Complô contra a América". O melhor de Roth está hoje em pequenas narrativas despojadas de qualquer ornamento literário: peças de velhice, sobre a velhice, e por isso habitadas por toda a urgência.
"The Humbling" (ainda não lançado no Brasil) é a história banal de um homem extraordinário: o referido Simon Axler, ator com carreira longa e emérita, que perde o talento sem explicação racional. Uma noite, em cima do palco, as palavras desaparecem. Corrijo. As palavras não desaparecem. Pelo contrário, tornam-se presentes, dolorosamente difíceis e presentes, como se houvesse nesse excesso de consciência a descoberta fatal, aterradora, da profunda artificialidade de tudo. Cada frase, cada gesto, cada pausa ou silêncio -analisados obsessivamente, desencantadamente, até a paralisia. Axler é uma sombra de Axler.
A sanidade entra em regressão. O casamento definha e desaparece. O suicídio, ou a tentação do suicídio, começa o seu namoro infernal. Mas então acontece o último ato da peça existencial de Axler: uma mulher mais jovem entra em cena para contracenar com um homem preparado para sair dela. O cenário é Roth "vintage", concedo, e há quem desista de Roth precisamente por isso: por essa repetição de uma repetição de uma repetição. Aviso que o desencanto é desnecessário: a relação de Axler e Pegeen não é só, como em narrativas anteriores de Roth, o pretexto para que noções de "desejo" e "dever" (o dilema essencial do autor) cumpram a sua dialética macabra.
Em "The Humbling", o amor de Axler por Pegeen é uma forma de respiração artificial: como Konstantin em "A Gaivota", Axler respira com o oxigênio de terceiros. Alenta-se com esse oxigênio, revive com ele e até se concede a um futuro porque ele existe, porque Pegeen existe, e não porque Axler existe. Haverá forma mais perversa de existência? Não creio. Nenhuma sombra sobrevive à extinção da luz que lhe dá uma aparência de vida. Resta saber se Axler resistirá ao momento banal, demasiado banal, em que, para citar o próprio Roth, "ela [Pegeen] queria apenas libertar-se dele e satisfazer o desejo comum e suficientemente humano de seguir em frente e tentar algo de novo".
Durante anos, quando lia ou assistia à citada peça de Tchécov, acreditava sempre que Konstantin talvez pudesse ter sobrevivido se Nina o tivesse amado; se Arkadina, a mãe, o tivesse amado; ou até, em profissão de fé literária, se Konstantin tivesse perseguido a sua arte por amor à arte, e não em competição fátua com Trigorin. Philip Roth destroça essas crenças românticas. Ao encenar literalmente o último ato de "A Gaivota", e ao conceder a Axler o papel de Konstantin, Roth concede ao seu personagem um último regresso e uma última verdade: a de que somos nós, e apenas nós, os autores primevos da nossa perdição, ou da nossa clemência.

Texto de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo, de 5 de janeiro de 2010.

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segunda-feira, março 01, 2010

Estado de Emergência

Estado de emergência


O romancista Martin Amis descreve uma visita que fez ao escritor John Updike, internado em um hospital, e reflete sobre o sistema de saúde dos EUA e o "American way of life"

MARTIN AMIS


Os EUA estão doentes com a saúde: os EUA, onde derrames e ataques cardíacos vêm acompanhados de uma etiqueta de preço e onde médicos agem como locadores de barracos em favelas ou criminosos que lucram com guerras. E os americanos admiram isso -essa triagem que passa pelo bolso.
John Updike [1932-2009], ou o fantasma de John Updike, ficaria interessado (mas não surpreso) ao descobrir que, no ano de sua morte, aconteceu uma rebelião nas bases contra o sistema de saúde defendido pela administração atual.
Os americanos acreditam na autoridade descentralizada, na escolha individual e no que chamam de "responsabilidade fiscal" (ou seja, impostos muito baixos); eles rejeitam o "Estado babá", que, escandalosamente, protege o cidadão apático "do berço até o túmulo".
Os americanos pagam por sua chegada e sua saída deste mundo -chegadas caras e saídas realmente exorbitantes.
Meu único encontro cara a cara com John Updike -uma entrevista de duas horas- aconteceu em um hospital de Massachusetts (onde ele seria submetido a cirurgia para a extração de uma verruga pré-cancerosa da mão direita). Foi em 1987; eu tinha 38 anos, e ele, 55.
E 22 anos mais tarde, em 27 de janeiro de 2009, John Updike sucumbiria ao câncer de pulmão -em um hospital de Massachusetts.
Naquele dia de verão, a cafeteria do hospital, chocante por suas dimensões, era cenário de todas as variedades possíveis de debilidade.

"Gostamos da vida"
Em meio a essa morbidez, Updike estava intensamente vivo. A hiperatividade de suas impressões sensoriais era palpável -quase audível. "Meu Deus", disse com alegria, "estamos cercados por todo tipo de americanos doentes! Olhe para os óculos daquela mulher."
Uma senhora passou por nós, tateando para se orientar, usando o que poderiam ser óculos de proteção de um soldador. "Acho que ela realmente não quer que luz nenhuma chegue a seus olhos... Meu Deus, olhe para ele. Olhe para os ombros dele! Veja as pernas daquela menina."
Sobre o porquê de gostarmos de determinados personagens literários, Updike é inequívoco: "Gostamos da vida".
Gostamos da vida; e a vida ainda é vida, mais vida ainda, possivelmente, quando se encontra ameaçada não apenas pela enfermidade, mas também pela mais aguda pressão financeira. Sim, estamos nos EUA, onde a doença representa um desastre duplo (e onde os custos médicos contribuem para 62% das falências).

Voo em um 747
Updike estava eufórico, fascinado, absorto; Updike estava vivo. Recordamos as rebeliões somáticas, as reviravoltas horríveis e as épicas internações hospitalares suportadas por Coelho Angstrom, o anti-herói da série de romances de Updike -Coelho, tão exuberante e dinâmico (e também frouxo e esclerótico) quanto a América que personifica.
E dramas e ansiedades médicas iriam se intrometer cada vez mais na ficção posterior de Updike. Mas talvez "A Cidade", conto de 1981 da coletânea "Confie em Mim" [ed. Rocco, esgotado], se destaque como a visita mais agudamente cristalizada feita por Updike à terra dos doentes.
"Uma obra de perfeição joyciana", disse eu. Na realidade não é inteiramente perfeita e não é nem um pouco joyciana, para mérito dela. "A Cidade" é puro Updike: ao mesmo tempo embaraçosamente íntimo e grandiosamente universal.
A primeira oração nos insere no clima ("Seu estômago começou a doer no avião, quando os motores mudaram de intensidade para a descida"), e a segunda nos dá a primeira contração nervosa de negação ou da busca por uma causa aproximada: "Carson primeiro atribuiu sua dor aos amendoins salgados e liofilizados" -no avião, consumira dois pacotes deles, com um coquetel de uísque, no meio da manhã.
Ao desembarcar, ele continua, vingativamente, a responsabilizar os amendoins. Na fila do táxi, o primeiro sintoma decisivo o convence a faltar a seus compromissos e ir diretamente ao hotel: "Uma onda repentina e transparente de náusea, como um mergulho no voo do 747".
Ele visita a farmácia do hotel e então compra o remédio patenteado já familiar: um vidro de Maalox.
"O remédio tinha gosto de giz, era desagradável e, após um instante de hesitação, deu à dor um toque novo, como se fosse pela ação de minúsculos dentes arenosos."
Reunindo os últimos fiapos de sua força de vontade (e desejoso de ouvir uma voz humana), telefona para a recepção. Um jovem recepcionista recomenda alegremente o pronto-socorro do hospital da cidade.


"Quando chega a conta, essa é a parte realmente dolorosa; todos os americanos têm seguro... com milhões de exceções, é claro"


Doença e pobreza
Após um percurso de duração "surpreendente" em um táxi, ele chega à "mansão vasta e reluzente"; ele espera "entregar por completo o peso de seu corpo, mas, em vez disso, se viu obrigado a carregá-lo através de uma série de novos esforços -formulários a serem preenchidos, comprovantes a serem fornecidos de sua capacidade financeira de estar doente".
Essa última frase, com sua pequena ironia encabulada, é o primeiro reconhecimento, feito no conto, desse barbarismo peculiar americano: a sinergia fatal entre saúde pública e ganho particular.
Updike, como homem, aceita o "American way", mas, como artista, tem consciência de suas deformações. Sua mente subliminar sabe que estar doente nos EUA não é como estar doente em qualquer outro lugar. E não pode ser certo, pode?
Que a desigualdade persiga você até seu leito de morte?
Os agentes médicos que processam Carson não demonstram nenhuma empatia vocacional; são aparições "esquivas" que dão a impressão de ter coisas muito melhores a fazer e de que deveriam, na realidade, estar em outro lugar -num jantar, digamos, ou de outro modo imersos em "um festivo mundo doméstico" do qual Carson "despencou há muito tempo".
Adoecer invariavelmente envolve um rebaixamento do eu; se você é americano, esse rebaixamento é também socioeconômico. É bastante simples: se você se sentir doente nos EUA, também se sentirá pobre.
Após uma bateria de exames, é levado a um leito na área de espera. Durante a noite, ele abre os olhos, e um médico novo e mais grandioso o está observando: "Ele tinha muita consciência de que, embora o horário devasso e o ambiente indecoroso se tivessem tornado seu habitat próprio, o médico era saudável e deveria ter uma casa decente, uma família, uma rotina à qual retornar".

Dólares e centavos
Uma apendicite é triunfalmente diagnosticada; o cirurgião de ar divino o operará imediatamente; a "promoção de status" de Carson infunde um novo "esprit de corps" na equipe médica; "sobre rodas macias e velozes", ele flutua para o teatro de operações.
A felicidade persiste e se ramifica, e a segunda metade de "A Cidade" é uma das odes de Updike ao renascimento comunitário -renascimento no ambiente americano harmônico.
O renascer envolve uma regressão. O polido cirurgião lhe dá instruções breves "sobre comer e andar e ir ao banheiro -todas coisas que teriam que ser aprendidas de novo".
Agora a realidade conspira para agradá-lo, e sua gratidão chega a tudo que o cerca.
Nesse momento, Carson já não sangra nada mais perigoso que dólares e centavos. Seus médicos indiferentes, sempre prestes a partir para algum lugar mais agradável, passam para vê-lo -por um preço.
Mas ele é americano e não nota isso: "Todos faziam suas visitas de maneira tão agradável e casual -como se estivessem apenas dando uma passada por ali- que Carson ficou espantado, meses mais tarde, ao descobrir que cada visita estava marcada, com data e hora, nas folhas de serviços do hospital cuja fatura lhe foi enviada num relatório extenso feito em impressora matricial".

Olhos ocupados
"Joyciano, você acha?", perguntou Updike quando nosso encontro chegava ao fim. "Em sua perfeição. Ou quase perfeição"
"Bem, nada é perfeito. Um poema curto pode ser perfeito, mas um conto de qualquer comprimento em pouco tempo fica aberto aos "pecados naturais da linguagem". Na frase de [T.S.] Eliot."
Eu disse: "Você sabe que Nabokov, quando lecionava, costumava atribuir notas aos contos que eles estudavam. A pior nota que ele deu foi um Z menos, mas Joyce ganhou um A triplo mais por "Os Mortos" [de "Dublinenses']. Talvez desse a você a mesma nota por "A Cidade". Ele disse que amava sua prosa, é verdade?"
"Disse. Assinou sua cartinha "cordialmente". Foi bastante minimalista, essa cartinha. Fez-me desconfiar que Nabokov só amava minha prosa quando ela elogiava a prosa de Nabokov... Eu estava querendo perguntar: você já leu "Finnegan's Wake" [de Joyce]?"
"Inteiro? Não. Apenas o começo, o fim e alguns trechinhos no meio."
"Eu também. Mmm. Surpreendente. Achei que você tinha o ar de um homem que tivesse lido "Finnegan's Wake"."
Eu me senti lisonjeado -provavelmente de modo equivocado. Que tipo de ar seria esse, afinal? Obsessivo, de óculos grossos, onanista.
"Nabokov descreveu "Ulisses" como "um livro nobre'", falei.
"Mas chamou "Finnegan's Wake" de "um ronco na outra sala"... Não me conformo com o ar alegre dessas pessoas. Elas estão no hospital. E isso lhes está custando os tubos."
"Quando chega a conta, essa é a parte realmente dolorosa.
Mas todos os americanos têm seguro. Com a exceção dos milhões que não têm, é claro."
"Isso me parece grotesco. Pagar a conta." Ele falou: "A medicina socializada pareceria grotesca a nós.
Não pagar, não poder escolher, não dispor de sua panóplia de poderes discricionários -quando se trata de algo tão importante quanto a vida e a morte. Seria antiamericano".
Os leitores atuais de "A Cidade" ficarão surpresos com quanto se fuma no hospital de Updike. Mas havia uma seção de fumantes também na cafeteria do Mass General, e após alguma hesitação perguntei se poderíamos nos transferir para lá por dez minutos: "Enquanto fumo um cigarro".
"Sim, é claro", disse ele. Updike saudou a transferência para outra mesa: ela lhe proporcionou mais americanos doentes aos quais olhar. "Isto também é grotesco", falei. "Fumar em um hospital.
Bom, imagino que deve ser bom para os negócios."
"Invejo você. Eu parei."
Hoje, olhando a metragem dos livros de Updike em minhas estantes, tenho dificuldade em acreditar que ele tenha sido viciado em qualquer coisa senão na ética do trabalho. Ah, e na vida, é claro.
Aqueles seus olhos ocupados, a expressão de sua boca (como se contivesse com dificuldade uma euforia imensa e misteriosa), seus cabelos em formato de turbante ainda crescendo fortes, suas mãos na bandeja de chá tão mais firmes que as minhas ("deixe que carrego isso") -as minhas, que tremeram diante do tamanho e do vigor de sua presença e seu talento.
Naquele dia no hospital Mass General, John Updike estava vivo.




MARTIN AMIS
é inglês, autor de "The Pregnant Widow" (A Viúva Grávida, sem previsão de lançamento no Brasil) e "Casa de Encontros" (Cia. das Letras). A íntegra deste texto saiu no "The Times". Copyright: 2009 Martin Amis.
Tradução de Clara Allain .

Texto publicado no caderno Mais! da Folha de São Paulo, de 14 de fevereiro de 2010.

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quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Duque

Duque


ISABELA SEVERO


Não é por nada, mas eu já nasci sendo rejeitado. É o que eu acho, o que todos aqueles psiquiatras tentam entender. Dizem fiquei assim por causa do meu pai. Um dia eu o conheci... Talvez seja um problema ter um pai que faleceu dois dias depois de você nascer. Mas para mim não faz diferença.


Ser o caçula e sentir um instinto paternal pelos irmãos mais velhos era o que me mantinha responsabilizado. O tempo passa, cada um no seu caminho, na sua própria vida. E eu, o único que continua aqui, agora sem estas responsabilidades. O que significa, óbvio, que eu sou um inútil.


E o que resta? Me sento em um sofá feio e rasgado, confessando o quanto queria voltar a ser criança. Meus pensamentos inocentes e imortais, se transformam em sonhos justos de um futuro morto. Me pergunto todos os dias porque ainda estou aqui. Na minha cabeça, ser adulto é como ter no sangue um veneno colossal.


Tanta coisa acontecendo na minha vida, apesar dos dias solitários que ocupam a maior parte dela. Ninguém quer chegar perto de mim e isso me deprime. Quem sabe eu tenho cara de assassino? Era o meu apelido na faculdade.


Ainda bem que, finalmente, me livrei do pesadelo. Nem sei porque eu fiz, vai ver porque meu irmão me obrigou, ou para provar a mim mesmo que não sou completamente descartável. Vão em frente, psiquiatras, digam o que há de errado comigo.




SEVERO, Isabela. In: SEVERO, Ariane et al. Ditadura, Anistia e Greve Geral 30 anos depois. Porto Alegre: Martins Editora, 2009. (Oficina de Criação Literária Alcy Cheuíche, SindBancários, 2009).


O livro citado acima foi publicado após uma oficina de criação literária realizada no Sindicato dos Bancários, em 2009. A autora se apresenta como tendo nascido em 14 de junho de 1996, portanto com 13 anos atualmente. Custo a acreditar. Para mim foi um talento que se destacou entre os sete autores que li até o momento. São treze autores ao total no livro. E o fato de Isabela Severo se destacar não significa que os outros seis autores que já li são maus autores. Mas ela é um talento precoce, e, para mim, invejável.


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segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Mister Magic em Campo Seco

Quando o ônibus deixou-o em frente àquela casinhola desamparada, Mister Magic pensou que fosse um engano. Apenas no momento em que leu o cartazete afixado na porta, com os dizeres "Rodoviária de Campo Seco", é que teve a triste certeza de que aquele era o lugar. Tratou de abrigar-se logo da chuvinha gris que deformava ainda mais as casas pobres do lugarejo, em cujas ruas reinava um silêncio estranho de deserto, e entrou na saleta da estação, onde um casal de velhos parecia esperar o próximo ônibus há muitos anos. Ninguém mais por ali, além do vendedor pendurado no guichê sonolento. Mister Magic remexeu nos bolsos e tirou deles uma papeleta amarrotada.

"O Hotel Real, por favor?"

O atendente mantinha toda sua atenção estranhada naquele recém-chegado carregando uma valise vermelha e tão variados apetrechos, mas lembrou-se de responder:

"Reto nesta rua, duas quadras, em frente à praça." E, como se fosse necessário informar: "É o único hotel da cidade".

Mister Magic olhou para os seus sessenta anos e todas as tralhas que há tanto o acompanhavam e achou que merecia um táxi. Mas o dinheiro contado na carteira negava-lhe este luxo e o contrato só lhe oferecia alimentação e hospedagem, além do cachê vergonhoso que aceitara sem hesitar; assim, resolveu enfrentar aos saltos aquela chuva que, mais tarde, lhe cobraria algum preço. Duas quadras não eram o fim do mundo; aquela cidade talvez fosse.

"É bom o hotel?"

"O melhor da cidade", respondeu o outro, como se contasse uma piada.

Mister Magic riu apenas por não ter outra coisa a fazer, enquanto recolhia os apetrechos recém-desembarcados. Quando levantou do solo a valise vermelha que lhe fazia as vezes de bagagem, sentiu novamente nas mãos aquele tremor cada vez mais constante e que tanto o assustava.

As duas quadras lhe pareceram quilômetros de distância e a garoa teimava em vencer, com a ajuda daquele vento puro dos descampados, as frágeis defesas do guarda-chuva amarelo que também usaria à noite, no espetáculo. Quando chegou ao hotel, trêmulo e com os ossos úmidos, suas seis décadas de vida pesavam como uma centúria e sua figurinha miúda tentando um resto de imponência causaria risos em qualquer um se não despertasse tanta pena.

"Boa tarde", cumprimentou o atendente, a voz sumida. "Tem uma reserva em meu nome. Mister Magic."

O homem olhou-o com uma dó que ia além de sua pobre figura; mirou-o como se fosse o arauto de uma tragédia:

"Ah, o senhor é o mágico? Infelizmente, a reserva foi cancelada."

O chão faltou, por um momento, às pernas magras de Mister Magic, mas ele recompôs-se logo: um artista internacional sempre é maior do que as pequenas adversidades.

"Deve haver algum engano. Eu tenho uma apresentação aqui, hoje à noite. No Clube Comercial. Fui contratado pela Prefeitura, é um espetáculo comemorativo ao aniversário da cidade. Quarenta e três anos de emancipação." Ele desfiava informações como se estas tivessem o poder de resolver a situação.

"Eu sei", disse o homem do hotel, compreensivo. "Parece que a apresentação foi cancelada. Mas quem vai lhe explicar melhor é o secretário do prefeito. Ele pediu que eu ligasse assim que o senhor chegasse." E, condoído ante a velhice solitária que se enxergava atrás da pequena pose de artista, disse: "Sente, que em cinco minutos ele vai estar aqui".

"Bom."

O mágico atendeu ao pedido como se cumprisse uma ordem. Sentou-se numa das poltronas plásticas do saguão, gastas por tantos anos, e nada disse enquanto aguardava o secretário. Agradeceu com um gesto o copo de água que o homem lhe trouxe, embora preferisse uma xícara de café, e destinou o tempo a tentar acalmar-se e pensar na grande merda que era a solidão de sua vida: noites maldormidas em pensões baratas, apresentações em cirquinhos perdidos na história, coelhos assustados em aniversários infantis, os anos na estrada empoeirada dos caminhos pobres, os amores fugazes que nem deixavam nome, seis décadas de carteira vazia. E este tremor nas mãos, agora.

Quando o secretário do prefeito chegou e viu aquele velhinho estático e sentado na poltrona como se não estivesse ali, pensou que não seria fácil a conversa.

"Boa tarde, Mister Magic."

O velho pareceu levar um choque e voltou assustado de suas lembranças solitárias. Levantou-se com dificuldade e estendeu a mão ossuda para o recém-chegado.

"Boa tarde", respondeu. "O senhor poderia me explicar o que está acontecendo?"

O secretário parecia constrangido.

"É que a apresentação foi cancelada." E, ante os olhos esbugalhados do velho: "Nenhum ingresso vendido".

À falta do que dizer, o mágico sentou-se novamente, sentindo com mais força a umidade das calças; se não tivesse direito a um banho quente e roupas secas logo, amanhã estaria com febre e sem ter quem o cuidasse. Por isso, precisava resolver a situação. Nenhum ingresso vendido, pensou: ninguém mais se interessava por mágica. E ele era um homem velho e miserável perdido numa cidadezinha descampada onde ninguém iria ajudá-lo a não ser por dó.

Mas também era o artista, e esta aura precisava de alguma valia.

"Não divulgaram direito, com certeza. E por que não me avisaram?"

"Ligamos para o hotel onde o senhor mora. Disseram que já havia saído. Aí, já não dava para fazer nada."

O mágico quis contemporizar; quanto mais rápido tudo estivesse resolvido, melhor.

"Tudo bem. E o meu cachê?"

"A Prefeitura paga a metade." O secretário estendeu-lhe um cheque.

A metade de nada é nada, pensou Mister Magic. Mas era isso e pouco havia a discutir. Fora de casa somos menores, pensou o mágico, esquecendo que não tinha casa.

"Está bem." Ele pegou o cheque, as mãos em surpreendente calmaria, e leu a quantia com dificuldade, olhos gastos ansiando por descanso. "E agora o senhor me dê licença. Este corpo velho precisa de um banho."

Novamente, o secretário tinha dificuldade de esconder o constrangimento.

"A Prefeitura paga o cachê, mas não paga o hotel."

De novo, a velhice solitária desabando em suas costas. Sem trabalho e pouso, um cheque mirrado no bolso, a gripe batendo à porta, ninguém a estender-lhe a mão. Não podia dar-se ao luxo de um hotel; não tinha dinheiro para isso. Teria que tomar o próximo ônibus de volta, seis horas molhadas e cada vez mais frias invadindo a madrugada, os sessenta anos gritando em protesto e transformando em dores a sua vingança. Viera para uma apresentação, um jantar garantido, uma noite quentinha; voltava sem nada disso.

O mundo não quer mais saber de mágica, pensou.

O homem do hotel olhou aquele velho sentado na ponta da poltrona, como se não quisesse estragá-la com seu peso inexistente, e percebeu que ele não aguentaria uma viagem de volta ainda no mesmo dia. Estavam vagos alguns dos quartos mais baratos — cama, pia, banho coletivo.

"Se o senhor fizer uma apresentação para os outros hóspedes, pode ficar por aqui esta noite."

"São quantos hóspedes?", perguntou o mágico.

"Uns seis ou sete."

O velho soube, na hora, que a oferta era só comiseração. Enfim.

"E a diária é com café da manhã?"

"Com café da manhã."

Mister Magic levou alguns segundos para responder o que já estava decidido desde o primeiro instante da proposta.

"Está bem."

* * *

Naquela noite, num hotel perdido de uma cidade-fantasma, apresentando-se em troca de cama e comida, seis hóspedes sonolentos assistindo sem luzes ao espetáculo da humilhação, Mister Magic só conseguia pensar, enquanto se atrapalhava com suas mãos cada vez mais trêmulas, que se a mágica servisse para alguma coisa, certamente deveria existir algum truque que o fizesse desaparecer dali.

Texto de Henrique Schneider, visto no Digestivo Cultural.

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Mais Martinez: Eloy Martinez e o Voo da Rainha

Por cid cancer

nassif, creio que o belo post do jornalista evaldo novelini em seu blog “alfarrábios” (www.evaldonovelini.com.br) sobre a morte do escritor argentino tomás eloy martínez e o silêncio corporativista da mídia em relação a seu livro “o voo da rainha”, que trata, obliquamente, do assassinato de sandra gomide pelo jornalista antonio pimenta neves, poderia ser compartilhado pelos leitores.

Soberba

10/02/2010 – 12:27:45
A morte de qualquer pessoa deixa a humanidade mais pobre.

Quando ela ceifa bons escritores, ao menos, consola o fato de terem deixado uma obra como legado.

É o caso do argentino Tomás Eloy Martínez, que morreu em 31 de janeiro último, aos 75 anos.

Extremamente culto e arguto, teve uma carreira literária profícua. E brilhante.

Natural de Tucumán, conta a história que começou a escrever aos dez anos de idade.

Posto de castigo por haver fugido, foi privado da leitura. Enquanto cumpria a punição imposta pelos pais, resolveu escrever o conto de um garoto que resolve viajar o mundo escondido em um selo postal. Foi seu primeiro livro.

Daí em diante não parou mais. Familiares contaram a jornalistas que, mesmo perdendo a luta vital contra o tumor cerebral, Martínez sentava-se diariamente diante de um computador para concluir seu último romance, El Olimpo.

Morto, Martínez ganhou necrológios justos de praticamente toda a imprensa mundial, desde The New York Times até El País. Menos no Brasil, para variar.

Os jornalões brasileiros mais uma vez erraram. Não que tenham deixado de recontar a história do escritor argentino, mas falharam por conta do corporativismo que assola a imprensa tupiniquim e empobrece o debate, até mesmo o literário.

Quem conhece a obra de Martínez percebeu na hora, ao término da leitura dos obituários dedicados a um dos mestres da escrita latino-americana, que a chamada grande imprensa não aprendeu uma das lições do escritor: a busca incansável pela verdade.

Não houve erros, mas omissão.

É fato que, “como jornalista, [Martínez] fundou diários, foi correspondente internacional, dirigiu e colaborou com diversas publicações”, conforme se leu na Folha de S. Paulo.

O argentino, como também lembrou como exatidão O Estado de S. Paulo, fez do peronismo o tema de algumas de suas obras mais vendidas e era “um escritor aferrado à palavra e à verdade”.

Sim, o livro mais famoso do escritor argentino é mesmo Santa Evita (1995), que relata o desaparecimento do corpo embalsamado de Eva Duarte Perón (1919-1952) por 16 anos, de 1955 a 1971. Consta que foi traduzido em 30 países.

Mas, no Brasil, a obra mais comentada de Martínez é outra. Trata-se de O voo da rainha, de 2002. Só quem conhece o conteúdo do volume e o quanto a imprensa nativa é parcial e omissa quando convém a seus interesses pôde entender por que as menções ao livro em todos os jornais de grande circulação, sem exceção, limitaram-se a dizer que foi o ganhador do prêmio Alfaguara, “uma das principais distinções a autores de língua espanhola”, segundo a Folha.

Sobre o quê falava o tal livro, porém? Nenhuma linha.

O voo da rainha é um romance com chaves, ou roman à clef, na expressão francesa. Trata-se de um recurso literário empregado por alguns escritores para ocultar sob pseudônimos pessoas e acontecimentos reais. O leitor com o mínimo de argúcia, no entanto, junta as peças e facilmente descobre a realidade disfarçada.

Pois O voo da rainha, escrito dessa forma, reconta em suas 279 páginas a história de um crime passional e covarde perpetrado pelo jornalista Antonio Pimenta Neves em 20 de agosto de 2000. Então diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, e não se conformando com o término de um romance com a colega Sandra Gomide, resolve assassinar a ex-namorada com dois tiros pelas costas, em um haras localizado em Ibiúna (SP).

- Não Pimenta, não!, teriam sido as últimas palavras dela.

- A Folha está informando sobre o caso com mais rigor e detalhe que O Estado. Será que eu preciso estar aí para que saibam o que deve ser feito? Você não tem ninguém que saiba contar direito uma história de amor e traição?, teria reclamando Neves a seu imediato na redação do jornal no dia seguinte, quando, ainda na condição de foragido da justiça, cotejou a cobertura do crime feita pelos dois principais veículos de São Paulo.

A presunção do assassino que, ainda com as mãos sujas de sangue, preocupara-se em humilhar e dar aulas de jornalismo a seus subordinados serviu de mote para Martínez escrever o belo O voo da rainha.

Gregório Magno Pontífice Camargo é Pimenta Neves. Reina Remis é Sandra Gomide. El Heraldo é a Folha de S. Paulo; El Diario, O Estado.

O livro foi lançado pela Objetiva na coleção Plenos Pecados. Convidados, sete autores escolheram um dos pecados capitais para sustentar um romance.

Zuenir Ventura, em Mal secreto, tratou da inveja.

José Roberto Torero, em Xadrez, truco e outras guerras, da ira.

Luis Fernando Verissimo, em O clube dos anjos, da gula.

João Ubaldo Ribeiro, em A casa dos budas ditosos, da luxúria.

João Gilberto Noll, em Canoas e marolas, da preguiça.

Ariel Dorfman, em Terapia, da avareza.

Com O voo da rainha, Tomás Eloy Martínez fechou a série abordando a soberba.

E que personagem mais adequado para explorar orgulho, arrogância e presunção do que um jornalista brasileiro?

Ao falar do amigo Martínez, em artigo para O Estado de S. Paulo, Ariel Dorfman relembrou uma lição deixada pelo colega, que foi destacada no título do texto, em letras garrafais:

- Se algo não é contado, não vale a pena existir.

Por isso os jornais brasileiros omitiram o roteiro de O voo da rainha?

Porque, para eles, o assassinato de Sandra Gomide por Pimenta Neves, por constrangedor, não vale a pena existir?

Talvez essa seja a chave.

Também visto no blog do Luís Nassif.

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A morte de Tomás Martínez

Por Sérgio Troncoso

Morre escritor argentino Tomás Eloy Martínez aos 75 anos.

Morreu na noite desse domingo o escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez, 75 anos, vítima de um câncer. Autor de Santa Evita, a novela argentina mais traduzida na história do país, e também de O romance de Perón, livro em que narra a vida do presidente Juan Domíngo Perón e de sua segunda esposa, Eva Perón, Martínez foi colunista dos diários La Nacion, The New York Times e do espanhol El País.

Nascido em 1934 na cidade de San Miguel de Tucumán, na província de Tucumán, Tomás Eloy Martínez iniciou sua carreira como revisor, no jornal La Gaceta, mas logo se tornou repórter e, mais tarde, crítico de cinema. Considerado um dos grandes jornalistas da história recente da Argentina, Martínez passou pelas principais publicações do país, como o semanário Primera Plana, o Opinión Cultural e a revista Panorama. Professor universitário e autor de mais de dez livros, Martínez fez parte do grupo que criou o importante diário Página 12, além de ter sido o primeiro diretor do telejornal Telenoche.

Ameaçado pela Aliança Anticomunista da Argentina, Martínez ficou exilado em Caracas, na Venezuela, de 1975 a 1983, onde trabalhou como editor do jornal El Nacional e fundou o El diario de Caracas. Martinéz também foi responsável pela fundação do jornal Siglo XXI em Guadalaraja, no México. Com passagem por Paris, onde trabalhou como repórter, e também pelos Estados Unidos – onde lecionou na Universidade de Maryland – Tomás Eloy Martínez ganhou, em 2002, o prêmio Alfaguara, um dos mais importantes prêmios do espanhol, por seu livro “O voo da rainha”.

Em 2009, o jornal espanhol El País concedeu ao jornalista e escritor o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo, distinção dada aos autores de trabalhos publicados em espanhol em todo o mundo. Também no ano passado, no dia 24 de junho, Martínez passou a integrar a Academia Nacional de Jornalismo. Seu último livro de literatura, Purgatório data de 2008

http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI4238823-EI13419,00-Morre+escritor+argentino+Tomas+Eloy+Martinez+aos+anos.htm


Visto no blog do Luís Nassif.

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terça-feira, janeiro 12, 2010

Clarice Lispector

Escrever é procurar.
Clarice Lispector

Certa vez uma amiga mencionou um livro de Clarice Lispector numa entrevista de emprego num grande jornal e foi rechaçada: “Por que você gosta dela? Você é deprimida?”. O entrevistador foi eleito há pouco tempo para a Academia Brasileira de Letras e com a cultura nacional com esse tipo de luminar, não surpreende que a reflexão sobre a mais importante autora do país venha de fora, das mãos do americano Benjamin Moser. “Clarice,” (no original em inglês, “Why this world?”) é uma excelente biografia daquela que Moser classifica como “a melhor escritora judia desde Kafka” e descreve como “uma mulher que se parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virgina Woolf”.

A família Lispector enfrentou provações trágicas em sua Ucrânia natal. Com o caos da guerra civil que se seguiu à Revolução Russa, a população judaica foi alvo de massacres tanto pelos comunistas quanto pelos monarquistas. Um dos avôs de Clarice foi assassinado num pogrom, e sua mãe, estuprada por um grupo de soldados russos. Contraiu sífilis, e a doença e o trauma psicológico acabaram por matá-la precocemente. Os Lispector conseguiram fugir da Ucrânia e foram para o Nordeste brasileiro, onde tinham parentes. Clarice ainda era bebê. Viveram em Maceió e no Recife e após a morte da mãe se mudaram para o Rio de Janeiro. A família tinha condições modestas de vida, mas as três filhas – Elisa, Tânia e Clarice – eram inteligentes, dedicadas e trabalhadoras. Todas se destacaram nos estudos e Elisa e Clarice tiveram carreiras como escritoras e profissionais liberais.

Clarice se formou em Direito – algo raro para uma mulher no Brasil da década de 1940. Ainda na faculdade, começou a trabalhar como jornalista e conheceu o escritor Lúcio Cardoso, por quem teve uma paixão platônica – ele era homossexual – e que foi amigo íntimo por toda a vida. Clarice era muito bonita e tinha diversos admiradores. Casou-se cedo com Mauro Gurgel Valente, um colega de universidade que se tornou diplomata. Como sua esposa, passou cerca de 15 anos no exterior, na Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos e Polônia.

Escrevia desde menina, quando seus contos eram rejeitados pelos suplementos infantis dos jornais por não seguirem as fórmulas convencionais do “era uma vez”. Publicou contos quando repórter e o primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem”, pouco antes de deixar o Brasil. O livro teve excelente recepeção, mas o longo período no exterior foi uma época difícil para Clarice. O marido era apaixonadíssimo por ela, tiveram dois filhos (um dos quais tornou-se esquizofrênico) e um círculo de amigos amplo e instigante, que incluía o escritor Érico Veríssimo, os jornalistas Samuel e Bluma Wainer, o poeta João Cabral de Mello Neto, o banqueiro Walther Moreira Salles, a filha de Getúlio Vargas, Alzira do Amaral Peixoto e os diplomatas Vasco Leitão de Cunha e João Araújo Castro. Ainda assim, Clarice com frequencia ficava deprimida e com saudades do Brasil e da família. Ressentia-se do formalismo e dos protocolos da vida diplomática, e tais sensações aparecem no que escreveu na época, sobretudo o romance “A Cidade Sitiada”.

A correspondência de Clarice com os amigos no Brasil foi farta e muito calorosa, Moser faz excelente uso delas na biografia. Destacam-se as cartas para as irmãs e para os escritores Lúcio Cardoso, Fernando Sabino e Rubem Braga. Além de mantê-la a par das novidades, ajudavam com sua carreira literária e tentavam lhe encontrar editores. Ela fazia sucesso junto a um círculo restrito de admiradores, mas tinha dificuldade em publicar. Seu estilo introspectivo e mesmo sua aparência, nome e sotaque causavam estranhamento, como se fosse estrangeira.

Clarice terminou se separando do marido e voltando em definitivo ao Brasil no início da década de 1960, vivendo no Rio até morrer em 1977. Foi uma fase de grande produtividade artística e literária, com reconhecimento público crescente e a publicação de seus livros mais celebrados, como “A Paixão Segundo G.H.”, “Laços de Família” e “A Hora da Estrela”. Mas também momentos pessoais de solidão, isolamento, depressão, a doença mental do filho, problemas com o abuso dos tranquilizantes e dificuldade de aceitar o envelhecimento.

Moser analisa de maneira clara os principais temas da obra de Clarice – a impossibilidade em se ajustar ao cotidiano, a ruptura caótica que se esconde em gestos banais, a dificuldade em se abrir para os outros, a procura de uma identidade e de um lugar no mundo. Credita esse aspecto sombrio à trágica história familiar dos Lispector, mas também mostra o lado luminoso de Clarice: as invenções linguísticas, as relações ternas com crianças e animais. Um lado muito interessante são os pontos em comum entre sua literatura e o misticismo judaico, de Spinoza aos cabalistas, sobretudo no que diz respeito à procura (ou invenção) de Deus e sobre a incapacidade das palavras expressarem a realidade.

Este texto é originário do blog Todos os Fogos o Fogo.

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segunda-feira, dezembro 07, 2009

Machado, Euclides, Nabuco

Três gigantes

RIO DE JANEIRO - Não é nada, não é nada, é quase um tudo. Tivemos no ano passado o centenário de Machado de Assis, que foi comemorado "ad nauseam". Mesmo assim muita coisa ficou sem ser dita a respeito de um homem que foi e continua sendo um caso no panorama cultural brasileiro.
Neste ano, temos Euclides da Cunha, outro caso que dá o que pensar sobre a importância de personalidades dentro e acima de qualquer história. Embrião de Guimarães Rosa e Glauber Rocha, marcado pela tragédia e pelo quixotismo, que o fez quebrar a espada de oficial numa cerimônia militar, Euclides está sendo pensado e repensado como um dos pais fundadores de nossa civilização.
Finalmente, temos Joaquim Nabuco, cujo centenário, no ano que vem, já está sendo planejado pela Academia Brasileira de Letras, que, por sinal, lhe deve muito de sua fundação. Curiosamente, os três gigantes de nossa paisagem cultural estiveram juntos na mesma academia. Foram além de simples escritores, interessados na forma e no encanto das palavras. Pensaram grande sobre a condição humana, sobre o homem brasileiro, sobre a nação da qual permanecem como intérpretes principais.
Machado, Euclides e Nabuco são momentos da história do Brasil, cada qual em seu setor, mas juntos pelo amor ao ofício do pensamento e das letras. Neste particular, Euclides foi o mais exagerado, subordinando muitas vezes o pensamento à perfeição da forma. Ao publicar a segunda edição de "Os Sertões", ele apertou ao máximo o limite de sua linguagem. Não mexeu no conteúdo, mexeu apenas na forma.
Hoje, como é natural em tempos de dúvida e de incertezas, quando cada acadêmico da ABL reavalia a sua presença naquela instituição, se absolve em foro íntimo por estar na casa que foi de Machado, Euclides e Nabuco.

Texto de Carlos Heitor Cony, de 18 de agosto de 2009.


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quarta-feira, setembro 30, 2009

Genial (sobre Clarice Lispector)



Na crescente cobertura externa de Brasil, que agora avança sobre a cultura, a "Economist" acompanha os jornais americanos e europeus e dá longa resenha da biografia de Clarice Lispector, "um dos gênios mais obscuros das letras modernas". Na legenda, com ironia, "Se ao menos nós pudéssemos entender"

Na coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo, de 21 de agosto de 2009.

A imagem com legenda tem crédito para Haus Publishing/economist.com.


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domingo, setembro 13, 2009

Um livro de Ondjaki, angolano

Obra de Ondjaki volta à Luanda dos anos 80

DA REPORTAGEM LOCAL

Na Luanda dos anos 80, o português confundia-se com o espanhol e o russo na tranquila praia do Bispo, onde o escritor Ondjaki, 31, foi criado.
Em meio à Guerra Fria, os angolanos conviviam com cubanos e soviéticos e tinham a paz de sua rotina ameaçada por estes últimos, empenhados em construir no local um mausoléu para o presidente Agostinho Neto, morto em 1979.
As lembranças que o autor tem daqueles tempos servem de base para "AvóDezanove e o Segredo Soviético", que tem lançamento nesta quinta, na Livraria da Travessa, no Rio.
Mas, como ele próprio ressalta, a história "torna-se ficção desde o primeiro instante".
"Qualquer visão da realidade, escrita num livro de ficção, é já um multifacetado espelho para novas interpretações. Fica muito difícil delinear a fronteira entre o que houve e o que não se passou bem assim", diz o autor, o mais celebrado nome da nova geração na literatura africana, que hoje vive no Rio.
No romance, dois meninos criam um plano mirabolante para evitar perder as suas casas para a obra no local. É um "exercício do que poderia ter acontecido", afirma o autor, que registra "os desejos e as conversas das crianças que testemunhavam uma mudança radical no seu bairro".
Conhecido por suas narrativas marcadas pela oralidade, Ondjaki celebra esse olhar infantil e o encontro de linguagens em Luanda numa escrita que transborda ironia. Um dos personagens russos, Bilhardov, por exemplo, vira para as crianças o "camarada Botardov" por causa do modo como se dirigia às pessoas em qualquer hora do dia -"bótard", tentando dizer "boa tarde". (RC)


AVÓDEZANOVE E O SEGREDO SOVIÉTICO
Autor: Ondjaki
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 36 (192 págs.
) Lançamento: qui., às 19h, na Livraria da Travessa (av. Afrânio de Melo Franco, 290, RJ, tel. 3138-9600)

Texto da Folha de São Paulo, de 23 de junho de 2009.

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Um livro de Mia Couto, moçambicano

Mia Couto vê o fim do mundo

Moçambicano chega ao Brasil para falar sobre seu novo romance e participar de eventos de teatro

Obra trata da busca pelo esquecimento no país do escritor; em SP e no Rio, ele também comenta as adaptações de seus textos


RAQUEL COZER
DA REPORTAGEM LOCAL

Depois que o mundo acabou, um lugarejo chamado Jesusalém tornou-se o lar do que restou da humanidade -Silvestre Vitalício, os dois filhos, um tio dos meninos, um serviçal e, vá lá, a jumenta Jezibela, "tão humana que afogava os devaneios sexuais" do velho Vitalício.
Mas um dia Mwanito, o filho mais novo, vê uma mulher e desaba em lágrimas, porque achava que não havia mais nenhuma delas na Terra. É a partir desse ponto, entre o fim e o começo da existência, que se desenrola "Antes de Nascer o Mundo", o mais recente romance do moçambicano Mia Couto. O livro tem lançamento simultâneo no Brasil e em Portugal, Angola e Moçambique.
Por aqui, Couto, 53, um dos maiores nomes da literatura africana contemporânea, desembarca nesta semana para uma série de eventos. O primeiro acontece nesta quinta, em São Paulo, quando o autor lança o romance na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Embora a descrição da história de "Antes de Nascer o Mundo" lembre algo de realismo fantástico, é de uma realidade bem próxima do autor que o romance trata. Jesusalém, "a terra onde Jesus haveria de se descrucificar", é um lugar como tantos outros que o escritor conheceu em seu país.
"No interior de Moçambique deparei com famílias que viviam numa quase completa condição de marginalidade. Estavam aparentemente longe de tudo. Trabalhei com essas comunidades e reparei sempre que, depois de um primeiro olhar, a ligação umbilical com o mundo de hoje estava presente", ele diz à Folha.
É dessa ligação que Vitalício, o líder do lugarejo, tenta se livrar. Mais precisamente, da lembrança que o mundo real lhe traz -a morte de Dordalma, mãe de seus filhos. A tentativa de apagar o passado é também uma fuga da guerra que, durante 16 anos, fez quase 1 milhão de mortos no país.
"Os moçambicanos escolheram o esquecimento. Quem hoje viaja pelo país não sente sinal nenhum dessa guerra. Esse esquecimento é uma sabedoria, uma percepção de que os demônios do passado ainda não foram enterrados. Mas é um falso esquecimento, como quase sempre sucede com os lapsos de memória", diz Couto.

No teatro
Os outros eventos de que o autor participa no Brasil são ligados ao teatro. Nesta sexta-feira, ele participa de um bate-papo no Sesc Avenida Paulista, onde está em cartaz a peça "O Outro Pé da Sereia", adaptada do romance homônimo do autor pela Cia. Fábrica São Paulo.
No dia 3 de julho, faz palestra no Sesc Ginástico, no Rio, dentro do Festlip -0Festival de Teatro da Língua Portuguesa (www.talu.com.br/festlip), que reúne 11 espetáculos de seis países.


ANTES DE NASCER O MUNDO
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 42 (280 págs.)
Lançamento: qui., às 19h, na Livraria Cultura do Cj. Nacional (av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3170-4033)

Texto da Folha de São Paulo, de 23 de junho de 2009.

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domingo, julho 12, 2009

Joyce, Dostoiévski e uma ex-namorada

Joyce, Dostoiévski e uma ex-namorada

Tony Monti
De São Paulo

Grupos sociais costumam ter histórias que ajudam a sustentar e a definir seus valores. Deste modo, além de outras possíveis relações, as narrativas compartilhadas moldam a identidade e os laços que unem os elementos do conjunto. Escolas são assim. Há histórias lendárias sobre alunos, professores e funcionários. Da Faculdade de Letras, onde estudei, gosto bastante de uma anedota que às vezes se conta.

O professor Alfredo Bosi dava aula para o primeiro ano. Na audiência, meninos e meninas, a maioria com não mais que vinte anos. O professor olha para a sala com a voz mais baixa que o normal, anunciando algo especial e chamando a atenção da classe. "Quem aqui já leu Dostoiévski?" Quase todos levantam a mão, parte deles mentindo por causa da vergonha de não ter lido um autor clássico. Em seguida o professor pede que a cena se inverta, que abaixem as mãos estes, e que os demais levantem as mãos. Uma parte mínima da sala insiste em dizer que ainda não tinha lido nada deste autor. Três ou quatro. O professor então olha nos olhos de um e de outro e diz "invejo vocês por terem a chance de o ler pela primeira vez".

É claro que, depois disso, o valor de Dostoiévski cresceu ainda mais entre os alunos. A história desta aula do primeiro ano entra na rede de significados ligados ao autor, para quem a ouviu. Para mim, Dostoiévski chegou de outro modo. Eu namorava uma menina que tinha em sua estante, ao lado da cama, meia dúzia de títulos do autor. Ela o adorava. Fora isso, o nome sempre aparecia em uma conversa ou uma leitura, em qualquer lugar. Antes de começar a ler Crime e Castigo, o livro tinha já histórias em torno dele, textos que conformavam minhas expectativas e minhas disposições. Abri o livro com respeito e calma para superar as primeiras páginas, se ali não houvesse recompensas, pois segundo o que os demais textos me anunciavam, recompensa haveria em algum momento.

Relaciona-se a esta intertextualidade o meu hábito de não ler resenhas de cinema antes de ver os filmes. Gosto de no cinema estar mais sujeito à surpresa, já que em literatura, por causa do trabalho, não é fácil me esconder da informação. Lembro de quando fui assistir DogVille e, em meia hora de filme, notei que conhecia a atriz principal. Meia hora depois percebi que era a Nicole Kidman, reconhecimento que me trouxe uma satisfação momentânea. Se tivesse lido uma resenha sobre o filme, perderia este pequeno prazer íntimo. Ainda assim, foi preciso que eu tivesse alguma informação sobre o filme para que eu pagasse o ingresso. Neste caso, eu sabia quem era o diretor. Em outros casos, pode ter sido qualquer coisa: um ator, a recomendação de um amigo, um cartaz, um título curioso. Enfim, um texto.

Um texto não é um objeto isolado. Não é um objeto, é uma prática ligada a outras diversas práticas. Borges falou algo interessante sobre isso (algo que outros também devem ter falado, mas foi ele quem me alertou). Um texto se relaciona sempre com os textos seguintes, prepara a leitura. Mais do que isso, e está aí um ponto curioso, um texto que eu leia hoje pode alterar os significados de textos do passado. A relação é íntima, dinâmica e intensa assim.

Às vezes, inclusive, as histórias dos livros podem ser razoavelmente desconhecidas apesar de gerarem muito texto em torno delas. O Ulisses, do Joyce, por exemplo, é um livro que ninguém lê e que todo mundo comenta. Outro professor da USP, o José Pasta, disse em aula que, quando comprou o livro, anotou a lápis a data do dia da compra e a data de vinte anos depois, que vinte anos era o tempo que se dava para lê-lo. Como pode um livro que ninguém lê estar em quase todas as listas dos melhores romances da história? Como pode ser tão comentado? Acho que parte da resposta está em que o texto não se encerra entre as capas do livro, estende-se em toda sua infinita rede de relações com outros textos, sejam eles críticos, literários, anedóticos como os dos professores ou o modo como minha ex-namorada me falava sobre Dostoiévski.

Texto do Terra Magazine.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

John Updike, cronista da cidade pequena americana, morre aos 76 anos

John Updike, cronista da cidade pequena americana, morre aos 76 anos

The New York Times

Christopher Lehmann-Haupt

John Updike, o escritor caleidoscopicamente dotado cujo quarteto de romances "Coelho" foi um destaque em um corpo de obra de ficção, poesia, ensaios e críticas tão vasto, multiforme e lírico a ponto de colocá-lo na primeira divisão dos autores americanos, morreu na terça-feira em Danvers, Massachusetts. Ele tinha 76 anos e vivia em Beverly Farms, Massachusetts.

A causa foi câncer, segundo uma declaração da Knopf, sua editora. Um porta-voz disse que Updike morreu no Hospice of the North Shore, em Danvers.

Entre as dezenas de livros de Updike, talvez nenhum tenha capturado a imaginação do público leitor mais do que aqueles sobre cidadãos comuns em ambientes urbanos e de cidade pequena. Seu protagonista mais conhecido, Harry "Coelho" Angstrom, apareceu pela primeira vez como um ex-astro do basquete colegial preso em um casamento sem amor e um trabalho de vendedor que odeia. Por meio dos quatro romances cujos títulos levam seu nome - "Coelho Corre", "Coelho em Crise", "Coelho Cresce" e "Coelho Cai" - o autor traça a vida engraçada, desassossegada e indagadora de seu americano de classe média tendo como fundo os grandes eventos do último meio século.

"Meu assunto é a classe média americana protestante de cidade pequena", disse Updike para Jane Howard em 1966, em uma entrevista para a revista "Life". "Eu gosto do cidadão de classe média", ele prosseguiu. "É no meio que os extremos entram em choque, onde a ambiguidade reina inquietamente."

Impressionantemente laborioso e prolífico, Updike produzia três páginas por dia de ficção, ensaios, críticas ou poesia, provando a máxima de que várias páginas por dia resultam em pelo menos um livro por ano -ou mais. Updike publicou 60 livros em sua vida; seu último, "My Father's Tears and Other Stories", será publicado em junho.

"Eu escreveria anúncios para desodorantes ou rótulos para frascos de ketchup se fosse preciso", ele disse à "The Paris Review" em 1967. "O milagre de transformar idéias em pensamentos, pensamentos em palavras e palavras em metal, impressão e tinta, nunca me cansa."

Philip Roth disse na terça-feira: "John Updike é o maior homem das letras de nosso tempo, tão brilhante como crítico literário e ensaísta quanto como romancista e escritor de contos. Ele é e sempre será um tesouro nacional tanto quanto seu precursor do século 19, Nathaniel Hawthorne. Sua morte representa uma perda imensurável para nossa literatura".

John Hoyer Updike nasceu em 18 de março de 1932, em Readind, Pensilvânia, e cresceu na cidade vizinha de Shillington. Ele foi o único filho de Wesley Russell Updike, um professor colegial de matemática descendente de alemães, e Linda Grace (Hoyer) Updike, que posteriormente também publicou ficção na revista "The New Yorker" e em outros lugares.

Após concluir o colégio como co-orador da turma e presidente da classe, Updike frequentou Harvard com uma bolsa de estudos. Apesar de se formar em inglês e ter escrito e editado o "The Harvard Lampoon", ele prosseguiu em uma carreira de desenhista. Em 1953, ele se casou com Mary Entwistle Pennington, formada em belas artes por Radcliffe.

Ao se formar com louvor em Harvard em 1954, ele obteve uma Bolsa Knox na Escola Ruskin de Desenho e Belas Artes, em Oxford. Em junho daquele ano, seu conto "Friends from Philadelphia" foi aceito, juntamente com um poema, pela "The New Yorker". Foi um evento, ele disse posteriormente, que permaneceu "a estréia extática da minha vida literária".

Após o nascimento de sua primeira filha, Elizabeth, o casal voltou para os Estados Unidos e Updike passou a escrever para a "The New Yorker".

Em 1959, Updike já tinha concluído três livros - um volume de poesia, "The Carpentered Hen and Other Tame Creatures", um romance "The Poorhouse Fair" e uma coleção de contos, "The Same Door"- e os publicou pela Alfred A. Knopf, que permaneceu sua editora por toda sua carreira. De 1954 a 1959, ele publicou mais de uma centena de ensaios, artigos, poemas e contos na "The New Yorker".

Em "Casais Trocados" (1968), seu quinto romance, Updike explorou as relações sexuais em uma comunidade de jovens casados. "Casais Trocados", que se tornou um best-seller, foi notavelmente franco sobre sexo para a época e se tornou conhecido por suas descrições longas e frequentemente líricas do ato sexual.

Com o quarteto "Coelho", Updike lançou seu olhar aguçado a um mundo ainda maior. Enquanto "Coelho Corre" apresenta sua narrativa no tempo presente da sordidez doméstica de classe operária, suas três sequências, publicadas em intervalos de 10 anos, abrangem a experiência americana da segunda metade do século 20: "Coelho em Crise" (1971), a turbulência cultural dos anos 60; "Coelho Cresce" (1981), os tempos de boom dos anos 70, a crise do petróleo e a inflação; e "Coelho Cai" (1991), situado em um tempo que Coelho chama de "Reinado de Reagan", com sua guerra comercial com o Japão, sua epidemia de Aids e o atentado terrorista a bomba ao vôo 103 da Pan Am, sobre Lockerbie, Escócia.

Em 1974, Updike se separou de Mary e se mudou para Boston, onde lecionou brevemente na Universidade de Boston. Em 1976, os Updikes se divorciaram e no ano seguinte ele se casou com Martha Ruggles Bernhard.

Além de sua esposa, Martha, ele deixa seus filhos David, de Cambridge, Massachusetts, e Michael, de Newburyport, Massachusetts; suas filhas Miranda, de Ipswich, e Elizabeth, de Maynard, Massachusetts; três enteados, John Bernhard, de Lexington, Massachusetts, Jason Bernhard, do Brooklyn, Nova York; e Frederic Bernhard, de New Canaan, Connecticut; sete netos por parte dos filhos e sete netos por parte dos enteados.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Texto do The New York Times, no UOL.


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O escritor-padrão dos EUA

O escritor-padrão dos EUA

ANTONIO CALLADO
ESPECIAL PARA A FOLHA

De uma forma abrangente, geral, seria possível dizer que John Updike foi o escritor de maior êxito no mundo de hoje. Ele certamente não foi tão popular e lido em toda a parte quanto Gabriel García Márquez, nem foi tão prezado pelos cultores da arte literária quanto contemporâneos seus do calibre de Borges, Beckett ou Nabokov.
No entanto, como romancista, como poeta, como ensaísta e cronista, Updike chegou a um extraordinário e equilibrado nível de qualidade e popularidade. E, finalmente, passou a ser, na sua geração, o representante mais completo do intelectual americano. É o escritor-padrão da nação que é, de longe, a mais poderosa do mundo.
A geração imediatamente anterior à de John Updike produziu nos Estados Unidos três excelentes romancistas: William Faulkner, Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald. Diferentes entre si, vigorosos e originais, os três ergueram a ficção americana ao nível das grandes do mundo. Faulkner absorveu o que havia na ficção do seu tempo para eternizar as angústias do Deep South. Quanto aos outros dois, refletiram e retrataram a totalidade da sua nação, Fitzgerald celebrando a riqueza crescente, o puro êxtase, meio arrogante, do homem que busca todos os triunfos, e Hemingway tentando manter viva nesse mundo hedonista a figura do herói. "Suave É a Noite", dizia Fitzgerald num título de romance, "Por Quem os Sinos Dobram", replicava Hemingway em outro. Ilustrando ambos as próprias ficções, morreu o primeiro num crepúsculo alcoólico, pobre, esquecido, e Hemingway enfiou na boca o cano de um fuzil de caça e apertou o gatilho.
A geração seguinte cresceu num império tranquilo, consolidado, que se reflete na obra culta, inteligente, e, digamos assim, caseira, de Updike. Sua série do personagem Harry Rabbit Angstrom ["Coelho Corre", "Coelho em Crise", "Coelho Cresce", "Coelho Cai" e "Coelho Se Cala"] vale quase por uma história dos Estados Unidos em nosso tempo. Updike abandonou esse herói, que o acompanhou durante tantos anos, mas não abandonou o dia-a-dia da vida do país. O romance que publicou em 1992 se chamou "Memories of the Ford Administration". O título não pode ser mais explícito.

Ensaio e crítica
Mas não foram só esses romances que Updike escreveu, e alguns dos outros são deliciosos, como "Couples", o das intrigas sexuais, ou "Roger's Version", em que o herói procura Deus no computador. John Updike é, além disso, um refinado contista e um poeta leve, despretensioso, mas frequentemente tocante, como os brasileiros podem ajuizar pelo poema "Rio de Janeiro", que ele publicou em "The New Yorker" ao regressar aos Estados Unidos, depois de visitar o Brasil em março de 1992.
No entanto, se tudo indica que os romances de Updike terão sempre uma posição honrosa na literatura dos Estados Unidos e que seus contos e poemas também figurarão em antologias vindouras, seu lugar, talvez o mais certo, no futuro é o de ensaísta e crítico de ideias, ao lado de contemporâneos eminentes como George Steiner ou de clássicos do gênero de William Hazlitt.
À segurança do julgamento crítico, ao invariável bom gosto, ao toque de malícia e elegância do texto, o ensaísta Updike aliou sempre os ingredientes fundamentais: a cultura vasta, a incansável disposição de pesquisa. Um ensaísta dessa estirpe é tão raro quanto um grande romancista, contista, poeta.

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 28 de janeiro de 2009.

TEXTO INÉDITO DE CALLADO FOI ESCRITO EM 92

Em 1992, o escritor Antonio Callado (1917-1997) escreveu, a convite da Folha, um comentário sobre a obra e a trajetória do autor norte-americano John Updike -que a seu ver já teria chegado, naquele momento, "a um extraordinário e equilibrado nível de qualidade e popularidade". Na época, o jornalista e autor de romances como "Quarup" e "Reflexos do Baile" era colunista da Ilustrada. O texto, que permaneceu inédito, arquivado no Banco de Dados, é agora publicado postumamente.

Esclarecimento da Folha de São Paulo, sobre o texto anterior.


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quarta-feira, janeiro 28, 2009

Morreu John Updike


E morreu o escritor norte-americano John Updike.


Eu recebi a notícia olhando o Jornal Nacional nesta terça-feira (27/01/2009), não muito depois de ter chegado em casa. Foi um certo choque, pois recentemente eu havia lido não me lembro onde que o escritor estava trabalhando em um novo livro, que na verdade, ele sempre iniciava o ano pensando em seu novo e próximo livro. Se uma pessoa está sempre pensando em novos projetos, eu imaginei que a saúde de Updike estivesse muito bem, obrigado. Engano. Os obituários informam que John Updike faleceu em decorrência de um câncer no pulmão. Bem, câncer de pulmão não é algo que se contraia num dia e se morra dias depois, como costuma acontecer com processos infecciosos.


Não li muita coisa de John Updike, embora a morte do escritor não tenha reduzido meu interesse pela obra dele. O primeiro livro de Updike que li foi “Roger's Version”, que aqui no Brasil saiu traduzido com o título de “Pai Nosso Computador”, uma obra sobre o Roger do título, um professor de teologia, de uma faculdade que resolve apoiar o desenvolvimento de um projeto de um aluno que pretende criar uma versão cibernética factível do processo da Criação descrito na Bíblia. Mas a ação é centrada em Roger, sua vida (vidinha?) rotineira, seus desejos sexuais reprimidos e manifestos, a maneira como lida com certas dificuldades.


Depois tive a oportunidade de ler os quatro capítulos da saga (?) de Harry “Rabbit”Angstron, da série “Coelho”: Coelho Corre, Coelho em Crise, Coelho Cresce, Coelho Cai. É realmente interessante acompanhar a trajetória de um personagem cujas histórias foram escritas com intervalos de 10 anos aproximadamente entre cada uma. E, de fato, pela série de livros sobre Harry Angstron, é possível se ter um certo panorama histórico, e talvez mental da história dos Estados Unidos entre a década de 1950 e 1990, segundo membros de sua classe média.


Por fim, minha experiência com Updike terminou com “Na Beleza dos Lírios”, um romance onde ele fala de três gerações de uma família americana, invariavelmente tocando nos assuntos religião e sexo, para finalizar com uma versão fictícia, mas que parece fortemente influenciada pelos incidentes que envolveram uma seita em Waco, Texas, que acabou num tiroteio com a polícia americana, com mortos e feridos, e o incêndio de parte das instalações da seita, em 1993. Updike transfere “seu” incidente para o Colorado, mas a inspiração me pareceu evidente. Destas que li, me pareceu uma obra menor, com este final que parecia que o escritor queria explicar / exorcizar, o incidente do Texas, no qual acabaram por morrer dezenas de pessoas.


Li ainda hoje, na Folha de São Paulo, um comentarista que disse que John Updike não era “brilhante”. Não sei se era necessário que fosse brilhante ou genial. Foi prolífico, e nos deu um pouco mais de conhecimento sobre o mundo em que vivemos. Talvez pudesse ser descrito como um buscador, ou um tradutor, da alma do homem de classe média suburbana dos Estados Unidos. Fará falta.


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domingo, janeiro 06, 2008

Viver com as Imagens

Aos 26 anos de idade, Adolfo Bioy Casares (foto) escreveu seu primeiro romance, “A invenção de Morel” (publicado no Brasil pela Cosac Naify, com tradução de Samuel Titan Jr., prólogo de Jorge Luís Borges e posfácio de Otto Maria Carpeaux). Para Borges, uma ficção de índole policial. Para Carpeaux, uma história de ficção científica que trata da construção de uma máquina fantástica. Escrito em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, o livro de Casares é um bom texto para iniciar 2008, em um mundo saturado cada vez mais pela imagem e pelas fantasias de potência e imortalidade a um preço bem baratinho. Ao refletir sobre a invenção de Morel, o narrador afirma:

“Viver com as imagens é uma felicidade! A eternidade rotativa (das imagens) pode parecer atroz ao espectador, é satisfatória para seus protagonistas. Livres de más notícias e de enfermidades, vivem sempre como se fosse a primeira vez, sem recordar as anteriores. Para as imagens não existe uma próxima vez (todas são iguais à primeira)”.

“O fundamento do horror de ser representado em imagens, que alguns povos sentem, está na crença de que, ao se formar a imagem de uma pessoa, a alma passa para a imagem e a pessoa morre” (...) “Seria o caso de inventar um aparelho que permita averiguar se as imagens sentem e pensam – ou, ao menos, se têm os pensamentos e as sensações que passaram pelos originais durante a exposição; é claro que não será possível averiguar a relação de suas consciências (?) com esses pensamentos e sensações”.

Borges resume o argumento do livro de Bioy Casares com um trecho de uma música de Dante Gabriel Rossetti:

Estive aqui antes,

Mas quando e como não sei.

Conheço a relva além da porta,

O perfume doce e penetrante,

As luzes pela costa, os sons murmurantes...

No mundo espetacular das imagens, há cores, formas, sons e odores. Só falta a consciência da presença, da mortalidade. É um mundo povoado pela ausência e por uma fracassada ambição de imortalidade. Sem a consciência de si mesma, a imagem assume a forma de um fantasma a flanar pelo mundo, descolado daquilo que foi um dia (ou que poderia ter sido).

Marco Aurélio Weissheimer, no RS Urgente, em momento filosófico-literário.


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