Terça-feira, Novembro 10, 2009

Segundo Zé Cabala, o campeão brasileiro será o...

Segundo Zé Cabala, o campeão brasileiro será o...

O UOL pediu que eu fizesse as previsões para o Campeonato Brasileiro. Como não é minha especialidade, fui atrás de quem realmente entende do assunto, daquele que é o periscópio do amanhã, daquele que enxerga o nascer do sol em meio ao negrume da noite, daquele que vê a árvore apenas olhando a semente, o adivinho dos adivinhos, o insuperável Zé Cabala.

Mal cheguei ao seu consultório e ele já deu mostras de seu poder: “Eu sabia que você vinha”, disse o sábio dos sábios.

"Eu tinha marcado hora."

"Mas eu sabia que seu pneu não ia furar."

Depois de mais esta demonstração de poder, decidi não perder tempo e falei:

“Supino mestre, preciso de suas previsões para o resto do Campeonato Brasileiro.”

“Olhe, minha bola de cristal está um pouco embaçada...”

“O UOL me autorizou a pagar quinhentos reais pela previsão.”

“Quinhentão? Pagamento adiantado?”

“Claro.”

“Pois por esse generoso dízimo direi com quantos pontos acabará cada um dos seis concorrentes ao título. Serve?”

“Sim, sim”, respondi animado.

“Vou passar uma flanelinha em minha bola de cristal e já volto.”

Dois minutos depois estávamos sentados em volta de seu mágico instrumento, que, confesso, sempre me pareceu um lustre de cabeça para baixo. O supremo haríolo entoou um mantra (algo como “obladi-obladá”), passou as mãos pela bola, e pôs-se a profetizar:

“Vou começar pelo Internacional. Ela vai ganhar do Barueri, lá em Porto Alegre não terá problema em passar pelo Santos, ainda mais que Luxemburgo não escalará Madson e Neymar desde o começo, vai perder para o Atlético no Mineirão, vence o Sport e ganha do Santo André.”

“Hum, ótima campanha. E o São Paulo?”

Ele respirou fundo e falou: “O Tricolor empata com o Grêmio no Olímpico, tropeça no Vitória e só empata, e aí joga contra o Botafogo. Agora espere um pouco, com o Botafogo é mais difícil enxergar o futuro. Ah, sim,vejo um empate. Contra o Goiás, em Goiás, perde de um a zero, gol de Fernandão. E ganha do Sport no último jogo.”

“E o Palmeiras, venerável mestre?”

“Esse vai começar perdendo para o Flu. Desde que fiz um trabalhinho para o Fred, o rapaz deslanchou. Depois ganha do Sport, pobre Sport.... No Olímpico, perde para o Grêmio. Então enfrenta o Atlético Mineiro em casa. Joguinho difícil, mas ganha. E aí tem o Botafogo, no Rio. Vale triplo? Não? Então vou de Botafogo.”

“Pode ver alguma coisa sobre o Cruzeiro.”

“Está tudo azul para ele. Ganha do Sport lá na Ilha do Retiro. E do Grêmio, em casa. Empata com o Atlético Paranaense, em Curitiba. E vence o Coritiba, em Beagá. Na última partida, contra o Santos, vitória fácil. Ainda mais que Luxemburgo não vai escalar Madson e Neymar desde o começo.

“E o Atlético, e o Atlético?”

“O Galo vai vencer o Flamengo, empatar com o Coritiba e ganhará heroicamente do Inter. Então vai perder para Palmeiras e empatar com o Corinthians.”

“Por fim, diga-me como serão os últimos cinco jogos do Flamengo.”

“Ele vai perder para o Atlético Mineiro, ganha do Náutico e do Goiás, empata com o Corinthians, num bom jogo de Ronaldo, e, por fim, ganha do Grêmio em casa.”

“Ótimo, mestre, com estas previsões já posso saber quem será o Campeão Brasileiro. Deixe-me ver...”

Então fiz as contas e vi algo que me deixou estarrecido:

“Mestre, pelas suas previsões, os seis times terminarão com 64 pontos!”

“Se é o que eu disse, é o que eu disse.”

“Mas agora eu preciso saber quem será campeão pelos critérios de desempate. Vitórias, saldo de gols, ataque, cartões vermelhos...”

Ele apoiou os cotovelos na mesa, cruzou os dedos, descansou o queixo sobre eles e disse: “Sinto muito, meu caro, aí são outros quinhentos.”

Por Torero às 07h40



Recebi isto pelo e-meio e copiei aqui. Acho que é originário do blog do José Roberto Torero.


Marcadores:

O pagador do sucesso

O pagador do sucesso

RIO DE JANEIRO - São frequentes os atores de cinema que se transformaram em bons diretores. Os casos mais notáveis seriam Chaplin e Orson Welles, passando por Vittorio De Sica, que começou como galã do cinema italiano e terminou como diretor de obras-primas, como "Ladrões de Bicicletas", "Umberto D" e "Milagre em Milão".
Anselmo Duarte, em nível nacional, lembra sobretudo De Sica. Quando estreou na direção, com "Absolutamente Certo", a crítica reconheceu que o eterno galã das chanchadas da Atlântida tinha jeito para a coisa, o filme ficava acima da produção daquela época. Mas era, ainda, uma extensão mais ou menos séria dos filmes populares que então eram feitos no Brasil.
Veio depois o impacto de "O Pagador de Promessas", que, antes mesmo da Palma de Ouro de Cannes, foi considerado um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos. O prêmio internacional, paradoxalmente, se não fez mal ao filme, fez mal a seu diretor. Anselmo passou a ser negado não só pela crítica mas pelos colegas de ofício, notadamente o pessoal do cinema novo, que então começava a despontar.
Tentando desqualificar a Palma de Ouro, foi dito que o júri daquele ano dividira-se entre Buñuel e Antonioni, dois cobras assumidos do cinema internacional. Anselmo teria aproveitado a brecha e, namorando a presidente dos jurados, foi o tertius que levou a Palma e a sua alma.
Nunca se recuperou do trauma em sua própria terra. Funcionando sempre de olho nos prêmios internacionais, principalmente no de Cannes, os cineastas e produtores nativos eram unânimes em negar não só o filme mas, sobretudo, o diretor. Ensaios e livros são pródigos em elogiar os filmes do cinema novo, mas colocam uma pedra do silêncio em cima de Anselmo Duarte.

O texto é de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 10 de novembro de 2009.

O ator e diretor de cinema, Anselmo Duarte, faleceu no final de semana passado. Foi o único diretor de cinema brasileiro vencedor de Cannes até agora. Mas pelo que dizem os necrológios, isto talvez lhe tenha feito mais mal que bem na época, e, a partir de então, na vida e obra de Anselmo Duarte.

Marcadores: , , , ,

Sábado, Novembro 07, 2009

A São Paulo de Lévi-Strauss

A São Paulo de Lévi-Strauss

SÃO PAULO - "Um espírito malicioso definiu a América como uma terra que passou da barbárie à decrepitude sem conhecer a civilização. Poder-se-ia, com mais acerto, aplicar a fórmula às cidades do Novo Mundo: elas vão do viço à decrepitude sem parar na idade avançada". O antropólogo Claude Lévi-Strauss inicia com essas palavras, bem conhecidas, o capítulo sobre "São Paulo", o 11º de "Tristes Trópicos", dedicado a relatos e reflexões em torno de sua viagem ao Brasil.
Lançado só em 1955, 15 anos após a volta do autor à França, o livro tem um forte acento literário e ensaístico, o que o torna bom de ler.
Ao chegar a São Paulo em 1935, Lévi-Strauss diz que "não foi o aspecto novo que de início me espantou, mas a precocidade dos estragos do tempo". Logo adiante, ele ironiza o afã do progresso de uma cidade que se "desenvolve a tal velocidade que é impossível obter seu mapa: cada semana demandaria uma nova edição". São Paulo lhe parece em contínuo processo de construção e dissolução -um amálgama de novidades e ruínas incapaz de alcançar a civilização. Fisicamente, a cidade descrita não existe mais, o que comprova o acerto das observações.
Na década de 30, o provincianismo da sociedade paulistana impressiona e diverte o francês de espírito cultivado. "Tristes Trópicos" é cruel com nossas veleidades.
Como suas orquídeas prediletas, diz Lévi-Strauss, a elite paulista "formava uma flora indolente e mais exótica do que imaginava" -e a cultura, "até época recente, era um brinquedo para os ricos".
Falando sobre a USP, que ajudou a criar, Lévi-Strauss diz ter julgado seus colegas nativos com "uma compaixão um pouco arrogante". E explica: "Ao ver aqueles professores miseravelmente pagos, obrigados, para comer, a fazer obscuros trabalhos, senti orgulho de pertencer a um país de velha cultura, onde o exercício de uma profissão liberal era cercado de garantias e de prestígio". O tempo passou, mas "Tristes Trópicos" dá muito o que pensar.

Texto de Fernando de Barros e Silva, na Folha de São Paulo, de 4 de novembro de 2009.


Marcadores:

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

O antropólogo Claude Lévi-Strauss faleceu.

O passamento foi na madrugada de sábado para domingo, mas a notícia parece que só foi divulgada ontem.

Lévi-Strauss esteve no Brasil, na década de 1930, e ajudou a montar a Universidade de São Paulo. Também viajou pelo Centro-Oeste e Norte do Brasil, onde pôde observar as tribos indígenas brasileiras.

De volta à França, se tornou uma referência em Antropologia.

Que posso dizer? Mais um autor que não li, mas deveria ler...


Marcadores: , ,

De joelhos

De joelhos

A CULPA me encanta. Os olhos vidrados de dor, a alma torturada pela terrível verdade sobre si mesma.
A literatura está cheia de exemplos nos quais o herói ou a heroína chora de desespero pela consciência de sua responsabilidade no mal do mundo. Entre os vários erros cometidos pela cultura moderna, um deles é tentar negar que a culpa seja um instrumento essencial de humanização. Não existe experiência moral sem culpa. Nelson Rodrigues dizia: "Tire a imortalidade do homem e ele cai de quatro". Eu diria, seguindo sua maravilhosa intuição: tire a culpa e o homem cai de quatro.
Hoje eu gostaria de oferecer ao leitor um comentário sobre uma peça literária clássica na qual a culpa aparece em toda sua beleza. Ao contrário do que falam os especialistas em desumanizar o homem (afirmando que o estão libertando), a experiência da culpa é que tira o homem da banalidade do mal e o devolve à ação transformadora de si mesmo e do mundo à sua volta.
Dostoiévski é um clássico. Não vou entrar no debate de se podemos ou não falar de clássicos, no sentido de um conjunto de autores mais importantes para formar um ser humano. Dostoiévski e Shakespeare são melhores do que quase tudo o que a humanidade produziu em literatura. Quem nega isso, o faz por ignorância. Diante da mera ignorância, afirma-se uma teoria relativista qualquer para soar chique e esconder sua banalidade.
Enfim, lemos um clássico para saber quem somos. Enquanto você lê o livro, o livro lê você. É com esse espírito que proponho a leitura do conto "Sonho de um Homem Ridículo", de Dostoiévski, uma pérola da literatura moral. Voltando ao Nelson Rodrigues, eu diria que esse conto é o tipo de obra que você deve ler de joelhos. Nelson disse isso especificamente sobre sua peça "Senhora dos Afogados" -em cartaz atualmente em São Paulo: é uma peça a que devemos assistir de joelhos.
Estar de joelhos é a posição correta se quisermos pensar o humano na sua condição mais profunda: seu medo, sua insegurança, sua capacidade de amar ainda que seja um ser infinitamente efêmero diante da ordem indiferente do mundo, enfim, sua natureza de respirar o mistério.
Muitas vezes penso que chorar nos torna uma pessoa menos ridícula. As lágrimas colocam as coisas nos seus devidos lugares. Infelizmente, sistemas objetivos para produção de humildade (que muitas igrejas tentaram) apenas destroem a pessoa por meio da demanda desumana de obediência infinita. Independentemente disso, como diria o escritor francês Bernanos (século 20), "a humildade é sempre invencível".
O conto mostra um homem à beira do suicídio, como tantas outras figuras na literatura de Dostoiévski, que busca no autoaniquilamento a afirmação de sua liberdade para com um mundo horroroso. No caminho de casa, vê uma bela estrela e decide que é aquela noite a grande noite de seu suicídio. Uma menina pequena, em desespero, pede que a ajude com sua mãe doente, mas ele a empurra para o lado e segue para o seu glorioso suicídio. Chegando à casa, quando finalmente vai se matar, ele adormece e sonha. Em seu sonho, é levado a um paraíso onde as pessoas vivem sem sofrimento, sem mentira, sem agonia. De tamanha perfeição, elas nem falam, vivendo num eterno estado de torpor feliz.
O que de início será um encantamento com toda aquela beleza sem desespero logo se transformará num desespero pelo vazio que sente em si mesmo diante de tanta plenitude. Nosso homem ridículo descobre que não há amor onde não há sofrimento. Chora pela agonia do mundo (nosso mundo) e percebe que sua vida só tem sentido na medida em que é parte dessa agonia. Quando finalmente consegue trazer aqueles "perfeitos" para uma relação consigo, invejas e ódios se instalam entre os "perfeitos do segundo paraíso" por culpa de nosso herói ridículo e suicida, que passa a ser disputado como troféu. Agora, finalmente, ele os amava.
Acorda. Olha em volta. O desejo de se matar desaparecera. Vasculha o fundo da sua alma e já não é mais a mesma pessoa. O que havia mudado? O que havia mudado era que agora tinha consciência de que fora ele que destruíra aquele paraíso. Ele era a serpente. Nunca reconhecera sua face na narrativa bíblica de sua conversa com Eva. Essa descoberta o lança de volta ao desejo pelo mundo, em vez de paralisá-lo.
Levanta-se e, olhando nos seus olhos, leitor, ele afirma: vou continuar! Abre a porta e sai de casa em busca da menina.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, de 11 de maio de 2009.


Marcadores: , ,

Historia do Brazil, de Frei Vicente de Salvador

O novo regime social

Obra fundadora, "Historia do Brazil", de frei Vicente do Salvador, identificava a mestiçagem como central à formação do país, em 1630

JOÃO FRAGOSO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Acaba de chegar às livrarias a mais nova edição da "Historia do Brazil", de frei Vicente do Salvador, um dos clássicos da crônica colonial. Desta vez, a obra foi preparada por Maria Lêda Oliveira, historiadora pernambucana e investigadora da Universidade Nova de Lisboa, que nos brinda com um cuidadoso estudo sobre o homem frei Vicente, sua época, os códigos letrados de então e as edições anteriores, inclusive a de Capistrano de Abreu [1853-1927].
Esta nova publicação veio a calhar, pois ocorre em um momento em que a historiografia nacional começa a se desprender das chamadas "teorias da dependência", modelos que por décadas prevaleceram na explicação da economia brasileira dos séculos 16 e 17. Assim, a reedição é uma ótima oportunidade para olharmos de maneira mais crítica para a formação da sociedade brasileira.
Concluída, provavelmente, em 1630, a "Historia do Brazil" nos traz depoimentos de um homem a um só tempo jesuíta e filho de uma nobreza da terra baiana em gestação sobre as feições de uma sociedade que logo seria centro do império ultramarino luso. Vejamos isso com mais atenção.
Em 1656, menos de 30 anos depois de concluída a "Historia do Brazil", o Conselho da Fazenda da monarquia lusa expunha a situação de seu império. O outrora florescente Estado da Índia estava reduzido a seis praças, "sem proveito religioso e econômico".
Em contrapartida, o Brasil tornara-se a "substância principal" da monarquia e "Angola o nervo das fábricas do Brasil". Portanto, conforme o egrégio conselho, o sistema atlântico luso já estava constituído naquele momento.

Economia da escravidão
Os engenhos de açúcar espalhavam-se pelo litoral de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. Da mesma forma, as produções de alimentos, encravadas ou não nas áreas agroexportadoras, abasteciam as gentes desta América. Completando o cenário, os escravos, cada vez mais, vinham de Angola, substituindo os chamados negros da terra (índios).
Esse sistema atlântico e escravista ampliou-se com a mineração e permaneceu como base da Monarquia lusa até 1822.
Diante desse panorama, uma pergunta parece inevitável. Como isso ocorreu? Afinal, em 1591, a estimativa do número de engenhos no Brasil era de apenas 63. Menos de 50 anos depois, em 1637, passava para 350. Segundo as toscas informações sobre o tráfico de africanos para o Brasil, entre 1580 e 1600, por ano, entraram 2.000 cativos e, na década de 1620, tais entradas já eram mais de 6.500 almas. Por conseguinte, em menos de 50 anos, os números de engenhos e de escravos africanos triplicaram, pelo menos. Assim voltamos ao nosso frade, contemporâneo dessa transformação do "Brazil". Por meio de uma leitura atenta de seu texto, podemos ter indícios da lógica social que presidiu aquela formação econômica e, consequentemente, as opções de seus agentes.
Em diversos capítulos ele nos relata, por exemplo, a ação dos Coelho, Albuquerque e dos Sá. Parentelas que, "à custa de suas fazendas e vidas", conquistaram partes daquela América, estendendo o domínio da monarquia de Pernambuco ao Maranhão e da Bahia ao Rio de Janeiro. Em seguida, cuidaram do "bem comum" das gentes, com o estabelecimento da Justiça, do mercado público e da defesa. Desse modo, começavam a funcionar as "repúblicas" ou municípios, sob a tutela do rei, porém dirigidos por Câmaras votadas pelos homens bons da terra, garantindo, tal como no reino, o autogoverno das comunidades. O relato dessas ações ocupa boa parte do livro e expressa práticas sociais conhecidas há tempos no Antigo Regime luso. Daí não nos causa espanto que Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, e seu cunhado, Jerônimo de Albuquerque (os dois vindos da Índia), tenham recorrido a essas práticas. Sendo a mesma receita utilizada por Mem de Sá, governador geral do Brasil (1504-72), e cuja autoridade teve como um dos alicerces sua parentela e clientela, e não apenas os parcos recursos da coroa.

Índios e fidalgos
Com certeza, esses e outros conquistadores, ainda dentro das normas do Antigo Regime, foram remunerados por sua majestade. Ou melhor, receberam mercês na forma de vastas terras, foros de fidalgo, privilégios mercantis e cargos régios que lhes davam acesso aos recursos da jovem sociedade. Mais ainda, ganharam do rei o mando político das gentes. Porém, esse mando só foi possível por meio de outro expediente: as alianças com segmentos das populações indígenas. Aqui surgem, na crônica de nosso frei Vicente sobre a formação do "Brazil", outros atores, com menos recursos, porém, ainda, agentes: os índios. O filho de Jerônimo de Albuquerque, seu homônimo e conquistador do Maranhão (1548-1618), tratava os índios de suas terras como "sobrinhos", talvez por ele próprio ser mestiço, neto materno de um chefe indígena. Ou seja, ele era produto da aliança com frações indígenas. Aliados e aparentados a índios flecheiros, Jerônimo, os descendentes de Diogo Álvares Correia (Caramuru) e outros conquistaram terras e índios escravos. Conforme se sabe hoje, a "decolagem" dos engenhos de açúcar fora possível pela escravidão indígena. Aqui a evangelização, seja dos índios aliados ou conquistados, como sugere Vicente Salvador e sublinha Maria Lêda Oliveira, era essencial para o sucesso do "Brazil". Principalmente se lembrarmos que não se contava com o crédito de capitais ingleses e holandeses, como ocorreu no Caribe seiscentista, dispostos a comprar avalanches de africanos para as "plantations".
Os mecanismos de Antigo Regime permitiriam à América lusa, no século 17, inundar o mercado internacional de açúcar e comprar cerca de 40% do total dos escravos que cruzaram o Atlântico. Mecanismos que se traduziram em um sistema atlântico diferente do comandado por Londres e Amsterdã, este último mais afinado com o capitalismo ou algo que o valha. A "Historia do Brazil" fornece indícios das origens do sistema Atlântico luso de tipo antigo e mais de uma sociedade que conseguiu, a um só tempo, combinar a mestiçagem e uma forte ascensão social, e isso nos quadros de uma hierarquia social com traços estamentais.


JOÃO FRAGOSO é professor do departamento de história da Universidade Federal do RJ e coorganizador de "Conquistadores e Negociantes" (ed. Civilização Brasileira).



HISTORIA DO BRAZIL Autores: Frei Vicente do Salvador (vol.1) e Maria Lêda Oliveira A. da Silva (vol. 2) Editora: Versal (0/xx/21/2239-4023)
Quanto: R$ 212 (592 págs.)


Texto do caderno Mais!, da Folha de São Paulo, de 15 de fevereiro de 2009.

Marcadores: , , ,

Sábado, Outubro 31, 2009

Seminário: Semana da Consciência Negra - 3 a 5 de novembro de 2009

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

This Is It: o sorriso do adeus de Michael Jackson

Que grande show teria sido!

Mais que grande – provavelmente o maior comeback desde Elvis em 1968, e com certeza um espetáculo para empurrar de vez os limites do que se pode fazer no palco, na arena do mega-pop. Não direi o que tem lá, o que teríamos visto – não quero estragar a peculiar alegria de quem ainda vai ver o filme.

E esta certeza é apenas uma das tristezas, doces e amargas ao mesmo tempo, que passam pela alma durante os 111 minutos de This Is It, o documentário que Kenny Ortega, diretor do que viria a ser a volta de Michael Jackson aos palcos, costurou a partir do material gravado durante os ensaios. No Chinese Theater de Hollywood– uma das duas estréias simultâneas do filme aqui em Los Angeles- muita gente graúda chorava sem se incomodar em disfarçar. E cada número musical era saudado com aplausos, como se todos nós estivéssemos lá no Staples Center.

As muitas outras tristezas incluem a sensação de perda irremediável, a certeza de que jamais veremos o fruto dos esforços de MJ, Ortega e um brilhante elenco de músicos, dançarinos, diretores de arte, figurinistas, iluminadores, designers de efeitos digitais, físicos e pirotécnicos. A tristeza de saber que este é o ponto final num possível diálogo com um dos artistas pop mais extraordinários do século 20. Quem por acaso ainda duvidasse do imenso talento que se ocultava naquela vida atribulada, contorcida, muitas vezes estranha como um freakshow mudará de opinião ao ver This is It. Com a completa naturalidade de quem viveu num palco durante a maior parte de seus 50 anos. MJ controla todos os aspectos do espetáculo, cria , corrige e altera o curso de cada número enquanto está embrenhando em sua execução, ouve cada timbre, nota quando baixo e teclados não estão “funk o bastante”, pede que um riff seja tocado “como se você estivesse saindo da cama”, mostra aos dançarinos cada posição no palco, sussurra para a guitarrista “agora é seu momento de brilhar”, dispensa um aviso porque “eu sinto quando as luzes mudam atrás de mim” e num de seus únicos momentos de irritação, pede que "The Way You Make Me Feel" seja tocado “como eu escrevi”. E embora esteja sempre dizendo que está “se poupando” em voz e corpo, frequentemente se deixa levar pela magia do momento, e atua como se fosse para valer, arrancando aplausos delirantes da equipe, diminuta platéia no Staples. “Não façam isso comigo”, ele repreende, com um sorriso. “Eu vou embora e esqueço que tenho que poupar minha voz.”

A grande ironia, é claro, é que se Michael estivesse vivo provavelmente não veríamos esta inesperada janela sobre sua alma criativa. O material que compõe o documentário foi feito para sua coleção particular e não para exibição pública, mais um recurso para seu processo de trabalho e não um produto acabado. Ele não gostaria que estivéssemos vendo seus rascunhos – mas para nós, que não temos mais o privilégio de sua companhia, que doloroso prazer ter ao menos esse esboço do que poderia ter sido. E ficar com a lembrança de seu breve sorriso, tão parecido com o do gato de Alice no País das Maravilhas, por um pequeno momento quando as luzes já estão se apagando ao final de “Human Nature.”

Este texto veio do blog da Ana Maria Bahiana.

Marcadores: , ,

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Status no Facebook: 'descansando em paz'



.

O Facebook agora permite que usuários transformem em memoriais as páginas de amigos que já morreram.

Para isso, é necessário enviar um atestado de óbito. Informações de contato da pessoa morta são removidas, e apenas amigos confirmados podem ver e localizar a sua conta, que fica com o login desativado. Acho que é uma boa analogia digital ao que inevitavelmente ocorrerá a todos os usuários do Facebook. [FB via BB]

Visto no Gizmodo Brasil.

Marcadores: , ,

Apenas o fim

Apenas o Fim

E que tal se sua namorada, uma garota lindinha, chegasse para você e dissesse que estava tudo acabado? Que ela iria partir para lugar oculto e ignorado? E que ela não quer ser seguida até este local oculto e ignorado por você? E, não. Vocês não brigaram. Você não aprontou nada para ela. E ela não conheceu nenhuma pessoa mais interessante. Simplesmente ela decidiu que o namoro não pode mais continuar. E que ela ficará com você por apenas mais uma hora. Você pode escolher se quer usar esta hora transando ou conversando. Você escolhe conversar obviamente. Este é o mote do filme "Apenas o Fim", que assisti ontem.

A garota, vivida pela lindinha Erika Mader (será a irmã mais nova da Malu Mader?), e o garoto, vivido por Gregório Douvivier. Pode ser que estes nomes não estejam corretos. Acontece.

A fita brasileira, produzida pela PUC-RIO, e rodada aparentemente toda nas dependências da escola é um passeio interessante sobre a possível psique de dois jovens. Ou talvez apenas um experimento cinematográfico de baixo orçamento mas o filme conseguiu me segurar até o fim.

Com a declaração bombástica inicial (o anúncio do imediato rompimento) o filme varia entre o presente do casal caminhando pelo pátio da universidade, e o "flashback" das recordações do vivido.

Muitas referências de certa cultura "nerd-geek": personagens de Pokemon, Cavaleiros do Zodíaco, X-Men. Qual videogame é melhor? Nintendo ou Playstation? Qual personagem de videogame é mais relevante? Mário, ou Cloud? E quem sabe o que é "Kingdom Hearts"?

Lá pelas tantas aparecem um colega/conhecido mala, daqueles que a gente (ou pelo menos eu) quer que vá logo embora. Ou uma outra colega algo riponga, querendo saber mais sobre o casal com uma novidade interessante.

Bem ou mal, como eu disse, o filme me segurou até o final, como eu já havia dito. Sim, houve um momento em que eu pensei que o limite da minha paciência parecia haver chegado, mas passou. A simpatia do casalzinho me segurou.

Eu falei em psiquê linhas acima? É inescapável. Por que alguém resolve acabar com algo que aparentemente vai bem, sem nenhum motivo aparente, de uma hora para a outra? Sei lá. E o filme também não responde. E, atenção, quando eu digo que o filme não responde, eu não estou contando o final do filme.

Usando uma gíria que ouvi estes dias, eu diria que é um filme fofo.

E eu recomendaria conferir o filme até o final dos créditos.

Marcadores: , , ,

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Esposa mais jovem e inteligente é chave para casamento longo, diz pesquisa

Esposa mais jovem e inteligente é chave para casamento longo, diz pesquisa

Uma pesquisa britânica afirma que o segredo para os homens terem um casamento feliz e duradouro é escolher uma esposa mais inteligente e, no mínimo, cinco anos mais jovem.

Essa combinação, segundo os pesquisadores da universidade britânica de Bath, é a que tem maior probabilidade de dar certo no longo prazo, especialmente se nenhum dos dois tiver sido divorciado no passado.

O trabalho foi publicado na revista científica European Journal of Operational Research.

Os pesquisadores entrevistaram mais de 1,5 mil casais casados ou em relações estáveis. Após cinco anos, eles checaram quais casais ainda estavam juntos.

Fatores objetivos

Os cientistas descobriram que, em casos onde a esposa era mais velha que o marido em cinco anos ou mais, as chances de divórcio aumentaram para três vezes.

Se a diferença de idade é invertida – com o homem mais velho do que a mulher – as chances de sucesso no casamento aumentam.

Outro fator é o grau de educação da mulher. Quanto maior a escolaridade da esposa, maiores são as chances de o casamento durar, segundo a pesquisa.

Os casais em que nenhuma das pessoas foi divorciada também teriam mais chances de ficarem juntos por mais tempo. Mas casais em que apenas uma das pessoas foi divorciada são mais instáveis do que casais em que os dois já foram casados antes.

Para Emmanuel Fragniere, o pesquisador que conduziu o trabalho, homens e mulheres escolhem seus parceiros "com base no amor, atração física, semelhança de gostos, crenças e atitudes, e valores em comum", mas fatores objetivos – como idade, educação e origem cultural – também podem ajudar a diminuir os casos de divórcio.

Notícia da BBC Brasil.

Pesquisa científica!

Marcadores: